Essa pesquisa questiona quais mudanças poderiam ter ocorrido com a população da cidade de Jaguaribara, que precisou ser removida para Nova Jaguaribara, cidade planejada pelo governo, localizada a 254 Km de Fortaleza. O nome da cidade planejada não mudou muito e a intenção do governo, para muitos é vista como nobre, pois a remoção foi necessária para dar passagem às águas do açude Castanhão, que, quando concluído o projeto, abastecerá muitas regiões do interior do Ceará. No entanto, entre nobreza e semelhanças,
fincou-se na história toda uma relação de identidade do povo com sua terra, hoje já envelhecida e reduzida a destroços. É hoje intitulada Velha Jaguaribara aquela que guardará para sempre cada experiência por lá vivida.
A indentidade de um povo está em cada indivíduo e na forma como estes exercem seus papéis dentro da comunidade. Acreditávamos que o rio, tão comentado pelos moradores jaguaribarenses, era parte da identidade daquele povo, pois era lá que as pessoas se divertiam e que muitas famílias tiravam seu sustento. São fatores culturais de uma sociedade, que, como já foi visto, é um dos formadores da identidade social. Realmente, o rio fazia parte da identidade coletiva de Jaguaribara, mas não seria com o distanciamento deste que todo um povo perderia parte de sua identidade.
A adaptação à nova cidade e a reorganização de atividades (tentativa de transferência de costumes físicos como ?conversas na calçada?) mostrou que houve uma transformação na identidade. Ela não foi perdida, nem precisou ser reconstruída, ela sempre existiu e existirá em cada morador jaguaribarense. É algo que foi construído ao longo de muitos anos, repassado de geração em geração. Não seria uma mudança de lugar que apagaria o enraizamento de tradições e cultura.
Para que um indivíduo se sinta pertencente a um local é necessário haver uma identificação com a população do local; se as pessoas são as mesmas (mesmas pessoas transferidas para um outro local), provavelmente o processo de identificação será imediato. Os papéis sociais serão os mesmos e as pessoas se reconhecerão iguais a como sempre foram na cidade antiga.
Roberto Cardoso de Oliveira, fala sobre esse processo de reconhecimento:
?Se entre uma ocasião e outra um indivíduo não pode ser reconhecido como uma mesma pessoa, nenhuma identidade social poderia ser construída (McCall e Simmons, 1996:65) (...) a identidade social surge como a atualização do processo de identificação e envolve a noção de grupo, particularmente a de grupo social.?(1976; p. 5).Pensando o reconhecimento de um indivíduo como pertencente à comunidade, argumentamos juntamente com Roberto Cardoso, a possibilidade de uma transformação de identidade e não uma perda.