Convém insistir que o Potencialismo não é uma das “grandes ideologias”, nem uma palavra de Libertação inspirada por algum deus de benevolência e sabedoria, tampouco na abordagem Potencialista haverá a Verdade com qual sonharam tantos pensadores – a certeza estreita que vitimou milhares, o fanatismo inconseqüente que calou um sonho e concedeu uma vitória jubilosa aos reacionários deste mundo. O Potencialismo é uma oposição ferrenha à tirania, à manipulação e à sociedade de carências humanas. Não somos as esquerdas opressoras do passado, tampouco as esquerdas institucionalizadas contemporâneas com todos seus mecanismos de adequação aos novos tempos e suas propostas de controle, filiação e contenção. As esquerdas que não são mais nem reformistas e muito menos revolucionárias. Ao contrário do que já fizeram tantos, o pensamento Potencialista não se coloca no papel de detentor da definitiva teoria revolucionária. Somos um grupo sem dogmas, uma irmandade que dispensa mestres, mas que promove um aprendizado mútuo e uma constante troca de experiências e percepções. Não nos dobramos às hierarquias de qualquer espécie, às escalas de progressão, às classificações até hoje experimentadas – rejeitamos a política dos macacos-alfa, pretendemos superar nossa herança primata e propor uma sociedade que finalmente seja humana. Alguns diriam anarquistas, entrementes nós nos afirmamos Potencialistas, não para nos adequarmos ao famigerado conjunto de “ismos” que, no decorrer dos últimos séculos, vem afligido a humanidade ou propondo sua liberdade incondicional. O Potencialismo abraçou este nome apenas para ser reconhecido; tão-somente para que houvesse um termo com a possibilidade de ser gritado a todo ar dos pulmões na iminência d’algum poder tirano ou diante de um pelotão de fuzilamento; um nome para ser escrito nos lugares mais inconvenientes, ainda que às ocultas, ainda que com medo, mãos trêmulas e olhar vigilante; uma palavra que alimente os pesadelos dos reacionários e uma esperança para aqueles que tem sede de justiça.
Por que Potencialismo? Porque defendemos que, independente de quaisquer classificações que possam ser concebidas, todas as pessoas devem ter a oportunidade de desenvolver plenamente suas Potencialidades, suas criatividades, seus interesses, suas visões de mundo, não calar os assombros da existência portanto. Queremos o ser humano pleno e efetivo, no exercício de tudo aquilo que melhor nos define como sapiens. Ao invés de serem atrofiadas, compartimentadas e encaixadas numa hierarquia obsoleta, numa sociedade que em nada difere da organização de nossos primos chipanzés, as pessoas necessitam de ocupar um lugar no mundo, não apenas como asseclas do sistema decadente, mas sobretudo como ilustres membros da Sociedade Humana.
O Potencialismo não é a nova ordem revolucionária, não é a esquerda do dia, nem o catecismo da revolução. Talvez se possa mesmo dizer que praticamente toda teoria que possibilitaria uma mudança brusca no rumo da política, um melhoramento efetivo da sociedade humana e dos meios de produção, esta teoria já foi escrita há mais de um século e foi adaptada desde seu nascimento à exaustão, por pensadores que buscaram com isso defender os interesses da sociedade humana e por muitas vezes tão-somente o próprio interesse. Portanto o Potencialismo declaradamente chove no molhado, pois desejamos com isso transformar a garoa em tempestade e a tempestade em enchente. Pois embora a teoria da revolução seja velha (velha, não ineficiente, note-se), dada sua importância, são pouquíssimos os que têm ou tiveram acesso a ela. Isso o Potencialismo deseja mudar, incitar a dúvida, a crítica e quem sabe com isso a indignação. Somente a união das massas silenciosas poderá efetivar o cumprimento da justiça social.
O Potencialismo se opõe à propriedade privada, à propriedade intelectual e defende a propriedade da mente: a emancipação do intelecto. Cada ser Humano deve ser o senhor dos seus domínios mentais, de suas abstrações, sonhos e desejos, mas a partir do instante em que as idéias transcendem a psique chegando ao mundo físico na forma de Arte, descoberta, teoria ou engenho, é ilícito que alguém detenha ou venha a reclamar o domínio sobre tais idéias com puro intuito lucrativo. Não há nada de errado em requerer autoria, todavia se torna inadmissível limitar uma informação simplesmente porque alguém não pode pagar por ela: a maior recompensa é constatar que uma idéia está sendo empregada em benefício da humanidade. Negamos a manipulação burguesa, antes a Arte de utilidade pública do que a cultura de massas e tudo aquilo que aliena e padroniza os seres.
O Potencialismo defende intransigentemente a diferença entre as pessoas, ao mesmo tempo em que prega a Igualdade Potencial como princípio sólido do mundo que se propor a ser civilizado. As pessoas são diferentes, não estranhas. As pessoas são diferentes, mas isso não implica que todas devam ser tabelas, isoladas ou reunidas segundo suas características. Declaremos fim a toda sorte de segregação. O Potencialismo sabe que os seres humanos são de tão modo singulares, que se nos propusermos a separá-los baseando-nos na diferença, cada um dos seis bilhões de habitantes da Terra se veria obrigado a viver sozinho. Somos, cada um, únicos.
Sendo únicos, seres maravilhosos por excelência, a primeira das criaturas a questionar-se acerca de sua própria origem e sobre a origem do meio onde vive, o cérebro mais poderoso da biologia, capaz de realizações tão esplêndidas e várias quanto a construção das pirâmides e a viagem à lua, se somos assim tão importantes, se nos enquadramos tão orgulhosamente na espécie homo sapiens e ainda gozando de um gênero único em todo reino animal, como podemos permitir que nossos semelhantes sofram a atrocidade da fome com a fartura de alimentos que atualmente produzimos? De que maneira podemos tolerar em silêncio resignado, que algumas nações promovam desenfreadamente o jogo da guerra a fim de assegurar as próprias ambições e a inquestionabilidade de seus temíveis poderios militares? Alguém diga como é admissível que aceitemos passivamente a existência de mendigos, de sem-teto e de outras classes que lutam para conquistar algo com o qual todos deveriam inquestionavelmente nascer: cidadania.
O Potencialismo é a indignação, a dor na consciência, o crime e o castigo. Não chamamos de comunismo somente a vitória do proletariado em detrimento da burguesia, até porque as relações de trabalho hoje são muito mais sutis e diferentes do que na época de Marx. Hoje o “socialismo real” expirou e até o pleno emprego com o qual sonharam os keynesianos, foi substituído por um mercado cada vez mais abstrato e desumano, onde as legiões trabalhistas de outrora não são mais necessárias para o advento do lucro. Os sindicatos perderam sua força, não podem provocar mudanças significativas – portanto os governos decidiram não mais engambelar os cidadãos com o Estado do Bem-estar Social. A regra agora é cada um por si e o capitalismo selvagem, mais selvagem e bestial do que jamais fora, contra todos.
Marx queria a obrigatoriedade do trabalho para todos, porém não pôde prever que já no início do século XXI não haveria mais trabalho. Precisamente por isso o comunismo Potencialista adquiriu um novo significado. Estendemos o sentido de comunismo a uma concepção humanista, desprovida das aberrações stalinistas, castristas, maoístas e congêneres. Queremos ir além das relações de operariado porque o trabalho está definhando em todo planeta, tornando-se cada vez mais raro. Filas descomunais de desempregados são um dos primeiros sinais de que alguma coisa não vai bem com o capitalismo – vamos em breve enfrentar uma crise pior do que a do entreguerras e, quem sabe no zênite da crise, uma nova guerra.
O Potencialismo está certo de que houve uma inversão do papel das forças produtivas em nossa sociedade. No capitalismo todas as forças do Homem são direcionadas à produção desenfreada, processo que traz como conseqüência a escravidão e a subserviência dos cidadãos, a exploração definitiva dos recursos naturais e a poluição ambiental, o trabalho infantil do terceiro mundo e a miséria de milhares em prol da fortuna de alguns. O curioso é que o fim último da produção é a manutenção da vida humana. Portanto não seria mais plausível crer que nascemos antes para viver em plenitude do que para sermos operários? Afinal, se a produção tem como objetivo último a vida, deveríamos produzir para viver e não viver para produzir. Esta foi a inversão do papel das forças produtivas que somos obrigados a admitir na cultura do lucro. Em tempo, devemos fazer com que as forças de produção se submetam aos homens e não que os homens se submetam às forças de produção.
O Estado Potencialista é universal, é qualquer trecho de mar ou terra onde porventura habitar um ser humano, seja ele quem for, pense ele o que pensar, viva ele como viver. A capital deste Estado é a mente. As leis precisam ser modificadas para que passem a cumprir exatamente a função para quais foram criadas: assegurar a justiça no mundo. E a propriedade mais do que nunca necessita de um fim utilitário.

MANIFESTO POTENCIALISTA