Steve Kurtz já enfrentava uma tragédia quando chamou a polícia para comunicar que sua mulher morrera durante o sono, vítima de ataque cardíaco. A polícia chegou e, montada na retórica da Guerra ao Terror, decidiu que os materiais artísticos de Kurtz eram, na verdade, armas biológicas.

Assim teve início o kafkiano fluxo de eventos no qual agentes do FBI abduziram Kurtz sem acusações formais, interditaram todo o seu quarteirão e confiscaram seus computadores, manuscritos, materiais artísticos... e até mesmo o corpo de sua mulher para “análises posteriores”.

Como no caso de Brandon Mayfield, advogado muçulmano preso por duas semanas com base em evidências falsas, o episódio envolvendo Kurtz ilustra amplamente os riscos do USA PATRIOT ACT e da histeria terrorista alimentada pelo governo. O caso de Kurtz está em andamento e, mais importante, o professor enfrenta uma avalanche de custos legais.

Steve Kurtz é professor associado no Departamento de Arte da Universidade de Nova York em Buffalo e integra o internacionalmente aclamado Critical Art Ensemble (CAE). Sua produção artística apresenta uma visão crítica da biotecnologia. Ele foi libertado no dia seguinte à prisão, cuja ilegalidade foi comprovada. Dúzias de agentes em roupas especiais, de diversas agências governamentais, examinaram o trabalho de Kurtz. O Departamento de Saúde de Búfalo condenou sua casa por risco à saúde pública.

“Free Range Grains”, último projeto do CAE, incluía um laboratório móvel para testes de DNA, usado para alimentos possivelmente contaminados por transgênicos. Foi este o equipamento que detonou a absurda cadeia de eventos. Testes realizados pelo FBI mostraram que o equipamento de Kurtz não era usado para propósitos ilegais. De fato, não é sequer possível usar o aparelho para a produção de armas biológicas. Além disso, qualquer pessoa nos Estados Unidos pode ter em casa um equipamento deste tipo.

“Hoje, não há como impedir legalmente as grande corporações de colocar material geneticamente modificado em nossa comida”, disse a porta-voz do Fundo de Defesa de Kurtz, Carla Mendes. “Ao mesmo tempo, ter o equipamento necessário para testar a presença desses Frankensteins levará você a ser acusado de terrorismo. Você pode ser detido ilegalmente por agentes governamentais obscuros, perder acesso à sua casa, trabalho e pertences e descobrir que sua mulher, que acabou de morrer, foi levada para análises.”

Apesar de Kurtz ter, finalmente, recebido permissão para voltar para casa e recuperado o corpo de sua mulher, o FBI ainda não devolveu quaisquer de seus equipamentos nem indicou um prazo para que isso ocorra.