AFROFUTURISMO
Jersson de Oliveira

1. ROTAS DE NAVEGAÇÃO PELO ATLÂNTICO NEGRO

Re-escrever a diáspora africana (África América) sob a experiência da abdução/ficção-científica? Registrar, recuperar, alimentar e desenvolver possibilidades múltiplas de matriz cultural dentro de um mesmo território - aqui concebido tanto em termos geopolíticos tradicionais como cibernéticos de uma zona de interações eletromagnéticas, simulações e trocas codificadas de ideologia? Num mundo de armas (como ensina o hip-hop viro-hipnótico de Prince Paul), todas as tecnologias de registro e propagação de memes são legítimas, e assim devem ser usadas; como já propunham os Black Panthers, devemos dominar a linguagem e usá-la como espada para rasgar o caminho por entre os véus da mentira lingüística que vêm mantendo o controle da palavra e do turno de fala.



2. A HISTÓRIA É UM PESADELO DO QUAL NÓS TEMOS QUE ACORDAR


“...um povo roubado mantido num estado colonial numa terra roubada...
seqüestrados em seu próprio solo, transportados milhares de quilômetros
pelo oceano e deixados numa terra estranha e numa situação totalmente hostil...”
- ELDRIDGE CLEAVER (Black Panthers), 1968

“um grupo de seres é invadido por uma raça alienígena, capturado e arrastado por uma vasta distância a um “Mundo Novo”, onde são escravizados e mais tarde libertos após uma guerra quase apocalíptica.”
- JEFFREY ALLEN TUCKER

“os afro-americanos são, num sentido bem real, os descendentes de abduzidos por alienígenas; eles habitam um pesadelo de ficção científica no qual campos de força invisíveis, mas não menos intransponíveis, frustram seus movimentos; as histórias oficiais desfazem o que foi feito; e a tecnologia é, com grande freqüência, experimentada sobre os corpos negros...”
- MARK DERY



3. SOM E FÚRIA

Uma análise esquizofônica mostra como a estrutura social é organizada em torno da tensão entre o som (os que tem direito de voz) e o silêncio (os que não tem). Por isso a voz negra soava como uma contradição: como pode o silêncio falar?

Músicos negros rapidamente perceberam como o trinômio som-ruído-silêncio informa/designa/molda o eixo-realidade, atingindo força coercitiva por vezes maior que a da lei.

O primeiro a mixar com a escrita o imaginário musical negro foi W. E. DuBois, que abre com vinhetas musicais cada um dos capítulos de “The Souls of Black Folks”. “The Sorrow Songs”, que é o último capítulo, registra e comenta preciosas canções de trabalho afro-americanas.


“Cada nação moderna pode esquissar séculos da sua vida sentimental, política e artística, apenas com uma coleção de cantigas”
– JOÃO DO RIO, “A Musa das Ruas”, 1908.

“Mais do que as cores e as formas, são os sons e seus arranjos que formatam as sociedades... Qualquer teoria do poder, nos dias atuais, deve incluir uma teoria de localização do ruído e sua possibilidade de dotar-se de forma”
- JACQUES ATTALI, "Políticas do Ruído".


É pelo jazz que vêm as primeiras experiências em transgredir a organização sonora do mundo com o objetivo de reorganizá-lo em perspectiva hologrâmica. Ao re-imaginar o som, re-imaginamos o mundo.

Sun Ra é o elemento mais importante da história da ficção-científica negra, pois sua música e toda a mitologia interplanetária que cerca seu personagem são o ponto de partida (ético e estético) para o afrofuturismo. É em suas obras solares entre as décadas de 50 e 60 que encontraremos o começo de uma abordagem musical que seria marcante em outros músicos afro-americanos décadas depois, sobretudo pelo uso personalíssimo de sintetizadores e câmaras de eco. Para muitos desses músicos, ouvir os álbuns do filósofo-rei da afrociberdelia teve o peso de uma verdadeira revelação.

Precisão e disciplina marcavam sua abordagem do caos e sua tradução do mesmo em formas estéticas livres. Em seus melhores momentos com a Myth Science Arkestra, Sun Ra nos dava a impressão de que no fundo da floresta havia um alçapão pelo qual era possível chegar até a lua. São tons cósmicos para terapia mental e formas artísticas multidimensionais que talvez só venham a ser inteiramente catalisadas amanhã.

Em seus escritos, Sun Ra se preocupou com a recuperação da palavra, como podemos perceber nestes dois fragmentos:


“A avaliação apropriada das palavras e das letras em seu sentido fonético e associado pode conduzir o povo da terra à límpida luz da sabedoria cósmica pura.”

...............


A Sombra do Fogo


“As vibrações dos sons parecem as mesmas
mas o sentido dos sons
toma direções separadas
nas encruzilhadas
do Ponto-Cósmico da flecha...
Para além desta Era
pela escuridão de anos iluminados
pelos anos iluminados da escuridão
pela escuridão pura da luz pura.
A luz é como a escuridão
já que a luz é a imagem
e a sombra do fogo.”


O pequeno poema “A Sombra do Fogo” é magistral por sua aparente quantidade de contradições, no melhor estilo Chuang-Tzu. Esse tipo de pensamento sintético, empenhado na dissolução das oposições, é característico das artes herméticas e é bom não nos esquecermos que Sun Ra representa a restauração da linhagem egípcia. Sua poesia, servindo-se do som-luz como matéria-prima, é rica nessa síntese de oposições – por exemplo, para batizar sua “arquestra” (arca+orquestra), Sun Ra cunharia vários termos, entre eles MitoCiência (Kodwo Eshun é quem recupera esse conceito e torna-o pivotal para a compreensão da música eletrônica negra.) Os títulos de suas peças são altamente evocativos e únicos: “Tiny Piramids”, “Love in Outer Space”, “Ancient Ethiopia”, “Rocket #9”...

Pharoah Sanders é outra figura importante do afrofuturismo. Em seu nome e em peças acertadas como “Yemanja”, “Our Roots Began in Africa”, “Black Unity”, “Upper Egypt and Lower Egypt”, encontramos mais e mais chaves para um cânone musical afrofuturista que aponta para a aludida restauração egípcia.

Coltrane também teve seus momentos de militância tanto black como de f(icção)-c(ientífica), em peças alusivas como “Stellar Regions” e “Africa”; o mito solar reaparece para ele em “Sun Star”.

Miles Davis entra nesse cânone, e também Jimi Hendrix. Os dois foram pioneiros na pesquisa e uso de efeitos de estúdio que soavam bastante futuristas à época e que acabariam sendo assimilados pelos músicos de rock e jazz nas décadas seguintes – especialmente o Hendrix de “Axis: Bold as Love” e “Electric Ladyland”, ambos contatos imediatos via alteridade capazes de estabelecer uma interface cósmica entre homem e máquina.

O dub de Lee Perry, King Tubby, Augustus Pablo e Scientist, nos anos 70, é a trilha sonora da conquista africana da lua. Da mesma forma que a space music de Sun Ra, o dub constitui uma via espiritual, com pontos em comum: ecos, viagens espaciais, sons líquidos e o tema da arca (que em Lee Perry aparecerá no nome de seu estúdio – Arca Negra). Ambos aproximam a f-c negra de vias espirituais como o tao – caminho retomado, recentemente, por Steve Goodman (metade do Kode9). Por aqui Jorge Ben detonava ecos ("Errare humanum est") e cutapeava tratados de alquimia numa poesia-decolagem desconcertante (vide albuns "Os Alquimistas estão chegando" e "Solta o Pavão" - sem falar no afromanifesto "África - Brasil"). O misticismo intergalático e imunizado dos Racionais influenciaria o funk haxixado de Tim Maia também nos 70. A neuropolítica sempre correndo solta na experiência afrofuturista - do batuque dadá dos Last Poets às emanações de desbunde da máquina-combo Parliament-Funkadelic em suas ficções sônicas sob o comando de George Clinton.


O hip-hop dá continuidade às experiências neuro-sensoriais nos anos 80, junto com os pioneiros do techno de Detroit – um batalhão de frente que antecipou a vertente negra que também se apropriará da música eletrônica nos anos 90 sob a forma sucessiva e sempre mutante de jungle, drum’n’bass e 2-step.

A música também aparecerá nas grandes obras ficcionais do afrofuturismo: o blues espacial de “Empire Star” (Samuel Delany) ou o jazz e o ragtime em “Mumbo Jumbo” (Ishmael Reed). Na nova renascença afro, agora emanando do território britânico, também a música (eletrônica) antes de tudo.


4. CHARADA: PROCURA-SE IMAGEM DO FUTURO COM URGÊNCIA

Assentado sobre a confluência de todas essas encruzilhadas narrativas e perceptuais, está o orixá Exu. A presença desse híbrido de “quase-homem” e “deus-charada” é bem notável nos enigmas verbais que saltam dos textos de Samuel Delany, Ishmael Reed e Octavia Butler.

Uma escada em espiral, por exemplo, é um dos cenários áridos e abissais de "Empire Star" (S. Delany). Ou a própria narrativa espiralada e polissêmica por todos esses escritores praticada – que, como apontam Lewis Hyde e Erik Davis em suas aproximações entre Exu e Hermes, é forma cara à narrativa mítica, por ocupar “o espaço entre as polaridades, articulando-as e, simultaneamente, delimitando e interligando suas diferenças”. Esse tipo de abordagem do eixo-realidade marcaria o que o primeiro autor chama de “work of artus”, no qual, sob o arquétipo de Exu, a arte seria, sobretudo, uma articulação de sentidos que deixa o receptor estupefato com suas camadas concêntricas de significação.

Outros aspectos da influência desse orixá sobre a vida humana, de acordo com os mitos afro-brasileiros, explicam a presença de Exu na história-estória afrofuturista: “Exu, símbolo da descendência, da intercomunicação e da participação, assim como da sexualidade ou fertilidade, não é apenas uma divindade estruturada, mas um princípio estruturante do universo. No pensamento religioso africano, Exu está relacionado ao número 1 (um), ou seja, o acréscimo que propicia a continuidade e a dinâmica dos fenômenos(...) O Exu existente em cada indivíduo confere-lhe a sua identidade terrena e cósmica(...) Os homens, através de Exu, atuam no mundo, rompem as barreiras que limitam a sua realização, transgridem algumas vezes as normas e valores da cultura dominante, na procura de uma nova ordem que traduza os seus anseios e aspirações” (Liana Trindade – “Exu: Poder e Magia”).

A aparição do poeta Ni Ty Lee (personagem que parece saído de Chuang Tzu – de novo? –) em “Empire Star” causa digressões metalingüísticas sutis sobre a necessidade de se carregar as palavras de um asé verbal revolucionário que, para os iorubás e seus descendentes, só Exu, o grande Lingüista Cósmico (por quem falam os orixás no jogo de búzios), seria capaz de restituir...


“sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta
lá onde brota o
botão da voz...
...monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico...”
- ABDIAS DO NASCIMENTO- “Padê de Exu Libertador”