Cansados de esperar por uma decisão judicial de suspensão da medida liminar, vigente desde 2001, que "impede" os Akwe-Xavante orientais de retornar ao seu território de origem e com o apoio de servidores do órgão federal (FUNAI) que vêm acompanhando a saga desses índios durante décadas, cerca de 250 guerreiros se deslocaram de várias aldeias para ingressar na ex-fazenda Suiá-Missu. Aguardam, desde meados de novembro, acampados no limite da terra indígena, o retorno definitivo ao seu território tradicional.

Ao mesmo tempo, para impedir e tumultuar o retorno dos Akwe-Xavante, comerciantes e "grileiros" (que se apropriam indevidamente de terras públicas) da cidade de Alto da Boa Vista, apoiados pelo atual prefeito, passaram a incitar a população de ocupantes não-índios à desobediência civil, bloqueando rodovias e queimando pontes de acesso à São Félix do Araguaia. Contingentes da Polícia Federal foram deslocados para a região a fim de evitar que um conflito tomasse maiores proporções; devido a uma greve da categoria, no entanto, retiraram-se dias depois. Alguns poucos policiais militares permaneceram na área.

Prosseguem as tímidas negociações entre o governo estadual de Mato Grosso, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Ministério da Justiça e a 6 .a Câmara do Ministério Público Federal para a desocupação da terra indígena e reassentamento da "clientela de reforma agrária", distinguindo portanto dos criadores de gado da região que estão incrementando o confronto,. Os jornais locais denunciam as ameaças de morte aos índios, aos servidores da FUNAI que os acompanham, além do bispo de São Félix, Dom Pedro Casaldáliga.

Os conflitos entre os Akwe-Xavante e os "fazendeiros" teve início na década de 60, com a construção da rodovia Belém/Brasília, que deu impulso à migração para o oeste brasileiro, aliada à política de incentivos fiscais para as empresas que investissem na Amazônia. Nesse mesmo ano, o Sr. Ariosto da Riva adquiriu a fazenda Suiá-Missú, primeiramente com quase 500.000 hectares, que após associar-se ao Grupo Ometto, em 1961, atingiu aproximadamente 800.000 hectares, passando a se denominar Agropecuária Suiá-Missu S.A, ficando conhecida na década de 70 como o maior latifúndio brasileiro, senão da América Latina. (os números chegavam a 1,5 milhão de hectares).

A instalação da fazenda demandou o uso de mão-de-obra barata da população regional e dos próprios Akwe-Xavante, que com o decorrer do tempo tornaram-se incômodos ao Sr. da Riva: viviam ameaçados pelos empregados da fazenda, que os impediam o livre acesso e tinham suas roças destruídas pelo gado. Transferiram seus aldeamentos muitas vezes no entorno da "fazenda" Suiá-Missu (o nome do rio ao norte), que os "pagava" com cabeças de gado . Sem outra alternativa, eram "convencidos" a mudar para diversos locais na região como nunca se adaptaram, acabaram se tornando um entrave para o Sr. da Riva e o Grupo Ometto.

A solução encontrada pelos proprietários da fazenda envolveu um acordo com o antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI, que antecedeu a FUNAI), a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Missão Salesiana de São Marcos, em transferir os Akwe-Xavante para a referida Missão, distante 400 km da fazenda Suiá-Missu. Em 1966, os índios foram transportados em aviões da FAB, pensando que estavam retornando às antigas aldeias, nas cabeceiras do rio Xavantinho. Ao chegar à Missão, foram persuadidos pelos padres a aceitar a transferência, sob pena de morrerem à míngua no local onde se encontravam.

Com a mudança para a Missão São Marcos, mais de cem índios morreram de sarampo nas duas primeiras semanas, doença para a qual não tinham resistência. A partir de então, os Xavante orientais dispersaram-se em outras terras Xavante (principalmente Sangradouro e Namunkurá). Em 1984, 350 pessoas do grupo original se encontravam na aldeia Água Boa (no interior da Terra Indígena Pimentel Barbosa), enquanto cerca de outros 350 estavam distribuídos em outras terras.

Em abril de 1990, a "Campagna Nord-Sud, Biofera, Soppravivvenza dei Popoli, Debito" - formada por organizações italianas de cooperação, ambientalistas, sindicatos e parlamentares - apresentou o "Dossier Brasile: responsabilità italiane in Amazonia" como resultado de uma pesquisa realizada em 1989 sobre os investimentos italianos na Amazônia. O dossiê examinava alguns latifúndios de propriedade de empresas italianas e as conseqüências desses empreendimentos no ambiente amazônico. Foi reconstruída assim a história da "Agropecuária Suiá-Missu S.A." e identificada a antiga reivindicação dos Akwe-Xavante orientais de voltar para as suas terras tradicionais, de onde foram forçosamente removidos em 1966 para que a fazenda 'Suiá-Missu' se instalasse, no município de São Félix do Araguaia, estado de Mato Grosso.

Desde fins de 1991, seguiram-se inúmeras reuniões entre os representantes dos Akwe-Xavante da aldeia Água Branca, seus assessores (antropólogos e advogados), representantes da FUNAI, do Ministério Público Federal e da Agip do Brasil (empresa então proprietária das terras no Brasil, subsidiária da Agip Petroli). Através dos contatos com a presidência da empresa italiana, foi proposta a reconversão social e ecológica da "fazenda" Suiá-Missu, com a sua restituição efetiva aos Xavante orientais.

Em 1992, a FUNAI constituiu um grupo técnico para realizar a identificação e a delimitação da Terra Indígena Marãiwatsede, delimitando uma superfície de 200.000 hectares, sendo 168.000 hectares incidentes na fazenda Suiá-Missu e 32.000 hectares fora dela.

No entanto, a ocupação por não-índios da porção da fazenda Suiá-Missu identificada como terra indígena ocorreu logo após a divulgação pela imprensa, na ocasião da UNCED-1992, no Rio de Janeiro, de declarações de representantes da empresa LIQUIFARM AGROPECUÁRIA SUIÁ-MISSÚ S.A., de propriedade da Agip do Brasil, relativas ao reconhecimento dos direitos dos Xavante, tendo manifestado publicamente o interesse em "devolver as terras aos índios".

Apesar das pressões dos grupos de apoio e do sucessivo envolvimento dos ministérios italianos do Exterior, do Tesouro e do Ambiente, às declarações da Agip na mídia não se seguiram atos concretos. Ao contrário, a área foi invadida por centenas de "posseiros" sob a égide de políticos locais contrários ao retorno dos Xavante.

As negociações foram interrompidas em novembro de 1993, um mês após a promulgação do reconhecimento da "Terra Indígena Marãiwatsede" pelo Ministério da Justiça (portaria declaratória n.363/93, DOU 01.10.93); com este ato, a União reconheceu a área de 168.000 hectares como de ocupação tradicional Xavante, tendo se incumbido de sua demarcação e proteção oficiais. Recursos da ordem de US$130.000 foram destinados em 1993 pelo PRODEAGRO e, desde então, repassados à FUNAI para realizar a demarcação topográfica da Terra Indígena Marãiwatsede. Ao final de 1994, a FUNAI tentou iniciar a demarcação dos limites da TI Marãiwatsede, interrompida em razão da rescisão do contrato com a empresa vencedora da licitação, por insuficiência de apoio policial para a garantia dos trabalhos. Após a rescisão do contrato, os Ministérios da Justiça e Extraordinário de Política Fundiária decidiram traçar um novo plano de ação, instituindo, em 1996, um grupo de trabalho interministerial, com a participação da FUNAI, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Programa para o Desenvolvimento Agro-Ambiental do Centro-Oeste (PRODEAGRO, Banco Mundial), Prefeituras Municipais de Alto Boa Vista e São Félix do Araguaia, Comissão Pastoral da Terra e Sindicatos de Trabalhadores Rurais da região, a fim de realizar o cadastro dos ocupantes não-índios da terra indígena.
Com fundamento no art. 9.º do Decreto 1775/96, os limites declarados foram contestados pela subsidiária da empresa italiana (Agip do Brasil) e pelos municípios de Alto da Boa Vista e São Félix do Araguaia. Todas as contestações foram julgadas improcedentes pela FUNAI e Ministério da Justiça.

Em cumprimento à determinação da Justiça Federal em Mato Grosso, entre setembro e novembro de 1998, duas equipes de técnicos (FUNAI, INCRA e Instituto de Terras de Mato Grosso -INTERMAT), acompanhadas por agentes da Polícia Federal, realizaram um novo levantamento dos ocupantes da área. A demarcação somente veio a ocorrer em 1998, com a realização dos trabalhos por técnicos da própria FUNAI. A superfície e perímetro desse trabalho resultaram em 165.241,2291 hectares e 249 km, que foram homologados por Decreto presidencial de 11 de dezembro de 1998 (DOU de 14.12.98). Os registros no Cartório e na Secretaria de Patrimônio da União/MT ocorreram em 1999.

Por meio do Ofício n.º P011/2000 de 07 de janeiro, o INCRA disponibilizou à FUNAI o imóvel rural denominado "Fazenda Guanabara" (Processo INCRA/MT n.º 54.240.000673/98-34), com superfície aproximada de 30.000 hectares, situado no município de Alto Boa Vista, para assentamento dos 660 ocupantes não-índios da Terra Indígena Marãiwatsede cadastrados. A proposição foi levada pela FUNAI (Processo n.º 95.0000679-0) ao conhecimento do juiz da 5ª Vara Federal da Seção Judiciária de Mato Grosso, onde tramitava a ação civil pública.

Apesar da Terra Indígena Marãiwatsede já se encontrar demarcada e homologada, o regresso dos Akwe-Xavante não se concretizou por força de reiteradas decisões judiciais exaradas pelo TRF da 1ª Região. Uma decisão recente, proferida pelo mesmo Tribunal, determinou que a FUNAI elaborasse estudos periciais técnicos e antropológicos, no interior da terra indígena, indicando local adequado para o assentamento dos índios, sabendo-se que lá permanecerão independentemente da saída dos posseiros. Para cumprimento dessa determinação, o grupo de trabalho constituído pela Portaria n.º 1086/PRES/2002 e Instrução Técnica Executiva n.º 074/DAF/2003, encontra-se em campo e, desde novembro último, acompanhada dos 250 guerreiros Akwe-Xavante.

A TI Marãiwatsede continuou sendo objeto da espoliação por parte de "fazendeiros". Com a ocupação ilegal havida, a TI Marãiwatsede passou a sofrer inúmeros desmatamentos (inclusive por madeireiras), com vistas à extensão de pastagens, de acordo com o modelo predatório de exploração econômica regional. Abrigando restos de inúmeras aldeias antigas, cemitérios e a memória da história recente dos Akwe-Xavante orientais, Marãiwatsede (mata bonita, em língua xavante) é uma região particularmente significativa para cerca de 1.000 Xavante distribuídos atualmente nas aldeias Água Branca, São Felipe, Namunkurá e Hu'uhi (os Xavante contam, atualmente, com uma população total estimada em 14.000 pessoas, em mais de 70 aldeias no estado de Mato Grosso - cf. FUNAI, agosto 2003).

Dezembro 2003