O jornal Estado de São Paulo publicou dia 06/05/04 uma matéria interessante e contraditória sobre a China. Trata-se de uma reportagem sobre o esforço do governo chinês em fixar os trabalhadores rurais no campo, para que estes não aumentem a população das cidades e aumentem a produção agrícola, pois os camponeses representam a maior parte da população chinesa.
No mesmo jornal encontra-se quase que diariamente nos editoriais, textos pejorativos, paranóicos, difamadores e totalmente preconceituosos sobre o Movimento dos Sem-terra e qualquer pessoa que seja favorável à reforma agrária e o movimento.
Nesse dia, na matéria sobre a China, o repórter mostra a história de uma mulher que deixou um emprego em uma fábrica para arrendar uma pequena porção de terra do governo para cultivar espécies diferentes de árvores e flores que depois são fornecidas para a prefeitura de Pequim. Seu faturamento aumentou, além de pagar pelo uso da terra. Note-se que a moça não tinha nenhuma experiência no campo e morava na cidade.
No editorial desse mesmo dia, há um texto onde expõe trechos da fala de um barbeiro que estava em uma ocupação de uma fazenda no interior de SP. Depois disso o texto diz que as invasões estão virando passeios turísticos e que é um absurdo uma pessoa que trabalha na cidade perto da fazenda ocupada estar nas tendas de plástico fazendo parte da ocupação. A justificativa do editorial é que o barbeiro não tem nenhuma experiência no campo, por isso está “fadado ao fracasso”, se ele conseguir um pedaço de terra da imensa fazenda. É lógico que o editorial, como sempre, não é só contra o barbeiro, mas também todos aqueles que fazem parte do MST e outros.
Voltando a matéria da China, o jornal também cita um exemplo de um pequeno agricultor que com subsídios do governo consegue ter um bom faturamento e assim ajuda ele (agricultor) e a mulher recém agricultora a se fixarem no campo diminuindo um pouco o inchaço das cidades e baixando o custo dos alimentos para a população próxima.
É lógico que a China sendo uma ditadura esta longe de implantar tais programas sem medidas extremistas, mas para a imprensa ocidental isso já esta quase imperceptível, pois foi só a China abrir as portas para o mercado que as criticas foram amenizadas.
A contradição esta aí, pois em todos editoriais e matérias desse jornal sobre o MST e as ocupações, o jornal ignora e sempre ridiculariza as propostas do movimento que basicamente tem a ver com a política que a China está tomando. Hoje a imprensa brasileira tornou o agronegócio aqui no Brasil em coisa sagrada e a concentração de renda e terra aceitáveis. A imprensa ao mesmo tempo em que de vez em quando denúncia a destruição da Amazônia e outros lugares de preservação, exalta e comemora a expansão da plantação de monoculturas como a da soja na maioria desses territórios. Isso sem fazer qualquer correlação da destruição com essa exploração de monocultura. O que a mídia convencional passa é a falsa informação de que o agronegócio gera riquezas para o país, pois não diz que esta riqueza vai para o bolso de poucos, gerando a desigualdade gritante no campo e no país.
Como a China esta atualmente agradando aos “reis” do mercado e do mundo (EUA), mesmo que com medidas escravistas e desumanas sobre parte da população chinesa, isso é ignorado tanto por governos e principalmente pela mídia.
Enfim, o próprio jornal mostra que com essa medida da China, é possível através da pequena propriedade aumentar a produção agrícola, estimular o trabalhador rural a se fixar no campo e desinchar as grandes cidades. É basicamente disso que o Brasil necessita e que os movimentos sociais reivindicam, só que o Estadão não fez essa correlação e como sempre na próxima edição voltará a condenar o MST e qualquer outro movimento ou pessoa que ameace os privilégios das corporações, coronéis, fazendeiros e políticos sobre a terra no Brasil.

Observação: Em um outro editorial do Estadão, este comparou o MST com organizações terroristas chamando todos aqueles (inclusive crianças e mulheres dos sem-terra) que fazem parte das mobilizações do movimento, de terroristas. O interessante é que o jornal não publica matérias e editoriais condenando as milícias armadas com fuzis AR-15, metralhadoras russas e tudo mais; financiadas por fazendeiros, empresários, políticos e organizações fascistas como a UDR. Para o Estadão e a imprensa geral brasileira (Veja, Folha e jornais televisivos) essas milícias não são terroristas, mas sim defensoras da “sagrada” propriedade (devoluta) e da “ordem”.