Em junho de 2001 teve início em São Vicente um projeto piloto do Governo Federal em parceria com a Prefeitura desta cidade, com o pomposo nome de “Projeto Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano”. Ao Governo Federal caberiam as verbas e diretrizes “pedagógicas”, enquanto à Prefeitura ( e eventuais “parceiros”) estava designado o papel de gerenciadora dos recursos e aplicadora do projeto. Este consistia no seguinte: selecionar mais de 100 jovens de periferia em situação de “risco social”, pagar-lhes uma bolsa de R$65,00 mês, ministrar-lhes cursos de “cidadania” com a finalidade de torna-los agentes executores de projetos permanentes (nas áreas de saúde ou educação) em suas comunidades de origem.
O projeto teria duração de um ano, sendo que os primeiros seis meses estavam destinados à parte “teórica” e elaboração do tal projeto “permanente”, que seria aplicado nos próximos seis meses em caráter de experimentação... Até aqui tudo muito bonito, com matérias em jornais e TVs locais, visitas de figurões de ministérios etc. Mas é óbvio que o odor de picaretagem e corrupção, emanado da Prefeitura Municipal de São Vicente e sua “parceira”, a Ong Associação de Apoio ao Município (criada e dirigida por funcionários públicos e parentes de vereadores), evidenciava o que estava por vir.
Como Instrutor contratado para este projeto, estabeleci com os companheiros (então no CAVE Coletivo Alternativa Verde e Rede Libertaria da Baixada Santista, uma estratégia de ocupação do espaço no núcleo da Favela Catarina de Moraes (onde atuei), ignorando a “cartilha”federal para o projeto e representando o papel de “Instrutor-cidadão”para os picaretas da Prefeitura e sua”Ong”. Trabalhando, então, com 25 adolescentes, que já no primeiro mês não receberam sua bolsa (e eu tampouco o meu salário), optamos pela rápida criação de inúmeros cursos e atividades no local, a fim de aproveitarmos ao máximo a visibilidade decorrente, pressionando os putos dos Políticos, para que liberassem as verbas que enfiavam gulosamente em seus bolsos. Em menos de 6 meses estavam funcionando o Curso Preparatório Para o Vestibular e o Curso Comunicativo de Italiano, organizado pelos próprios Agentes Jovens de forma auto gestionada e atendendo cerca de 60 pessoas da comunidade. Colocamos em pauta, ainda, projetos para cursos de xadrez, marcenaria, artesanato, música e a criação de uma biblioteca (que já contava com mais de 800 volumes).
Tudo indicava que a nossa expulsão do espaço (então almejada pelos “dirigentes”políticos do projeto) estaria, assim, dificultada... Infelizmente não contávamos com possibilidades surrealistas, como a demolição do espaço sem aviso prévio e a transformação (meses depois) de nossa quase escola moderna em um boteco com sinuca (!)...
Após nossa expulsão do espaço em que funcionavam os cursos e a sua nova destinação “social” imposta pelos burocratas da Prefeitura de São Vicente, ou seja, uma duvidosa sede de “Agentes de Saúde”, aos fundos, mas boteco com sinuca à frente (pois o espaço pertencia a uma “Associação de Moradores”, ociosa há anos, exceto como bar, de propriedade de funcionários ligados à administração municipal), fui, obviamente, demitido, alguns garotos foram afastados do projeto sem justificativa e outros permaneceram por mais cinco meses (o tempo restante para findar as bolsas de estudo) literalmente “batendo ponto” durante duas horas diárias com uma instrutora inepta que tinha por única função vigiar aquelas vinte e tantas fontes de renda, ou seja, os garotos do Projeto Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano. Muitos, após o termino do prazo de permanência no projeto, não receberam suas bolsas atrasadas por meses, outros (poucos), receberam através de muita luta e insistência. Todos foram cadastrados (com CPF, RG, comprovante de endereço, renda e etc.) em outros projetos sociais pela mesma prefeitura e sua Ong picareta (Associação de Apoio ao Município), como, por exemplo, o “vale-gás”, que nunca entregou gás algum...
Não desistimos e fomos à luta por espaço no próprio bairro. Os cursos funcionaram por algum tempo em uma pequena creche da comunidade, mas o estrago provocado na auto-estima dos adolescentes, que viram mais uma vez o poder público intervir em suas vidas de modo desastroso, alem da precariedade das instalações da creche para nossos objetivos, não permitiu que continuássemos as aulas por algum tempo.
Ainda assim, insistimos, alunos e professores, na luta por espaço e pela continuação de nosso trabalho. O resultado de toda esta luta de mais de dois anos concretiza-se na reabertura dos cursos, e na permanência de alguns daqueles jovens, vilipendiados e humilhados pelo poder público, que acreditaram e estão conosco até hoje. Este mês marca o inicio das aulas do pré-vestibular, italiano e inglês, na nova casa, reformada coletivamente, por professores e alunos, já contando com uma grande quantidade de livros, tanto para apoio didático quanto para a realização de uma biblioteca aberta. Propostas para outros tipos de curso (de marcenaria e artesanato a filosofia e formação política) estão em pauta, visto que nossa idéia da ocupação de espaços em áreas de periferia, como é o caso, não partiu nunca de uma visão assistencialista ou politiqueira, mas, sim, de uma proposta libertária, fundamentada na tradição anarquista da promoção da educação pela autoformação em coletivos educativo-culturais, atuantes na vida social e politica da região onde estão estabelecidos.
Esta a proposta, em linhas gerais, da recém-nascida LER (Liga de Educação e Resistência), formada por alunos de escola pública, de universidades (publicas e privadas), inspetores de alunos, professores de escola pública, monitores de creches públicas e companheiros, que de uma forma ou de outra, estão envolvidos com a subversão da educação enquanto dispositivo de poder.
Nosso objetivo aqui ao relatar esta experiência é alertar aos companheiros que trabalham agora ou que irão trabalhar com este tipo de projeto. O Projeto Agente Jovem, após os “excelentes” resultados “avaliados” em São Vicente espalhou-se (e espalha-se) por todo o Brasil, com nenhuma alteração levada a efeito pelo governo Lula. As verbas existem (e não são poucas) e a volúpia de prefeituras e “associações” (responsáveis por administrar o projeto em suas cidades, com total autonomia para isso) por engoli-las a qualquer custo pode causar danos irreparáveis em adolescentes e comunidades inteiras. Nós, anarquistas, e que trabalhamos com educação, não podemos permanecer indiferentes à participação em tais projetos, não apenas elaborando um “plano B”, mas, na medida das possibilidades, denunciando, cobrando e, sobretudo, inserindo-se nos buracos (ou rombos) deixados pelo estado burguês nas comunidades carentes deste país.
Nossa casa está funcionando plenamente na Vila Fátima, São Vicente-SP. Estamos necessitando urgentemente de voluntarios nas áreas de quimica, geografia e biologia, alem de doações de materiais e/ou recursos financeiros. Reiteramos este apelo pois trata-se de um projeto gerido unicamente com recursos próprios e dependente da atuação conjunta de voluntarios e comunidade.
Saudações libertárias!
(Projeto Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano de São Vicente , “Nome aos Bois”:
Responsável pelo projeto: Prefeito de São Vicente, Marcio França (PSB)
Secretario de Ação e Cidadania: Bili
Chefe do Depto. de Juventude da Secretaria: Fernanda
Presidente da “Ong” (AAM): a mesma Fernanda
Coordenadora fictícia do Projeto: Rosana
Coordenadora real: ainda a mesma Fernanda
Quantidade de adolescentes envolvidos: 100 (em 04 regiões de periferia)
verba estimada por mês: R$8.000,00)
