Afrodescendentes evangélicos querem quebrar o silêncio das igrejas BELO HORIZONTE, Brasil, Outubro 27, 2003 O Fórum de Lideranças Negras Evangélicas encaminhou manifesto ao II Congresso Brasileiro de Evangelização (2CBE), que começa hoje (segunda-feira, 27), nesta capital, pedindo um basta à omissão e ao silêncio da Igreja Evangélica a respeito da problemática do negro no país. A Igreja Evangélica brasileira "só poderá viver verdadeiramente a sua missão integral se contemplar a questão do afrodescendente. Temos a convicção de que estamos vivendo tempos da manifestação de Deus entre nós e entendemos que os cristãos foram postos no mundo para ser consciência da sociedade", diz o manifesto. O documento foi preparado em reunião realizada na Catedral da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, no sábado, 18 de outubro, reunindo negros e negras metodistas, batistas, anglicanos, católicos, das Igrejas Deus em Cristo e O Brasil para Cristo. O encontro foi chamado pela Visão Mundial. Os afrodescendentes evangélicos lastimam que os missionários enviados ao Brasil, de modo especial os procedentes do Sul dos Estados Unidos depois da guerra da Secessão, "vieram para fazer missões, ganhar a elite brasileira e constituir suas igrejas. Só se manifestaram a favor da abolição quando o Brasil inteiro já estava convencido do seu fim". O manifesto lamenta que a Igreja Evangélica nunca expressou, oficialmente, uma posição frente à escravidão no Brasil. "Passaram-se mais de 100 anos e as igrejas continuam com o seu silêncio covarde e pecaminoso diante da realidade de opressão e racismo na qual se encontram os afrodescendentes". Mas o grupo reconhece a existência de vozes isoladas sobre o tema. Em 1886, o presbiteriano Carlos Eduardo Pereira publicou, na imprensa evangélica, artigo condenando a escravidão à luz da Bíblia, segundo o professor e pesquisador José Carlos Barbosa, doutor em História pela Universidade de Sevilha, Espanha, e coordenador do Centro de Pesquisa Metodista, da Universidade Metodista de Piracicaba. Barbosa é autor do livro "Negro não entra na Igreja, espia da banda de fora". Ele apresentou, na reunião de afrodescendentes evangélicos em São Paulo, um resumo histórico do papel dos evangélicos e das igrejas evangélicas desde o período da escravatura no Brasil. Lembrou que o metodista Robert Kalley chegou a expulsar um membro da igreja por não ter libertado seus escravos. O presidente da Sociedade Cultural Missões Quilombo, Hernani da Silva, que trabalha a questão do afrodescendente entre os pentecostais, destacou, na reunião, que a Igreja Metodista é a única, entre as históricas, que tem uma pastoral de combate ao racismo, um ministério que faz parte da igreja. Os evangélicos de confissão luterana estudam a possibilidade de criar uma pastoral e incluir o negro na sua agenda, disse. Hernani lembrou que o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) tem uma Pastoral da Negritude, mas que "ainda está no papel e precisa ser concretizada". A negritude não faz parte da agenda de nenhuma igreja pentecostal do Brasil. O presidente da Quilombo manifestou-se preocupado com o assunto nas igrejas neopentecostais, por causa da doutrina da prosperidade, da batalha espiritual que promovem e do entendimento que elas têm das maldições hereditárias. São as igrejas pentecostais que acolhem o maior número de afrodescendentes evangélicos. Mas isso não porque elas tenham optado pelo negro; antes, o negro optou por essas igrejas, porque melhor se identifica com esse segmento, relatou Hernani. O Fórum propôs a criação de um Conselho de Pastores e Pastoras negros e de um grupo de informação e comunicação, para que articulem o trabalho em favor do afrodescendente no meio evangélico, para que, como diz o manifesto, as igrejas evangélicas não fiquem só nas palavras, nos sermões e nas declarações, mas encetem ações concretas, como programas, campanhas, ações afirmativas e reparações.