Thais Aguiar Eles dizem que não são de direita, de esquerda, socialistas, neoliberais, marxistas, anarquistas ou da Nova Era. Denominam-se nacionalistas e afirmam ser contra drogas, aborto, promiscuidade e homossexualismo. No trabalho e na escola, esses jovens altos e fortes passam desapercebidos no figurino jeans e tênis. Mas quando vestem suas calças camufladas, calçam botas, mostram as tatuagens e exibem as cabeças raspadas, mostram o que são: skinheads à brasileira, que não defendem o racismo mas adoram ler "Minha Luta", de Adolf Hitler. Admiram Enéas, o eterno candidato do Prona a presidente, combatem o Mercosul e mantêm contato com grupos neonazistas estrangeiros. "Se quisermos, podemos ir para qualquer parte do mundo", gabam-se, orgulhosos de suas conexões internacionais. Todas as semanas, se reúnem para discutir política em um lugar que fazem questão de esconder. Foi na mesa de um bar em Niterói, que o grupo de 12 jovens, desconfiados, recebeu no.. Nada de fotos, avisaram. Na entrevista, recusaram-se a dar os sobrenomes. Uma precaução para evitar as perseguições que dizem sofrer. É a mesma cautela que usam para divulgar suas idéias pela internet, através do boletim Avante, que deixou de ser publicado em papel e passou para a rede. É mais barato e reservado. Na página, traçam links para outros grupos de skinheads no Brasil e no exterior, para as Forças Armadas brasileiras, notícias sobre os conflitos no Oriente Médio, e assuntos que provocam os ânimos patrióticos como a violação do painel do Senado, a Amazônia e a P-36 da Bacia de Campos. Ao contrário de seus colegas estrangeiros, os skinheads de Niterói dizem que aqui não há razão para alimentar ódio contra negros, homossexuais e nordestinos. "O povo brasileiro é formado por três raças. Temos que nos orgulhar delas", diz Rafael. Mas não deixam de criticar o movimento negro e o espaço que os homossexuais ganham na mídia. "Imagina se eu saio com uma blusa dizendo "100% branco", como fazem os negros. Seria espancado na primeira esquina. Não existe minoria. Nós, nacionalistas somos minoria, pode escrever isso aí", fala, exaltado, Breno. Ficam irritados com termos como afro-brasileiro. "Não existe afro-brasileiro. Capoeira é brasileira". A aversão aos homossexuais é baseada na Bíblia. Felipe compara: "Deus criou Adão e Eva. Não criou Adão e Adão". Diferentes dos skinheads de São Paulo, não pregam contra os nordestinos. "Eles têm que ir para São Paulo porque não há emprego no Nordeste. Mas fazem parte do povo brasileiro, não tem porque agredi-los. É diferente dos estrangeiros", explica Rafael. Xenofobia à vista? Eles negam, mas com um primor de raciocínio ao avesso, acham que o estrangeiro tem obrigação de virar um brasileiro patriota até a medula. Para eles, também não há contradição em apoiar os xenófobos e neonazistas lá de fora. "Nós entendemos o que acontece lá. Eles ficam sem trabalho. Têm que defender o país deles", diz Breno, o mais falante. Os skinheads de Niterói têm contatos com vários outros grupos brasileiros e estrangeiros. Conhecem tanto os membros dos Carecas do Brasil, em São Paulo, quanto os norte-americanos Hammer Skin, movimentos de skinheads que "pegam pesado", como diz Felipe. "O movimento, no mundo inteiro, é muito unido. Temos nossas diferenças, mas nos damos bem com eles." Nunca viajaram para o exterior, mas gostam de saber que lá encontrariam portas abertas. "Temos lugar para ficar em qualquer lugar do Brasil e do mundo", conta Felipe. "A gente manda nosso manifesto, eles entram em contato com a gente e mandam passagem para ir para onde a gente quiser." Globalizando o nacionalismo Esse foi o destino de um dos nacionalistas de Niterói. O irmão do Rafael, Rodrigo, um dos fundadores do grupo, deu partida para o mundo depois que um dos coordenadores do Internacional Third Position (ITP), ou simplesmente Terceira Posição, veio ao Brasil, há mais ou menos 3 anos. "A gente foi recebê-lo no aeroporto. O cara parecia um armário. Muito grande e tatuado com uma suástica. Mas o Bruno falou com ele que aqui não tinha nada de racismo e ele tinha que aceitar", conta Felipe. Na visita da Terceira Posição, os skinheads "fizeram um som juntos" e receberam dicas de leitura. "Antes éramos muito 'garotões'. Isso ajudou o nosso grupo", afirma Felipe, explicando que o grupo amadureceu. Ele conta também que os neofascistas italianos estão sediados em Londres, mantêm uma rede de hotéis e uma fazenda, de onde saem frutas para feiras de toda a Europa. "As pessoas comem frutas de neonazistas e não sabem". São essas atividades que rendem recursos financeiros para o movimento. Foi para um desses hotéis que Rodrigo deixou o Brasil para trás e partiu para trabalhar, já faz dois anos. Durante esse tempo, teve problemas por estar no país ilegalmente, mas eles terminaram quando casou-se com uma portuguesa e conquistou a cidadania européia. Deixou o ramo da hotelaria e agora faz tatuagens. "Ele está bem de vida", conta Felipe. Não teria Rodrigo traído a pátria? Não, responde Felipe. A condição de estrangeiro que foi ganhar dinheiro no exterior não é contradição porque "é como se fosse um nacionalista aqui, só que ele age lá", tenta explicar. Problemas com xenófobos, o brasileiro não tem. "Já teve, mas ele tem seu grupo lá e está bem integrado." Segundo os skinheads, a ITP atravessou o Atlântico para perguntar também sobre Enéas. "Eles vieram atraídos pelo discurso dele", contam os rapazes, que também guardam admiração pelo político. "A ideologia dele é como a nossa. Mas ele é muito radical e fechado. Falta estratégia. Ele não podia ter anunciado que era favorável a bomba atômica na campanha", aponta Breno. Os jovens são politizados, mas apartidários, e engajam-se eventualmente em campanhas eleitorais quando encontram um discurso parecido. "Aí a gente deixa o cabelo crescer. Se não, prejudica a imagem do candidato", conta Breno, sem revelar os nomes. O site da Editora Revisão, do Rio Grande do Sul, é outra fonte de idéias para o grupo. Felipe costuma navegar pela página, em que acessa os textos de obras que recontam a história da Segunda Guerra Mundial, do holocausto e do movimento sionista. "Só ontem imprimi mais de 80 páginas", diz ele. No site, também estão disponíveis entrevistas do diretor da editora, Siegfried Ellwanger Castan, ou S.E Castan, desmentindo o holocausto. Numa delas, Castan afirma que qualquer um que examinar as dificuldades enfrentadas nos presídios norte-americanos para executar uma pessoa em câmara de gás verá que "gasear 20 mil pessoas por dia, como relatam os sobreviventes do holocausto, é alucinação". Apesar do tema internacional, Castan cultiva a mesma idéia do grupo do qual participa Felipe, que é de aplicar o sentimento nacionalista à realidade brasileira. Por isso diz que a personalidade política que mais admira não é Hitler, e sim Getúlio Vargas. Mas, diferente dos skinheads de Niterói, declara o seu voto no Rio Grande do Sul. É Tarso Genro na prefeitura e Olívio Dutra no governo do estado. Tudo pela honestidade e nacionalismo dos petistas. Visual destemido As tatuagens que ajudam a compor o visual devem ser de teia de aranha, bandeira brasileira ou buldogue. "Faz parte da cultura skin. O buldogue tem aquela cara de forte e destemido, símbolo do movimento de rua", diz Felipe, que cuida de um Bull Terrier, com quem passeia todos os dias. O Pitt bul também agrada os nacionalistas. Além dos cachorros "destemidos", o esporte também faz parte dos costumes do grupo. "Praticar esporte é saudável", diz Rafael. Que tipo de esporte? "Bem, as artes marciais fazem parte da cultura skin", explica Breno. Apesar de saudável, Mônica, a única menina do grupo não pratica. "Mulher não luta", justifica, aos risos, Rafael. Os músculos, garantem, são uma defesa e não ataque. Os cabeludos e de visual dread ? com mechas emaranhadas, à la Bob Marley ? não entram no grupo. Para Rafael, isso "pode denegrir o movimento", pois o visual está associado a outro estilo de vida, o das drogas. É Breno, então, que toma a vez e, em tom de líder, não hesita: "quem entra no movimento tem que optar. Tem o caminho certo e o errado. Nós significamos o certo. Ou muda ou não é aceito aqui". Faz parte das regras estudar ou trabalhar. Quem já deixou a escola, cursa faculdade. Rafael estuda Direito, Breno Informática, Flávio optou por Geografia e Luiz trabalha em uma agência dos Correios. O grupo, que se reúne semanalmente para debater sobre suas leituras, também faz panfletagem sobre suas idéias. A último foi no primeiro de maio, Dia do Trabalho, no Aterro do Flamengo. No panfleto, frases de Gustavo Barroso, líder integralista, que conclama o operariado e as massas infelizes a descobrirem a "verdade". Críticos da privatização e da globalização, eles vêem no Mercosul uma tentativa de "transformar os trabalhadores da América do Sul em uma massa de robôs apátridas" e pregam o nacionalismo como único caminho. "É o que está faltando. Não há conscientização. Esses moleques de 17 e 18 anos não aceitam o nacionalismo", afirma Rafael. A doutrinação dos amigos geralmente acontece em churrascos organizados pelo grupo. Nem sempre dá certo. "Tantos anos de luta e só somos 12", lamenta Rafael. Enquanto não conseguem convencer outros jovens, seguem com suas botas pesadas, sob o mote "verás que um filho teu não foge à luta". Na banda que montaram, a Central do Brasil, tocam o que chamam de som da cultura skin, o rock anti-comunista e compõem músicas como "Alerta": nesta terra em que vivemos/há pessoas que não dão valor a nada/estão perdidas, não dão valor ao chão que pisam/E ainda têm vergonha de ser brasileiros/ saiam daqui, sumam da nossa frente/ pois não teremos respeito por vocês.