O ex-presidente da Central única dos Trabalhadores, Jair Meneguelli, decidiu abrir mão da sua vaga de suplente de deputado federal para aceitar um cargo de diretor do Sesi, Serviço Social da Indústria, um órgão da FIESP, a organização dos principais tubarões empresariais de todo o Brasil, depois, é lógico, da Febraban, a federação dos banqueiros.
O Sesi é uma organização que presta serviço à FIESP, foi criado pelos empresários na década de 40 para criar um mecanismo que permitisse aos empresários fazer demagogia com os trabalhadores com o dinheiro do governo.
Nem é necessário dizer que somente um homem de integral confiança dos grandes exploradores da classe operária poderia ocupar um posto destes. É por isso que o cargo lhe rendeu um salário de R$21.000,00 (vinte e um mil reais).

Trajetória de um sindicalista patronal

O Sindicalista Jair Meneguelli começou sua carreira política no sindicalismo do ABC na categoria dos metalúrgicos, integrante do grupo de Lula, líder de uma das facções da burocracia sindical que dirigia o sindicato em plena ditadura militar com o consentimento dos militares.
Meneguelli foi seu sucessor na presidência do sindicato dos metalúrgicos do ABC com o apoio incondicional de Lula. Após as greves de 1979, a diretoria de Lula, composta por velhos pelegos da época da ditadura militar, estava completamente esgotada diante dos trabalhadores. Lula arquitetou, então, a manobra de renovar toda a diretoria, saindo inclusive ele mesmo, com a integração dos elementos mais direitistas que haviam participado da greve. Torneiro mecânico da Ford, Meneguelli fazia parte da camada mais aristocrática da categoria, dos funcionários mais especializados das montadoras, o setor mais conservador dentro do sindicato.
Homem de absoluta confiança de Lula, em seguida se transformou no primeiro Presidente da nascente Central Única dos Trabalhadores.
A CUT nasceu de dois movimentos antagônicos, de um movimento de ascenso e de organização da classe trabalhadora brasileira em oposição aos sindicatos pelegos da época da ditadura militar, de outro, a ruptura irremediável da burocracia do setor mais moderno e mais concentrado da economia, os metalúrgicos do ABC com o sindicalismo pelego tradicional da época da ditadura. Esta ruptura teve razões objetivas e não ideológicas. Os sindicalistas da radicalizada classe operária do ABC sabiam que era impossível aplicar na sua base a mesma política dos demais sindicatos da Federação Metalúrgica.
O peso que a classe trabalhadora ocupava na CUT, a transformou numa das mais poderosas centrais sindicais do mundo, esta situação transformou Meneguelli em um dos mais importantes dirigentes sindicais do país, tanto que anos depois Meneguelli se elegeria como Deputado Federal com milhares de votos dos trabalhadores brasileiros. No entanto, à frente da CUT, Meneguelli atuou como peça importante no esquema das montadoras e dos capitalistas de conjunto para manterem uma rígida disciplina salarial à classe trabalhadora. Meneguelli atuou para uma burocratização da CUT e em defesa de uma ampla política de colaboração com os interesses capitalistas.

O que é a burocracia sindical do PT?

O sindicalismo do PT, ou sindicalismo lulista, representa uma burocracia operária de mais de 20 anos de atuação no movimento sindical brasileiro.
Lula participou da direção do sindicato dos metalúrgicos em meio à ditadura militar, onde os sindicatos eram controlados passo a passo pelos órgãos de repressão do Estado, os dirigentes sindicais eram fichados no DOPS, a CGT(Central Geral dos Trabalhadores) era dirigida por um informante da polícia política, o "Joaquinzão".
Com a crise do regime político burguês, o governo militar ruiu sob a pressão das greves de 1977 a 1979.
O ascenso operário obrigou o sindicalismo controlado pelos militares a se adaptar à nova situação política.
Neste ambiente é que se estrutura um grupo de sindicalistas em torno de Lula e do PT que, ao mesmo tempo em que não mantinha nenhuma diferença com o restante da burocracia pelega, atuando contra os interesses operários e apoiando-se na ditadura, foi obrigado a acompanhar o movimento dos trabalhadores, primeiro de insatisfação, depois de greve, a partir de 1976, para não ser completamente destruído.
A partir de 1976, um setor da burguesia, que havia se beneficiado da política econômica desastrosa da ditadura militar, o chamado "milagre econômico" e apoiado a repressão contra os trabalhadores, passa a fazer uma oposição moderada ao regime militar através do MDB. Os sindicalistas lulistas apóiam este movimento e se tornam a ala oficial do sindicalismo peemedebista. Lula apóia Fernando Henrique Cardoso, da ala chamada pela imprensa "autêntica" do MDB e recebe da imprensa burguesa o apelido carinhoso de "sindicalismo autêntico". Será a incapacidade da própria ala "autêntica" do MDB de acomodar os interesses dos sindicalistas que levará à formação do PT.
Esta trajetória mostra as características principais da burocracia sindical lulista: 1) que é uma burocracia na medida que sempre se apoiou no estado contra a classe operária, tendo surgido no interior da ditadura e conquistado o sindicato sob a proteção do regime militar; 2) que foi obrigada, para defender os seus interesses de casta, a se adaptar às novas condições políticas, primeiro ao MDB da burguesia e depois a construir um partido próprio; 3) que foi obrigada, para defender os mesmos interesses de casta privilegiada, a se adaptar ao ascenso da classe operária colocando-se na direção das greves de 78, 79 e 80 para traí-las.

A burocracia lulista serviu sempre à burguesia, não aos trabalhadores

A conseqüência imediata da política do sindicalismo petista se expressa no fato de que empobreceu de conjunto a classe operária, o salário mínimo nunca foi tão baixo no país, ficando inferior a países milhares de vezes mais pobres que o Brasil, como é o caso do Paraguai.
Os trabalhadores sentiram no bolso a forma petista de direção sindical, a burguesia impôs com a ajuda dos sindicalistas do PT uma ditadura salarial implacável à classe operária.
No entanto, para os sindicalistas do PT a situação não foi tão ruim, muitos deles utilizaram os trabalhadores para assumir cargos no estado burguês e se transformarem em aliados e funcionários diretos da burguesia. Foram vários anos de uma burocracia que impediu a luta dos trabalhadores e só negociou privilégios para a própria burocracia, através de um esquema de corrupção miúda dos sindicalistas cutistas.
Os sindicalistas do PT que dirigiram o movimento sindical brasileiro neste último período, valeram-se das lutas dos trabalhadores para subirem de vida, venderam os interesses da classe trabalhadora brasileira para poderem, individualmente, terem seus salários aumentados.
A burocracia lulista foi, durante todos estes anos, o principal freio das lutas operárias. Bloquearam o ascenso das greves contra o regime militar, derrotando as grandes greves do ABC e outras; apoiaram a ascensão da burguesia ao poder na aliança PT-PFL, apoiaram a política econômica do governo Sarney consubstanciada no Plano Cruzado; transformaram a CUT em uma organização burocrática que apoiou em todas as oportunidades políticas contrárias aos interesses dos trabalhadores, como as câmaras setoriais no governo Collor, a reforma da Previdência no governo FHC etc.

A evolução da burocracia sindical do PT

Este novo emprego de Meneguelli esclarece, de uma vez por todas para os trabalhadores, de que lado da mesa ele estava nas negociações na FIESP, pois em uma maior ou menor medida, a burocracia está sempre trabalhando para favorecer os negócios dos capitalistas, e sua função é amaciar esta opressão para que a classe trabalhadora não possa reagir aos ataques às suas condições de vida.
Meneguelli ocupa um cargo de confiança dos patrões, um cargo que precisa possuir uma afinidade política muito grande com a burguesia paulista.
O Sesi é um projeto da burguesia industrial do país para mascarar a exploração a que os trabalhadores estão submetidos dentro das fábricas.
Hoje, a função exclusiva do ex-sindicalista do PT, Jair Meneguelli é a de dirigir os negócios da burguesia no setor social. O que fez com que abandonasse até o cargo de suplente de Deputado Federal pelo PT.
É um caso representativo do conjunto da burocracia sindical da CUT e da burocracia política do PT. São obrigados a deixar de apoiar a burguesia de fora do governo para assumir diretamente responsabilidades pelo funcionamento do próprio estado burguês em crise.
Ao ser indagado em um programa de televisão sobre o alto salário que recebe na FIESP, Jair Meneguelli, retrucou dizendo que seu salário era inferior ao do apresentador de programa de televisão "Faustão".
O descaramento e a insensibilidade da burocracia sindical estruturada pelo PT no movimento operário, diante da atual agudeza do conflito social entre os trabalhadores e a burguesia, é também um termômetro da enorme crise política desta burocracia, abrindo uma enorme possibilidade para que os trabalhadores se libertem das direções sindicais pelegas da era PT e comecem um novo modelo sindical, independente dos patrões e dos governos burgueses.
O caso Meneguelli serve também para esclarecer uma parte da esquerda, como o PSTU e os integrantes do "novo partido", que acreditam que ao chegar ao governo, os "companheiros" sindicalistas e políticos petistas mudaram da água para o vinho. Na realidade, passar de apoio patronal nos sindicatos e no parlamento para administrar o estado burguês contra as massas é uma evolução, mas é a evolução lógica de toda a burocracia, de acordo com o seu caráter de classe