O futuro Comendador Dom Catende da Zona da Mata de Pernambuco Brasil, uma das mais ilustres e desconhecidas personalidades do país, em pleno gozo dos seus direitos de cidadão, apresentará às nossas autoridades constituídas proposta de mudança do atual Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503, criado para que o processo de circulação através do espaço físico se desenvolva sob padrões de segurança, eficiência, fluidez e conforto. Uma vez que há urgente necessidade de uma nova legislação, conforme veremos se os motociclistas nos permitirem trocar de parágrafo, no tocante ao deslocamento de motocicletas no ambiente urbano, tanto quanto às leis não escritas sobre o comportamento dos condutores destes veículos, o futuro Comendador justifica seu projeto a partir dos seguintes considerandos:

CONSIDERANDO que somente é possível respeitar como veículo algo que possua, no mínimo três rodas, excetuando-se, obviamente, os velocípedes, carrinhos de supermercados, de sorvete e de cachorro-quente, cadeiras de rodas, carrinhos de rolimã e de parques de diversão, entre outros;

CONSIDERANDO que, conscientes de sua condição privilegiada, os motociclistas não observam faixa de pedestre, faróis de trânsito e deslocam-se em alucinantes movimentos de ziguezague entre as linhas que demarcam o asfalto, transformando o ato de dirigir automóveis em um permanente exercício de presciência sobre o momento e o ponto de tangência da aparição fantasmagórica chamada moto;

CONSIDERANDO que, em concentração na Avenida Rebouças para agredir um motorista cujo carro foi atropelado por uma moto, os motociclistas decidiram que não é permitido a qualquer automóvel trocar de faixa de rolamento, como dizem os especialistas, mesmo com o auxílio da seta, porque ninguém vai ser louco de sinalizar com o braço;

CONSIDERANDO que os motociclistas julgam pedestre um substantivo que deve ser retirado do dicionário, concomitante ao fim do trabalho de eliminação que eles estão desenvolvendo contra esse tipo de ser que ousa atravessar ruas, avenidas e, em muitos casos, caminhar pelas calçadas;

DIANTE DO EXPOSTO, o Comendador, futuro porque comprará o título a ser recebido em festa de colunismo social, tem convicta certeza de que sua proposição obterá guarida entre as nobres autoridades do país, que decerto envidarão todos os esforços para promulgação da nova Lei classificando as motocicletas e os motociclistas como os Reis do Asfalto, dispensando as primeiras de exigências burocráticas como placas e licenciamento e aos ases do guidom a necessidade de carta. O corpo da Lei já está pronto mas demorará um pouco para chegar aos legisladores, uma vez que o Comendador é, por princípio, contra a utilização de motoboy, preferindo contar com os serviços de office-boy, e este, como se sabe, só cumpre a tarefa depois de encerrada a sessão dupla de filmes pornô daquela sala na Avenida Ipiranga.