A proposta desta conferência foi feita a aproximadamente 1 ano e meio atrás, em especial por alguns coletivos anarquistas de Nova York que já haviam tido uma experiência desta natureza em sua cidade. A partir de um encontro regional de anarquistas não-brancos pensaram como isso poderia acontecer nacionalmente. Fizeram contatos com outros grupos anarquistas que estavam de alguma forma pensando e discutindo as questões raciais dentro do movimento libertário e na sociedade norte-americana. Aqui tenho que abrir um parênteses porque existe uma condição fundamental para continuar este relato. Muitas pessoas no Brasil questionaram a natureza desta conferência com uma proposta de reunir anarquistas não-brancos dentro do movimento libertário. Bem, de prontidão tenho que dizer que em hipótese alguma se pode comparar o racismo brasileiro com o racismo norte-americ ano, a não ser é claro que ambos são odiosos, sem se contextualizar muitos elementos, que no caso se iniciam com as diferentes colonizações, e isso eu não pretendo fazer agora. Não se discute muito se mulheres anarquistas devem ou não se reunir para discutir o feminismo e sexismo, de uma maneira direta e tentando não ser reducionista, da mesma maneira a identidade racial dentro do movimento anarquista faz muito sentido que seja discutida por quem mais sofre o racismo aqui, que são as pessoas não-brancas. Apesar de que este não era necessariamente o objetivo da conferência. Isso não impediu também que anarquistas brancos participassem da conferência, eles estavam lá.

A questão racial sempre foi foco de luta dos anarquistas em qualquer parte do mundo, mas o que acontece aqui nos EUA é que o movimento anarquista é esmagadoramente composto de pessoas brancas, e os anarquistas estão sujeitos a influência do lugar em que vivem, considerando que uma dose de realidade sempre é imprescindível para as transformações que queremos. Acontece que esta influência social no movimento anarquista não se dá pelo fato de você talvez ter racismo entre anarquistas, nunca vi isso, mas pela condição e experiência de cada pessoa. A realidade e a vida que levou e leva um anarquista branco de classe média é muito diferente daquela de um anarquista negro e pobre. As questões raciais foram determinantes em muitas destas coisas. Um exemplo disso foram conversas com anarquistas brancos sobre o que achavam de uma Conferência como esta. Todos com quem estive concordavam e apoiavam incondicionalmente esta iniciativa, não pensavam que ela era segregacionista ou discriminatória, mas que era sim uma contribuição a mais para todos os anarquistas. Em uma das oficinas apresentadas, com o tema sobre supremacia branca e constituição norte-americana, ficou muito clara a compreensão de que racismo e luta de classes estão juntos. Para se ter uma idéia do que estou falando um sujeito chamado David Dooke foi eleito para o senado pela Lusiania com mais de 600 mil votos. Acontece que ele era simplesmente um dos responsáveis diretos pela organização de grupos armadas (grupos paramilitares) antiimigrantes. Recentemente foi publicada a biografia dele e é incrível a semelhança com o "minha luta" de Hitler. Este senador tinha como plano de governo a extinção de imigração para os EUA de toda pessoa não-branca ou de países de terceiro mundo. Não tenho a intenção de justificar ou discutir a conferência aqui ou responder as críticas que foram fei tas, mas espero que estes exemplos sirvam para parte desta compreensão.

Sobre a conferência então. No dia 3 (sexta-feira), o primeiro dia, aconteceu o credenciamento dos participantes e o início das apresentações individuais. Apenas no dia 4 (sábado) deram-se início as oficinas e apresentações propostas. A variedade de trabalhos foi uma coisa evidente. Pela manhã podemos conhecer o trabalho que os participantes realizavam em rápidas e breves apresentações. A tarde aconteceram oficinas com os temas: "Mulheres não-brancas e feminismo", "Auto-defesa e auto-proteção", "Uma introdução e aplicação da Teoria Racial Crítica para anarquistas", "Meus poemas na rua: Explorando a identidade fronteiriça, história e legado de mulheres lésbicas e bissexuais não-brancas", "afro-punk: a experiência do rocknroll negro", "Organização contra repr essão e brutalidade policial", "Para compor o congresso: nacionalismo branco nos EUA", "Direcionando o sexismo nos movimentos, na comunidade e em nós mesmo", "Olhando para os Direitos", "Começando grupos locais de Copwatch - oficina de vídeo", "Zona de direitos humanos no sul do Bronx e em comunidades alternativas", terminando o dia com uma assembléia.

Na verdade nem todas as oficinas aconteceram como estava na programação. Existiram mudanças de horário e até de dia, porque alguns responsáveis pelas oficinas não conseguiram chegar a tempo e foi necessário um remanejamento de salas e horários. Por exemplo, acabei participando de uma oficia sobre anarquistas na Palestina que estava marcada para o dia 5 (domingo), pois exatamente a oficina sobre Teoria racial iria acontecer no domingo e não no sábado como estava marcada. De qualquer maneira isso não impediu e nem prejudicou muito os debates. A qualidade das discussões foi em grande parte muito construtiva, até porque a experiência de trabalho e de ativismo que as pessoas possuíam não poderia passar sem ser notada. Nos intervalos entre as oficinas e nas conversar par a tomar um café, pude me dar conta que o anarquismo continua atuante, significativo e contestador. Muitas pessoas eram educadores, estavam trabalhando com comunidades, em escolas, prisões, disseminando a chama libertária por onde viviam. Outra coisa que chamou a atenção foi o fato de muitas pessoas terem um trabalho nitidamente anarquista mas não necessariamente valerem-se da ideologia anarquista, como por exemplo o trabalho que vem sendo feito na Palestina. As organizações e assembléias que vem sendo realizadas por lá possuem um caráter autogestionário e os anarquistas não tem tido no foco de suas ações a preocupação em dizer que são anarquistas ou não, mas procuram criar espaços genuinamente autônomos. Esta diversidade de atuações apenas contribuiu para melhorar o que estava sendo proposto. Mesmo assim acredito que alguns pontos poderiam adotar uma postura mais radical. Falou-se pouco, por exemplo, sobre ação direta e sobre a diferença e semelhança dos anarquistas não-brancos em trabalhos com anarquistas brancos e como a questão racial poderia ser notada. Outra oficina que participei foi sobre "nacionalismo branco e constituição norte-americana". A pessoa que coordenou a oficina, Eric Ward possui um trabalho muito consistente na luta contra a soberania branca nos EUA. Recentemente fizeram um levantamento de quantos grupos em favor da soberania branca estavam em atuação nos EUA. A conclusão foi alarmante: nada mais nada menos que 200 mil! Isto os mais atuantes, aqueles que organização manifestações, jornais, periódicos, pois o número pode ser muito maior. Vão desde skinheads que perambulam pelas ruas querendo agredir as pessoas até presidentes de multinacionais e políticos da Casa Branca. Um debate provocador porque trazia a idéia de que a raça nos EUA tinha o poder de determinar que tipo de experiências uma pessoa teria na vida. Dava o exemplo de comunidades brancas que estavam muito preocupadas com a partic ipação de pessoas não-brancas na polícia e na política. Tinham (os brancos) uma clara compreensão de que os EUA está cada vez mais se tornando um país de outras raças e não apenas branca. Uma coisa um pouco complexa que coloca os brancos como sendo minoria. Um ponto que, na minha opinião, deveria ser melhor tratado e que não vi, foi falarem do racismo de pessoas não-brancas. Porque aqui você pode encontrar, por exemplo, pessoas negras falando contra os imigrantes latinos e se dar conta que o discurso é idêntico aos nacionalistas direitistas brancos. Depois pude assistir ao filme sobre identidade de pessoas negras na cena punk-hardcore. Muitos depoimentos de diferentes partes dos EUA, o papel político e a influência da música negra dentro do punk. Você começa a pensar que Chuck Berry sem dúvida era punk, só faltava o moicano! Além das cenas de um show do Bad Brains que dava vontade de dar um mosh no meio das cadeiras! Você pode saber mais em www.afropunk.com.

A noite chegou e como não podia faltar teve uma festa. Dançando a noite quase toda (até porque estava fazendo um frio muito grande!), ao som de uma discotecagem totalmente faça-você-mesmo, que foi de salsa-merengue até Sin Dios, os anarquistas mostraram que são bons de salão também. Lógico que depois de algumas cervejas, não se falava tanto de Bakunin, mas mesmo assim conversamos muito sobre a conferência e debates que aconteceram. Resumindo: boa música, boas idéias, boa diversão, ou seja, boa festa!

O dia 5 (domingo) e último. As oficinas aconteceram com temas sobre: "herb, medicina popular", "Começando uma coalizão multicultural", "Libere suas palavras: falando de liberação", "Letras presas: espancando o complexo industrial prisional", "Começando a trabalhar por uma organização de pessoas anarquistas não-brancas", "A droga da Guerra: anarquistas não-brancos respondem", "Organizando 101", "anarquistas no movimento de solidariedade a Palestina" (que aconteceu ontem), "O movimento anti-guerra e o papel dos anarquistas não-brancos", " Continuação da oficina de auto-defesa" , "Anti-ALCA e as preparações para Miami".

Fui participar da oficina sobre o "Complexo industrial prisional". Muito interativa, a facilitadora do trabalho realizou uma adaptação inspirada no Teatro do Oprimido de Augusto Boal. A idéia era criar um conceito e uma intervenção no que significa Complexo Industiral Prisional. Depois participei da discussão sobre os protestos que estarão acontecendo sobre a ALCA em novembro em Miami. Não se falou nada de novo para quem esta acompanhando os debates sobre a ALCA, mas ficou evidente a preocupação com as ações em Miami, principalmente que tipo de ação direta será mais eficaz. A Florida, onde esta Miami é um estado bem conservador e estrategicamente um pouco mais difícil o acesso. Não se traçou planos de ação ou alguma estratégia por uma questão clara de segurança, mas foram feitos importantes contatos para melhorar o ato e possíveis ações conjuntas em nov embro. Por fim participei da continuação da oficina de autodefesa. Técnicas de confronto corpo-a-corpo e pancadaria contra o capitalismo! Como se defender de violência policial e também na rua contra qualquer pessoa que queira te agredir. Ótimo para quando encontrar skinheads nazistas. Lembrei das minhas aulas de capoeira.

Por fim, a assembléia de resolução da conferência. Alguns pontos chaves:

- manter sempre a descentralização, coletivismo e cooperação na organização;

- incentivar o crescimento das pessoas para terem seus trabalhos e ações efetivados;

- iniciar e manter a contra-cultura usando todo tipo de comunicação para resistir a ilegalidade da autoridade, racismo, sexismo e capitalismo, criando alternativas contra a cultura de dominação;

- fortalecer a luta pela união de bairros e de comunidades;

- saber da história local e das lutes anti-racistas;

- revolução e cultura para as transformações;

- basear-se em modelos de revoluções e organização não-brancas;

- paciência e comunicação direta;

- desenvolver princípios de tolerância;

- reconhecer, analisar e destruir o imperialismo norte-americano;

- perseverança;

- priorizar a educação popular;

- discussão em grupo;

- criar e ampliar meios de comunicação para divulgação anarquista;

- incentivar laboratórios de novos métodos para a organização de espaços comunitários e libertários;

De uma maneira geral as pessoas tiraram boas conclusões, fizeram bons contatos e não houve maiores incidentes (existia uma certa tensão por conta de ameaças feitas por agentes do FBI que durante a organização da conferência ameaçaram impedi-la por considerarem um evento "suspeito e subversivo"), e ficou uma pergunta principal no ar: devesse criar um movimento de anarquistas não-brancos? O que definiria este movimento? Suas atuação e participação dentro do movimento anarquista de uma maneira mais ampla? Não seria possível tirar nenhuma resolução naquele momento. Uma decisão como esta precisa de tempo e uma maior participação de pessoas e grupos e nisso todos estiveram de acordo. Ficou também de se criar fóruns de discussão e de apoio a todos aqueles que quiserem realizar encontros locais. Outra conferência nacional seria realizada daqui a aproximadamente 2 anos. A conferência teve o êxito de reunir diferentes experiências em pouco tempo e espaço. E volto a dizer que ela fez contribuir com a pluralidade de idéias e de posturas sempre presente no meio anarquista. A contribuição de todos para a realização da reunião, tanto de pessoas brancas como não-brancas, mostra que o anarquismo tem continuado a contribuir profundamente para a resistência contra qualquer preconceito e contra o sistema capitalista que joga muito bem com isso. Sempre em um encontro aonde você tem pessoas comprometidas com as propostas feitas, te fazem crescer e animar um pouco mais, pois são verdadeiros rebeldes e você sabe que pode contar com eles. Assim são os autênticos anarquistas!

Paz e força para todos os que estiveram nesta conferência e que irão compartilhar seus frutos com todo/as companheiro/as.

Saúde!

*Para mais informação você pode ver: www.illegalvoices.org e Anarchist People of Color Zine:  emelda@rebelgrrrl.org



--------------------------------------------------------------------------------


agência de notícias anarquistas-ana
a noite flutua

e as rosas dormem mimosas

aos beijos da lua