Quaisquer que sejam suas falhas, eles têm uma certa arma mágica que o anarquismo dolorosamente não possui –

(1)Um sentido de meta-racional (“metanóia”), formas de ir além do pensamento e percepção uniformes (ou nômades, ou “católicos”); (2) uma definição verdadeira da consciência auto-realizada ou liberada, uma descrição positiva de sua estrutura, e as técnicas utilizadas para se chegar até ela; (3) uma visão arquetípica coerente da epistemologia – ou seja, uma forma de conhecimento (sobre história, por exemplo) que usa a fenomenologia hermenêutica para descobrir padrões de significado (algo como a “crítica paranóica” dos surrealistas); (4) um ensinamento sobre sexualidade (nos aspectos “tântricos” de várias doutrinas) que valoriza o prazer em vez da autonegação, não apenas por puro deleite, mas também como meio para uma consciência ou “libertação” aprimoradas; (5) uma atitude de celebração, que pode ser chamada de “conceito de júbilo”, o cancelamento de débitos psíquicos por meio de uma generosidade inerente a própria realidade; (6) uma linguagem (incluindo gestos, rituais, intenção) com a qual ativar e comunicar esses cinco aspectos da cognição; e (7) um silêncio...

Não é surpresa alguma descobrir quantos anarquistas são ex-católicos, padres e freiras à paisana, ex-coroinhas, batistas re-nascidos que escapuliram ou mesmo ex-xiitas fanáticos. O anarquismo oferece uma missa negra (e vermelha) para des-ritualizar todos os cérebros assombrados por fantasmas – um exorcismo secular -, mas então trai a si mesmo ao criar com remendos sua própria Igreja, toda ela coberta pelas teias de aranha do Humanismo Ético, do Pensamento Livre, do Ateísmo Muscular e da rude Lógica Cartesiana Fundamentalista...

Há duas décadas demos início ao projeto de nos tornar Cosmopolitas Desenraizados, determinados a peneirar os detritos de toda as tribos, culturas e civilizações (inclusive a nossa) atrás de fragmentos viáveis – e sintetizar, dessa bagunça pós-ortodoxias, o nosso próprio sistema de vida – a ultima coisa que queremos (como advertiu Blake) é nos tornas escravos de alguém...

Se um feiticeiro javanês ou xamã de uma tribo de índios americanos possuir algum fragmento precioso que eu necessite para minha própria “maleta de médico”, devo eu olhá-lo com desprezo, zombar dele e citar a frase de Bakunin sobre enforcar padres com as vísceras dos banqueiros? Ou devo lembrar-me de que a anarquia não conhece dogma, que o Caos não pode ser mapeado – e servir-me de tudo sem me sentir acorrentado?;...

Encontramos as primeiras definições de anarquia no Chuang Tzu e outros textos taoístas; o “anarquismo-místico” ostenta uma linhagem bem mais antiga do que o racionalismo grego. Quando Nietzsche escreveu sobre os “hiperboreanos”, acho que estava profetizando a nós – que fomos além da morte de Deus – e renascimento da Deusa – a atingir um reino onde o espírito e a matéria são uma coisa só. Toda manifestação desta hierogamia, todo objetivo material e toda vida, tornam-se não apenas “sagrados” em si mesmos, mas também algo simbólico de sua própria “essência divina”...

O ateísmo nada mais é do que o ópio do povo (ou melhor, o paladino que ele mesmo escolheu) – e não uma droga muito fascinante ou sensual. Se formos seguir o conselho de Baudelaire e “estarmos constantemente embriagados”, a AAO preferiria algo como cogumelos, muito obrigado.
O Caos é o mais velhos de todos os deuses – e o Caos nunca morreu.

Hakim Bey