O que atualmente chamamos de rádio arte dificilmente poderia se desenvolver em rádios comerciais e estatais, que trabalham segundo padrões profissionais e técnicos estabelecidos de produção, com profissionais e equipamentos especializados, que reproduzem as formas hierárquicas de produção de mídia e as fórmulas tradicionais de programação. Os interesses comerciais e burocráticos e as condições de produção prendem esses meios aos padrões estabelecidos, havendo pouca margem à inovação e à experimentação.

Por outro lado, as rádios de baixa potência, manejadas por amadores que geralmente não foram formados nas escolas de comunicação, desvinculadas de grandes interesses comerciais e burocráticos, menos preocupadas em atingir grandes públicos e convivendo mais intimamente com a comunidade (1), onde os usuários geralmente dominam tanto a utilização técnica dos equipamentos quanto a locução e a escolha dos materiais a serem veiculados, são espaços onde a experimentação de novas linguagens e utilizações ocorre quase que naturalmente. A apropriação dos meios pelos seus usuários cria as condições para a abertura de novas possibilidades de interação simbólica.

É claro que os usuários de rádios livres e outras mídias alternativas tendem, num primeiro momento, a reproduzir padrões de produção radiofônica já estabelecidos. Afinal, o consumo das rádios e mídias tradicionais fornece para eles o repertório inicial das noções sobre como uma rádio pode ser utilizada, qual pode ser o formato de uma programação, etc.

Para apontar apenas alguns traços grosseiros das formas dominantes de programação radiofônica, podemos dizer que elas se inscrevem na noção de que as tecnologias de radiodifusão, assim como muitas outras tecnologias de comunicação, são apenas meios, através dos quais são veiculados conteúdos previamente produzidos ou executados ao vivo. O locutor, via de regra, é um apresentador, que organiza o espaço temporal e sonoro esclarecendo quais conteúdos estão sendo transmitidos, tais como músicas, reportagens, comerciais e mediando debates, entrevistas, participações do público, etc.

Mas enquanto as rádios livres, assim como outras mídias alternativas, abrem a possibilidade de mudar a relação entre produtores e consumidores através da apropriação desses meios por aqueles que antes eram apenas receptores, a experiência da rádio arte pode nos levar a acabar com noção de que a mídia seja um meio (2). Na rádio arte, praticada por aqueles que mais se dedicam à experimentação sonora e radiofônica, os textos falados, músicas e outros áudios deixam de ser vistos como conteúdos a serem veiculados e apresentados através das técnicas e tecnologias de comunicação. Os conteúdos e as tecnologias passam a ser vistos conjuntamente como matéria prima para a produção radiofônica. E assim como numa arte plástica se combinam as cores, tintas e utilizações de pincéis e outros materiais, a rádio arte é feita de pessoas, sons e aparelhos eletrônicos. A arte não é transmitida num programa de rádio, pois o programa é a própria arte.

As condições de produção na rádio Muda (3) tornaram possível que a experimentação se tornasse uma prática cotidiana, que faz confluir e derivar inúmeros caminhos sonoros, e as possibilidades são infindáveis. Vale citar aqui dois estilos que se desenvolveram a partir de propostas de radicalização da experimentação sonora atualmente existentes nesta rádio. Um é o “programa de uma música só”, no qual inúmeros recursos verbais, vocais e sonoros são fundidos indefinidamente, aproveitando as possibilidades técnicas disponíveis e criando uma sonoridade polifônica – a “esquizofonia”, em que vários sons e vozes são misturados – que não tem começo e nem fim, a não ser aquele dado pelo começo e o término do programa (Programa “Quizé é Anssim, Num Quizé é Anssim Tumém...” – segundas 20-21h). Outro é o “programa ficção” que, também desenvolvendo as técnicas da esquizofonia, mas dando uma ênfase igual para a poesia sonora, tem sua unidade dada não por um contínuo e polifônico desdobrar de sonoridades, e sim pela inscrição dos sons numa realidade imaginada – por exemplo a transmissão ao vivo diretamente da “terra dos mortos” (Programas “Morte, A Fatídica” e “Xica da Silva”– domingos 20-22h).

Uma conseqüência interessante das experimentações da rádio arte e das reflexões que estamos realizando sobre o seu significado, é que a rádio começa a deixar de ser vista como um meio, pois passa a ser um fim artístico para onde convergem todas as possibilidades de mixagem e produção sonora a partir dos mais variados gêneros artísticos, científicos, políticos, religiosos e outras linguagens e equipamentos (4). E se a arte não é mais veiculada num programa, mas é este que constitui a própria arte, podemos começar a imaginar uma noção de rádio em que ela não é mais um meio para a veiculação das linguagens simbólicas: o rádio é a própria linguagem, ou as rádios constituem linguagens. Linguagens multifacetadas, móveis, interativas, polifônicas, em permanente transformação a partir de antigas e novas tecnologias e linguagens.

Quando um orador se dirige para uma platéia diante de si para recitar um poema ou um discurso, ou quando um músico toca para pessoas à sua frente em situações de interação “face a face”, não dizemos que se trata de meios de comunicação. A expressão meio ou mídia está relacionada com a utilização de novas tecnologias que tornaram possível a comunicação à distância no tempo e no espaço, assim como o fosso entre produtores e consumidores de bens simbólicos. As primeiras inscrições nas cavernas já tornaram possível a comunicação à distância no tempo, e a invenção da tipografia e sua industrialização deu início aos livros e jornais que foram os primeiros meios de comunicação de massa(5).

Na medida em que novas tecnologias e novas práticas alternativas de comunicação tornam possível a redução das distâncias através da apropriação da produção da comunicação pelos seus consumidores, talvez seja o começo de uma nova transformação da noção de mídia. No lugar desta noção, podemos começar a falar em novas utilizações de antigos gêneros de interação simbólica, em que as tecnologias entram como novas matérias primas da produção simbólica e da interação social, e não mais apenas como recipientes, veículos ou meios. Podemos falar talvez em utilitários, ferramentas, ou instrumentos de comunicação, reunindo nesta noção tanto as palavras, as imagens e os sons, quanto os aparelhos eletrônicos e outros materiais. Os meios de comunicação têm uma importante história na modernidade e são hoje dominantes, mas existe uma outra história, subversiva, a história dos instrumentos de comunicação que, apropriadas pelos pequenos que são a maioria, permitem a multiplicação dos nossos caminhos para a memória, a criação, a diversificação e a comunhão humanas.


1 A comunidade não pode mais ser pensada exclusivamente como uma forma de interação territorial: a internet, por exemplo, permite a redução das distâncias e a formações de comunidades que, embora chamadas de virtuais, são tão reais quando as outras.

2 “(...) é que o meio não é uma media; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade (...) uma direção perpendicular, um movimento transversal que carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio.” DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. Mil Platôs, capitalismo e esquizofrenia. p. 22. V.1 Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. Citado por: Zaremba, Lílian. A idéia de rádio entre olhos e ouvidos. Ciberlegenda, n2, 1999.  http://www.uff.br/mestcii/zaremba1.htm

3  http://muda.radiolivre.org - A rádio Muda é transmitida ao vivo por 105,7FM em Campinas e pela internet, podendo ser acessada através deste site.

4 Não se trata simplesmente da “arte pela arte”. De uma maneira geral, o valor da arte pode ser associado a outros valores, tais como a transformação social ou a sobrevivência econômica, e a arte sempre troca influências com outras dimensões da vida.

5 Thompson, John B. A mídia e a modernidade; uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes: 1998. O autor aborda a história social da mídia e desenvolve os conceitos de interação “face a face” e “à distância”, com os quais faz uma análise social da mídia.