DÉTOURNEMENT COMO ARMA DE AÇÃO DIRETA DE SUBVERSÃO
A palavra «détournement» (desvio) tem um certo sentido que não é diretamente ligado aos situacionistas, mas talvez eles tenham sido os primeiros a usar politicamente essa terminologia. Historicamente, nas artes, o détournement conecta-se à palavra «collage» (colagem), traduzida em inglês por «found footage».
O primeiro a usar a colagem na pintura foi Picasso no começo do século XX. Essa prática foi reutilizada pelos dadaístas e surrealistas que exploraram as várias possibilidades em textos, pinturas, etc... A vantagem desenvolvida pelos dadaístas e surrealistas foi a visão de usar a colagem com meio de subversão dos valores estéticos dominantes nessa época.
DEFINITIVAMENTE, o desvio tem uma FUNÇÃO LÚDICA pois além de ativar o jogo também libera a possibilidade de criar novos paradigmas baseados no encontro que cada um pode estabelecer. Vista assim, a colagem vai de par com o espírito de projeto comum de subversão ligado à história das ditas avant-gardes.
Os surrealistas que usaram largamente a colagem reclamam a paternidade do détournement a um poeta francês do fim do séc. XIX chamado Lautréamont na sua obra prima «Les chants de maldoror» (Os cânticos de Maldoror). Esse livro é uma ode ao mal baseada no desvio semântico plagiado de Dubuffet.
O que os situacionistas tentaram fazer foi sistematizar essa prática. Debord e Wolman escreveram juntos um artigo em 1956 numa revista belga chamada «Les lèvres Nues» (revista surrealista revolucionária dissidente do resto do movimento surrealista decadente ainda dirigido Breton e Cia). Nessa época de «maturação» D. e W. alargam as eventuais possibilidades do desvio generalizado, sobretudo num domínio quase inexplorado que é o cinema.
Segundo eles, no cinema, o desvio sistemático poderia ter um impacto máximo por varias razões (predominância popular,...). No cinema, até aos letristas, o desvio dos filmes quase que ainda não tinha sido explorado exceto por Esfir Schub, D. Vertov (na Rússia no princípio dos anos vinte) e L. Bunuel «L'age d'or» (A idade de ouro), (frança, começo dos anos trinta). A prática generalizou-se durante os anos 60. Godard por exemplo também usa a Colagem no cinema.
Mas o que distingue os situacionistas dos outros é que eles tentaram dar um estatuto quase ontológico e holístico à colagem na base de um projeto revolucionário. O détounement é uma arma de ação direta de subversão e o que é «ontológico» é que eles fixaram isso na filosofia de Hegel e de Marx. Na Sociedade do Espetáculo ( teses 206 e 208) Debord liga a poética de Hegel da inversão do genitivo com o détournement. Exemplo: Proudhon: A filosofia da miséria. Marx: A miséria da filosofia (1845). Debord vê nesse exemplo o primeiro détournement a fins subversivos de um estado de fatos. A coligação entre Detournement e luta de classes está feita. O desvio do genitivo inverte a ordem de relação possessor-possuído.
O que foi sempre assumido por Debord é que o détournement somente tem sentido como subversão em época pré-situationista. Porque ele define-se primeiramente como negação do conceito de arte (a definição burguesa). O détournement participa no movimento dialético (tese, negação, negação da negação,...).
Quanto eu saiba, talvez me engane, os situacionistas foram os únicos a terem desenvolvido tão profundamente o conceito e a tê-lo ligado de maneira necessária a uma revolução generalizada. Isto, claro, foi tudo desenvolvido no calco dos anos 60. Hoje, o détournement não tem essa conotação revolucionária. Agora é um prática generalizada e mesmo nos meios capitalistas que pretendia negar.
Outros desenvolveram o conceito de maneira mais estética independentemente do conteúdo político. Para mais detalhes podes ir ver nas revistas da I.S. (n. 1, 7 (Vienet), 9 ... não me lembro exatamente), também nos textos dos filmes de Debord (SDE e o Último) e também R. Vaneigem.
A Internacional Situacionista foi formada nos fins dos anos 50 e existiu até o princípio dos anos 70. O termo «situacionista» foi formado no princípio da retomada das situações da vida no dia-a-dia. É importante compreender que aqueles que fizeram parte da IS testemunharam a recente transição cultural do capitalismo. Hoje estamos impotentes diante dessa economia que permeia cada aspecto de nossas vidas. Contudo isso traz à tona a necessidade de nos desvencilharmos do «espetáculo» que media nossas interações e controla nossas situações.
Texto retirado da lista situationists_nothingless e adaptado.
