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"Adentro então este ambiente branco por excelência.... branco por oráticas racistas(imagin@ quant@s negr@s não trabalham o dia todo pela sua internet) e em momento de grande bate-mão. Não pretendo pois, em minha entrada, fazer parte do espetáculo de hormônios intelectuais que se ejaculam a todo instante nessas páginas imaginárias. Não mais do que já faço. Uso esse espaço para que se faça então presente uma publicação que não se mete a ser como @s cartesian@s, @s cientificistas. São depoimentos, relatos e não-objetivações. Escritos por mim... vividos também. Opinados. Datados da escrita. Casos raciais. Leiam e comentem, achem o que quiserem....."

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11/07/02
"Você não parece ser de menor" disseram os dentes daquele cabelo grisalho empacotado em ternos de servidores presidenciais. Mas a verdade é que todos perceberam no ato o que ele queria realmente dizer àquele pobre carvão de carteira perdida. Dentro daquele ambiente esclarecido me sentia muito mais à vontade a servir água àqueles de papo mediano, papo cabeça. Não importavam minhas finas vestes vermelhas camufladas, muito menos meus tentáculos presos por uma liga e meu ouvidor. Aquela face, nariz, boca e corpo melaninados eram suficientes para denunciar a inquietude que eu causaria àquele local. No agreement, quis pensar. Não importando mais o que eles diziam, tentava me manter ausente àquelas chacotas que tentavam esconder o que eu realmente significava dentro do poder presidencial. Queria logo sair dali, aquele era meu desejo.

19/07/02
Mãe, progenitora. Segundo os padrões supostamente descobertos por renomados cientistas e psicanalistas (pra não dizer Freud), a mãe protege aquilo que é dela. A mãe em nossa sociedade é dona de seu filho até que ele se aperceba disso e fuja de casa pela primeira vez. A fuga do filho (que não necessariamente consiste em uma fuga física) remete a mãe o dilema de ver sua velhice progredindo juntamente com o amadurecimento do seu feto. Assim era a mãe do amigo meu em questão (cheguei a escrever seu nome, mas sinto vergonha em pronunciá-lo), tratando-me mal vez ou outra, de modo sempre camuflado. Eu, o negro. Ela a ruiva, a quase loura. Deve ter sido muito bela na infância, mas o amadurecimento de seus três filhos a transformou em uma versão moderna de bruxa. Radicalmente permeando o limite do feio e do bonito aquela mulher se tornara horrível, insuportável. Eu, o negro, era muito amigo do filho intermediário daquela família mineira. Minas Gerais foi um grande pólo de trabalho escravo, devido aos seus minérios, e isso talvez explique o porque do racismo daquela família. Situações humilhantes mas camufladas aconteciam a todo instante e eu, o negro, esforçava-me para encobrir tais fatos. Prezava pela amizade do amigo em questão. Eu, ele e outro formávamos um grupo freudiano. Eu era o id.(como sempre fui) e eles brigavam por ser o ego e o super ego. Fofocas, intrigas, isso era coisa pouca. As conversas a dois sempre se centravam no terceiro que estava fora, e desse modo estávamos sempre juntos, mesmo que em pensamento. Era normal que fossemos um a casa do outro, e em determinada ocasião fui à casa do amigo em questão. O herdeiro da bruxa moderna andou comigo pela sala e aproximando-se do seu quarto e percebi uma bolsa aberta, a bolsa da bruxa. Não dei bola, segui em frente. Eu e o amigo em questão fomos embora da casa normalmente. O tempo passa e os fatos esmagam sua vaidade e seu ego. Em uma conversa com o 3º componente do grupo (que não era menos racista de modo algum) este me deixou de cara. Boca no chão, ego estraçalhado. Disse algo mais ou menos assim: "ou cara, eu fui pra minha chácara com o "amigo em questão" e ele falou muito mal de você (até aí tudo bem, eu falava mal dele também, nunca fui santo). Disse até que um dia você foi na casa dele e a mãe dele escondeu a bolsa dela no quarto por pensar que você queria roubá-la. ela tava aberta e tal, ele disse que a mãe tava certa, a gente tem que se prevenir né?" <- esse foi o início do fim de um dos piores grupos e amigos que eu tive na vida.


07/08/02
Corre. Ofega. Cansa-se. Sempre objetive. Você está atrasado filho da puta! A hora é passada, o passado é triste. Situe-se, saiba onde está, saiba por onde andas. Não confie, no agreement. Confiei, perguntei, achei que aquela figura que perdi deitado no colo pudesse me ajudar. Uma velha (lembro minha avó - tristes perdas) à minha frente. Corria, objetivava, estava atrasado, filha da puta! Um negro ofegante entre o grande e o pequeno eixo não é confiável. Se ele te pergunta as horas, corre, filho da puta! A velha correu em passos tão lentos e desesperados que senti pena da coitada. Se fosse eu o que ela objetivava, tava fodida a filha da puta. Eu era somente o que ela temia, o negro (a gente tem que se prevenir né cara, imagina se fosse um ladrão). Ela não conseguiu escapar e eu não consegui ignorar o fato de que poderia alcançá-la andando na mesma velocidade que antes andava (apressado, ora pois). Sorriso sem-graça, "ou moça, eu num vou te roubar não" (usei categoricamente linguagem e sotaque rico como uma forma de tranqüilizar a senhora). Ela riu sem-graça e eu continuei a correr, estava atrasado, filho da puta!

07/08/02
Ajude teu bróder, mano. Ajude tua bróder, maninho. E eu ajudei aquela negra rica. Donzela, dondoca. Usava maquiagens de embranquecimento, cabelo escovado, mas jamais poderia esconder que já fora piche no passado. Hoje é afrodescendente, moreninha linda, porém inevitavelmente fora picolé de piche em tempos que hoje parece querer recalcar. Como me ensinaram, o recalque tem em seu pano de fundo a verdade mesmo que travestida, e um paiquinho ajudante foi verdade. Ele (eu?) corria, estava atrasado. Era um fato memorável àquela vida, de fato um fato que mudou seus rumos. Paiquinho corria rumo ao seu passado que agora seria sua iniciação e resolveu ajudar sua bróder. Ela tinha problemas com seu automotor. Ele estava bloqueado por outro automotor desenfreado. A força paical fez-se necessária e paiquinho não hesitou em ajudar a picolé de piche. Acabado o serviço, eu ia embora satisfeito por ter ajudado. E, maldição!! "espera aí minino, deixa eu te dar uma ajuda." disse a afrodescendente. "não precisa não moça" disse o paiquinho tentando ignorar aquela situação inconveniente em demasia. "não minino, toma aqui, pra você tomar um café, um LEITINHO..." retrucou a moça. Eu não estava com sede, porém aceitei aquele real unitário com o riso sem-graça já ensaiado em outras ocasiões. Queria que a maldita me visse em terceira pessoa e sentisse vergonha do que fez. :/

07/08/02
tu sabes que tu não corres,
Filha da puta.
tu sabes que eu corro mais,
sabe que posso ser perigo
"a gente tem que se prevenir, né?"
esconde teu pertence no ventre
teu pertence material é teu filho
filho da puta.
tema-me, pois eu sou quem vai tirar teu filho de você
esconde tua bolsa, anda apressado,
olhe para trás, cabeça a 45°
Da minha parte, prometo tentar desviar o rumo
prometo correr e passar você
Sejamos hipócritas entre nós,
talvez consigamos exortar
os nossos símbolos em preto e branco.

07/08/02
Eu estava emburrado sem porquê. Ele estava bêbado, porque? Não sei. Naquela época pré-penta qualquer fosse o motivo o fato se consumava. Naquele tempo pré-penta existia a esperança de se quebrar o mito. Queríamos um negro senegalês, nigeriano, africano ou um asiático com a taça. O bêbado, não me via. Ele se vestia bem. devia ser um bêbado rico. Era um branco rico. Falava com seu outro infortúnio palavras que hoje não lembro com exatidão, desafiava todos os negros da África a formarem uma seleção e jogar contra algum outro time que não me foi especificado. Ele não me via, mas eu o espionava frontalmente. Tendo eu uma fotografeira em minha mão, certamente registraria aquele rosto sem graça do momento pós-me ver. 5 segundos de silêncio, rosto com um tom de seriedade e palavras em tom companheiro: "é isso aí irmão, vamos torcer pra África" disse o alcoolizado. Acenei a cabeça e segui em frente. Ria por dentro, acabara de descobrir outro poder simbólico da minha presença. O medo dá origem ao mal e a boas gargalhadas.

31/07
Notícias tardias machucam muito. Machucam tarde. Horrível é saber sobre você por último. Horrível é saber primeiro que você dificilmente chegará a ser o ultimo. Tenho que me vestir bem? Eu, o negro. Quanto deverei gastar para que não seja eu visto como aqueles que não sou? Até negar-me a maternidade é o preço disso. Não me importa se você entendeu. Na verdade você nunca entendeu, e muito menos vai entender (tento tirar essas palavras da minha mão mas não consigo). Por isso é tão fácil enquadrar. Como diabos, mãe, você briga comigo pelos erros dos seus amigos? "eles me parabenizaram por ajudar você, como se fosse um menino de rua" - disse a mãe do paiquinho logo após encontrá-lo em casa (anteriormente haviam se encontrado casualmente em um restaurante. paique de vestes normais. Mãe do paique vestida de amizades. Um suco materno é visto como esmola). Se não entende o que ocorreu, eu explico (como sempre, ah!): encontrei minha mãe em um restaurante e os amigos dela acharam que eu era um pivete.

-19/07/02
O que vou falar agora é muito sério (como se houvessem coisas não sérias nesse relato). Por ser auto-humilhante, se destaca de outras coisas. É na verdade um resultado prático de ações que sempre aconteciam comigo. É, ao menos, uma questão de reconhecimento negativo (literalmente negativo). Desde pequeno via os Pato Donalds, Patetas, Super-Homens, Mickeys, Jacksons embranquecidos e outros enlatados norte americanos, sempre exaltando aquela pátria. Como todo menino sonhador, sonhava em um dia poder desfrutar daquelas maravilhas, sonhava em um dia poder viver aqueles sonhos supostamente miraculosos que me ensinavam a desejar. Em contrapartida, me forçavam e me forçavam a ter um amor pela cerca embandeirada verde amarela, que sempre fora malvista e rotulada pelos olhos dos outros quintais do mundo. "no Brasil só tem índio e preto" diziam (o que não deixa de ser uma bela verdade)... casos e casos fictícios que gostávamos de acreditar descreviam o preconceito exterior ao "nosso povo". Eu, nesse jogo de más influências percebi a incoerência e anomalia social que representava. Meu alto grau econômico me dava a chance de sonhar um dia poder pisar os terreiros gringos, porém minha presença naquele local seria de muito incômoda pra mim. Pensava que como representante da nação, minha presença no exterior reforçaria o preconceito existente com o Brasil. Eu, o negro, era uma prova viva de que no "nosso quintal" somente havia negros. Eu queria embranquecer o Brasil e somente poderia me apresentar como brasileiro se me embranquecesse. Terror! Confesso que até hoje tenho alguns fiascos daquele medo presente em mim, ele existe desde os meus 5 anos. Mas hoje em dia tento subverter esse pensamento tornando a negritude brasileira algo positivo. Após ler este pequeno comentário, reflito sobre as diversas formas de racismo contidas nele (não digo nas relatadas, mas sim nas que fazem parte do meu pensamento e que podem ser descobertas nos meandros desta escritura) e lembre-se que mesmo sendo negro, sou racista. :)

-15/07/02
Mão na cabeça? medo da polícia. Sempre pensei no peso consciente que carrega o homem no fardo. Lamúrias filosóficas correm na cabeça daquele que prende durante a perseguição? Um pós-instante baseado na dialética do olhar foi suficiente para eu perceber que lamúrias morais, precoceituais, medrosas são muito mais presentes no ato do carrasco governamental. Tudo bem, tudo bem, eu explico (o led me ensinou a explicar): andando no centro da capital em um dia de chuva, exatamente no primeiro momento pós-chuva(momento aquele em que as atividades urbanas lentamente recomeçam, as pessoas olham o sol e isso não significa que devemos ir ao clube, mas é motivo de felicidade) estávamos eu e mais três grandes cabeças do mundo(os futuros filósofos que mudarão o mundo? provável). o trajeto era bastante simples: andávamos em linha reta do bloco da quadra da dom Bosco até o antro cultural lamentavelmente transformado no antro pós-hippie brasiliense (cine Brasília). Quatro homens andando. E eu era o negro do bando, sem uniforme escolar. Andávamos de mochila (era uma tarde pós-aula, era um pré-fim de semana) e sozinhos no meio da quadra, na rua, no pós-chuva nos deparamos com um policial. Este, tranqüilamente apavorado, fez conosco o procedimento autoritário básico ("mão na cabeça, é a polícia, é um bacú"). Soltamos as mochilas no chão e desconfiadamente víamos os outros serem revistados pelo policial. Logicamente perguntávamos solitariamente entre nós se alguma bomba poderia estourar em nossas cabeças. A bomba é a droga na mão do PM. A premissa é a droga se deslocando nas nossas vestes. O tranqüilizante é a conversa anterior ao ato. Passada a primeira fase daquele evento encaminhamo-nos ao segundo bacú: o baculejo nas mochilas. Um a um abríamos a mochila e revelávamos que nenhum terror carregávamos a não ser os nossos (aqueles remanescentes da nossa estadia na escola). Eu (o negro) fui o último a abrir a mochila, e também o único a ter a carteira de identidade requisitada. Tudo certo, fomos embora. Todo jovem conversa sobre os traumas vividos em grupo. Dentro do grupo que acabara de viver aquele trauma rico me senti um ser poderoso no momento em que um dado não visto por mim foi apresentado por um dos futuros melhores filósofos do planeta: o policial colocou a mão na arma unicamente no momento em que eu abria minha mochila. Vítima deste racismo irônico, passei a perceber as belezas do medo social que crio. Passado o incidente, voltamos a falar do metafísico.

10/10/02
Estavamos em uma festa. A noite era longa, e já tardava. Sim, alegria. O Paique conseguiu caronar. Estava ele de volta em casa, são e salvo. Era um ambiente bacana: amigos brancos, a irmã do amigo branco e todos dentro de uma blazer. Um rosto oneroso ao volante. Calado. O trajeto era pequeno, e nele, nada demais. Ok, fim do percurso. Chegamos em minha casa. Passamos por minha casa. Eu, o negro, que mora no plano. Eu, a anomalia social. Eles, os brancos, que moram no pós-plano (Park Way). Centros de riqueza e poder, centros de vaidade. O carro passava e parou rente ao meu prédio. Bonito prédio. Prédio do plano porra! Eles já sabiam disso. Mas não foi suficiente. "Olha a casa do Paíque... fera hein?" Queriam eles me agradar. A surpresa que um negro rico representava não podia passar em branco. Comentário impertinente. Esperavam que eu morasse em uma casa velha dentro da cidade onde não existem casas velhas. Queriam um paíque caricato, e esqueceram que Paíque é anomalo. Castas mentes!

10/10/02
Não foi bem isso que ele disse não. Ela não entendeu, ou melhor... Quis não entender. Mais próvável. Estávamos naquela tarde, na escola. Ela era de outro estado, família loura. Eu também, mas já poderia me considerar um nativo, naquela situação. Somente naquela situação. O irmão dela aparece na história, na escola também. Ele era novo, moleque. Estava a conhecer o colégio, assim como a mãe da garota. Fomos apresentados. Eu e ele. Ordenou ela ao garoto que ele me cumprimentasse. Ela disse meu nome. Mas... Não foi bem isso que ele disse não. Ela não entendeu, ou melhor... Quis não entender. Mais próvável. Ela entendeu assim: "oi ceracol!" e eu assim: "oi xera-cola!" O moleque tinha lá seus 8 anos. Não se nasce racista, isso é fato. De onde veio o dele então? Talvez tenha crescido e prosperado atravéz das tentativas infames de recalcar as atitudes racistas do menino que se formava homem. A situação proseguiu: ela querendo esconder o que ele tinha falado, ele vergonhoso por persistir no aprofundamento da ofensa diante da minha presença, e eu, sem jeito. O sorisso sem-graça de outras ocasiões não foi necessário. Tive a oportunidade de ir embora tranquilamente. "o que é ceracol?" ela perguntou. "não foi bem isso que eu disse" ele respondeu. Ela não escutou.... não quis.

10/10/02
"Você é percucionista?" disse ela. "Não, porquê?" disse eu. "Ah, você tava batucando aí na mesa, e parece percucionista". Concretizado o ato.
Ela, a linda branquinha metida a negra (democracia racial casta!). Eu o negro. Estávamos no bar, e procurávamos nos conhecer (eu esperava procurar algo mais). Era um ambiente de amigos, legais amigos. Um dos poucos ambientes cordiais a um paiquinho. Ao fim das palavras da moça, segurei a lingua, era muito pouco para que eu fizesse tanto. Mas, tenho este espaço. Compreendamos: eu, o negro, estava quieto, sem falar muito, quem me visse pela primeira vez diria que eu era uma pessoa deveras excêntrica. Era o caso da moça. O negro excêntrico não se expressa, o negro excêntrico concentra uma aura em si. A aura é o medo do branco.... E é do branco! Ela deve ter querido me agradar ao me associar àquela alegoria que um negro poderia ser. Jamais diria ela que eu tenho cara de quem toca em uma ópera. Negro é instintivo demais para isso. Tomei um gole de cerveja e enguli tudo o que poderia falar. Enguli pra poder vomitar pelas mãos. Em um teclado.

10/10/02
"não importa! o que importa é que você é preto!"; "eae meia-noite, blz?"; "grande carvão! como anda seu quilombo?"; "Olha os parentes dele na página 37 - capítulo África, probreza, macacos."; "sai daqui de perto, minhas coisas devem ficar protegidas"; "Puta merda, esses pretos são fodas"; "ele é preto mas é massa pra caralho"; "picolé de pixe, asfalto, queimou no forno de Deus, Eclipse, Amigo do escuro, luz apagada, etc......". SAAAAACAAAAANAAAAAGEM!!!! NÓS SOMOS SEUS AMIGOS. FALAMOS ISSO É SÓ DE ONDA SACA? Realmente são meus amigos. Isso se percebe em outros momentos. Tais legais não podem ser racistas diretamente comigo, mas são racistas ora pois! A carga preconceituosa deve ser descarregada. A "sacanagem" se sai bem no papel. Ninguém percebe. Só eu, o negro.

16/12/02
O ambiente era conhecido. Já estava dentro dele por tantos anos... 5. Imagem desgatada, deveras enegrescida ao longo dos anos. Estava na escola, na minha sala. Era meu dia. Não aquele em que o mundo havia tido o benefício da minha existência, mas sim o dia em que o mundo deveria se lembrar, lamentar e não comemorar o racismo do país. Era o dia de Zumbi, prezado rei negro. Aquele dia novamente escamoteado, assim como o racismo brasileiro. A escola não alterou em nada seu ciclo de opressão, os professores em nada sensibilizaram-se, e eu lá, no meio da aula de filosofia aprendendo sobre marx e as classes sociais (bendito recalque, democracias castas). Aí, gritei. A aula toda. Eu fui chato, que nem aquele eu que o ano todo foi chato por sozinho falar em racismo dentro daquele ambiente branco por excelência. Repetia a mesma indagação, e como uma indagação negra é um incômodo branco, borbulhava rancor. Ao fim da aula, o regente, opressor, aquele que faz a chamada, aquele branco, cedeu-me minutos para a manifestação oficial do incômodo branco. Pronunciei, e a reação não poderia ser outra. Enfim, o espanto da sala era pouco, mais havia ódio por não se saber como canalizar a inconveniência de se perceber lixo. O menino, aquele outro menino, levantou o dedo, para logo pronunciar a máxima: "o único racista da sala é VOCÊ!" Pronto. Em meio a brancos brandos aplausos, eu reagi, não importa como. Importa saber, que todo o peso que se carrega por algum tipo de responsabilidade indesejável é evitado de todas as maneiras por quem não quer mudar a sí mesmo em virtude de um erro sistemático. Uma inércia prazeroza dá vazão aos contínuos estimulos de opressão ocorridos.

16/12/02
De fato, a atenção é uma dádiva. Os holofotes cegando os olhos, os gritos, a permissividade em escutar. Maravilhoso. Para conseguir isso, todas possibilidades valem a um ser qualquer. Expor-se ao ridículo é bobagem. Rir dos defeitos tá valendo? Vou nessa. E foi nessas e outras aquele negro rico. Até pouco antes de iniciar a escrita destes relatos, os causos aqui relatados eram piadas de primeira linha. Muito mais dificil que viver o momento é falar dele constantemente. Repetidamente. E todo mundo ria. Todo mundo ria. E me machucava um pouco mais por dentro. Cada vez que a história acontecia de novo no meu consciente a dor ficava mais gritande, aquele choro engasgado virava ódio e tentava gritar a quem ria que aquilo não era certo, mas eu não deixava transparecer isso. Preferia os holofotes. Ali foi onde eu aprendi o sorriso sem-graça de outras ocasiões. Mas PORRA!! Ninguém se sensibilizava. Que grande deserviço fiz ao que hoje quero combater. e TODO MUNDO ria.

31/12/02
Um dia eu fui gostar de música. Um dia inventaram de vender música. Outro dia inventaram roubar música. Compilaram também suas músicas em bichos portáteis. Roubáveis. Como haviam inventado roubar música e compilar música, inventaram também de proteger o compilado das músicas. Só que os inventores de roubar música sempre foram mais espertos que os protetores de compiladores de músicas, as mãos se esquivam fácil. Naquele dia que eu fui gostar de música em uma casa de músicas compiladas à venda, houve um incidente pouco antes, e me culpara. Ah, vc deve ter se esquecido: EU(o negro), fui pesquisar (C)ompiladores (D)isquéticos, e os protetores (que há pouco tempo haviam sido enganados por ladrões de músicas compiladas) desconfiaram de mim. E foram proteger seus pertences comerciáveis, me revistar sem eu perceber. Certamente o ladrão era branco, rico, e foi rápido, roubou sem ser percebido. O protetor de percetences comerciáveis e compiláveis, ao descobrir que havia sido roubado, estava me vigiando, pensou que eu fosse o ladrão. Existem homens que estão no local errado na hora errada. Existem também aqueles que estão no local errado, na hora errada, com a aparência errada. O negro tem a aparência criminosa, que na verdade é aquele medo e aquela aura branca que eu já mencionei. Constrangido, fiquei de cueca para provar que não era o afanador de CDs. Os donos da loja sequer pediram desculpas.

31/10/02
Eu corria atrasado atrás de um destino "pseudo-revolúcionário" (e tinha consciência disso), ia de bicicleta. Tava muito bem vestido (roupas de linho e tudo mais, acreditem). Tava também como eu mesmo sou (negro), e aí cometí o meu grande "crime". Crimes são resolvidos pela polícia. E ela não tardou em aparecer. Eu. fechado em meu biciclo por outro biciclo motorizado, fiquei com medo, pensei que era ladrão. Mal imaginava que o ladrão fosse eu. Eles eram policiais civis, fizeram o procedimento autoritário básico ("mão na cabeça, é a polícia, é um bacú"). E eu tava bem vestido. Camisa de linho, calça social, tênis. Não adiantava, aquela face, nariz, boca e corpo melaninados eram suficientes para denunciar a inquietude que eu causaria àquelas pessoas que, angariadas pelo estado, podem bater em qualquer um. Aí eles viram que eu num tinha nenhuma grama de maconha e deixaram eu sair.


02/05/2003
Pobre de você, loir@. Não sabe ainda que o motivo do nosso ódio não é o que você é, mas sim o que você faz. Também o que você fez. Se simbolicamente prepararam a mente de tod@s(até as nossas) contra nós, alguns dos nossos foram sagazes ao perceber que o símbolo do bem estar é o agente máximo da opressão. Mas tudo bem, não faz mal. Eu sei que seus olhos coloridos viram mais que preto e branco. O que falta aos azuis é só perceber que a ação à não opressão simbólica do opressor é a não-opressão. Ainda bem que você foi mal tratad@ por um irmão de cor. Ainda bem que os nossos, além de saber bem quem é quem, agem com os quens em questão. Nós somos aqueles que gritam 4P, mesmo que de maneiras diferentes. Se você se sente suicida ao gritar conosco, apesar da sua boa intenção, entenda que ainda não entendeu nada...

02/05/03
Eu sou machista pra carai véi. Maior foda. ;/ Não sei se são necessários, mas peço todos perdões àquelas que sabem quem são. E justo eu, o negro. Não consigo me sensibilizar a ponto de desestruturar o meu pré-pensamento. Sempre foi consciente pra mim a idéia de que meu filho seria homem. Não se faz presente a idéia de uma mulher negra a mesa comigo(e principalmente some a idéia de eu estar à mesa com uma mulher negra). Mas mando logo um viva às Mulheres Negras. Já passam das 17, mas ainda não é tarde para mudar. O melhor é que não posso escolher. Se inconscientemente quero um Negro homem para me aproximar ao ideal europeu(Homem, Branco, heterossexual), conscientemente torço pelo nascimento de paicas. E seja o que "Aa" quiser!

14/07/03
Algo deve ser claro. O fim, o que queremos. Nós, os negros. Nós, que sempre fomos explorados. Nós, que sempre maltratados. Nós, que aprendemos a recalcar opressão(nós, os que temos sido vencidos até o momento, apesar das sempre presentes insurreições). E enfim, arrogo a mim a responsabilidade de esclarecer essa questão após ter percebido a loucura em que se encontra a mente branca após a nossa vitória(Cotas para negros, ações afirmativas já!). Acontece que a consciência dominante é tão tola que não consegue ver além do preto e branco. Acontece que os brancos são tão débeis que não conseguem ver mais que o claro-escuro. Acontece que os brancos tem medo de perder poder e serem excluídos socialmente caso os negros tenham perspectiva. Pois fiquem sabendo, sardentos, que não, não somos vingativos, a despeito do que vocês dizem. Nós, assim como tod@s os outr@s excluíd@s, sempre lutamos por igualdade. Mas não aquela igualdade tola homogeneizante(vocês que criaram isso, brancos globalizados), mas sim a outra, aquela que contempla as diferenças de todos como única igualdade universal. Isso mesmo, podem ficar tranquilos, o que propomos é uma sociedade onde todos possam viver bem. Vocês, (in?)felizmente não terão de pagar pelo que fizeram, só terão de reconhecer o que(m?) são. Entenderam? Posso reexplicar infinitas vezes, a consciência de cor não cansa...