Em países como o Brasil, as estatísticas de desemprego são alarmantes. No entanto, pouca gente parece perceber o componente estrutural desse desemprego. O fenômeno como um todo é atribuído com facilidade a recessão, aos juros altos e ao baixo desempenho da economia em geral.

Pouco se fala nos empregos que não irão mais voltar, independentemente de um eventual aquecimento da economia. Refiro-me aos milhares de empregos eliminados pela tecnologia de informação aliada as telecomunicações e as novas técnicas gerenciais. Quando um setor ensaia uma recuperação sem gerar empregos, a explicação é sempre uma suposta capacidade ociosa já existente.

A questão é que capacidade ociosa deveria se referir a máquinas e linhas de produção utilizadas abaixo de sua real capacidade de produção. Ninguém parece perceber que se esses equipamentos dependessem diretamente de mão-de-obra, teriam de haver contratações caso se quisesse voltar a sua plena utilização, o que não é o caso.

O fato é que em países com economia estável ou em recuperação, todos percebem que algo está errado com os empregos. No entanto, as estatísticas parecem não refletir isso. Por que?
Nos EUA já se fala em “jobless recovery”, expressão recém criada para se referir a recuperação da economia sem geração de empregos. Mas de novo, aponta-se que o número de pessoas empregadas não parece despencar, ao contrário, parece estável e as vezes até aumentar um pouco. Como explicar isso?

Na prática, a verdadeira definição da situação do mercado de trabalho deve ser a renda média do trabalhador e não o número de empregados. Esse é de fato o verdadeiro parâmetro para se mediar a qualidade de vida da população que vive do seu trabalho. E esse número vem caindo sem parar, independentemente do país onde é analisado.

Esse parâmetro esconde o que proponho chamar de desemprego “disfarçado”. Não falamos aqui só do caso do empregado que aceita um novo emprego por salário menor. A chamada “rotatividade” de mão-de-obra. Porque esses casos podem ser revertidos.

Nessa nova modalidade de situação, o indivíduo não está formalmente desempregado, mas sua renda e a de outros que fazem o mesmo trabalho, não para de cair. Isso ocorre porque seu “mercado” se estreita de forma dramática.

Há duas formas básicas de “desemprego disfarçado”: A do empregado que recebe “por comissão” e a do “empresário sem lucro”. A primeira é muito mais fácil de identificar. Trata-se de várias modalidades de contrato de trabalho em que o empregado recebe um valor fixo muito pequeno, as vezes só um salário mínimo, e o resto da remuneração passa a ser função das vendas que realiza.

Ocorre que o contratante não tem nenhuma preocupação em limitar o número de seus vendedores, “promotores”, “televendedores”, etc. E muito menos em lhes destinar uma região, área ou público alvo definido. Assim, cada indivíduo passa a entrar numa competição desesperada uns com os outros.

Só que, como o verdadeiro tamanho do mercado é muito menor do que o anunciado, a renda de todos tende a cair ao mínimo. Os que ganham muito pouco, são acusados de “incompetência” e deixados de lado. Os que ganham um pouco mais são elogiados e classificados como “competitivos”. Como os “perdedores” logo saem da empresa e são substituídos por novos elementos, a posição dos “vencedores” voltará a ser ameaçada sempre.

Se você já viu uma loja aparentemente vazia, com um número estranhamente grande de vendedores ou já recebeu várias ligações telefônicas oferecendo o mesmo produto ou serviço, é disso que se trata.

O caso do “empresário sem lucro” ou “capitalista do FGTS” é mais complicado. Normalmente trata-se de pessoas que se cansaram de procurar emprego e passam a montar negócios sem futuro como alternativa a rotina inútil das agências de empregos e das entrevistas sem perspectivas.

O sujeito então procura um negócio que esteja na moda, de vídeo clubes a restaurantes por quilo, passando por “pet shops”, lojas de R$ 1,99 e toda uma série de empreendimentos dos quais ele não entende nada, mas se lança com um misto de desespero e entusiasmo. Seu capital costuma ser seu FGTS ou um empréstimo levantado junto a algum parente.

Outros procuram “invadir” áreas tradicionais como os serviços de taxis, peruas e até ônibus. Os mais humildes tentam a sorte em serviços de encanador, eletricista, etc. O efeito é sempre o mesmo: Divisão brutal de um mercado estagnado entre um número absurdo de participantes. Os recém chegados nunca chegam a ter lucro e os antigos vem seu mercado minguar e sua renda diminuir. Mas ninguém é considerado como desempregado.

O repúdio ao estigma de “desocupado”, faz com que milhares de pessoas acabem aderindo a ilusão de que para se ter sucesso em um negócio próprio, não é preciso haver um mercado novo e em expansão, nem identificar oportunidades inexploradas. Basta “acordar cedo e trabalhar duro”. Esse tipo de negócio costuma durar de dois até cinco anos. Seu único resultado é consumir o pequeno capital do “empreendedor” e prejudicar os concorrentes “sérios”.

Já existem até negócios realmente muito lucrativos que vivem as custas do “empresário sem lucro”. São publicações, cursos e até consultorias que vendem ilusões de sucesso e prosperidade. Essas pessoas não percebem que se houvesse mercado para duas padarias em seu bairro, o padeiro “sério”, que está no negócio as vezes a gerações, já teria montado uma segunda ou ampliado a primeira.

Outra forma de desemprego disfarçado é o “autônomo”. Normalmente um profissional liberal que, uma vez demitido de uma empresa, decide exercer a atividade de engenheiro, advogado, psicólogo, etc. Esquece que foi exatamente a falta de mercado que o levou a se empregar quando saiu da faculdade. Por que haveria mercado agora? Esses raciocínios simples não costumam fazer parte desse universo.

Por traz de tudo existe a ideologia que procura transformar o mercado em uma espécie de religião. Essas idéias são muito propagadas pelos meios de comunicação e servem para legitimar a apropriação de lucros cada vez maiores por um grupo cada vez menor de pessoas.

Como não entendem exatamente o que acontece, muitos se deixam iludir pela idéia de que vivemos em uma nova era “globalizada” e “informatizada” onde apesar do desaparecimento dos empregos, a riqueza e a prosperidade estão por toda a parte, só dependem de “iniciativa”, “capacidade empreendedora” ou “visão estratégica”, como se em alguma outra época, isso fosse desnecessário.