Para tentar responder a essa questão precisamos rever o que se definiu chamar de revolução industrial. Não iremos abordar o assunto da forma como tradicionalmente é feita, ou seja, a partir só dos principais avanços tecnológicos como os associados a máquina a vapor, a eletricidade, ao petróleo e a informática.
Para nós é muito mais importante definir os processos pelos quais as empresas tiraram e tiram partido dessas inovações com o objetivo de maximizar seus lucros.
Antes da primeira revolução industrial, o conceito de lucro industrial estava ligado essencialmente a produção de artigos de luxo. Quanto mais caro e exclusivo o produto, maior o lucro. As classes inferiores não faziam parte dos planos dos empreendedores.
Podemos notar que na primeira revolução industrial o objetivo dos empreendimentos mecanizados era criar produtos baratos para atender níveis de demandas até então inexistentes. Isso fica particularmente claro no caso da vedete do período: A indústria têxtil.
Até a invenção do tear mecânico movido a vapor, as roupas eram artigos de luxo. Comprar um casaco para um homem do povo era o mesmo que hoje em dia comprar um automóvel ou uma pequena casa. Assim o lucro das empresas passa a estar ligado a necessidade do aumento da demanda por seus produtos. Numa palavra, aos capitalistas interessava que os pobres se transformassem em consumidores.
Devemos lembrar que a tecnologia revolucionaria da época se destinava a produzir ou a disponibilizar bens de baixo custo. Alem da industria têxtil, a extração de carvão e a revolução dos transportes promovida pelo navio e pela locomotiva a vapor, não visavam obter lucros com produtos de alto valor.
Ao contrário da era das grandes navegações, em que a idéia era obter especiarias e metais preciosos para revender na Europa para uns poucos privilegiados, o objetivo passou a ser vender produtos baratos e em grande quantidade para o máximo possível de pessoas.
A contradição essencial é claro, era a questão de a indústria ainda ser muito dependente de verdadeiros exércitos de empregados agrupados o mais perto possível das fontes de energia que moviam as maquinas. O lucro do capitalista dependia de pagar o mínimo possível de salário, mas suas vendas dependiam de uma população com renda suficiente para comprar seus produtos.
A única solução para essa questão era a exportação dos produtos para países onde houvesse mercado mas não indústrias locais. Disso resultaram grandes conflitos tanto internos quanto externos.
Dentro do país industrializado, o capitalista ficava cada vez mais rico, enquanto fazia de tudo para manter os salários de seus empregados em níveis mínimos. O resultado era a ?luta de classes? com greves e conflitos sociais.
Foi graças ao êxito das classes trabalhadoras da época, reivindicando aumentos de salários, reduções na jornada e melhoria das condições de trabalho, combinado ao fato de serem indispensáveis para a produção, que o padrão de vida subiu bastante nos países industrializados. É muito importante notar esse detalhe.
No exterior, tudo era feito para convencer os governos locais a não tentar incentivar a industrialização. O argumento era que a industria era uma ?vocação natural? de países como a Grã Bretanha enquanto produzir bons vinhos seria a de países como Portugal e Espanha.
É claro que isso não podia ser levado a sério por muito tempo. E não foi, logo a industrialização passou a ser uma bandeira sagrada para todos os elementos progressistas de cada sociedade. De algumas formulações erradas dessa questão, nasceu o conceito geral de que todos os problemas de um país pobre se deviam as manobras dos países industrializados para prejudicar a sua economia.
Na segunda revolução industrial as coisas já tinham mudado muito, a maioria dos países importantes se lançou com o máximo zelo a projetos de industrialização. Todos perceberam que os países com a curiosa ?vocação? para a indústria, logo ficavam mais ricos e poderosos que seus vizinhos dedicados a agricultura ou a pecuária.
Assim, na nova economia baseada na eletricidade e no petróleo, os lucros não podiam mais depender da venda de mercadorias baratas a um pequeno mercado interno e da exportação para países com governos tolos ou incompetentes o suficiente para se manter como nações ?essencialmente agrícolas?.
Era necessário ganhar vendendo em grande escala com margens reduzidas, de maneira a competir com as outras empresas exportadoras do país e do exterior. Para isso era fundamental recorrer a busca de eficiência também na pesquisa e desenvolvimento técnico e em termos de compras de matérias primas, distribuição e propaganda.
A necessidade do domínio de áreas até então desconhecidas pelo empresário tradicional fez surgir a necessidade de recorrer a uma grande número de profissionais e de se criar complexas estruturas administrativas.
Esses profissionais passaram a se constituir numa casta a parte, recebiam salários mais altos e trabalhavam em escritórios limpos e agradáveis. Devido a seu trabalho estar muitas vezes ligado a atividades de gerência e controle, desenvolviam grande lealdade aos seus empregadores. Era a ?classe média? moderna, em formação.
Os novos empregados ?de colarinho branco? raramente tiveram de lutar como os de ?colarinho azul? para conseguir seu status. Quando não vinham diretamente das classes mais privilegiadas, sua luta para estudar e aprender seu oficio era sempre individual e fora do ambiente da empresa. Isso também é um detalhe muito importante.
Como os lucros passaram a depender de escalas cada vez maiores, surgiram duas propostas básicas: o aumento do mercado interno e a conquista de outros mercados mesmo que recorrendo ao uso da força.
Da primeira proposta, surgiram idéias como as de Henry Ford que acreditava que seus operários deveriam ter condições de comprar seus automóveis. Assim, pagar bons salários não era mais um sintoma de loucura nem de vocação filantrópica. Passou a ser política de governo no interesse das próprias empresas.
Da segunda proposta, surgiu a sinistra figura do imperialismo moderno. A idéia não era mais governar colônias com povos exóticos e atrasados. O objetivo era criar ?esferas de influência? onde as empresas do país pudessem explorar mercados sem a interferência de outros concorrentes.
Para se conseguir isso, os empresários antes tão avessos aos governos, subitamente tornaram-se nacionalistas e passaram a defender a proteção do estado para seus negócios, sempre ameaçados pelas maquinações diabólicas de outros países. Isso resultou numa mudança importante no papel dos governos em geral.
Eles passaram a criar enormes estruturas administrativas com o objetivo de fomentar o desenvolvimento e defender sua indústria da concorrência, supostamente ou de fato desleal, das empresas estrangeiras. Isso criou o novo ?funcionário público? ligado a atividades até então totalmente estranhas aos governos.
Para resumir, podemos dizer que as duas primeiras revoluções industrias tinham por objetivo usar a tecnologia para produzir produtos baratos e em grandes quantidades. A substituição do trabalho braçal na primeira e o desenvolvimento de sofisticadas estratégias gerenciais na segunda não visavam substituir trabalhadores por máquinas.
Isso só ocorreu como efeito colateral e inevitável em atividades onde o trabalho era feito de modo primitivo. Por outro lado, vimos que nas duas revoluções industrias, os trabalhadores desempenhavam papel central e indispensável no processo. A melhoria do padrão de vida das classes inferiores era condição fundamental para que as empresas modernas obtivessem lucros. Isso se aplicou inclusive aos países periféricos na segunda revolução industrial.
No que se convencionou chamar de terceira revolução industrial, as coisas são bem diferentes. Ela se baseia no chamado ?binômio informática/robótica?. Devemos lembrar que a essa interpretação, precisamos acrescentar a importância dos novos avanços das telecomunicações e portanto o correto é usar a expressão ?tecnologia de informação?.
Temos de lembrar também que computadores, robôs e redes de teleprocessamento só tem importância real quando associados aos novos métodos gerenciais. As novas máquinas por si só, não produzem nada de útil numa indústria.
Alguém pode objetar que os robôs fabricam coisas. Devemos notar que os robôs são apenas computadores adaptados para controlar com precisão equipamentos convencionais como furadeiras e máquinas de rebitar por exemplo. A novidade está no controle e não nas máquinas que operam.
Também precisamos levar em conta que o impacto dessas novas tecnologias não se restringe as indústrias, mas afetam as empresas comerciais, as prestadoras de serviços e mesmo o cotidiano das pessoas comuns. Isso acaba nos forçando a perceber que estamos vivendo uma revolução muito mais abrangente.
Ao contrário das revoluções anteriores, o objetivo atual é exatamente o aumento da produtividade já que as margens de lucro nunca foram tão pequenas e a competição tão acirrada. Os computadores e robôs não são usados para criar novos produtos como os teares a vapor ou os tornos movidos a motores elétricos. Eles são usados em grande parte para substituir diretamente as pessoas.
Um exemplo muito citado para explicar as vantagens da nova era é o caso da IBM Credit. Em resumo, conta-se que os pedidos de financiamento eram anotados por um dos 14 funcionários, passavam por cinco departamentos e demoravam em média 7 dias para serem aprovados. Descobriu-se que tudo podia ser feito em apenas 90 minutos. Após a devida ?reengenharia?, a conclusão descrita é a seguinte: ?A gerência da IBM eliminou os cinco departamentos e entregou a tarefa a um único funcionário equipado com um computador?.
Podemos ver claramente as diferenças entre a nova revolução e as precedentes:
1) Os funcionários eliminados não são descritos como pessoas antiquadas e inábeis. Não trabalhavam com ferramentas arcaicas (são mencionados pelo menos dois computadores no processo antigo). Não pertenciam a uma cultura primitiva e cheia de tabus (eram todos funcionários da IBM).
2) A mudança não se deveu a introdução do computador em si Até porque ele já estava presente. O ?ganho de produtividade? ocorreu pela aplicação da combinação de novas técnicas gerenciais com o potencial dos novos computadores.
3) Não se fala de qualquer reação por parte dos demais empregados a essa iniciativa. Também não se menciona o que ocorreu com os funcionários demitidos.
Quando vemos as conseqüências dos processos de reengenharia em geral, ficam evidentes os contrastes com o passado:
1) Os empregos eliminados não são parte de atividades arcaicas como o artesanato, mas sim da própria atividade das empresas.
2) Os funcionários eliminados não irão ser recolocados em atividades mais modernas e eficientes. A maioria irá acabar trabalhando em empregos de meio período, executando tarefas menos sofisticadas do que antes. Outros simplesmente não irão trabalhar mais.
3) As novas atividades, ligadas quase sempre a tecnologia de ponta, só precisam de uns poucos profissionais altamente qualificados ao contrário das gigantescas fábricas do passado que podiam absorver de ex-escravos a intelectuais fracassados.
Outro aspecto essencialmente diferente é o papel que a classe trabalhadora exerce na atual conjuntura. Como vimos, na primeira revolução industrial os operários não só eram indispensáveis como já começavam a fazer parte importante na composição do mercado consumidor. Na segunda, os funcionários administrativos passam a ser fundamentais para as empresas e junto com os seus colegas do governo e os operários cada vez mais especializados, compõe o próprio mercado consumidor.
Nos dias atuais, a classe trabalhadora passa cada vez mais a um papel irrelevante. Os sindicados enfraquecidos se limitam a propor reduções de jornada de trabalho. Líderes políticos propõem a ?flexibilização? das leis trabalhistas. Um evidente eufemismo para o fim dos direitos duramente conquistados em troca de alguns empregos a mais.
Esta claro que a atual terceira revolução industrial tem características distintas das duas primeiras. A começar pela sua magnitude e abrangências. Ela não se restringe a alguns países europeus, aos EUA e ao Japão, espalha-se pelo mundo todo. É causa e ao mesmo tempo conseqüência da globalização.
Por isso mesmo, os problemas decorrentes exigem soluções novas e globais. As teorias capitalistas neoliberais não dão conta da tarefa, e mesmo alguns de seus expoentes já admitem isso. Os velhos axiomas marxistas falham totalmente diante de um capitalismo sem proletariado, em que as classes trabalhadoras se pulverizam em milhões de autônomos, terceirizados, microempresários e afins.
É preciso uma nova teoria política e um novo conjunto de concepções econômicas para se lidar com fenômenos totalmente novos e desconcertantes como a progressiva eliminação dos postos de trabalho e a redução constante dos salários mesmo em períodos estáveis e até o crescimento vigoroso da economia sem a geração de um número razoável de empregos.
