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| | Makhno e Lênin: um diálogo histórico Por Volin - cópia por Andréa 01/09/2003 às 16:53 No verão de 1918, quando a Ucrânia foi invadida pelos exércitos austríaco e alemão, Makhno teve que marchar à Rússia central e aproveitou sua estadia em Moscou para debater e dialogar com algumas das personalidades mais destacadas e conversar sobre a luta e a revolução que se desenvolviam. Entre elas figurava Lênin.  Nestor Makhno em 1919  Vladimir Lênin em 1919 A entrevista foi agendada por Sverdlov, um dos membros mais proeminentes do bolchevismo russo, cujos conselhos Lênin sempre atendia, considerando-o como seu mentor em assuntos referentes aos potenciais aliados políticos internos. Na época do debate, Sverdlov era o presidente do Comitê Executivo Pan-Russo dos Sovietes e, concedendo muita importância à personalidade de Makhno, se ocupou pessoalmente de todo o necessário para que este pudesse encontrar-se com Lênin. A conversa teve lugar no Kremlin, diante de Sverdlov, e durou cerca de duas horas. Aqui está como a descreve o próprio Makhno:
?Lênin, que se interessava muito sobre o que acontecia na Ucrânia, ocupada pelos exércitos invasores, me perguntou várias vezes sobre a atitude dos camponeses ucranianos e, sobretudo, queria saber como haviam recebido localmente os camponeses da Ucrânia o lema ?Todo Poder aos Sovietes?. Expliquei que os camponeses interpretaram este lema à sua maneira. Segundo eles, ?Todo Poder Aos Sovietes? queria dizer que o poder, em todos seus aspectos, devia se exercer diretamente com o consentimento e vontade dos trabalhadores; que os sovietes dos deputados, operários e camponeses, locais e regionais, não eram outra coisa que as unidades coordenadoras das forças revolucionárias e da vida econômica, enquanto durasse a luta que os trabalhadores sustentavam contra a burguesia e seus aliados, os social-revolucionários de direita e seu governo de coalizão.
- Você crê que esta interpretação é adequada? - me perguntou Lênin - Sim - respondi. - Neste caso, o campesinato daquela região está infestado pelo anarquismo. - Isto é mau? - Não quero dizer isso, ao contrário. Isto me causaria regozijo, pois adiantaria a vitória do comunismo sobre o capitalismo e seu poder. - Isto é muito lisonjeiro para mim - insinuei. - Não, não, volto a afirmar seriamente que um fenômeno desta natureza, na vida dos camponeses adiantaria a vitória do comunismo sobre o capitalismo; mas eu creio que este fenômeno, no campesinato, não é natural. Foi introduzido em suas fileiras pelos propagandistas anarquistas e pode ser prontamente esquecido. Até estou predisposto a crer que este espírito, não organizado, ao ver-se sob os golpes da contra-revolução triunfante, já desapareceu.
Adverti a Lênin que um grande líder não podia ser pessimista nem cético, e depois de conversar sobre vários temas, me perguntou que pensava fazer em Moscou, ao que respondi que não tinha intenção de ficar naquela capital, mas de regressar à Ucrânia. - Você irá à Ucrânia clandestinamente?- me perguntou. - Sim - respondi. Lênin, dirigindo-se ao camarada Sverdlov, disse: - Os anarquistas sempre estão dispostos a toda classe de sacrificios; são abnegados, mas também cegos e fanáticos. Deixam escapar o presente por um futuro distante.
Voltando-se para mim, pediu que não me desse por citado nestas palavras.
- A você, camarada, - afirmou - considero como um homem realista, que está preocupado com os problemas atuais. Se na Rússia tivéssemos pelo menos uma terça parte desta classe de anarquistas, nós, os comunistas, estaríamos dispostos a colaborar com eles, sob certas condições, em prol da livre organização da produção.
Adverti que começava a estimar a Lênin, a quem até fazia pouco tempo havia considerado como o culpado pela destruição de todas as organizações anarquistas de Moscou, o que foi o sinal para destruir as de outras muitas capitais da Rússia. Em meu interior começava a envergonhar-me de mim mesmo e buscava rapidamente uma resposta adequada. Disse o seguinte:
- Todos os anarquistas apreciam muito a Revolução e suas conquistas. Isto demonstra que, neste sentido, todos somos iguais. - Não me diga isto - retrucou, rindo, Lênin - Nós conhecemos os anarquistas tanto como você mesmo os conhece. A maioria deles, ou não pensam nada sobre o presente, ou pensam bem pouco, apesar da gravidade da situação. E para um revolucionário é vergonhoso não tomar resoluções positivas sobre o presente. A maioria dos anarquistas pensam e escrevem sobre o porvir, sem entender o presente. Isto é o que nos separa a nós, os comunistas, dos anarquistas.
Ao pronunciar esta última frase, Lênin se levantou da cadeira, e passeando pelo salão, acrescentou:
- Sim, sim: os anarquistas são fortes nas idéias sobre o porvir, mas no presente não pisam terreno firme e são deploráveis, já que não tem nada em comum com este presente.
A tudo isto respondi a Lênin que eu era um camponês semi-analfabeto e que sobre aquele abstrato assunto dos anarquistas, tal como ele me expunha, não sabia discutir. Mas disse:
- Suas afirmações, companheiro Lênin, de que os anarquistas não compreendem o presente e que não têm nenhuma relação com ele, são equivocadas. Os anarco-comunistas da Ucrânia (ou do sul da Rússia, como dizem vocês, bolcheviques) têm dado já demasiadas provas que demonstram sua compenetração com o presente. Toda a luta revolucionária do povo ucraniano contra a ?Rada? [governo burguês] Central da Ucrânia se tem levado sob a direção das idéias anarco-comunistas e também, em parte, sob a influência dos Social-Revolucionários, os quais - há que dizer a verdade - ao lutar contra a ?Rada? Central, tinham finalidades muito distintas das nossas. Nos vilarejos da Ucrânia quase não existem bolcheviques, e ali onde há alguns, sua influência é nula. Quase todas as Comunas Agrícolas tem sido criadas por iniciativa dos anarco-comunistas. A luta armada do povo da Ucrânia contra a reação e, muito especialmente, contra os exércitos expedicionários austríacos, alemães e húngaros, foi iniciada e organizada sob a ideologia e direção dos anarco-comunistas. A verdade é que vocês, tendo em conta os interesses de vosso partido, encontram inconvenientes para reconhecê-lo; mas tudo isto são fatos inegáveis. Vocês sabem muito bem a qualidade e a capacidade combativa de todos os destacamentos revolucionários da Ucrânia. Não em vão sublinharam o valor com que aqueles destacamentos tem defendido nossas conquistas revolucionárias. Pois bem: mais da metade deles vão à luta sob a bandeira anarquista. Os chefes de destacamento como Makrousov, Nikiforoba, Cheredniak, Garen, Chernyak, Luñev (e muitos outros cuja relação seria demasiado prolixo fazer), são anarquistas-comunistas. Não falo de mim pessoalmente, como tampouco do grupo ao qual pertenço, mas daqueles destacamentos e batalhões, voluntários para a defesa da Revolução, os quais tem sido criados por nós e não podem ser desconhecidos por vossos altos comandos do Exército e da Guarda Vermelha. Tudo isto demonstra o quão equivocadas são as suas manifestações, camarada Lênin, de que nós, os anarquistas, somos incorrigíveis e débeis no ?presente?; apesar de que nos agrada muito pensar no porvir. O que foi dito demonstra a todos, e também a você, que nós, os anarco-comunistas, estamos compenetrados com o presente, trabalhamos nele, e precisamente na luta buscamos a aproximação do futuro, sobre o qual pensamos muito e seriamente. Sobre ele não pode caber dúvida. Isto é, precisamente, todo o contrário da opinião que têm vocês de nós.
Naquele momento olhei para o presidente do Comitê Central Executivo dos Sovietes, Sverdlov, que havia corado. Lênin, abrindo os braços, me disse:
- Pode ser que eu esteja equivocado.
- Sim, sim! ? adverti - Neste caso, você tem estas opiniões sobre os anarquistas porque está muito mal-informado da realidade na Ucrânia, e porque tem, todavia, as piores informações sobre o papel que nós desempenhamos na mesma. Pode ser que gente do seu próprio partido tenha interesse em nos denegrir, para fazer avançar sabe lá que espécie de propósitos inconfessáveis...
- Pode ser. Eu não nego. Todo homem pode equivocar-se, muito especialmente em uma situação como esta, em que nos encontramos nestes momentos - disse Lênin, terminando a conversa sobre o tema.?
Pelo tom, de certo modo respeitoso, com que Lênin debateu com Makhno, poder-se-ia pensar que o movimento encabeçado por este último seria, quando menos, respeitado, ainda que não fomentado; mas o próprio Lênin ordenou, umas vezes, e consentiu, em outras, que o movimento makhnovista e qualquer outra manifestação anarquista fossem implacavelmente combatidos. Este ódio contra o anarquismo se manifestou de forma histérica em León Trotski, que foi o real organizador da implacável repressão que sofreu o movimento anarquista russo. Milhares de anarquistas e simpatizantes foram aniquilados, muito antes da luta que a makhnovistchina sustentou contra as forças cegas dos exércitos bolcheviques.
Citado da ?Enciclopédia Anarquista?, editada em 1971 em México D.F. pelo grupo Tierra y Libertad.
ANEXO:
?(...) Com certeza, não é possível deixar de ocupar-se do movimento de massas na Ucrânia, sobretudo se estuda-se a Revolução russa desde o ângulo que eu a encaro. Este movimento desempenhou na Revolução um papel excepcionalmente importante, mais ainda que o de Kronstadt, em razão de sua extensão, sua persistência, seu caráter essencialmente popular, a clareza de sua tendência ideológica e, por fim, as tarefas e obras que realizou.Agora bem: as obras sobre a Revolução Russa, de toda índole, guardam silêncio sobre este movimento ou só falam dele em poucas linhas e com propósito difamatório. Em suma, a epopéia ucraniana permanece, até o presente, pouco menos que desconhecida, apesar de ser, entre os elementos da ?Revolução desconhecida?, o mais notável por certo. Mesmo a nutrida obra de Archinov (320 páginas na edição castelhana da Editorial Argonauta, 1926) não é senão um resumo. O movimento guerrilheiro anarquista ucraniano, tratado como se merece, deveria ocupar vários volumes. Só os documentos, de grande valor histórico, a ele relativos, requereriam centenas de páginas. Archinov não pode reproduzi-los senão em ínfima parte. Naturalmente, uma obra de tal extensão incumbirá aos historiadores futuros, que disporão de todas as fontes desejáveis. Contudo, este movimento deve ser posto à luz o melhor possível, desde já.Tais considerações contraditórias me determinaram finalmente a: 1.Aconselhar a leitura da obra fundamental de Piotr Archinov. 2.Aportar o essencial do movimento, aproveitando sobretudo a documentação de Archinov. 3.Completar a exposição com detalhes extraídos das obras de Néstor Makhno.(...)
(...) Os numerosos destacamentos de guerrilheiros -os existentes e os que se iam formando- se coligavam aos grupos de Makhno a procura de unidade de ação. A necessidade desta unidade e de uma ação generalizada era reconhecida por todos os guerrilheiros revolucionários. E todos coincidiam em que ela seria satisfeita melhor sob a direção de Makhno. Esta era também a opinião de vários destacamentos de insurretos, até então independentes entre si. Entre eles estavam o grande corpo de combatentes dirigido por Kurilenko, que operava na região de Berdiansk; o de Stchuss, na região de Debrivka; o de Petrenko-Platonoff, na de Grichino; e outros, que se uniram espontâneamente ao destacamento de Makhno. Assim, a unificação das unidades desligadas de guerrilheiros na Ucrânia meridional em um só exército insurreto sob o mando supremo de Makhno, se fez de modo natural, por força das coisas e vontade das massas.(...)?
(Citado do livro "A Revolução Desconhecida", de Volin)
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valeu  | Qual a diferença do discurso proferido pelos anarquistas acerca de Kronstadt com a dos liberais, mencheviques e reacionários de todos os matizes? Nenhuma. Façamos outra pergunta: como pode o levantamento de Kronstadt causar tanto desgosto aos anarquistas, mencheviques, liberais e contra-revolucionários reacionários ao mesmo tempo? A resposta é simples: todos estes grupos estão interessados em comprometer a única corrente genuinamente revolucionária, fiel aos princípios mais elementares do bolchevismo-leninismo, e que nunca abandonou sua bandeira, o Trotskismo. Os reacionários utilizaram por muito tempo esse discurso insípido acerca de Kronstadt ora para desviar a atenção da degradação da II Internacional, ora para desviar a atenção da perfídia dos anarquistas espanhois. Contudo, o fato incontestável é que os marinheiros "insurretos" de Kronstadt desejavam abertamente restaurar o capitalismo no Estado operário soviético.
Só para ter uma idéia, o menchevique russo Miliukov entoava loas aos marinheiros de Kronstadt em seu periódico chamado Poslednia Novosti (Últimas Notícias), classificando-os de "heróis da democracia". Vejam só que curioso, Miliukov era dirigente dos democratas constitucionais liberais (Cadetes), foi ministro de relações exteriores no Governo Provisório menchevique em março/maio de 1917, e proeminente inimigo da Revolução Bolchevique, ligou-se ao imperialismo defendendo abertamente a restauração capitalista no Estado operário soviético. Como podemos dar crédito a uma "insurreição" que agrada até mesmo a liberais conservadores pró-imperialistas? Sabemos muito bem a que democracia o sr. Miliukov se refere, a democracia burguesa, que para o proletariado não passa de uma ditadura disfarçada.
Já os anarquistas escondem, por exemplo, que o movimento de Makhno assaltou e saqueou trens destinados a fábricas, plantas e ao Exército vermelho, destruiu trilhos, fusilou comunistas, etc. Certamente, Makhno chamou a isto de luta anarquista contra o "Estado". A insurreição de Kronstadt foi nada mais do que uma reação armada da pequena burguesia furiosa contra as penalidades da revolução social e a severidade da ditadura do proletariado. Somente uma pessoa completamente superficial pode ver no grupo de Makhno ou na revolta de Kronstadt uma luta entre os princípios abstratos do anarquismo e o "socialismo de Estado". Na realidade, estes movimentos eram convulsões da pequena burguesia camponesa que desejava, certamente, libertar-se do capital, porém que, ao mesmo tempo, não aceitava subordinar-se a ditadura do proletariado. A pequena burguesia não sabe concretamente o que quer e em virtude de sua posição não pode sabê-lo. Em muitos outros distritos se evidenciou casos similares, em Tambovski sob a bandeira dos "social-revolucionários", em diversas outras partes da Rússia houveram destacamentos de camponeses chamados "Verdes" que não reconheciam nem os vermelhos nem os brancos e rechaçavam os Partidos da cidade. Kronstadt se diferenciou de uma larga série de outras insurreições e levantamentos pequeno-burgueses somente por seu maior efeito externo.
O significado da consigna de Kronstadt foi "soviets sem comunistas", da qual se apoderaram não somente os social-revolucionários mas a própria burguesia liberal. Como representante sagaz do capital, o menchevique Miliukov compreendeu imediatamente que libertar os soviets da direção bolchevique significaria, em pouco tempo, a própria destruição dos soviets. A experiência dos soviets russos durante o periodo de dominação menchevique e social-revolucionária, e mais claramente, a experiência dos soviets alemão e austríaco, sob dominação dos social-democratas, comprovaram este feito. Os soviets social-revolucionários e anarquistas podiam servir somente como uma ponte entre a ditadura proletária e a restauração capitalista.
A rebelião de Kronstadt, portanto, tinha um caráter contra-revolucionário. Sobretudo do ponto de vista classista, pois em suas fileiras encontrava-se não só lúmpems mas também reacionários filhos de kulaks (camponeses ricos), comerciantes e curas. De um lado estavam os mais "conscientes", ou seja, os elementos de direita que atuavam entre os bastidores, queriam a restauração do regime burguês. Porém não diziam em voz alta. E do outro a ala "esquerda", queriam a liquidação da disciplina, "soviets livres", e melhores rações.
O mais pueril de todos os argumentos é de que não houve levantamento, que os marinheros não fizeram nenhuma ameaça, que "somente" tomaram a fortaleza e os encouraçados. Parece então que os bolcheviques marcharam contra o forte, com os peitos desnudos através do gelo, somente por sua inclinação a provocar conflitos artificialmente, por seu mal-caratismo, seu ódio aos marinheiros "insurretos" de Kronstadt ou a doutrina anarquista. Sem limite de tempo ou espaço, os críticos diletantes tratam de sugerir que tudo haveria terminado para satisfação geral se a revolução simplesmente houvesse deixado somente os marinheiros insurgentes. Desgraçadamente, a contra-revolução mundial não os haveria deixado em nenhum caso. A lógica da luta haveria dado predominância aos extremistas no forte, ou seja, aos elementos contra-revolucionários.
Já em relação ao número de mortos os anarquistas chegam a ser tragicômicos. Ante Ciliga, por exemplo, afirma que foram (pasmem!) mais de 10.000 marinheiros mortos (incrível essa cifra), outros já dizem que foram 1.500 marinheiros. Que tragédia!
Como bem disse Trotsky, "Estas boas pessoas não têm a mínima compreensão do critério e os métodos de investigação científica. Citam os programas dos insurgentes como pregadores devotos citando as sagradas escrituras. Se queixam de que não tomamos em consideração os 'documentos', quer dizer, o evangelho de Makhno e os outros apóstolos. 'Considerar' documentos não significa tomar-los ao pé da letra. Marx disse que é impossível julgar partidos ou povos pelo que eles dizem de si mesmos. As características de um partido se determinam consideravelmente mais por sua composição social, seu passado, sua relação com as diferentes classes e estamentos que por suas declarações orais e escritas, especialmente durante um momento crítico de guerra civil. Se por exemplo, começarmos a tomar como ouro puro os inumeráveis programas de Negrín, Companys, García Oliver e cia., teriamos que reconhecer a estes cavalheiros como amigos fervorosos do socialismo. Porém, na realidade são seus pérfidos inimigos." (Trotsky, 'Muito barulho por Kronstadt')
Essencialmente, os veneráveis críticos são inimigos da ditadura do proletariado e portanto da revolução. Nisto reside todo o segredo. Desejam uma revolução que não conduza a ditadura, melhor, que instaure uma ditadura sem fazer uso da força. Certamente seria uma ditadura muito "agradável". Alguns anarquistas, que na realidade são pedagogos liberais, esperam que em cem ou em mil anos os trabalhadores obtenham um nível de desenvolvimento tão alto que a coerção seria desnecessária. Naturalmente se o capitalismo puder conduzir a tal desenvolvimento, não haveria necessidade de destruí-lo. Tampouco haveria necessidade de uma revolução violenta, nem da ditadura que é uma conseqüência inevitável da vitória revolucionária. Contudo, o capitalismo decadente de nossos dias nos deixa pouco espaço para ilusões humanitárias e pacifistas.
Vimos muito bem, durante a guerra civil espanhola, a (in)capacidade dos anarquistas frente a uma situação revolucionária, integraram criminosamente o governo da "Frente Popular" que sufocou a revolução socialista, desarmou e reprimiu os operários e fuzilou revolucionários preparando o caminho para a vitória da ditadura franquista. Os anarquistas PARTICIPARAM desse governo. Os dirigentes da CNT (Confederação Nacional do Trabalho, federação anarco-sindicalista espanhola) entraram totalmente para a equipe ministerial burguesa. Para justificar sua traição aos princípios do anarquismo invocaram a pressão das "circunstâncias particulares" (argumento habitual de todos os oportunistas). Porém, acaso os dirigentes social-democratas alemães não invocaram o mesmo pretexto, em seu momento? Logicamente, a guerra civil não é uma situação pacífica, nem comum, mas sim uma "circunstância excepcional". Entretanto, as organizações revolucionárias sérias se preparam para atuar, justamente, em "circunstâncias excepcionais". A experiência da Espanha demonstrou mais uma vez que se pode "negar" o Estado em panfletos publicados em "circunstâncias normais", com a permissão do Estado burguês, mas que as circunstâncias da revolução não permitem "negar" o Estado; ao contrário, exigem a conquista do Estado.
E ainda por cima seus advogados e aliados de todos os matizes se ocupam tanto de uma defesa... da "insurreição" de Kronstadt contra os rudes bolcheviques. Uma vergonhosa aberração!
"Durante o período heróico da revolução os bolcheviques lutaram ombro a ombro com os anarquistas autenticamente revolucionários. Muitos passaram para as fileiras do partido. Mais de uma vez, Lênin e o autor destas linhas discutiram a possibilidade de conceder aos anarquistas determinados territórios onde, com o consentimento da população local, pudessem realizar a experiência de abolir o Estado. Porém, a guerra civil, o bloqueio e a fome não permitiram dar vazão a tais planos. A insurreição de Kronstadt? Todavia, naturalmente, o governo revolucionário não podia 'presentear' a fortaleza que defendia a capital aos marinheiros insurretos, simplesmente porque alguns anarquistas vacilantes se uniram à rebelião REACIONÁRIA dos soldados e dos camponeses. A análise histórica concreta dos acontecimentos reduz a pó todas as lendas sobre Kronstadt, Makhno e outros episódios da revolução, baseadas na ignorância e no sentimentalismo." (Leon Trotsky, extraído da obra 'Stalinismo e Bolchevismo')
Por fim, as seções reacionárias dos marinheiros desejavam destruir a ditadura do proletariado e o jovem Estado operário soviético, conscientes de sua impotência na arena da política revolucionária, a disparatada e eclética pequena-burguesia, trata de utilizar o velho episódio de Kronstadt em sua luta contra àquele que representou a verdadeira essência e tradição do marxismo, Leon Trotsky ? fundador e chefe do proletário Exército Vermelho ? e seu mais importante trabalho, a IV Internacional. No entanto, como bem disse o velho bolchevique: "Estas últimas 'pessoas de Kronstadt', também serão esmagadas, é verdade que sem o uso das armas, posto que, afortunadamente, não têm uma Fortaleza.
PS.: Para obter mais informações sobre a reacionária "rebelião" de Kronstadt leiam o artigo escrito por Trotsky: "Muito Barulho por Kronstadt". Também recomendo essa leitura aos anarquistas se, por ventura, esses sectários deixarem os seus velhos preconceitos contra o bolchevismo.
SAUDAÇÕES TROTSKISTAS!!!  | Companheiro "Bolchevique-Leninista" (engraçado, achei que era a mesma coisa), o texto fala da tal guerrilha nanarquista ucraniana, que eu não conhecia, e não de Kronstadt. Pô, sempre me considerei meio trotskista porque odeio a burocracia dos PCs, mas esse troço de disqualificar os compas não tá certo. Olha, se a coisa foi como o texto conta, não tem desculpa, tá. Não tem e pronto! Ou a gente luta pra libertar o Brasil e amanhã vocês nos fuzilam como pequeno-burguêses? Eu não, vai se catar, maluco. Quero mais é liberdade pra todos.  | É Helena, você é uma ds poucas companheiras que se afirmam trotkista e uma das poucas a usar realmente o cérebro. Coisa não muito comum como figuras como esses comédias que se auto-intitulam leninista bolchevista. O texto apresentado mostra um diálogo sobre a situação complicada na Ucrânia e suas políticas de estratégias, mas esses caras não conseguem entender nada e fazem comentários fora de espaço e que não tem nada haver com texto. Se tornam chatos, repetitivos, entediantes e sem conteúdo. Eu sempre disse que estes caras são a vergonha do socialismo e que até seus chefes e deuses como Lênin e Trótski devem estar se revirando no túmulo ao ler tanta estupidez, falta de bom censo e coerência. Verdadeiramente, trotkistas não se diferem em muito dos estalinistas, salvo algumas excessões, e cometem grosseiramente, as mesmas mancadas e burrices. Mas pelo menos a companheira salvou o comentário. Eles preferem somente nos atacar, xingar e tentar desqualiicar nossas lutas. "Vivem" achando que isto aqui é a Rússia pré-revolucionária e não compreendem o contexto histórico. Querem importar a revolução bolchevista pra cá. Tem sentido uma coisa dessas?  | De que importa se morreram 10.000 ou 1.500. A companheira bolchevista leninista se auto intitula de defensora do verdadeiro socialismo. Me causa medo, este socialismo que despreza a vida das pessoas citando números. Qual a diferença histórica da morte de 10.000 marinheiros ou 1.500? Há uma diferença companheira: a sensibilidade. Não importa se foram 10 ou 10.000. Pessoas morreram, companheiros morreram. Então devemos averiguar os fatos. Me sinto até assustado com esta afirmação. Como uma pessoa dessa se auto intitula socialista? Por favor, aos bolchevistas leninistas que não importam os erros da revolução russa de 1917 peço-lhes que não sigam os passos dessa desletrada, reácionária, cheirando ao totalitarismo pseudo-socialista.  | "O significado da consigna de Kronstadt foi "soviets sem comunistas", da qual se apoderaram não somente os social-revolucionários mas a própria burguesia liberal. Como representante sagaz do capital, o menchevique Miliukov compreendeu imediatamente que libertar os soviets da direção bolchevique significaria, em pouco tempo, a própria destruição dos soviets. A experiência dos soviets russos durante o periodo de dominação menchevique e social-revolucionária, e mais claramente, a experiência dos soviets alemão e austríaco, sob dominação dos social-democratas, comprovaram este feito. Os soviets social-revolucionários e anarquistas podiam servir somente como uma ponte entre a ditadura proletária e a restauração capitalista."
É incrivelmente perfeito, como os que se intitulam bolchevistas-leninistas, tem uma qualidade potencialmente criativa: a de deturpar os fatos históricos e fabricar elementos irreais. OS processos- farsas de Stálin são um grande exemplo. Acontece, que Lênin sabia muito bem que Kronstadt era a última barreira de implementação de um modelo comunitário dos operários e camponeses, organizados em soviets e que este fato atrapalharia a conquista do projeto bolchevista de estado, anti-revolucionário, capitalista de estado(em 1ª fase e 2ª, também) e autoritário. Deu no que deu: 45.000 trabalhadores dizimados sem a menor piedade. É isso que é ser bolchevista-socialista e revolucionário? Mais tarde, já no exílio, o próprio Léon Trótski, afirmaria em seus escritos que reprimir Kronstadt foi um grande equívoco. É lamentável que os filhotes dessa ditadura anti-socialista e desse pensamento dogmático/arcaico trotkista, legitimam e assinam embaixo, assassinatos, crueldade e perversidade. É lamentável e decadente.  | O que foi a Rebelião de Kronstadt?
A rebelião de Kronstadt ocorreu nas primeiras semanas de março no ano de 1921. Kronstadt foi (e é) uma fortaleza naval em uma ilha no golfo da Finlândia. Tradicionalmente, tem servido de base à frota russa no Báltico e escudo protetor da cidade de São Petersburgo (que durante a primeira grande guerra foi renomeada como Petrogrado, depois Leningrado, e atualmente de São Petersburgo novamente) a trinta e cinco milhas dalí. Foram os marinheiros de Kronstadt que tomaram a iniciativa nos eventos revolucionários de 1905 e 1917. Nas palavras de Trotsky, eles foram "orgulho e glória da Revolução Russa". Os habitantes de Kronstadt foram os primeiros a apoiar e a praticar o poder soviete, formando uma comuna livre em 1917 que foi relativamente independente das autoridades. No centro da fortaleza um enorme parque publico funcionava como fórum popular onde cabia mais de 30.000 pessoas. A Guerra Civil Russa terminou no Oeste da Russia em novembro de 1920 com o rendimento do general Wrangel na Criméia. As manifestações populares na Rússia eclodiram tanto no campo como em pequenos municípios e grandes cidades. Levantes camponeses irromperam por toda a Rússia contra o confisco de grãos ordenado pelo Partido Comunista (a diretriz política de Lenin e Trotsky argumentava que foram forçados a fazer isso, na verdade essas ações envolveram uma bárbara e intensa repressão). Nas áreas urbanas, ocorreu uma onda de greves espontâneas até que finalmente em fevereiro eclodiu uma quase greve geral em Petrogrado. Em 26 de fevereiro, em resposta a esses eventos de Petrogrado, a tripulação dos navios militares Petropavlovsk e Sevastopol convocou uma reunião de emergência e decidiu enviar uma delegação para a cidade para observar e trazer informações sobre o movimento grevista. Ao retornar, a delegação informou seus companheiros marinheiros sobre as greves (com as quais foram inteiramente simpáticos) e sobre a repressão governamental dirigida contra ela. Os presentes neste encontro no interior do Petropavlovsk aprovaram uma resolução onde apresentavam 15 exigencias que incluiam eleições livres para os sovietes, liberdade de expressão, imprensa, assembléia e organização pelos trabalhadores, camponeses, anarquistas e socialistas de esquerda. Das 15 exigências, apenas duas estavam relacionadas com aquilo que os marxistas qualificavam de "pequeno-burguesa" (os camponseses e artesãos) onde exigiam "completa liberdade de ação" para todos os camponeses e artesãos que não possuissem mão-de-obra contratada . Da mesma forma que os trabalhadores de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a equalização dos salários e o fim dos destacamentos de bloqueio que restringiam o deslocamento e a possibilidade dos trabalhadores trazerem alimentos para a cidade. Cinqüenta a sessenta mil pessoas afluíram ao encontro na Praça Anchor em 1o. de março onde foi constatado como "fato consumado" todo o relato feito pela delegação do Petropavlovsk. Apenas dois oficiais bolshevikes votaram contra o que foi chamado posteriormente de resolução Petropavlovsk. Neste encontro também foi decidido enviar outra delegação até Petrogrado para explicar aos grevistas e às tropas sobre as exigências de Kronstadt e solicitar a vinda de uma delegação de trabalhadores de Petrogrado para informar de primeira mão o que estava acontecendo lá. Esta delegação de trinta membros foi aprisionada pelo governo bolshevike. Como os termos do documento do soviete de Kronstadt não foram atendidos, o encontro decidiu chamar uma "Conferencia de Delegados" para o dia 2 de março. Nesse encontro se discutiria como seriam efetuadas as eleições. Esta conferência consistiria de dois delegados da tripulação dos navios, unidades do exército, docas, oficinas, sindicatos e instituições de sovietes. Este encontro de 303 delegados endossou a resolução Petropavlovsk e elegeu cinco pessoas para compor o "Comitê Revolucionário Provisório" (que foi ampliado para 15 membros dois dias depois em uma outra conferência de delegados). Este comitê ficou encarregado de organizar a defesa de Kronstadt, uma decisão tomada devido às ameaças dos oficiais bolshevikes e aos infundados rumores de que os bolshevikes tinham enviado forças para atacar o encontro. Os vermelhos de Kronstadt se opuseram ao governo comunista sob o slogan da revolução de 1917 "Todo Poder para os sovietes", acrescentando "e não para os partidos". O Governo Comunista respondeu com um ultimatum no dia 2 de março. Esse documento dizia que a revolta fôra "sem dúvida preparada pela contrainteligencia na França" e que a resolução Petropavlovsk não passava de uma resolução tomada pelas "Centenas Negras-RS" (RS significando "Revolucionários Sociais", um partido com uma tradicional base camponesa e cuja ala direita havia feito uma composição com os brancos; os reacionários "Centenas Negras" eram proto-fascistas que já atuavam antes da revolução atacando judeus, militantes operários, radicais e daí por diante). Eles argumentavam que a revolta havia sido organizada pelos ex-oficiais tzaristas a mando do ex-general Kozlovsky (considerado por Trotsky como um perito militar). Esta foi a versão oficial que prevaleceu com relação à revolta. Durante a revolta, Kronstadt começou a se auto reorganizar a partir da base. Os comitês sindicais foram re-eleitos e um Conselho de Associações Sindicais foi formado. A Conferência de Delegados encontrava-se regularmente para discutir assuntos ligados ao interesse de Kronstadt e à luta contra o governo bolshevike. Fileiras e destacamentos abandonaram o partido aos montes, expressando apoio e auxílio à revolta engrossando o coro de "todo o poder para os sovietes, não para os partidos". Cerca de 300 comunistas foram presos e tratados humanamente na prisão (para efeito de comparação, pelo menos 780 comunistas deixaram o partido). O governo comunista atacou Kronstadt em 7 de março. A fortaleza caiu em 17 de março. Dezesseis dias depois, mesmo com muitas unidades do Exército Vermelho passando para o lado dos rebeldes, a revolta de Kronstadt acabou esmagada pelo Exército Vermelho. Apesar do caráter não violento da revolta de Kronstadt, a atitude das autoridades desde o princípio descartou qualquer seriedade nas negociações impondo obediência incondicional ao seu ultimatum. Quem não obedecesse sofreria as conseqüências. Os revoltosos foram cercados e não receberam nenhum apoio externo. Em 17 de março, as forças bolshevikes finalmente ocuparam a cidade de Kronstadt após sofrerem mais de 10.000 baixas (existem inúmeros documentos confiáveis que relatam as perdas no campo rebelde, inclusive demonstrando a quantidade de fuzilados ou enviados aos campos de prisioneiros). Como uma ironia da história, no dia posterior, os bolshevikes celebraram o quinquagésimo aniversário da Comuna de Paris. Assim foi, resumidamente, a revolta de Kronstadt. Obviamente é impossível relatar todos os mínimos detalhes, contudo recomendamos aos leitores a consulta de livros e artigos relacionados no final desta seção para um acompanhamento mais completo de tudo que aconteceu. Todavia, estes são os pontos chaves da rebelião. Em seguida iremos nos concentrar numa análise desta revolta indicando porque ela é tão importante do ponto de vista político na avaliação daquilo que representou o bolshevismo enquanto teoria revolucionária. Nesta seção de nosso FAQ apresentaremos e discutiremos as exigências de Kronstadt, sua origem radical na rebelião da classe trabalhadora. Relataremos as mentiras que os bolshevikes espalharam sobre a rebelião através do tempo e indicaremos suas reais ligações com os brancos. Também discordamos da alegações trotskistas de que os marinheiros em 1921 eram diferentes dos de 1917 ou de que suas perspectivas políticas haviam fundamentalmente sido alteradas. Discutiremos os argumentos de que o país estava por demais exaurido para consentir uma democracia soviética ou que a democracia soviética resultaria na derrota da revolução. Neste processo, também mostraremos a forma como os defensores do leninismo passaram a defender seus heróis. Demonstraremos que Kronstadt foi um levante popular que surgiu de baixo para cima dos mesmos marinheiros, dos mesmos soldados e dos mesmos trabalhadores que fizeram a revolução de outubro de 1917. A repressão bloshevike à revolta pode ser justificada somente em termos de defesa do poder do estado bolshevike mas jamais pode ser defendida nos termos da teoria socialista. Na verdade, ela indica que o bolshevismo é um monumental engodo enquanto teoria política e que jamais poderia desaguar em uma sociedade socialista mas apenas e tão somente em um regime capitalista de estado baseado num partido ditatorial. É isto que Kronstadt mostra acima de tudo: optar entre o poder dos trabalhadores ou o poder do partido, o bolshevismo destruirá o primeiro para implementar o segundo. Nesse aspecto, Kronstadt não é um evento isolado. Existem muitas importantes fontes históricas disponíveis sobre a revolta. O que existe de melhor para estudos sobre a revolta é o trabalho de Paul Avrich e Israel Getzler, Kronstadt 1921. As obras anarquistas incluem Ida Mett em seu livro The Kronstadt Uprising (o melhor trabalho político sobre o tema), Alexander Berkman escreveu The Kronstadt Rebellion (também consta uma boa introdução na obra A Tragédia Russa), Voline em The Unknown Revolution dedica todo um excelente capítulo sobre Kronstadt (onde apresenta uma grande quantidade de citações retiradas de documentos de Kronstad) o volume dois de No Gods, No Masters de Daniel Guerin apresenta uma excelente seção sobre a rebelião (incluindo um detalhado relato de Emma Goldman extraído de sua autobiografia Living my Life sobre os eventos extraídos dos documentos de Kronstadt). Anton Ciliga (um libertário socialista/marxista) em seu livro Kronstadt Revolt também apresenta uma boa introdução aos temas relacionados com o levante. Do ponto de vista da análise leninista, a antologia Kronstadt contem artigos de Lenin e de Trotsky relacionados à revolta, uma espécie de ensaio suplementar refutando a versão anarquista. Este trabalho é recomendado para aqueles que querem saber qual foi a versão trotskista dos eventos por conter todos os documentos relevantes emitidos pelos líderes bolshevikes. Emma Goldman em seu trabalho Trotsky Protests Too Much é uma grande resposta aos comentários de Trotsky e de seus seguidores.
soviet. 1.conselho, assembléia. 2 soviete: conselho local na Rússia. // adj soviético. Soviet Russia Rússia soviética. Soviet Union União Soviética.
1. Qual a importância da rebelião de Kronstadt?
A rebelião de Kronstadt é importante porque, conforme Voline observou, ela foi "a primeira tentativa popular completamente independente de auto-libertação do jugo e da opressão através da Revolução Social, uma tentativa feita direta, resoluta, e corajosamente pelos próprios trabalhadores sem guia político, líderes, nem tutores. Foi o primeiro passo em direção à terceira revolução social". [_The Unknown Revolution_, pp. 537-8] Os marinheiros de Kronstadt em 1917 foram um dos primeiros grupos a apoiar o slogan "Todo poder aos Sovietes" e um dos primeiros grupos a colocar isso em prática. O foco da revolta de 1921 ? os marinheiros dos navios Petropavlovsk e Sevastopol ? representaram, em 1917, o principal suporte dos bolshevikes. Os marinheiros eram considerados, até os fatídicos dias de março de 1921, o orgulho e a glória da revolução, e reconhecidos por todos como completamente revolucionários em espírito e em ação. Eles eram leais defensores do sistema dos sovietes mas, como a revolta mostrou, se opunham à ditadura de qualquer partido. Para todos os efeitos, Kronstadt é importante para avaliar a honestidade (ou desonestidade) dos leninistas quando se afirmavam favoráveis ao poder e à democracia dos sovietes. Embora a guerra civil efetivamente tivesse terminado, o regime não mostrava nenhum sinal no sentido de interromper a repressão contra as manifestações e protestos da classe trabalhadora. Opondo-se às reeleições nos sovietes, o regime bolshevike passou a reprimir greves em nome do "poder soviético" e "do poder político do proletariado". No campo, os bolshevikes continuaram sua futil, miserável e contraprodutiva política contra os camponeses (um governo assumindo o papel do estado submetendo a seus pés trabalhadores e camponeses). Os eventos de Kronstadt não devem ser observados isoladamente, mas como parte de uma luta geral do povo trabalhador russo contra seu governo. Na verdade, conforme indicaremos na próxima seção, esta repressão após o fim da Guerra Civil seguiu o mesmo modelo da implementada antes dela. Os bolshevikes reprimiram a democracia soviete em Kronstadt em 1921 em favor da ditadura do partido, como vinham fazendo regularmente desde o princípio de 1918. A revolta de Kronstadt foi um movimento popular nascido dos trabalhadores visando restaurar o poder dos sovietes. Conforme Alexander Berkman destacou, o "espírito da Conferencia [dos delegados que elegeram o Comitê Revolucionário Provisório] eram todos inteiramente sovietistas: Kronstadt exigia sovietes livres da interferência de qualquer partido político; eles desejavam sovietes não partidários que refletissem verdadeiramente as necessidades e expressassem a vontade dos trabalhadores e camponeses. A atitude dos delegados foi antagonizada pela determinação arbitrária dos comissários burocráticos, simpatizantes do Partido Comunista. Os delegados eram membros leais ao sistema soviete e procuravam encontrar, amigavel e pacíficamente, uma solução aos problemas prementes" que a revolução enfrentava. [_The Kronstadt Rebellion_]. A atitude dos bolshevikes indicou que, para eles, o poder soviete só seria útil na medida em que confiasse seu poder ao partido e em caso de conflito apenas o partido deveria sobreviver sobre o cadáver de seus opositores. Nas palavras de Berkman: "Mas o ?triunfo? dos bolshevikes sobre Kronstadt trouxe consigo a derrota do próprio bolshevismo. Colocou à mostra o verdadeiro caráter da ditadura comunista. Os comunistas demonstraram por si próprios sua disposição em sacrificar o Comunismo, em troca de aproximações e compromissos com o capitalismo internacional, ao mesmo tempo que recusavam as justas exigências de seu próprio povo ? exigências que ecoaram nos slogans de outubro entre os próprios bolshevikes: sovietes eleitos por voto direto e secreto, de acordo com a Constituição da R.S.F.S.R.; e liberdade de expressão e de imprensa aos partidos revolucionários". [Op. Cit.] Uma investigação honesta e inteligente das forças revoltosas de Kronstadt coloca em cheque tanto a teoria quanto a prática bolshevike. Joga por terra o mito bolshevike do Comunismo de Estado sendo o "Governo dos Trabalhadores e Camponeses". Os eventos de Kronstadt provaram que a ditadura do Partido Comunista e a Revolução Russa são pólos opostos, contraditórios e mutuamente exclusivos. Embora procurem justificar a repressão dirigida pelos bolshevikes contra o povo trabalhador durante a guerra civil em virtude da guerra, o mesmo não pode ser dito com relação a Kronstadt. Da mesma forma, a justificação leninista para a força e ações levadas a efeito em Kronstadt teve implicações diretas nas atividades daquele momento e nas futuras revoluções. Conforme demonstraremos na seção, a lógica desse argumento significa simplesmente que em nossos dias os leninistas desejam, dentro dessa mesma posição, destruir a democracia soviete para defender o "poder soviético" (i.e. o poder de seu partido). Com efeito, Kronstadt foi o choque da realidade do leninismo com sua imágem e retórica. Trouxe à tona temas importantes relativos ao bolshevismo e os "argumentos" que produziam para justificar certas ações. "A experiência de Kronstadt", conforme os argumentos de Berkman, "provou mais uma vez que o governo, o Estado ? seja lá qual for seu nome ou forma de atuação ? é sempre inimigo mortal da liberdade e da auto-determinação popular. O estado não tem alma, nem princípios. E possui apenas um objetivo ? assegurar poder e mantê-lo a qualquer custo. Esta foi a lição política de Kronstadt." [Op. Cit.] Existe uma outra razão da importancia do estudo de Kronstadt. Desde o esmagamento da revolta, tanto grupos leninistas como trotskistas justificam continuamente os atos dos bolshevikes. Além disso, permanecem seguindo Lenin e Trotsky em suas calúnias sobre a revolta, na verdade, mentem descaradamente sobre ela. Quando o trotskista John Wright afirma que "os defensores de Kronstadt distorcem fatos históricos, exageram monstruosamente cada assunto ou questão irrelevante . . . e obscurecem . . . sobre o real programa e objetivos do motim" ele está, de fato, descrevendo suas atividades e as atividades de seus amigos trotskistas. [Op. Cit., p. 102]. Na verdade, como demonstraremos a seguir, enquanto as considerações anarquistas são confirmadas por pesquisas posteriores as asserções trotskistas vez após vez caem por terra. Na verdade, seria de muita utilidade escrever um livro para colocar ao lado da _Escola da Falsificação de Stalin_ sobre as atividades de Trotsky e de seus seguidores em matéria de reescrever a história. É necessário que fique bem claro nessa nossa discussão que os trotskistas se doutoraram na versão acadêmica que confirma sua versão ideológica do levante. A razão para isso é clara. Em termos simples, os defensores do bolshevismo não podem fazer outra coisa a não ser mentir sobre a revolta de Kronstadt uma vez que ela expõe claramente a real natureza da ideologia bolshevike. Em vez de apoiar o clamor de Kronstadt pela democracia soviete, os bolshevikes esmagaram a revolta, argumentando que fazendo isso estavam defendendo o "poder soviete". Seus seguidores vez após vez repetem sempre esses mesmos argumentos. Esta expressão do duplo pensar leninista (a habilidade de conhecer dois fatos contraditórios e sustentar ambos como verdadeiros) pode ser explicado. Procuram fazer com que "poder dos trabalhadores" e "poder soviete" na realidade signifique poder do partido para que as contradições desapareçam. O poder do partido tem que ser mantido a todo custo, incluindo a destruição daqueles que desejam um verdadeiro poder soviete, um verdadeiro poder dos trabalhadores (portanto uma democracia soviete). Por exemplo, Trotsky argumentou em 1921 que "o proletariado estava com o poder político nas mãos" enquanto que mais adiante os trotskystas passaram a argumentar que o proletariado estava muito exaurido, atomizado e dizimado. [Lenin e Trotsky, Kronstadt, p. 81]. Da mesma forma o trotskista Pierre Frank afirma que para os bolshevikes, "o dilema estava colocado nos seguintes termos: ou manter os trabalhadores sob controle, ou a contra-revolução se ergueria, tanto o primeiro quanto o segundo disfarce político, teriam ao cabo o contra-revolucionário reino do terror bem longe da democracia". [Op. Cit., p. 15] Naturalmente que aquela "democracia" sob Lenin não é mencionada nem tampouco o reino do terror que se desenvolveu sob Stalin através da repressão e da ditadura praticada em 1921. A maioria dos leninistas argumentam que a supressão da rebelião deu-se essencialmente para defender as "conquistas da revolução". Mas quais foram exatamente estas conquistas? Não foi a democracia soviete, nem liberdade de expressão, nem tampouco liberdade de reunião e de imprensa, ou mesmo liberdade de organização sindical. Ora, o povo de Kronstadt foi reprimido exatamente por exigir tais coisas. Não, aparentemente as "conquistas" da revolução foi pura e simplesmente um governo bolshevike. É necessário não esquecer do fato de que se tratava de um partido único ditatorial, com uma forte e privilegiada máquina burocrática. Uma situação onde não havia nenhuma liberdade de expressão, imprensa, associação ou assembléia do povo trabalhador. O fato de Lenin e Trotsky estarem no poder era suficiente para seus seguidores justificarem a repressão de Kronstadt e subscrever a noção de "estado dos trabalhadores" que exclui os trabalhadores do poder. Este duplo pensar bolshevista é claramente visto nos eventos de Kronstadt. Por exemplo, os defensores do bolshevismo argumentam que Kronstadt foi reprimida para defender o poder soviete ao mesmo tempo que argumentam que as exigências de Kronstadt reivindicando eleições livres no soviete eram "contra-revolucionárias", "retrógradas", "pequeno-burguesas" e daí por diante. O que é que o poder soviete poderia fazer sem eleições livres nunca foi explicado. Similarmente, eles argumentavam que era necessário defender o "estado dos trabalhadores" assassinando aqueles que chamavam os trabalhadores porque tinham algo a dizer a eles, como por exemplo como é que o estado funciona. O papel dos trabalhadores em um estado de trabalhadores seria simplesmente obedecer ordens sem questioná-las (na verdade, Trotsky argumentou em 1930 que a classe trabalhadora na Rússia era a classe governante sob Stalin?"Todas as formas de propriedade que foram criadas pela Revolução de Outubro não foram subvertidas, o proletariado continua sendo a classe governante". [_The Class Nature of the Soviet State_]). De que forma pode-se justificar a repressão bolshevike em termos de defender o poder dos trabalhadores suprimindo esse poder? Como é que o poder soviete pode ser protegido pelo governo quando os sovietes eram esmagados por esse próprio governo? A lógica dos bolshevikes, seus apologistas e defensores a posteriori tem a mesma característica dos oficiais americanos durante a guerra do Vietnã que explicavam que para salvar o vilarejo eles tinham primeiro que destruí-lo. Para que pudessem salvar o poder soviete, Lenin e Trotsky tinham que destruir a democracia soviete. Uma última observação. A revolta de Kronstadt foi um evento chave na revolução Russa, inegavelmente significou seu fim. Não podemos nos esquecer também que foi apenas um de uma longa série de ataques bolshevikes contra a classe trabalhadora. Conforme indicamos na, o estado bolshevike por si só foi uma prova incontestável de sua natureza anti-revolucionária desde outubro de 1917. Portanto, Kronstadt é importante simplesmente porque contrapôs a democracia soviete ao "poder soviete" e isso ocorreu após o fim da guerra civil. Kronstadt se constituiu na pá de cal sobre a tumba da Revolução Russa. Kronstadt deve ser lembrada e relembrada, analisada e discutida por todos os revolucionários que procuram compreender o passado de forma a não repetir os mesmos erros novamente.
2. O que a rebelião de Kronstadt pretendia?
A revolta de Kronstadt não pode ser compreendida isoladamente. Na verdade, fazer isso significa perder o fio da meada, a real razão que mostra porque Kronstadt é tão importante. Kronstadt foi o resultado final de quatro anos de revolução e guerra civil, o produto da debilidade da democracia soviete combinada com bolshevikes e guerra. A atitude dos bolshevikes e a justificação ideológica para suas ações (justificações, naturalmente, retiradas de mentiras sobre a revolta) ? onde meramente reproduzem de forma resumida o que ocorreu a partir do momento em que eles tomaram o poder. Diante disso, elaboramos pequeno sumário das atividades bolshevikes antes dos eventos de Kronstadt. Complementando, apresentamos um quadro de como se desenvolveu o fenômeno da estratificação social sob Lênin e os eventos imediatos antes da revolta e que serviram de estopim (especialmente a onda de greves em Petrogrado). Analisando tudo isso com cuidado veremos que Kronstadt não foi um evento isolado mas uma tentativa de salvar a Revolução Russa da ditadura e da burocracia comunista. A oposição bolshevike à democracia soviete revelada pela revolta de Kronstadt teve uma longa linhagem. Iniciou alguns meses após a tomada do poder em nome dos sovietes. Após uma manifestação favorável à Assembléia Constituinte ser reprimida pelos bolshevikes em meados de janeiro de 1918, muitas fábricas foram convocadas para novas eleições no soviete. "A despeito dos esforços dos bolshevikes e dos Comitês de Fábrica por eles controlados, o movimento por novas eleições no soviete se espalhou por mais de vinte fábricas no princípio de fevereiro e resultou na eleição de cincoenta delegados: trinta e seis RSs, sete Mensheviks e sete delegados sem partido". Não obstante, o bolshevikes, "relutaram reconhecer as eleições e indicaram novos delegados pressionado um grupo de socialistas para . . . articular um fórum alternativo de trabalhadores". [Scott Smith, "The Social-Revolutionaries and the Dilemma of Civil War", _The Bolsheviks in Russian Society_, pp. 83-104, Vladimir N. Brovkin (Ed.), pp. 85-86] Em Tula, os bolshevikes locais reportaram ao comitê central bolshevike que os "deputados bolshevikes estão sendo substituidos um a um . . . nossa situação torna-se debilitada a cada dia que passa. Fomos forçados a impedir novas eleições para o soviete e até mesmo não reconhece-las quando o resultado não nos fosse favorável". [citado por Smith, Op. Cit., p. 87]. Finalmente, os líderes locais do partido foram forçados a abolir o soviete da cidade e investir poder em um Comitê Executivo Provincial. A proibição da realização da plenária do soviete da cidade durante mais de dois meses, demonstrou que os novos delegados eleitos eram não-bolshevikes. [Ibid.] Em Yaroslavl, o soviete reuniu-se em 19 de abril de 1918, e quando o novo soviete elegeu um presidente menshevike, "a delegação bolshevike se retirou e declarou o soviete dissolvido. Em resposta, os trabalhadores da cidade entraram em greve, os bolshevikes reagiram prendendo o comitê de greve, ameaçando os grevistas de demissão e substituindo-os por trabalhadores desempregados". Nada disso funcionou e os bolshevikes foram forçados a convocar novas eleições, nas quais foram novamente derrotados. Após "dissolveram este soviete os bolshevikes colocaram a cidade sob lei marcial". Um evento semelhante ocorreu em Riazan (novamente em abril) e, mais uma vez, os bolshevikes "prontamente dissolveram o soviete e decretaram uma ditadura sob um Comitê Militar Revolucionário". [Op. Cit., pp. 88-9]. Estes são apenas alguns poucos exemplos daquilo que acontecia na Rússia no início do ano de 1918. É importante destacar que a Guerra Civil Russa começou em maio de 1918. O efeito imediato disto foi, naturalmente, levar muitos trabalhadores dissidentes apoiar os bolshevikes durante a guerra. Por exemplo, os menshevikes "possuiam uma política consistente de oposição pacífica ao regime bolshevike, uma política conduzida por meios estritamente legítimos" e "menshevikes que se juntassem a organizações almejando derrotar o Governo Soviete" eram expulsos do Partido Menshevike". [George Leggett, The Cheka: Lenin?s Political Police, pp. 318-9 e p. 332]. Isto, contudo, não estancou a repressão bolshevike sobre eles. De forma semelhante, os bolshevikes atacaram os anarquistas em Moscou de 11 a 12 de abril de 1918, fazendo uso de um destacamento armado da Cheka (a polícia política). O soviete de Kronstadt votou uma resolução condenando a ação. Esse fato, incidentalmente, responde à questão retórica de Brian Bambery "por que será que a maioria dos militantes da classe trabalhadora no mundo, detentores de um poderoso coquetel de ideias revolucionárias, tendo já efetuado duas revoluções (em 1905 e em fevereiro de 1917), permite a um punhado de pessoas alçar ao poder às suas custas em outubro de 1917?" ["Leninism in the 21st Century", [_Socialist Review_, no. 248, January 2001]. Mais uma vez os trabalhadores russos perceberam que um punhado de pessoas tinha tomado o poder e eles passaram a se manifestar contra a usurpação de seu poder e de seus direitos, contra a destruição da democracia soviética pelos bolshevikes. Os bolshevikes os reprimiram. Com o início da Guerra Civil, os bolshevikes jogaram sua carta mais alta ? "Nós ou os Brancos". Isto significava que para os bolshevikes o poder dos trabalhadores se restringia em escolher entre um ou outro. Na verdade, isso explica porque os bolshevikes finalmente acabaram eliminando os partidos e grupos de oposição somente após o fim da Guerra Civil, limitando-se a apenas reprimi-los enquanto ela durou. Com os brancos fora da parada, a oposição passaria a exercer sua influencia novamente. Com a dispersão dos sovietes os bolshevikes criaram um poder sobre os sovietes na forma de um Conselho de Comissarios do Povo. Esta corporação se constituia numa elite executiva que atuava representando os sovietes. Em outras palavras, Lenin argumentou em The State and Revolution que, da mesma forma que na Comuna de Paris, os estado dos trabalhadores seria baseado na fusão da função administrativa, legislativa e executiva representado por delegações de trabalhadores. No apogeu da guerra civil o Comitê Executivo Central do congresso de sovietes da Rússia não se reuniu sequer uma vez em uma sessão completa desde o fim de 1918 e durante todo o ano de 1919. No primeiro ano da revolução, apenas 68 dos 480 decretos do Conselho do Comissariado do Povo (o governo Comunista) foram realmente submetidos ao Comitê Sovietico Executivo Central (alguns elaborados por eles mesmos). As tendências oligarquicas aumentaram no pós-outubro, com "o poder efetivo dos sovietes locais inflexivelmente gravitando em torno dos comitês executivos". Os sovietes locais tinham "pouca influencia na formação da política nacional". Eles rápidamente foram esmagados pelo governo comunista quando não eram dispersos pelas forças comunistas ("o partido muitas vezes dispersava os congressistas que se opunham aos aspectos da política dominante"). [C. Sirianni, _ Workers? Control and Socialist Democracy_, p. 204 and p. 203]. Na verdade, a Cosnstituição Soviética de 1918 codificou seu poder centralizado, com os sovietes locais regulamentados no sentido de "assumir todas as órdens do órgão respectivamente superior do poder soviete" (i.e. obedecer ao comando do governo central). Economicamente, o regime bolshevike impôs mais tarde uma política denominada "Comunismo de Guerra" (com relação a isso, Victor Serge observou, "qualquer um que, como eu, considerasse aquilo como sendo puramente temporário estava possuído pela arrogancia" [_Memoirs of a Revolutionary_, p. 115]. O regime caracterizou-se por uma tendência extremamente hierárquica e ditatorial. A direção exercida pelo Partido Comunista expressava-se na natureza do regime "socialista" por eles desenhado. Trotsky, por exemplo, manifestava idéias de uma certa "militarização do trabalho" (conforme exposto em sua infame obra Comunismo e Terrorismo). Por exemplo, ele argumentou; "O princípio verdadeiro do serviço do trabalho compulsório é inquestionável para o comunista. . . . Mas até o momento ele nunca passou de um mero princípio. Sua aplicação sempre teve um caráter acidental, parcial, episódico. Apenas agora, quando em toda parte se discute a questão do renascimento econômico em nosso país, os problemas do trabalho compulsório vem a tona diante de nós da maneira mais concreta possível. A única solução para as dificuldades econômicas que seja correta tanto do ponto de vista dos princípios como da prática é considerar toda a população do país como um reservatório necessário de força de trabalho . . . para introduzir ordens estritas de registro, mobilização, e utilização no trabalho". "A introdução do serviço de trabalho compulsório é impensável sem a aplicação, em maior ou menor gráu, de métodos de militarização do trabalho". "Por que falamos em militarização? Naturalmente trata-se apenas de uma analogia ? mas uma analogia muito rica em conteúdo. Nenhuma organização social exceto o exército por si só justifica-se em subordinar cidadãos para si mesmo, para poder controla-los à vontade de todas as formas e gráus, como o Estado da ditadura do proletariado justifica-se a si mesmo praticando, e fazendo". "Tanto a compulsão econômica quanto a política não passam de formas de expressão da ditadura da classe trabalhadora em dois campos interligados . . . sob o socialismo não existem aparatos por si só compulsórios, principalmente, o Estado: para ele haverá comoção inteiramente contraria a uma comuna que produz e consome. O caminho do Socialismo passa, precisamente, por um período da mais alta intensificação possível do princípio do Estado . . . Como uma lâmpada, atrás de nós, projetando uma luz brilhante, assim é o Estado, antes de desaparecer, assumindo a forma de ditadura do proletariado, i.e., a mais cruel forma de Estado, que abraça a vida dos cidadãos autoritariamente em cada aspecto. . . Nenhuma organização exceto o exército controla o homem com uma coerção mais severa tornando possível a organização do Estado da classe trabalhadora no período mais difícil da transição. É exatamente por esta razão que falamos em militarização do trabalho". Essas considerações foram escritas como uma política a ser seguida agora quando a "guerra civil interna chegava a seu fim". Isto não foi tido como uma política temporária imposta pelos bolshevikes em função da guerra, pelo contrário, tanto quanto se pode perceber, foi uma expressão de "princípio" (será que isto tem relação com o que Marx e Engels escreveram sobre o "estabelecimento de exércitos industriais" no Manifesto Comunista? [Selected Writings, p. 53]). No mesma obra, Trotsky justifica a eliminação do poder soviete e da democracia pelo poder do partido e pela ditadura. Assim, vemos a aplicação da servidão pelo estado através do bolshevismo (na verdade, Trotsky pretendia aplicar suas idéias de militarização do trabalho na construção de ferrovias). Esta visão de rígida centralização e estruturas militares topo-base serviu de esqueleto para a construção da política bolshevike desde os primeiros meses após a revolução de outubro. As tentativas dos trabalhadores de "auto-gestão" organizados através dos comitês de fábricas foram combatidas em favor de um sistema centralizado de capitalismo de estado. Lenin nomeava administradores com poderes "ditatoriais" (veja The Bolsheviks and Workers? Control de Maurice Brinton para mais detalhes). No Exército Vermelho e Marinha, princípios anti-democráticos foram novamente impostos. Dois meses antes da Guerra Civil, Trotsky nomeou elementos para atuarem ao lado de conselhos eleitos de soldados e de oficiais. Nos finais de março de 1918, Trotsky reportou ao Partido Comunista que o "o princípio da eleição é politicamente inútil e tecnicamente inadequado, o que significa, na prática, sua abolição por decreto". Os soldados não tinham o que temer desse sistema piramidal de topo-base pois "o poder político está nas mãos da mesma classe trabalhadora de onde as tropas do Exército foram recrutadas" (i.e. nas mãos do partido bolshevike). Não poderia haver "nenhum antagonismo entre o governo e as massas de trabalhadores, da mesma forma que não poderia haver nenhum antagonismo entre a administração de um sindicato e a assembléia geral de seus membros, portanto, não poderia haver nenhum espaço para temer as determinações dos membros da cúpula de comando dos órgãos do Poder Soviete". [_Work, Discipline, Order_]. Naturalmente, conforme qualquer trabalhador em luta poderia dizer para você, ele muitas vezes entra em conflito com a burocracia do sindicato. Na Marinha, ocorreu um processo semelhante ? o que provocou o descontentamento e a oposição de muitos marinheiros. Conforme Paul Avrich destacou, "Os esforços bolshevikes para liquidar os comitês navais e impor sua autoridade através de comissários nomeados provocou uma tempestade de protestos na Frota Báltica. Para os marinheiros, cuja aversão a autoridades externas era proverbial, qualquer tentativa de restaurar disciplina significava supressão da liberdade pela qual tinham lutado em 1917". [_Kronstadt 1921_, p. 66] No campo, o confisco de grãos resultou em um levante camponês pois o alimento era tomado dos camponeses através da força. Destacamentos armados foram "instruidos a tomar dos camponeses o suficiente para suprir suas necessidades pessoais, era comum o confisco por parte de pequenos pelotões armados que se apropriavam de grãos sob a força das armas visando consumo pessoal ou estabelecendo uma reserva para a próxima colheita". Os trabalhadores nos vilarejos naturalmente faziam uso de táticas evasivas omitindo a quantidade de terras que possuiam ou mesmo praticando a resistencia aberta. [Avrich, Op. Cit., pp. 9-10] Assim, antes do início da Guerra Civil, o povo russo passou a ser, de fato, paulatinamente eliminado de qualquer processo participativo no que diz respeito ao desenvolvimento da revolução. Os bolshevikes debilitaram (quando não aboliram) a democracia dos trabalhadores, a liberdade e os direitos onde trabalhavam, nos sovietes, nos sindicatos, no exército e na marinha. Previsivelmente, a ausência de qualquer controle real a partir da base desencadeava os efeitos corruptores oriundos do poder. Desigualdade, privilégios e abusos proliferavam por toda parte onde estava o partido e a burocracia governante. Com o fim da Guerra Civil em novembro de 1920, muitos trabalhadores esperavam uma mudança de política. Todavia, os meses se passaram e a política continuou a mesma. Finalmente, em meados de fevereiro de 1921, desencadeou-se "uma febre de encontros espontâneos dentro das fábricas" em Moscou. Os trabalhadores passaram a ser convocados para uma imediata avaliação do arocho provocado pelo Comunismo de Guerra. Tais encontros foram "sucedidos por greves e manifestações". Os trabalhadores tomaram as ruas reivindicando "livre comércio", mais rações e "a abolição do confisco de grãos". Alguns exigiam a restauração dos direitos políticos e das liberdades civís. Foi aí que as tropas foram chamadas para restaurar a órdem. [Paul Avrich, Op. Cit., pp. 35-6] As mais sérias ondas de greves e manifestações ocorreram em Petrogrado. A revolta de Kronstadt foi o pavio dos protestos. Como em Moscou, aquelas "manifestações nas ruas anunciavam a proliferação de encontros e manifestações em muitas fábricas e lojas em Petrogrado". Como em Moscou, oradores "exigiam o fim do confisco de grãos, a remoção dos bloqueios nas estradas, a abolição de rações privilegiadas, e permissão para a troca de possessões de caráter pessoal por alimento. Em 24 de fevereiro, um dia após um encontro no local de trabalho, os trabalhadores da fábrica Trubochny abandonaram as máquinas e saíram para fora da fábrica. Outros trabalhadores das fábricas adjacentes se juntaram a eles. Uma aglomeração de 2.000 trabalhadores foi dispersa por cadetes militares armados. No dia seguinte, os trabalhadores da Trubochny novamente tomaram as ruas e visitaram outros pontos de trabalho, conclamando-os para que também se juntassem à greve. [Avrich, Op. Cit., pp. 37-8] O governo nomeou um Comitê de Defesa e Zinoviev composto por três pessoas que "proclamou lei marcial" em 24 de fevereiro. [Avrich, Op. Cit., p. 39]. Foi proclamado toque de recolher às 23 horas e todos os encontros e reuniões (internos e externos) foram proibidos exceto se aprovados pelo Comitê de Defesa e todos aqueles que desobedecessem às ordens "seriam punidos de acordo com a leis militares". [Ida Mett, The Kronstadt Uprising, p. 37] Como parte desse processo, o governo bolshevike confiou ao kursanty (escritório de cadetes comunistas) a função de polícia local por terem ficado à margem das agitações e pela obediência às ordens governamentais. Centenas de kursanty foram chamados das academias militares vizinhas para patrulhar a cidade. "Petrogrado tornou-se durante a noite um campo de guerra. Em cada quarteirão os pedestres eram revistados e seus documentos checados . . . o toque de recolher [era] rígidamente controlado". Enquanto isso a Cheka de Petrogrado efetuava inúmeras prisões. [Avrich, Op. Cit., pp. 46-7] Aos trabalhadores "foi ordenado retornar para suas fábricas, sob a ameaça de que seriam retiradas suas rações. Embora estas ameaças não provocassem nenhum impacto nos trabalhadores, alguns sindicados se dispersaram e seus líderes e grevistas que insistiam em permanecer em greve foram lançados em prisões". [Emma Goldman, No Gods, No Masters, vol. 2, p. 168] Os bolshevikes também fizeram uso de sua máquina de propaganda. Os grevistas eram alertados para que não caíssem nas mãos dos contra-revolucionários. Fazendo uso da imprensa, os membros dos partidos populares passaram a agitar nas ruas, fábricas e oficinas. Houve uma série de concessões como a distribuição de rações extras. Em primeiro de março (após a revolta do Kronstadt haver começado) o soviete de Petrogrado anunciou a retirada de todos bloqueios e desmobilizou os soldados do Exército Vermelho para exercerem funções produtivas em Petrogrado. [Avrich, Op. Cit., pp. 48-9] Dessa forma, utilizou-se uma combinação de força, propaganda e concessões para enfraquecer as greves (que rapidamente tendiam a se generalizar). Contudo, conforme Paul Arvich destaca, "não havia nenhuma proibição com relação ao uso de forças militares e da proliferação de prisões, sem falar da incansável propaganda implementada pelas autoridades que se tornaram indispensáveis para restaurar a ordem'". Nesse aspecto, foi particularmente interessante a disciplina mostrada pelos organismos partidários locais. "Atuando à parte de suas disputas internas, os bolshevikes de Petrogrado rapidamente cerraram fileiras e se apressaram em executar a vergonhosa tarefa de reprimir com eficiência e presteza". [Op. Cit., p. 50] Isto indica o contexto imediato da rebelião de Kronstadt. Por seu turno o trotskista J. G. Wright escreveu sobre o papel de Kronstad, "mentiram desde o primeiro momento . . . e inseriram uma manchete sensacional: ?Insurreição Geral em Petrogrado?" e prossegue afirmando que as pessoas "espalhavam . . . mentiras sobre uma insurreição em Petrogrado". [Lenin e Trotsky, Kronstadt, p. 109]. Sim, é normal que a eminência de uma greve geral seja acompanhada de encontros de massa e manifestações, e que sejam reprimidas pela força e por lei marcial, isto é uma ocorrência corriqueira que nada tem a ver com uma "insurreição"! Mas se tais eventos tivessem acontecido em um estado que não fosse dirigido por Lenin e Trotsky é improvável que o Sr. Wright teria alguma dificuldade em reconhecer o significado de Kronstadt (quatro anos antes, protestos semelhantes foram reprimidos pelo Czar). Foram exatamente estes protestos de trabalhadores e sua repressão que desencadearam os eventos em Kronstadt. Na medida em que muitos ouviam as reclamações de seus parentes e amigos pelos vilarejos vizinhos e se juntavam aos prostestos contra as autoridades soviéticas, as greves de Petrogrado tornaram-se catalizadoras da revolta. Todavia, eles tinham outras razões políticas para protestar contra a postura do governo. A democracia na Marinha havia sido abolida por decreto e o soviete tinha se transformado em um penduricalho da ditadura do partido. Previsivelmente, a tripulação dos navios de guerra Petropavlovsk e Sevestopol decidiram agir diante das "notícias de greves, locautes, prisões em massa e lei marcial" que vinham de Petrogrado. Em "função daqueles protestos eles convocaram uma reunião de emergência, repreenderam seus comissários . . . [e] elegeram uma delegação de trinta e dois marinheiros que, em 27 de fevereiro, dirigiu-se a Petrogrado. Percorrendo as fábricas. . . eles encontraram os trabalhadores que procuravam e fizeram perguntas apesar do temor dos bandos de guardas comunistas nas fábricas, dirigentes de sindicatos oficiais, homens do comitê dos partidos e membros da Cheka." [Gelzter, _Kronstadt 1917-1921_, p. 212] A delegação retornou no outro dia e fizeram o relato do que viram na reunião geral dos marinheiros do navio. Nessa reunião foram adotadas as resoluções que serviram de base à revolta. Começava a revolta de Kronstadt.
3. Qual era o programa de Kronstadt?
É raro em nossos dias ver um trotskysta descrever integralmente as reais reivindicações de Kronstadt. John Rees, por exemplo, não proporciona nem mesmo um resumo dos 15 pontos do programa. Ele apenas afirma que "os marinheiros expressaram o desespero dos camponeses com o regime Comunista de Guerra" ao mesmo tempo em que apresenta a desculpa esfarrapada de que "nenhuma outra insurreição camponesa reproduziu as reivindicações de Kronstadt". ["In Defence of October", pp. 3-82, International Socialism, no. 52, p. 63]. Similarmente, elas constam apenas no "Prefácio Editorial" na obra trotskysta Kronstadt que apresenta apenas um resumo das exigências. Eis o resumo: "A resolução reivindicava eleições livres nos sovietes com a participação de anarquistas e revolucionários sociais de esquerda, legalização dos partidos socialistas e anarquistas, abolição dos Departamentos Políticos [nas frotas] e dos Destacamentos com Propósitos Especiais, remoção do zagraditelnye ottyady [tropas armadas utilizadas para impedir comércio sem autorização], restauração do livre comércio, e liberdade aos presos políticos". [Lenin e Trotsky, Kronstadt, pp. 5-6] No "Glossário" declaram que "exigiam mudanças econômicas e políticas, muitas das quais foram logo atendidas com a adoção do NPE." [Op. Cit., p. 148] Isso, ironicamente, contradiz Trotsky quando ele afirma ser "ilusão" pensar "que bastaria informar aos marinheiros sobre o decreto do NPE para pacificá-los". Além disso, os "insurgentes não tinham um programa consciente, e nem poderiam te-lo por causa de sua real natureza pequeno burguesa. Eles mesmos não tinham clareza de que seus pais e irmãos queriam acima de tudo comercializar livremente". [Op. Cit., p. 91-2] Assim, temos um levante que foi camponês em sua natureza, mas cujas exigências não possuíam nada de comum com outras revoltas camponesas. Que aparentemente exigia liberdade de comércio mas não a reivindicava. Era semelhante ao NPE, mas o decreto do NPE não satisfazia. Produziu uma plataforma de exigências políticas e econômicas mas, aparentemente, não tinha um "programa consciente". As contradições são abundantes. Essas contradições se tornam ainda mais evidentes quando observamos a relação das 15 exigências (coisa que os trotskystas nunca revelam). A lista completa dessas reivindicações são as seguintes: "1. Novas e imediatas eleições para os Sovietes. Os atuais Sovietes não mais expressam a vontade dos trabalhadores e camponeses. As novas eleições devem ser efetuadas pelo voto secreto, e precedidas por propaganda eleitoral livre. 2. Liberdade de expressão e de imprensa para trabalhadores e camponeses, para anarquistas e partidos socialistas de esquerda. 3. Direito de assembléia, liberdade sindical e liberdade de organização camponesa. 4. Organização, para o próximo 10 de março de 1921, da Conferência dos trabalhadores não-partidários, soldados e marinheiros de Petrogrado, Kronstadt e Distrito de Petrogrado. 5. Libertação de todos os prisioneiros políticos dos partidos socialistas, e de todos os trabalhadores e camponeses, soldados e marinheiros pertencentes à classe trabalhadora e organizações camponesas. 6. Eleição de uma comissão para observar os dossiês de todos aqueles que estão detidos em prisões e campos de concentração. 7. Abolição de todas as seções políticas das forças armadas. Nenhum partido político poderá ter privilégios para a propagação de suas idéias, ou receber subsídios estatais para esse fim. Essas seções políticas serão substituídas por vários grupos culturais, subsidiados com recursos do estado. 8. Imediata abolição dos destacamentos de milícia postados na cidade e no campo. 9. Equalização das rações para todos os trabalhadores, exceto aqueles engajados em trabalho perigoso e insalubre. 10. Abolição dos destacamentos de combate do Partido em todos os grupos militares. Abolição da guarda do Partido nas fábricas e empresas. Se a guarda for necessária, ela será formada, levando em conta o ponto de vista dos trabalhadores. 11. Garantia de liberdade de ação aos camponeses em suas próprias terras, e direito ao seu próprio rebanho, desde que eles mesmos se encarreguem disso e não empreguem trabalho assalariado. 12. Exigimos que todas as unidades militares e associações grupos treinados de oficiais acatem essa resolução. 13. Reivindicamos que a Imprensa divulgue apropriadamente esta resolução. 14. Reivindicamos a instituição de grupos móveis de supervisão de trabalhadores. 15. Exigimos que a produção artesanal seja autorizada desde que não utilize trabalho assalariado". [citado por Ida Mett, _The Kronstadt Revolt_, pp. 37-8] Este foi o programa descrito pelo governo Soviete como sendo uma "resolução dos Centenas Negras RS"! Este foi o programa que Trotsky sustentou como impregnado por "um punhado de camponeses e soldados reacionários". [Lenin e Trotsky, Kronstadt, p. 65 e p. 98]. Conforme pode ser visto, não existe nada disso. Na verdade, esta resolução está integralmente dentro do espírito dos slogans políticos dos bolshevikes antes deles subirem ao poder em nome dos sovietes. Além do mais, ela reflete os ideais delineados em 1917 e formalizados na Constituição do Estado Soviete em 1918. Nas palavras de Paul Avrich, "Com efeito, a resolução petropavlovsk foi um apelo ao governo Soviete para que cumprisse sua própria constituição, uma clara manifestação daqueles justos direitos e liberdade que o próprio Lenin professou em 1917. Em espírito, ela foi uma ressonância de outubro, evocando o velho lema leninista de 'Todo poder aos sovietes'". [Op. Cit., pp. 75-6] Um triste exemplo de "reacionarismo" político, a menos que os slogans da constituição da URSS em 1918 também fossem "reacionários". A questão agora vem à tona, tanto quanto as implicações contidas naquelas exigências. Na visão dos trotskystas, foram os interesses dos camponeses que as motivaram. Para os anarquistas elas expressam os interesses de todo povo trabalhador (proletariado, camponês e artesão) contra aqueles que pretendiam explorar seu trabalho e governá-los (sejam eles capitalistas privados, capitalistas estatais ou estado burocrático). Discutiremos este assunto na próxima seção.
4. Até que ponto a rebelião de Kronstadt refletiu "o desespero dos camponeses"?
Este é um argumento comum entre os trotskystas. Embora nunca tenham atendido as reivindicações de Kronstadt, sempre declaram que (usando as palavras de John Rees) aqueles marinheiros "representavam o desespero dos camponeses com o regime Comunista de Guerra". ["In Defence of October", International Socialism no. 52, p. 63] Para Trotsky, as idéias da rebelião "foram profundamente reacionárias" e "refletiam a hostilidade do camponês obtuso para com o trabalhador, a auto-valorização do soldado e marinheiro em relação aos 'civís' em Petrogrado, a aversão do pequeno burguês à disciplina revolucionária". A revolta "representou as tendências dos camponeses proprietários de terras, o pequeno especulador, o kulak". [Lenin e Trotsky, Kronstadt, p. 80 e p. 81] Até que ponto isso é verdade? Basta uma análise ligeira dos eventos ligados à revolta e à resolução Petropavlovsk (veja a última seção) para desmentir esta afirmação de Trotsky. Primeiramente, de acordo com a definição de "kulak" fornecida pelos próprios trotskystas, descobrimos que Kulak se refere ao "camponês abastado dono de terra e que contrata camponeses pobres para trabalhar para ele". [Op. Cit., p. 146]. Ora, o ponto 11 das reivindicações de Kronstadt explicita claramente sua oposição ao trabalho rural assalariado. Como poderia Kronstadt representar o "kulak" proclamando a abolição do trabalho contratado na terra? Claramente, a revolta não representava "o pequeno especulador, o kulak". Ela representava o camponês dono da terra? Retornaremos a esse assunto mais abaixo. Em segundo lugar, os revoltosos do Kronstadt enviaram delegados para investigar a condição dos trabalhadores em greve em Petrogrado. Suas ações foram inspiradas pela solidariedade para com aqueles trabalhadores e civis. Isto mostrava claramente que a afirmação de Trotsky de que ela "refletia a hostilidade do camponês obtuso para com o trabalhador, a auto-valorização do soldado e marinheiro em relação aos 'civís' em Petrogrado" é integralmente um total nonsense. Se essa afirmação de Trosky é "profundamente reacionária", as idéias que motivaram a revolta certamente não o foram. Elas foram a conseqüência da solidariedade com os trabalhadores em greve e uma chamada à democracia soviete, à liberdade de expressão, de assembléia e de organização dos trabalhadores e camponeses. Elas expressavam as necessidades da maioria, se não todos, dos partidos marxistas (incluindo o bolshevike em 1917) antes de tomarem o poder. Eles simplesmente repetiram as aspirações e os fatos do período revolucionário de 1917 e a Constituição Soviete. Conforme Anton Ciliga argumentou, esses desejos estavam "impregnados pelo espírito de outubro; e nenhuma calúnia do mundo pode colocar em dúvida a íntima conexão existente entre esta resolução e os sentimentos que guiaram as expropriações de 1917". ["The Kronstadt Revolt", The Raven, no, 8, pp. 330-7, p. 333]. Considerar as idéias da revolta de Kronstadt reacionárias, é o mesmo que considerar o slogan "todo poder aos sovietes" reacionário. Até que ponto aquelas aspirações representavam os interesses dos camponeses? Para responder isso precisamos verificar se elas representavam os interesses dos trabalhadores industriais ou não. Se as exigências estavam, de fato, em harmonia com as aspirações dos trabalhadores em greve e outros setores do proletariado então podemos facilmente descartar essa afirmação. Além do mais, se as reivindicações da rebelião de Kronstadt refletiram as aspirações dos proletários então é impossível dizer que elas refletiam simplesmente as necessidades dos camponeses (naturalmente, os trotskystas argumentarão que aqueles proletários eram também "obtusos" mas, com efeito, o que eles queriam dizer mesmo é que qualquer trabalhador que não obedecesse cegamente às ordens bolshevikes não passava de "obtuso"!). Basta uma passada de olhos para perceber que aquelas exigências já vinham ecoando desde Moscou e Petrogrado nas greves que precederam a revolta de Kronstadt. Por exemplo, Paul Avrich destaca que as exigências apresentadas nas greves de fevereiro incluíam "remoção dos bloqueios, permissão para efetuar colheitas no campo e para comercializar livremente nos vilarejos, [e] eliminação das rações privilegiadas para categorias especiais de homens trabalhadores". Os trabalhadores também "pediam que a guarda especial armada Bolshevique, restringisse suas atividades à função meramente policial, saindo fora das fábricas" e "apelando pela restauração dos direitos civis e políticos". Um certo manifesto que surgiu (anônimo mas com marcas de origem menshevike) argumentava, "os trabalhadores e camponeses necessitam de liberdade. Eles não querem decretos dos bolshevikes. Querem controlar seus próprios destinos". Coisas assim levaram os grevistas a exigir libertação de todos os presos socialistas e trabalhadores apartidários, abolição da lei marcial, liberdade de expressão, de imprensa, de assembléia para todos os trabalhadores, eleições livres dos comitês de fábricas, sindicatos, sovietes. [Op. Cit., pp. 42-3] Nas greves de 1921, de acordo com Lashevich (um comissário bolshevike) as "exigências básicas são sempre as mesmas: liberdade para comercializar, liberdade para trabalhar, liberdade de ir e vir, e assim por diante". Duas outras exigências chaves nas greves datam de antes de 1920. Elas pediam "pelo livre comércio e pelo fim dos privilégios". Em março de 1919, "Os operários da fábrica de carroçarias de veículos motorizados e vagões de trem de Rechkin exigiam rações iguais para todos os trabalhadores", uma das "exigências mais típicas dos trabalhadores em greve naquele tempo era a liberdade de providenciar seu próprio alimento". [Mary McAuley, _Bread and Justice_, p. 299 e p. 302] Conforme pode ser visto, a maioria dessas exigências estão relacionadas diretamente com os pontos 1, 2, 3, 5, 8, 9, 10, 11 e 15 das reivindicações de Kronstadt. Conforme Paul Avrich argumenta, as exigências de Kronstadt "ecoam não apenas o descontentamento da Frota Báltica mas também o descontentamento das massas russas nas vilas e cidades através do país. Da mesma forma que o povo comum, os marinheiros estavam preocupados com a situação dos seus parentes camponeses e trabalhadores. Na verdade, daqueles 15 pontos da resolução, apenas um ? a abolição dos departamentos políticos na frota ? tinha uma aplicação específica à sua própria condição. As demais . . . eram reclamações visando a política de Guerra Comunista, a justificação de que, aos olhos dos marinheiros e da população como um todo, [todas aquelas restrições à liberdade] tinham que desaparecer imediatamente". Avrich argumenta que muitos dos marinheiros que retornando para casa e vendo as más condições dos vilarejos pelos seus próprios olhos resolveram tomar a iniciativa formalizando uma resolução (particularmente no ponto 11, o único que menciona especificamente as exigências dos camponeses) mas "nessa mesma direção, a viagem de inspeção dos marinheiros nas fábricas de Petrogrado resultou na inclusão de suas principais exigências no programa ? a abolição dos bloqueios nas estradas, o fim das rações privilegiadas, e dos esquadrões armados dentro das fábricas". [Op. Cit., pp. 74-5] Ida Mett observa que a rebelião de Kronstadt não clamava simplesmente por "livre comércio" da forma como os trotskystas argumentam: "O levante de Kronstadt em 14 de março foi marcado pelo seu principal objetivo. Os rebeldes proclamaram que Kronstadt não estava pedindo simplesmente por liberdade de comércio mas pelo genuíno poder dos sovietes. Os grevistas de Petrogrado exigiam a reabertura dos mercados e a abolição dos bloqueios nas estradas implementados pelas milícias armadas. Suas exigências deixaram claro que a liberdade de comércio por si só não resolveria seus problemas". [Op. Cit., p. 77] Assim verificamos que os trabalhadores de Petrogrado (e de outros lugares) exigiam "livre comércio" (procurando, presumivelmente, expressar seus interesses econômicos tanto quanto os de seus pais e irmãos) ao passo que os marinheiros de Kronstadt reivindicavam acima de tudo o poder soviete! Seu programa exigia "Garantia de liberdade de ação aos camponeses em suas próprias terras, e direito ao seu próprio rebanho, desde que eles mesmos se encarreguem disso e não empreguem trabalho assalariado". Este foi o ponto 11 das 15 reivindicações, que mostrava o gráu de importancia diante de seus olhos. Esta reivindicação se baseava no comércio efetuado entre a cidade e os povoados, mas tratava-se de comércio entre trabalhadores e não entre trabalhadores e kulak. Mencionando "livre comércio" em sentido abstrato (como os trabalhadores fizeram) o povo de Kronstadt (refletindo as necessidades tanto dos trabalhadores quanto dos camponeses) se referia à livre troca de produtos entre trabalhadores, não entre trabalhadores e capitalistas rurais (i.e. camponeses que contratavam escravos assalariados). Isto indica seu alto gráu de consciência política, a consciência do fato de que trabalho assalariado é a essência do capitalismo. Conforme disse Ante Ciliga: "Muitas pessoas acreditaram que foi Kronstadt que forçou a introdução da Nova Política Econômica (NPE) ? um profundo erro. A resolução de Kronstadt pronunciou-se em favor da defesa dos trabalhadores, não apenas contra o capitalismo burocrático do Estado, mas também contra a restauração do capitalismo privado. Esta restauração foi exigida ? com a oposição de Kronstadt ? pelos sociais democratas, que combinavam esta aspiração com um regime político democrático. Tanto Lenin quanto Trotsky em grande parte realizaram isso (mas sem a política democrática) na forma da NPE. A resolução de Kronstadt [por sua vez] declarou-se inteiramente oposta ao emprego de trabalho assalariado na agricultura e na pequena indústria. Esta resolução, e os movimentos subjacentes, procuravam estabelecer uma aliança revolucionária entre os trabalhadores proletários e os camponeses, os setores mais pobres entre os trabalhadores do país, de modo que a revolução pudesse se desenvolver em direção ao socialismo. O NPE, por outro lado, representava a união dos burocratas com os mandatários dos povoados contra o proletariado; o NPE representou a aliança do capitalismo de Estado com o capitalismo privado contra o socialismo. O NPE em muito se opõe às exigências de Kronstadt da mesma forma que, por exemplo, o programa socialista de vanguarda dos trabalhadores europeus pela abolição do sistema de Versalhes se opunha à anulação do Tratado de Versalhes desenvolvido por Hitler". [Op. Cit., pp. 334-5] Com relação ao ponto 11, Ida Mett destacou, "ele reflete as exigências dos camponeses com os quais os marinheiros de Kronstadt tinham estreitas ligações ? da mesma forma que tinham, e isso é um fato, com todo o proletariado russo . . . Em sua grande maioria, os trabalhadores russos tiveram uma orígem camponesa. E isso precisa ser levado em consideração. Os marinheiros do Báltico no ano de 1921 estavam, sem sombra de dúvida, estreitamente ligados com os camponeses. Eles eram, nada mais nada menos, os mesmos marinheiros de1917". Ignorar os camponeses em um país onde a vasta maioria veio do campo é uma atitude insana (como os bolshevikes provaram). Mett destaca isto quando argumenta que "[o bolshevismo] foi um regime baseado exclusivamente na mentira e no terror e que nunca levou em conta as aspirações dos trabalhadores e dos camponeses". [Op. Cit., p. 40] Uma vez que a classe trabalhadora industrial russa estava também exigindo liberdade de comércio (e sem as cláusulas políticas, anti-capitalistas acrescentados por Kronstadt) sôa desonesto afirmar que os marinheiros expressavam puramente os interesse dos camponeses. Talvez isso explique porque os 11 pontos acabaram resumidos em "restauração do livre comércio" pelos trotskystas no "Prefácio Editorial" de Lenin e Trotsky. [Kronstadt, p. 6]. John Rees não menciona sequer uma das reivindicações (o que é surpreendente em uma obra que, em parte, tenta analizar a rebelião). A natureza dessa resolução passou pelo crivo da classe trabalhadora para que pudesse concordar com ela. Passou pelos marinheiros nos navios de guerra, pelos encontros de massa, pelo encontro de delegados de trabalhadores, soldados e marinheiros. Em outras palavras, pelos trabalhadores e pelos camponeses. J.G. Wright, acompanhando seu guru Trotsky (utilizando-o como única referência para seus "fatos", como um cego guiado por outro), mencionou "o fato incontestável" dos "marinheiros engrossando as forças insurgentes" enquanto que "a guarnição e a população civil permaneciam passivos". [Op. Cit., p. 123]. Dessa forma estaria caracterizada, aparentemente, a natureza camponesa da revolta. Vamos pois contestar esse "fato incontestável" (i.e. as afirmativas de Trotsky). O primeiro fato que é necessário mencionar é que afluíram ao encontro de 1o. de março "entre cinqüenta e sessenta mil marinheiros, soldados e civis". [Getzler, Op. Cit., p. 215]. Isto representava mais de 30% da população total de Kronstadt. O que dificilmente indica uma atitude "passiva" por parte dos civis e soldados. O segundo fato é que a conferência de delegados teve uma "participação em cerca de duas ou três centenas de marinheiros, soldados, e trabalhadores". Esta composição permaneceu existindo durante toda a revolta da mesma maneira que seu equivalente soviete de 1917, inclusive com delegados sovietes de Kronstadt representando "unidades militares e fabris". Na verdade, tudo aquilo representava, com efeito, um "protótipo dos 'sovietes livres' pelos quais os insurgentes se levantaram em revolta". Além disso, um novo Conselho Sindical acabara de ser formado, livre da dominação comunista. [Avrich, Op. Cit., p. 159, p. 157 e p. 157]. Será que Trotsky esperava que acreditassemos que os soldados e civis que elegeram estes delegados fossem "passivos"? O simples ato de eleger tais delegados envolveu discussão, tomada de decisão, além de uma ativa participação. Como é possível qualificar soldados e civis revoltosos de "apáticos e apolíticos"? Isto foi confirmado posteriormente pelos historiadores. Baseado em tais fatos, Paul Avrich destaca que a população da cidade "ofereceu suporte ativo" e que as tropas do Exército Vermelho "logo se posicionou em linha". [Op. Cit., p. 159]. Getzler por sua vez, destaca que as eleições foram defendidas também pelo Conselho de Sindicatos em 7 e 8 de março e que "o comitê do conselho era formado por representantes de todos os sindicatos". Ele confirmou que a Conferência de Delegados "havia sido eleita pelos grupos políticos de Kronstadt para que pudesse funcionar em unidades armadas, fábricas, lojas e instituições sovietes". Além disso, destaca que os revolucionários troikas (equivalente às comissões do Comitê Executivo do Soviete em 1917) foram também "eleitos pela base das organizações". O mesmo aconteceu com, "o secretariado dos sindicatos e o recém fundado Conselho de Sindicatos, ambos eleitos pelo conjunto dos membros dos sindicatos". [Op. Cit., pp. 238-9 e p. 240]. É muita atividade para ser implementada por pessoas "passivas". Em outras palavras, a resolução Petropavlovsk não apenas refletia as exigências do proletariado de Petrogrado, como também ganhou apoio dos proletários de Kronstadt, da frota, do exército e dos trabalhadores civis. Aquele que, mesmo diante de todas essas evidências, ainda insiste na afirmação de que a resolução de Kronstadt refletiu puramente os interesses dos camponeses, assemelha-se a uma avestruz que enterra a cabeça no chão na recusa de enxergar a realidade. Conforme vimos, o povo de Kronstadt (assim como os trabalhadores de Petrogrado) efetuaram exigências políticas e econômicas em 1921 da mesma maneira como fizeram quatro anos antes quando enfrentaram o Czar. Fato que, novamente, refuta a lógica dos defensores do bolshevismo. Por exemplo, Wright supera a si mesmo quando argumenta que: "A suposição de que soldados e marinheiros poderiam aventurar-se em uma insurreição sob o abstrato slogan de "sovietes livres" é por si só absurdo. E é duplamente absurdo diante dos fato [!] de que o restante da guarnição de Kronstadt consistia de pessoas passivas e obtusas que não poderiam ser utilizadas em uma guerra civil. Tais pessoas só participariam de uma revolução se movidos por profundas necessidades e interesses econômicos. Eles representavam os interesses e necessidades dos pais e irmãos daqueles marinheiros e soldados, ou seja, de camponeses e comerciantes de produtos alimentícios e de matéria prima. Em outras palavras aquela multidão era a expressão da pequena burguesia reagindo contra as dificuldades e privações impostas pela revolução proletária. Ninguém pode negar esse traço característicos desses dois setores". [Op. Cit., pp. 111-2] Naturalmente, dentro dessa perspectiva, nenhum trabalhador ou camponês participaria de um sindicato conscientemente pelos seus próprios esforços, conforme Lenin refletidamente argumentou em What is to be Done? Nem a experiência das duas revoluções poderia exercer impacto em ninguém. Estariam todos indiferentes à extensiva política de agitação e de propaganda de anos de luta? Seriam os marinheiros tão estúpidos a ponto de não ter nenhuma "profunda necessidade ou interesse econômico" próprios, adotando os interesses de seus pais e irmãos!? Na visão de Trotsky, eles ("não podiam compreender por si próprios que seus pais e irmãos queriam acima de tudo liberdade de comércio". [Op. Cit., p. 92]). Era este o conceito dos bolshevikes sobre os marinheiros que formavam a tripulação de alguns dos navios de guerra mais avançados do mundo? Essas lamentáveis asserções históricas de Wright revelam em cada palavra um gritante equívoco. Ora, o povo trabalhador constantemente apresenta exigências políticas que estão muito à frente das apresentadas pelos revolucionários "profissionais" (como aquele alemão que com a Comuna de Paris na mente, pouco ligava para aquela Rússia com seus sovietes). A verdade é que os marinheiros de Kronstadt não apenas "se aventuraram em uma insurreição sob o abstrato slogam por 'sovietes livres'" como realmente criaram um (a conferência de delegados), coisa que Wright não menciona. Acima de tudo, os marinheiros de 1921 foram virtualmente idênticos àqueles de 1917. Aqueles marinheiros não poderiam ser substituídos com tanta rapidez e facilidade devido à tecnologia requerida para operar as defesas e os navios de guerra de Kronstadt. Considerando "a influência dos marinheiros de origem camponesa nas tropas do Exército Vermelho contra o governo" é possível que os trotskystas argumentem que isso se dava devido aos "soldados rasos do Exército Vermelho . . . relutantes e desconfiados, que resistiam lutar contra o Kronstadt Vermelho, embora apontassem suas armas contra eles durante a batalha", isso também prova a natureza camponesa da revolta? [Sam Farber, Op. Cit., p. 192; Israel Getzler, _Kronstadt 1917-1921_, p. 243]. A fragilidade dos argumentos apresentados pelos trotskystas com relação a Kronstadt é tal que não resistem a qualquer análise séria! Por exemplo, é evidente que os trotskistas sabiam da natureza não-camponesa das reivindicações de Kronstadt (conforme indicamos na última seção). Foi isto que John Rees pateticamente reconheceu quando afirmou que "nenhuma outra insurreição camponesa reproduziu as exigências de Kronstadt". [Op. Cit., p. 63] Conforme indicamos acima, tanto greves, resoluções como também as atividades proletárias, todas elas produziram exigências similares ou idênticas às exigências do Kronstadt. Tais fatos, por si só, revelam a verdade (ou mentira) das asserções trotskistas nesse assunto. Vasculham greves no passado, mas falham não reconhecendo que as exigências surgiram após a delegação de marinheiros retornar de Petrogrado. Em vez de "motivação ligada aos camponeses" e de "insatisfação com as classes trabalhadoras urbanas" os fatos revelavam exatamente o oposto (conforme pode ser visto quando as reivindicações vieram à tona). [Op. Cit., p. 61]. O motivo da resolução teve suas origens nas greves em Petrogrado, incluindo naturalmente também a insatisfação dos camponeses (exposta no ponto 11). Para o povo de Kronstadt, a revolta dizia respeito a todos os trabalhadores e a resolução refletia tanto as necessidades e as exigências dos trabalhadores quanto dos camponeses. Agora, afirmar que Kronstadt refletia unicamente as condições e os interesses dos camponeses revela-se um monumental nonsense. Aliás, não foram as exigências econômicas que alarmaram as autoridades bolshevikes. Zinovioev estava para remover os destacamentos de bloqueio das estradas (ponto 8) enquanto que o governo desenhava aquilo que mais tarde tornou-se conhecido como Nova Política Econômica (NPE) que, diga-se de passagem, atendia parcialmente o ponto 11 (a NPE, diferentemente do que desejava o povo de Kronstadt, além de não abolir o trabalho assalariado, ironicamente, atendia aos interesses dos Kulaks!). O problema estava nas exigências políticas. Elas representavam um claro desafio ao poder bolshevike pela proclamação do "poder soviete".
kulak. fazendeiro russo, próspero do séc. XIX
5. Que mentiras os bolsheviks espalharam sobre Kronstadt?
Desde o começo os bolshevikes mentiram sobre o levante. Na verdade, Kronstadt proporciona um clássico exemplo de como Lenin e Trotsky utilizavam a difamação e calúnia para destruir seus oponentes. Ambos procuraram pintar a revolta como sendo organizada e conduzida pelos brancos. Em cada um dos estágios da rebelião, eles faziam questão de afirmar que ela fora organizada e dirigida por elementos da guarda branca. Conforme Paul Avrich escreveu, "fizeram de tudo para que os rebeldes fossem desacreditados" quando o "o principal objetivo da propaganda bolshevike era mostrar que o motim não foi uma explosão espontânea das massas em revolta mas uma nova conspiração contra-revolucionária, seguindo o modelo estabelecido durante a Guerra Civil. De acordo com a imprensa Soviete (governo), os marinheiros, influenciados pelos menshevikes e pelos RSs, tinham desavergonhadamente se vendido aos 'guardas brancos' subordinando-se um general do Tzar chamado Kozlovksy . . . Tomando parte em uma cuidadosa conspiração de desmantelamento [da Revolução] desenvolvida em Paris por imigrantes russos em conexão com a contra-inteligência francesa". [Op. Cit., p. 88 e p. 95] Lenin, por exemplo, argumentou no Décimo Congresso do Partido Comunista em 8 de março que "Generais da Guarda Branca tiveram uma participação bastante ativa alí. Existem muitas provas disso" e que ela foi "obra de Revolucionários Sociais [RSs direitistas] e emigrantes da Guarda Branca". [Lenin e Trotsky, Kronstadt, p. 44] O primeiro comunicado do governo sobre os eventos do Kronstadt trazia o título de "A Revolta do Ex-General Kozlovsky e o Navio de Guerra Petropavlovsk" declarando, em parte, que a revolta foi "determinada, e indubitavelmente preparada pela contra-inteligência francesa". A descrição continua, afirmando que pela manhã do dia 2 de março "o grupo dirigido pelo ex-general Kozlovsky . . . entrou em ação . . . [ele] juntamente com tres de seus oficiais . . . assumindo a direção dos insurgentes. Sob sua comando . . . uma quantidade de . . . indivíduos responsáveis, foram presos. . . Na retaguarda dos RSs havia um general tzarista". [Op. Cit., pp. 65-6] Victor Serge, um anarquista francês que se tornou bolshevike, lembrou que ele foi a primeira pessoa a receber a notícia de que "Kronstadt estava nas mãos dos brancos" e que "pequenos cartazes pregados nos muros nas ruas proclamavam que o contra-revolucionário general Kozlovsky submetera Kronstadt através de conspiração e traição". Com o passar dos dias, a "verdade pouco a pouco começou a aparecer, diluindo a cortina de fumaça vinculada pela imprensa, um amontoado de mentiras". (na verdade, ele afirmou que a imprensa bolshevike "mentia sistematicamente"). Ele descobriu que a versão oficial bolshevique era "uma mentira atroz" e que, na verdade, "tratava-se de um motim de marinheiros, uma revolta naval dirigida pelo soviete". Contudo, o "pior de tudo foi a paralização provocada pela fraude oficial. Isso nunca havia acontecido antes, o Partido mentindo assim para nós. ?Isto é necessário para o benefício do público' alguém disse . . . a greve [em Petrogrado] agora é praticamente geral" (importante destacar que Serge, nas páginas anteriores, referindo-se a Nestor Makhno, menciona "a extrema calúnia vinculada pela imprensa comunista" sobre ele, "insistindo em acusá-lo de assinar pactos com os brancos num momento em que ele estava engajado em uma luta de vida ou morte contra eles", sugerindo que Kronstadt foi desgraçadamente a primeira vez que o Partido mentiu para ele). [_Memoirs of a Revolutionary_, pp. 124-6 e p. 122] Da mesma forma, Isaac Deutscher, o biógrafo de Trotsky, disse que os bolshevikes "acusaram os homens amotinados de Kronstadt de contra-revolucionários conduzidos por um general branco. Uma denúncia que aparentava ser infundada". [_The Prophet Armed_, p. 511] A afirmação de que a rebelião de Kronstadt era obra de brancos e conduzida por um general tzarista branco foi uma mentira ? uma mentira deliberada e conscientemente espalhada. Ela foi forjada visando enfraquecer o apoio à rebelião em Petrogrado e no Exército Vermelho, e para evitar que se espalhasse. O próprio Lenin admitiu em seu discurso em 15 de março na Décima Conferência do Partido que em Kronstadt (contrariando o que dissera em 8 de março) "eles não necessitavam dos guardas brancos, nem de nosso poder tampouco". [citado por Avrich, Op. Cit., p. 129] Se você concordar com o marxista italiano Antonio Gramsci quando ele diz que "falar a verdade é um ato comunista e revolucionário" então fica claro que os bolshevikes em 1921 (e previamente) não foram nem comunistas nem revolucionários. Os editores trotskystas de Kronstadt mostram a mesma versão dos bolshevikes como sendo expressão da verdade. Nesta obra, eles apresentam uma "introdução" de Pierre Frank que argumenta que os bolshevikes simplesmente "declararam que generais[brancos] contra-revolucionários empenharam-se na manipulação de insurgentes" e que os anarquistas "por sua vez proclamavam que tais generais tinham dado início à rebelião e que Lenin, Trotsky juntamente com toda liderança do Partido sabiam que não se tratava de uma mera revolta de 'generais'". [citado por Ida Mett]. Pelo que se pode apreender de tais autores, aparentemente, procuravam justificar que "alguma coisa tinha que ser feita diante desses fatos" . Ele declara que Mett e outros "simplesmente distorceram as posições bolshevikes". [Op. Cit., p. 22] Esta mesma obra estabelece que aquilo que Lenin realmente queria dizer em 8 de março de 1921 era que, "a imagem familiar dos generais da guarda branca" veio "rapidamente à tona", e que "os generais brancos eram muito ativos" alí, e que era "totalmente claro que aquilo era obra de Revolucionários Sociais (RSs) e emigrantes da guarda branca" e que Kronstadt tinha "ligações" com "a guarda branca". [Op. Cit., pp. 44-5]. Isto foi declarado a despeito da presença das declarações governamentais que mencionamos acima em que o governo bolshevike claramente se refere à prisão de dois líderes comunistas sob o "comando" de Kozlovsky que, por sua vez, "demonstrava" apoio à direita-RSs cujas movimentações originaram à revolta (de acordo com os bolshevikes). Primeiramente, é incorreto associar Ida Mett às declarações de Lenin e Trotsky sobre o general que "iniciara" a revolta. Em segundo lugar, ela apenas repetiu a versão da rádio de Moscou sobre a revolta ("apenas mais uma insurreição da guarda branca"), que se tr |