Uma das questões mais discutidas em relação à educação e às estruturas do sistema educacional brasileiro é a que abrange o ingresso nas faculdades públicas. A pouca presença de afrodescendentes ou jovens de classes menos favorecidas nas universidades estaduais e federais é considerada por muitos como uma forma de manutenção de uma ordem excludente. Diversos pré-vestibulares comunitários têm se organizado, com a colaboração de voluntários, para aumentar as possibilidades de acesso às universidades públicas dessa parcela da população. O problema tem sido exposto na mídia, nos jornais, porém sem um aprofundamento nas motivações dessas iniciativas.

A Educafro, Educação e Cidadania de Afrodescendentes, teve seu modelo de pré-vestibular comunitário idealizado em 1989 pelo frei franciscano David Santos, porém só foi concretizado em 1993, após se inspirar em uma iniciativa baiana de 1992. Na Bahia os professores e os alunos eram exclusivamente negros, o espaço utilizado nas aulas era alugado e a mensalidade equivalia a um salário mínimo. Em 1993 o modelo foi aplicado na Baixada Fluminense com algumas mudanças. Tanto os coordenadores quanto os professores passaram a ser voluntários e as vagas foram abertas para estudantes brancos. O sucesso do projeto foi visto no final do ano, quando 34 alunos foram aprovados nas universidades públicas e quatro na PUC-RIO com bolsa integral. Após um ano foram criados 20 núcleos e atualmente existem aproximadamente dois mil núcleos.

Os alunos geralmente conhecem o curso através de amigos que já o tenham feito e passado para alguma universidade. “Tomei conhecimento do curso com uma amiga que o fez e passou. Acho que o curso é uma coisa positiva, que mostra o caminho que se deve tomar para atingir a faculdade”, disse André durante visita ao núcleo localizado na Praça Seca em Jacarepaguá. A manutenção de cada núcleo é feita com contribuições dos próprios alunos, com uma taxa de manutenção que vai até 10% do valor do salário mínimo. A quantia obtida é utilizada para custear as passagens dos professores, assim como os gastos com o material escolar utilizado. A posição dos alunos é favorável à política da Educafro, e, assim como disse Renato Ferreira, coordenador e advogado da ong no Rio de Janeiro, na entrevista abaixo, os alunos já vão para as faculdades com maiores conhecimentos dos próprios problemas.

Atualmente, o principal protesto é em relação ao sistema de cotas, que na visão dos coordenadores da Educafro são muito abrangentes ao propor a concessão de cotas aos estudantes de escolas públicas, pois se acredita que deveria ser dada uma importância maior ao acréscimo no número de negros nas universidades públicas e federais. A polêmica também foi grande ao se falar em abertura de vagas em universidades particulares em troca de diminuição de impostos.

Durante aproximadamente uma hora de conversa Renato Ferreira, falou sobre diversos assuntos relativos à ong, como sistema de cotas e o modelo de pré-vestibular comunitário. Além das explicações sobre o funcionamento dos núcleos, ele também deu suas opiniões sobre a situação das universidades públicas e sobre pré-vestibulares particulares. Abaixo estão os principais trechos da entrevista.

Universidades e pré-vestibulares particulares:
“Cresce uma universidade particular aqui, outra universidade particular ali, porque as pessoas precisam estudar, querem fazer universidade”.
“Você pega esses caras que dão aulas em universidades públicas, que são chefes de departamentos, são os acionistas desses pré-vestibulares. São essas pessoas que se levantam em primeiro lugar para defender o vestibular.

Universidades públicas:
“A UFRJ tem muitos prédios abandonados. Por que não usam esses prédios para alfabetizar as pessoas da Divinéia, que é do lado da UFRJ? Será que não tem professor disposto a alfabetizar? O que a gente vê é uma universidade pública cada vez mais sucateada, fechada para a sociedade, como se fosse um feudo”.

Educafro:
“A gente cobra o aluno dentro do pré-vestibular. Ele vai pra faculdade diferenciado, preocupado com essa questão. Quem nasce pobre não tem referência. Se você nasce em classe média você ainda tem referência porque o pai estudou, a mãe estudou, agora o menino que vai estudar no CIEP, o pai dele não estudou, a mãe também não. Ele vai estudar pra que?”

PUC-Rio:
“Alunos que entraram com bolsa, tiveram oportunidade de estudar, conseguem o mesmo rendimento do que os estudantes que pagam a faculdade. A vontade dessas pessoas é muito grande”.

Vestibular:
“Você sabe quantas vagas há na UERJ para Medicina? São 100 vagas. De 100 vagas dois aprovados são negros. Ninguém precisou implantar esse regime de cotas. A escravidão fez, o racismo fez”.