Fazendeiros do Pontal do Triângulo estão pegando em armas para demarcar, por sua própria conta e risco, os limites da reforma agrária na região. A um estalar de dedos, é possível formar milícia armada de 30 a 100 jagunços, contratados para limpar a área ou seja, expulsar os sem-terra das fazendas já ocupadas ou até aplicar corretivo para desestimular novas invasões. Matar um invasor custa R$ 500 por cabeça.
Dar tiros de metralhadora rente aos acampamentos, atear fogo às barracas de lona e fazer sucessivas ameaças de morte são algumas das estratégias detectadas nos boletins de ocorrência registrados pela 10ª Companhia Independente de Polícia Militar de Ituiutaba. De acordo com um fazendeiro, que mantém escritório no centro de Ituiutaba, a maior cidade do Pontal do Triângulo, a contratação dos serviços de segurança de um pistoleiro custa R$ 50 por dia.
Nem sempre eles são homens treinados para matar. Boa parte está estreando agora na profissão, que paga quase seis vezes mais do que pegar na enxada. O trabalhador comum ganha R$ 8, em média, no roçado de cana. Matar custa mais caro. A empreitada sai a R$ 500.
O pacote inclui retirar os sem-terra das fazendas e dar um susto para que eles desistam de voltar ao local. Até agora, sem deixar rastro. Nenhuma morte de sem-terra foi registrada nos boletins policiais.
Tem de ser um serviço bem-feito para bater bastante nesses vagabundos, mas tomando cuidado para não morrer ninguém. A hora em que surgir um mártir vai ser ruim para todo mundo", afirma o fazendeiro.
Incra
É voz corrente entre os produtores rurais de que a violência cresceu na região porque o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estaria fazendo vistas grossas à invasão de propriedades. Isso é atribuído à vingança pessoal do próprio Marcelo Resende, presidente nacional do instituto. Há três anos, ele e Frei Rodrigo, representantes da Pastoral da Terra, foram espancados por um fazendeiro. Resende quase morreu e saiu fugido da cidade.
A reportagem do ESTADO DE MINAS conversou com o autor das agressões, que está solto e continua tocando sua fazenda normalmente. Eles (Marcelo Resende e Frei Rodrigo) eram agitadores e traziam o povo para invadir as fazendas em Santa Vitória. Acabaram tomando um corretivo , resume. O fazendeiro diz ter dispensado a guarda dos jagunços, pois não dá conta de pagar cinco pessoas ao custo diário de R$ 150. No final do mês, as despesas somam R$ 6 mil, quantia suficiente para comprar seis cabeças de gado de boa qualidade. Suas propriedades, situadas na valorizada terra roxa do Triângulo, são avaliadas em R$ 4 milhões.
Marcelo Resende foi procurado, mas sua assessoria mandou avisar que ele nunca comenta esse assunto. Fato é que o espancamento deixou marcas na população de Santa Vitória, seja inspirando coragem aos sem-terra quanto a revanche dos fazendeiros. Atualmente, o município encampa mais da metade dos conflitos entre sem-terra e fazendeiros registrados em todo o Pontal do Triângulo.
