felipe@midiaindependente.org Sua experiência no CMI:
Conheci o Centro de Mídia Independente (CMI) um pouco antes de ele chegar aqui no Brasil, quando numa reunião da coalizão de grupo e indivíduos inspirados nos princípios da Ação Global dos Povos, que se realizava no CCS (Centro de Cultura Social), algumas pessoas apresentaram o projeto, explicaram como funcionava e disseram que estavam envolvidos para que o CMI também estivesse presente aqui no Brasil. As pessoas que explicaram o projeto foram o Pablo Ortellado e o Pietro do Coletivo Técnico. Isso se não me engano devia ser fins de 2000. A partir daí, dentro de alguns meses e CMI já existia no Brasil e comecei a acessá-lo para ver como funcionava e poder ler o relato das pessoas que já começavam a publicar material no site.
Dentro de pouco tempo me voluntariei como tradutor e fiz diversas traduções para o CMI através da lista de discussão dos tradutores. Não me envolvia mais, indo até as reuniões, pois estava sem tempo. Minha atividade por muito tempo no CMI foi somente acompanhar as atividades e trabalhar nas traduções.
A partir do meio do ano de 2001 comecei a me aproximar mais do grupo. Eu já havia assinado algumas outras listas de discussão do CMI e podia ver novos assuntos que eram discutidos. Foi então que me animei para ir numa reunião e pude conhecer os outros voluntários e me interar dos processos, discussões e etc... Alguns dos voluntários eu conhecia de atividades que estavam sendo realizadas na época – era um período de atividades intensas no ICAL (Instituto de Cultura e Ação Libertária), que funcionava na Vila Madalena e aglutinou muitos jovens que se identificavam com princípios libertários mas que não haviam ainda se engajado em grupos ou coletivos. Outros voluntários eu fiquei conhecendo naquele momento. Nessa época as reuniões estavam relativamente cheias, imagino eu com umas 15 pessoas.
Então minha relação se estreitou de vez com o CMI. Comecei a ir constantemente nas reuniões, assinei a lista de discussões do coletivo de São Paulo e em meio às reuniões e e-mails ia acompanhando o site, colocando alguns relatos meus, comentando outros e assim foram caminhando as coisas.
Chegou a época do II Fórum Social Mundial e fui como um voluntário, mas não especificamente para trabalhar com coberturas para o CMI. Foi então que pude ter mais contato com outros voluntários, conhecer alguns voluntários dos CMI´s de outros países e publiquei algumas coisas sobre o andamento do Fórum.
Nessa época começamos a discutir a possibilidade de fazermos um cibercafé dentro do ICAL. Conseguimos várias doações de computadores antigos, uma sala para utilizar no ICAL e os técnicos do CMI trabalharam duro e conseguiram fazer os nossos velhos computadores funcionarem com um sistema operacional que até então eu só tinha ouvido falar, o Linux. Em meio às dificuldades de utilização do novo sistema operacional e seus softwares, tínhamos constantes discussões sobre a questão da propriedade intelectual e isso me fez ir atrás de material que falasse sobre isso, o que não foi minha surpresa quando vi que quase tudo o que existia de material que falava sobre isso, era sobre informática. Pouquíssimas outras coisas falando de copyleft, propriedade intelectual em livros, CD´s, etc...
Então numa dessas reuniões que aconteciam lá no ICAL, eu com mais dois voluntários que faziam parte do CMI há algum tempo e assim como eu, vinham mostrando bastante interesse pelo trabalho com o grupo, fomos convidados para integrar o time do Coletivo Editorial – coletivo responsável pela manutenção do site e pela elaboração das matérias que são feitas na coluna do meio do site.
Com o aumento que tínhamos no número de voluntários e conforme o projeto ia ficando mais conhecido, começaram a aparecer convites para debates, palestras e exposições com mais freqüência e foi então que me coloquei a disposição para palestrar sobre o CMI num evento de comunicação social na Fundação Santo André e por razão do tema que eu deveria falar, acabei pesquisando bastante e encontrando mais informações sobre copyleft, mídia alternativa, mídia independente e me interessei mais ainda pelo tema.
Desde então tenho participado ativamente das atividades do CMI fazendo aquilo que tenho mais afinidade. Ainda trabalho com as traduções embora não tenham fins somente de serem publicadas no CMI, vou às reuniões para tratar sobre todos os projetos do grupo e agora que os outros cinco coletivos do Brasil – Rio, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre e Fortaleza – estão mais ativos nesta parte editorial, prefiro me dedicar a outros projetos do CMI no momento. Estou levantando um projeto que estava morto há algum tempo com voluntários dos EUA e Itália que se chama “Alternatives”. Basicamente é um site com alternativas à globalização corporativa, mostrando às pessoas diversas alternativas que os grupos independentes e autônomos têm encontrado para responder ao esmagamento que a economia capitalista causa à sociedade. Uma outra atividade árdua tem sido tentar conseguir novos voluntários pois todos nós temos estado cheios de coisas e gostaríamos de ter novas pessoas que pudessem ajudar o desenvolvimento do CMI, por isso tenho me dedicado também a dar relatos, entrevistas e mostrar o projeto para o maior número de pessoas possível, divulgando assim o projeto e tentando dessa forma, além de tornar o CMI mais conhecido, conseguir novos voluntários que tragam idéias e ajuda ao projeto. Acho importante a produção e o registro de material sobre as atividades do CMI.
A importância do CMI na construção de redes de comunicação alternativa:
Os veículos de mídia alternativa para mim são fundamentais para que possamos ter fontes um pouco mais confiáveis de notícias. O grande envolvimento dos veículos da mídia corporativa com as empresas e com o poder estabelecido possibilita concluir que tudo o que é mostrado através da mídia, passa por um grande filtro, no qual primeiramente são retiradas todas as informações, fatos ou análises que possam contradizer interesses que estão em jogo, depois desse filtro, a notícia passa pela adição de pontos de vista, de detalhes ou até inverdades que dêem àquele fato, o caráter querido e em conforme com todos esses interesses.
Mas quais são esses interesses? Quem está por trás dessa pressão sobre os veículos da mídia institucional e corporativa? Primeiramente acho importante citar a dependência que os veículos de mídia tiveram durante muitos anos, e o tem até hoje, das companhias que pagam para que os seus anúncios sejam veiculados. Como uma rede de televisão vai colocar em questão seus anunciantes, se são eles que geram praticamente toda a receita da empresa? Um exemplo claro que temos dessa relação, foi nos EUA entre as décadas de 60 e 70. Os maiores anunciantes de toda a imprensa eram as empresas de cigarros. Nessas duas décadas, a imprensa ficou praticamente proibida de fazer matérias sobre os males do tabagismo, pois os interesses que estavam por trás da mídia, eram os interesses das empresas anunciantes – produtoras de cigarros. Quer dizer, a imprensa, preferiu deixar as pessoas desinformadas e correndo o risco de desenvolverem doenças crônicas por não saber dos males do cigarro – o que naquela época não era tão difundido quanto hoje – do que informa-las. E é assim a lógica da imprensa capitalista. O dinheiro vale mais do que qualquer informação, independente para que seja essa informação.
Depois dessa fase de pressão dos anunciantes, pudemos ver diversos exemplos de influência do Estado na mídia. Os veículos de mídia nacionais, são pressionados pelo ponto de vista totalitário e censor do Estado, que têm o interesse de embutir nas suas notícias o “consenso” que é formado sobre determinado assunto. Vamos ver um exemplo: numa ocupação de terra do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) a revista veja noticiava em sua primeira página “A tática da baderna” e mostrava uma matéria classificando os militantes sem terra de serem baderneiros, interesseiros e desonestos. A matéria mostrava os sem terra que recebiam terras do governo e vendiam, enfim, desacreditava todo um movimento e uma causa, com um ponto de vista que certamente fez com que milhares de brasileiros tivessem a sua opinião formada, incrivelmente com o mesmo discurso do presidente Fernando Henrique, que na época tentava arduamente combater as invasões de terras no país que estavam em constante crescimento.
Outro exemplo claro foi na guerra entre EUA e Afeganistão, quando em meio à invasão americana em território afegão, a primeira tarefa do exército yankee foi bombardear a sede da TV Al Jaseera, veículo de mídia local que exibia vídeos de Bin Laden e era algo que fugia um pouco do consenso do Estado norte americano difundido pela CNN. Assim os EUA conseguiam mais um passo na guerra contra o terrorismo, tinham assim a totalidade das notícias que iriam para o mundo sem qualquer outro ponto de vista que pudesse fugir do consenso estabelecido.
Uma terceira fase da influência sobre a mídia se inicia no meu ver a partir da década de 80 quando as corporações passam não só a influenciar os veículos de mídia, mas serem a própria mídia. Em 1986 quando a General Eletric (corporação que estava sendo investigada por razão de suas relações com a produção de material nuclear e radioativo) compra a gigante NBC dos EUA, a população, que tinha então a mínima chance de ser informada sobre os perigos do tipo de material e que era produzido pela GE através da mídia, simplesmente perde uma grande parte dessa chance por razões obvias. A compra da Time Warner pela AOL recentemente também nos mostra que os oligopólios de mídia estão se estabelecendo e que hoje a grande mídia são as próprias corporações. No Brasil temos como exemplo as Organizações Globo e o Grupo Folha.
Dentro desse contexto, os veículos de mídia alternativa, fornecem uma opção a esse contexto dos oligopólios de mídia, normalmente têm informações de qualidade e possibilitam às pessoas terem acesso a um material teoricamente “sem influências” o que eu também acho que é bastante questionável. Do meu ponto de vista não basta um veículo de mídia ser alternativo, ele deve ser independente, ou seja, ter autonomia. Vou citar um exemplo que muito me intriga. Por exemplo, a revista Caros Amigos. É uma revista de comunicação alternativa, com conteúdo de ótima qualidade e aparentemente sem influência de empresas. Os anunciantes da revista são os governos do PT. Até que ponto vai a autonomia da Caros Amigos quando quiser fazer uma matéria denunciando ou mesmo criticando o PT? Será que eles também não acabam tendo um certo tipo de limitação e minimização de sua autonomia?
Por isso acho fundamental que existam veículos de mídia alternativa, mas insisto que além de alternativa a mídia deve ser independente, autônoma e descentralizada.
A relevância dos CMI para as mobilizações dos movimentos sociais, cuja
plataforma de ação é o ciberespaço:
Antes de responder essa questão gostaria de dizer que o CMI não é um grupo de ciberativismo. O CMI, antes disso, é um grupo que não trabalha somente no ciberespaço, que tem inúmeros outros projetos como jornais de poste, jornais impressos e rádios e utiliza-se da internet como mais uma forma de democratizar a informação. Uma outra luta do CMI é para que o acesso à rede seja aumentado e que não seja privilégio de uma pequena elite. Um exemplo de iniciativa que tem como objetivo acabar com o acesso restrito à internet é um cibercafé que o grupo tem numa ocupação do MTST na Av. 9 de Julho em São Paulo, possibilitando acesso gratuito aos moradores e eventuais pessoas que tenham interesse.
O CMI desde seu início, sempre funcionou como ponto de convergência dos grupos e movimentos sociais que se articulam através da rede ou que se utilizam dela para facilitar contatos e estabelecer vínculos com outros grupos. O CMI desde sempre, foi um espaço no qual as manifestações de diversos tipos, por diferentes causas e com diferentes tipos de caráter foram divulgadas e puderam ter mais espaço na mídia já que pouquíssimos são os veículos de mídia que têm publicação aberta como o CMI. Qualquer grupo ou pessoa pode publicar um artigo, foto, imagem ou som e disponibilizar para que outras pessoas vejam o que foi produzido.
Por isso, além de ser um lugar comum de divulgação das mobilizações – mobilizações essas que gostaria de destacar que não são somente dentro do ciberespaço, não são somente ciberativismo – passou a ser um veículo de reportagem dos diversos tipos de ação dos mais diversos tipos de movimentos.
Já sabemos de longa data que a mídia corporativa é inimiga dos movimentos sociais. Se havia 1000 manifestantes, a imprensa noticia 500. Se fecharam a Paulista para exigir melhores salários, eram baderneiros. Se invadiram um latifúndio não produtivo, eram arruaceiros e assim por diante. Com o CMI, os movimentos sociais ganham espaço para darem a sua versão dos diversos atos que promovem possibilitando às pessoas que têm interesse, conhecerem os dois lados da história. Se a grande imprensa utiliza a versão da polícia, o CMI oferece espaço para que o manifestante dê a sua versão, como aconteceu em Seattle em 1999. A versão da grande imprensa (a mesma da polícia) era que a polícia não tinha agido com violência, que não tinha atirado com balas de borracha e o que se viu no CMI foram publicações de todos os tipos, com fotos e relatos de manifestantes que assim provavam a utilização de violência pela polícia inclusive com fotos do ocorrido.
A atuação dos CMI no ciberespaço.
A atuação do CMI no ciberespaço é feita de forma a utilizar esse espaço para democratizar informação e os processos dentro do próprio CMI. Todo o processo de decisões dentro do CMI é autogerido, possibilitando desde o nível local, até a escala global, a utilização de democracia direta e consenso para as decisões.
O grupo utiliza os e-mails, as listas de discussão e o chat para discutir e resolver tudo aquilo que está longe da escala local – pois tudo o que é feito localmente geralmente é decidido nas reuniões do grupo que não são virtuais. As reuniões semanais são feitas de modo a decidir os assuntos locais e estabelecer posições do coletivo local com relação a algum assunto que deva ser decidido em âmbito nacional ou até global. Para as decisões nacionais e globais, o processo que utilizamos é a escolha de delegados que vão expor a posição do coletivo numa reunião on-line global ou para elaboração uma proposta escrita quando o assunto não será tratado numa reunião.
A atuação do grupo no ciberespaço para com a sociedade, tem o objetivo de tornar os princípios de publicação aberta e copyleft, uma ferramenta que ajude na desmistificação desse conceito de que notícia deve ser feita por jornalistas apenas. O CMI existe para quebrar o modelo de emissor e receptor de notícias e possibilitar uma atuação mais ativa dos indivíduos como um todo. É um projeto antijornalístico portanto. A intenção do CMI é que as pessoas tomem mais as rédeas se sua vida sem ficar delegando funções. Delegam a política aos políticos, delegam a mídia aos jornalistas e não creio que deva ser assim.
Por isso, dentro do ciberespaço, podemos criar alternativas de democratização de informação fazendo com que fatos, notícias, fotos e análises não tenham mais que estar vinculados ao dinheiro ou aos “especialistas em produzir informação”. As pessoas podem ler um texto, distribuí-lo ou publicá-lo em seu site sem ter que pagar aos detentores dos direitos autorais uma quantia por isso. Da mesma forma, elas entram no site e publicam seus materiais se tornando então produtores, emissores ativos e não só consumidores de informação produzida por “especialistas”.
