Este é o tema de “Superman: Entre a Foice e o Martelo”, minissérie em três edições da DC Comics, publicada no Brasil pela Panini, que mostra o que aconteceria se o foguete que trouxe o herói ainda bebê à Terra tivesse caído em uma fazenda comunitária na Ucrânia, e não nos campos de Pequenópolis (Smallville), no Kansas, Estados Unidos. Oscilando entre a análise político-histórica, a crítica às recentes ações dos Estados Unidos e a narração da aventura, a obra do escritor Mark Millar (de sucessos como “Os Supremos” e “Ultimate X-Men”, para a Marvel) e do ilustrador Dave Johnson debate o que teria ocorrido com o mundo se o kriptoniano tivesse sido educado pelo ditador Josef Stalin (conhecido como o “homem-de-aço” russo), líder da União das Repúbicas Socialistas Soviéticas (URSS, desfeita nos anos 90).

Criado em 1934 por Jerome Siegel e Joseph Shuster, durante a grande recessão norte-americana, o Superman sempre foi o principal símbolo dos Estados Unidos, tanto quanto a torta de maçã. Sua associação com a terra do Tio Sam é evidente, basta olhar para o uniforme, com as cores da bandeira, ou para as suas aventuras, nas quais chegou a contracenar com presidentes e figuras históricas dos EUA. Saem John Kennedy e Richard Nixon e até os George Bush (pai e filho) e entra Stalin.

Na minissérie, cujo título original é “Red Son” (o filho vermelho ou o filho comunista), Millar extrapola todas as conseqüências da presença do kriptoniano na URSS. As mudanças vão desde pequenos detalhes, como o uniforme (com a foice e o martelo como símbolo, no lugar da letra "S"), até impacto político de sua chegada.

Tendo o Superman como principal marca do estado e da política soviética, a URSS não investe tanto em seu programa nuclear, acaba desenvolvendo sua economia e estendendo sua influência para além do Leste Europeu (como ocorreu dos anos 50 até os 90) ocupando toda a Europa e se tornando o centro da economia mundial. Simultaneamente, os Estados Unidos enfrentam sérias crises econômicas. O curioso é o destino que Millar reserva para o Homem-de-Aço, apresentando sua crítica à política externa do atual presidente dos EUA, George Bush Jr.

Para o escritor, o Superman acaba sendo uma alegoria de Bush Jr., interferindo na política internacional e atacando cada déspota que existe no mundo, enquanto justifica suas ações alegando o bem que estaria trazendo ao planeta.

Para agradar aos fãs do herói, as alterações na realidade também chegam aos personagens da DC, como Lex Luthor (um grande cientista), Lois Lane (agora casada com Lex), o casal Kent (mostrados rapidamente como comerciantes em Pequenópois), Jimmy Olsen (um agente da CIA), Batman (um terrorista russo) e Mulher-Maravilha (uma diplomata que se estabelece na URSS), entre outros. Diante de uma proposta tão interessante quanto polêmica (causando diversos protestos quando foi lançado no ano passado nos Estados Unidos), Millar, filho de sindicalistas, só peca por não se decidir afinal o que busca com "Entre a Foice e o Martelo" (ou "Red Son", um título que se adapta melhor à proposta da minissérie). Em diversos momentos, ele oscila entre a aventura de super-heróis, mostrando o novo universo DC, e a saga política, que se mostra um exercício criativo bem mais interessante e que poderia ser mais explorado. Um lapso admissível diante de um tema com tamanho potencial.

Apesar dessas pequenas falhas, o texto de Millar e a arte de Johnson compensam o leitor, pelo menos com a exploração de um tema, no mínimo, curioso.