Sétimo Hip Hop em Transito no mês da consciência negra
por:Ricardo (Cmi-Campinas - coletivo em formação / Núcleo Lado B - Rádio Muda)
No último dia 09 de novembro, ocorreu em Campinas, dentro da programação municipal referente ao mês da Consciência Negra, o Sétimo Hip Hop em Transito.
O Hip Hop em Transito é um evento anual, organizado pelo movimento hip hop campineiro, que tem como intuito discutir questões e dilemas pertinentes e
concernentes a cultura e ao movimento hip hop.
Em seus sete anos de realização, devido a agudeza dos temas tratados e dos debates suscitados, o evento ganhou consistência e importância extra-municipal. A presença, desde a primeira edição, de nomes consagrados no cenário do Hip Hop nacional contribuiu para aumentar a notoriedade do evento.
Nessa sétima edição, o evento teve como uma "Autogestão e Autonomia do Movimento Hip hop", e como os demais temas que foram abordados nas outras
edições do evento, buscou suscitar nos participantes uma reflexão sobre o movimento hip hop em si. No entanto, apesar das particularidades locais
estarem num segundo plano de discussão, não deixaram de ser realçadas quando necessário.Para Campinas o tema teve uma importância singular.
A importância da "Autogestao e Autonomia" deve-se ao fato de que há um certo tempo o movimento hip hop campineiro se encontra fragmentado em pequenos
grupos, por vezes rivais entre si. A cisão no movimento foi ocasionada e aumentada pela penetração e implantação de valores e demandas político-partidárias no movimento hip hop local. Quando esse processo
começou a se desenrolar, as demandas de partidos políticos, majoritariamente de esquerda, como o PT e o PC do B, passaram a ser identificadas como as demandas do próprio movimento hip hop. O desenrolar desse processo e a sua institucionalização, através da constituição do Conselho Municipal do Hip Hop, fez com que muitos se afastassem do movimento ou constituíssem grupos de reação.
E interessante realçar que a crítica não é feita aos partidos, mas ao processo de partidarização das demandas do movimento hip hop e à inevitável manipulação que esses partidos efetuam sobre alguns integrantes do movimento para que isso ocorra. O processo de manipulação e partidarização de demandas
impendem a construção de um processo autogestatório do movimento e, por conseguinte, coíbem a existência da autonomia do movimento hip hop.
Imerso nessa atmosfera, o sétimo Hip Hop em Transito ocorreu no dia 09 de novembro, no colégio Culto a Ciência, das nove da manha as dez horas da noite. Além do debate sobre o tema central do evento, ocorreram oficinas de break, de computação, de discotecagem e de rádio. Além de apresentações de grupos de rap (Milícia, Filosofia de Rua, Elementos, etc.) e de equipes de break (Radicais Suburbanos, MOS, Speed Control, etc.). O evento foi transmitido pela rádio Muda, uma radio livre de Campinas.
Quanto ao debate, que contou com a presença de Elaine Nunes de Andrade (educadora e autora do livro Rap e Educação, Rap é Educação), Chico Caminati (integrante do coletivo radio Muda), Jord's (MC), Eduardo So (b.boy), Celso Gitahy (grafiteiro) e Fernando (integrante do movimento hip hop do Ceará) na mesa, e prometia ser instigante, se tornou extremamente chocho. O grande número de pessoas na mesa (06), a disposição física tradicionalista de uma palestra (a maioria no chão e alguns na mesa, em local de destaque), a forma de condução do debate, a arrogância de certos membros da mesa e o processo mediado de relação com o público (as perguntas eram direcionadas a mesa mediante papeizinhos, ao invés do dialogo direto com os participantes) foram fatores preponderantes para o péssimo desenrolar do debate.
Entretanto, mesmo com o naufrágio da atracão principal do evento, que seria o debate, ocorreram momentos de extrema graça e resplandecente brilho naquele domingo, tais como as acrobáticas perfomances de break e as
conscientizantes apresentações de rap. No final do evento o clima reinante era de que, embora o movimento hip hop esteja trilhando caminhos que podem retirar de si o caráter libertário de sua origem, a cultura hip hop (constituída pelos 04 elementos: break, grafite, rap e dj) continua apaixonante.
