No ?meio libertário? (e bota aspas nisso daí) o ateísmo e o materialismo são quase como imperativos. Deus está morto! E dá-lhe festividades em comemoração desta morte anunciada. O repúdio à religiosidade é lugar comum entre os anarquista e como tal, tem tudo pra ser um tremendo equívoco. Pois veja bem, como vivo falando aos quatro ventos: estamos em território inimigo e o inimigo está em nós. Somos nós que perpetuamos a opressão através de nossos hábitos e nossas ambições. Para mudarmos o mundo, primeiramente temos que mudar nossas próprias vidas. Falando bonito, é preciso transformar o próprio ser humano, uma vez que o sistema autoritário e opressivo existe também dentro de nós, moldando nossos padrões de pensamento e percepção.

É nesse contexto que entram as religiões. Ao contrario do que afirmam os pessimistas, de que o mundo está cada vez mais uma merda e que em outras eras as coisas eram melhores, poucas vezes se viveu uma época tão rica de possibilidades espirituais quanto nos dias de hoje. Em amplitude e profundidade, talvez somente a explosão religiosa dos primeiros séculos do cristianismo possa lhe ser comparada. Durante séculos o aparato religioso transformou-se numa estrutura rígida que, na maioria das vezes, não tinha outra finalidade senão a autopreservação - como uma ameba, cujo objetivo mais elevado é produzir mais amebas. Enfim, a religião foi absorvida pela política e pela economia.

Trata-se do que hoje chamam Religiões Organizadas, que no geral, são umas belas bostas. Como os capitalistas não perdem uma única oportunidade de lucrarem com as necessidades humanas, não deixaram de fora as religiões. A Igreja Católica é apenas o exemplo mais óbvio. É a Igreja universal do Reino de Deus que é atualmente a aproveitadora da espiritualidade das classes mais pobres.

Bom, estou desfilando argumentos pra contextualizar uma conversa que tive com o convalescido Vinícius (ele ainda se encontra engessado após quebrar o braço no ataque do bingo) sobre o ocorrido com uma vizinha. Na ânsia de contribuir para a causa divina ela doou todo o seu salário pra Igreja. Resumo: estão passando necessidade pela falta dessa grana. Pra completar, sua filha foi às escondidas reclamar para o pastor e além de ser esculhambada, ainda sofreu assédio sexual por parte do pastor. Vinícius estava visivelmente indignado.

- Ari, temos que aprontar alguma coisa com aqueles filhos de uma puta.
- De minha parte queria tascar fogo naquele prédio.
- Não, muito radical, além de pouco divertido.
- Concordo, mas o que então?
- Tava afim de fazer mais um ataque na linha das TANs, Táticas de Ativismo Nonsense.
- Ai minha Éris, estou fudido.
- Saca só Ari, queremos protestar que aquele culto é completamente sem sentido, certo? Pois então, faremos algo sem sentido. Como por exemplo: o culto a Bob Esponja.
- Culto a Bob Esponja?
- Sério! Quer dizer, o mais sério possível, em se tratando do que estou pensando. Vamos montar uma fantasia de Bob Esponja.

Pronto, estava nascendo mais uma ação profundamente sem noção. Quanto Sérgio, que é nosso artista plástico oficial do muquifo e um homem de tintas, chegou ao doce lar, Vinícius já o esterava com uma caixa de papelão.

- Tá de mudança?
- Não, tenho uma missão pra sua pessoa.
- Que missão? Ah, não cara, hoje tô estressado, quero ficar ilhado e nada mais.
- Tudo bem, não precisa ser hoje, mas de qualquer forma precisamos que você confeccione uma fantasia de Bob Esponja.
- Depois tu me explica, preciso de um banho de um sabonete inteiro.

Quando o Monstro saiu do banho a galera já tava toda reunida e o plano mais ou menos definido. Fazia horas que queríamos sacanear a Igreja Universal, não foi difícil convencer o pessoal. Marmita, o mais baixinho, seria o Bob Esponja. Vinícius seria o possuído. Eu e Jean seríamos os que estenderíamos uma faixa na hora da aparição de Bob Esponja e Fábio seria o observador, o coringa pro caso de alguma coisa sair dos planos. Sérgio pediu pra ficar de fora, além de ser o mais cagão, agora deu pra ser o mais furão.

Marmita e Sérgio passaram dias trabalhando na fantasia. Os caras capricharam pra pacas nos detalhes. Posso afirmar sem medo errar, ficou do caralho! Toda vez que Marmita colocava a fantasia era um pandemônio de gargalhadas no Muquifo. Eu me cagava de vontade de chamar a piazadinha do bairro pra curtir junto, mas Jean e Fábio eram radicalmente contra.

- Ari, a igreja não fica muito longe daqui e podemos ser reconhecidos por alguém
- Cara, bem lembrado, e depois do ataque? Podemos ser facilmente reconhecidos aqui no bairro.
- É verdade...

Acabamos mudando o alvo e escolhendo uma igreja de um bairro distante, o bairro do Maracanã, em Colombo, lá na puta que o pariu. Uma pesquisa rápida feita pelo irmão de Fábio, que mora próximo, bastou pra definirmos o dia e o horário, sábado às dezenove horas. Foi foda esperar, a expectativa foi grande. Marmita não se conteve e foi fantasiado já no ônibus, só tirando a fantasia quando chegamos no Terminal do Cabral. A galera do buzum curtiu muito, principalmente as crianças. Marmita conseguiu aperfeiçoar muito bem sua fala, era o próprio Bob Esponja que estava ali.

Estávamos vestidos caretamente, com todo crente se veste. As bíblias conseguimos na vizinhança do Muquifo e as caras de mau usamos as nossas. A igreja era bem movimentada, uma fileira de pessoas se diriga ao culto. Todos aqueles neguinhos de terno engomado, mulheres de saia e cabelos compridos e a criançada feliz por estar fazendo algo diferente do que ficar em casa assistindo TV e as brigas de família. Simpático aquele povo, tenho que admitir.

Mal entramos na igreja já notamos os olhares, parece que els conhecem todo mundo que vai lá. Murmurei com o jean que caso nos chamassem no altar era pra desbaratinar.

- Claro Ari, tô fora! Tô fora!
- É, vamos deixar essa parada de queimar a cara com o Vini, hehehe!!!

A formação de ataque era a seguinte, eu e Jean ficamos juntos, Fábio chegaria no surgilo (como fala o hilariante estagiário aqui do trampo) e Vinícius entraria depois, como o possuído. O Bob Esponja marmitístico faria o Gran Finale. O culto começou, e dá-lhe cantorias e sermões inflamados. Vinicius teve que esperar, pois uma velhinha possuído pelo capeta foi primeiro ao altar. Troço cabuloso o exorcismo que eles fazem, é de dar medo, se eu fosse um demônio acho que picava a mula mesmo. A velhinha desceu do altar suando em bicas, deve mesmo ter sido uma experiência chocante. Fiquei impressionado.

A expectativa foi grande, mas lá pelas tantas entra vinicius com aquela cara de psicopata, com o braço engessado e meio corcunda, olhando todos de canto de olho. O cara deixava escorrer um fio de baba pelo canto da boca, acho que nuca foi tão difícil conter uma gargalhada.

- Sossega Ari, não viaja.

De repente, do nada, o cara surta. Se jogou no chão e começou a dar uns berros. Três pessoas o recolheram e tentaram levá-lo ao altar. No meio do caminho ele teve uma crise, começou a se debater e a revirar os olhos, tiveram que vir mais dois de reforço. Finalmente no altar o pastor aproximou o microfone do possuído.

- Eu estou possuído Pastor! Eu estou possuído!

Então o pastor começou a ladainha.

- Em nome de Jesus Cristo nosso Senhor eu te... ? foi interompido,
- Ele não está possuído nada professor! ? falou vini, com a voz do Bob Esponja.
- O quê?!
- Eu sou Bob Esponja e isso é absolutamente normal
- Não! Nãããão!!! Eu estou possuído pelo Bob Esponja pastor, me salve! Outro dia quase me afoguei por que esse demônio me fez crer que eu podia tirar uma sesta numa piscina de plástico.
- É o demônio! É Satanás que aborda as almas mais frágeis através da demoníaca televisão, através dos demoníacos desenhos animados.
- Ele não está possuído! Eu sou Bob Esponja!
- Me ajude! Pelamordedeus! ? Vinius alternava as vozes magistralmente.

Quando o pastor começou sua ladainha de exorcismo, eis que uma aparição inusitada surge na porta do templo. O próprio, ele, a lenda, Bob Esponja. Enquanto tos se viravam pra ver a criatura eu e Jean nos apressamos em aproveitar a deixa e esticar a faixa que havíamos trazido de antemão. Nela estava escrito em letras garrafais:

EU SOU ADORO O BOB ESPONJA PORQUE ELE TEM CUECAS QUADRADAS!!

Eu não conseguiria descrever em simples palavras a surpresa que tomou conta de todos que estavam lá. Eu estava em êxtase. A cara de embasbacado do pastor era algo indescritível. As cantorias dos fiéias foram diminuindo, diminuindo, até que um silêncio constrangedor se abateu sobre todos. O silêncio dos inocentes. Hakim Bey tinha razão, é possível fazer uma Zona Autônoma Temporiária dentro de nossa cabeça. Naquele momento era como se eu tivesse suspenso a dura realidade do mundo e junto a ela, toda a opressão. Uma criatura livre, vivendo um momento mágico de sua existência. Minhas meditações foram interrompidas por uma porrada no ouvido esquerdo.

Não deu tempo nem de atinar que porra estava acontecendo e nem do meu ouvido começar a zunir devido ao tapão. Levei um empurrão de um segurança e voei em direção a um banco de madeira. Minha cara deu em cheio na madeira. Meu nariz estouro na hora e vi que um jato de sangue molhando o chão.

Dei meu sangue pelo avanço do caos.

Mesmo tratando-se dos guardiões da Casa de Deus, os rapazes foram bem violentos. Papai do céu com certeza deve ter dito la em cima:
- Tsc! Tsc! Tsc!

Vinícius, ao ver que a maionese desandara, simplesmente atravessou o corredor no maior pinote que já vi até hoje. Uns seguranças ainda tentaram agarrá-lo (por Éris, com tem seguranças naquelas porras!), mas conseguiu desvencilhar-se e chegar intacto na rua. Jean foi bem mais ninja do que eu, ele estava ligado da butuca dos seguranças e não foi pego de surpresa. Conseguiu se defender legal e até arriscou umas negociações, com ajuda do diplomata do improviso Fábio Samwise.

- Cara! Pára com isso, vamos conversar!
- Conversar o quê seu vagabundo? Ponha-se daqui pra fora!

O pastor, numa tentativa desesperada de salvar seu culto daquele inacreditável tumulto começou a berrar, sem economizar perdigotos.

- Satanás! Isso é coisa de Satanás!!!

Com aquele mantra mágico os fiéis conseguiram vencer o torpor da surpresa.

- Salve aleluia! Salve!

Fui escoltado por pontapés até a porta de saída. Ainda deitado e ainda levando porra avistei Bob Esponja. O coitado levou tanto chutão que ficou redondo, um pecado, uma heresia tratando-se de nosso lendário herói cúbico. Uma vez que estávamos todos já na rua, Fábio conseguiu convencer os rapazes a parar com a violência.

Nos arrastamos até o Terminal do Maracanã. Tirar o Marmita de dentro da fantasia foi quase como tirar uma vítima de acidente automobilístico de dentro da lataria. Qual não foi nossa surpresa ao ver que o cara estava interinho.

- Ô seu porra, como você conseguiu se safar?
- Me encolhendo ué! Essas esponjas e mais o papelão são uma bela armadura.
- Armadura? Pois agora tú tá fudido!

Ficamos tão putos por ele estar inteiro que derrubamos a ingüinha no chão e desta vez nós, enchemos de porrada, dando risada feito uns alucinados. Incrível, mesmo numa situação dessas, mesmo após uma humilhante sova e com meu nariz sangrando ainda conseguimos nos divertir surrando o Marmita.

Não faz sentido o que fizemos? Tudo bem, aceito a pergunta e até arrisco dizer que não, não faz sentido. Mas que sentido também há no que aqueles fiéis fazem lá dentro? Hein? Hein? Hein?