Poesias
da Guerrilha
do Araguaia




Libério de Campos

















Homenagem ao segundo aniversário
da resistência armada
das
forças guerrilheiras do Araguaia















APRESENTAÇÃO


Estas poesías foram feitas provavelmente pelos guerrilheiros do Araguaia. Sua primeira publicação parcial se deu em 1979 no jornal “Resistência”, do Pará. Segundo Luiz Maklouf, responsável pela sua publicação, elas foram enviadas em 1976 ao jornal “O Estado do Pará” onde trabalhava. Sabendo que jamais seriam publicadas por este jornal, ele guardou-as cuidadosamente até que houvesse condições de edita-las. Os pais de uma das guerrilheiras, quando estiveram na região procurando obter informações do paradeiro da filha, mantiveram contato com o jornal Resistência e conseguiram trazer uma cópia completa das poesias.
Quem as lê percebe que, de fato, foram feitas por pessoas muito intimas da Guerrilha. O prefácio original – “Cantar é preciso”, escrito todo no plural, contradiz a assinatura de um único autor no final do mesmo. “Libério de Campos” pode ser, inclusive, uma alusão dos autores aos objetivos de sua luta – “Liberdade-Camponeses”. No próprio prefácio o seu inicio diz claramente-“há dois anos, guerrilheiros no Araguaia” – situando os autores. Enfim, a própria maneira que chegou, enviada pelo correio para “O Estado do Pará”, sem maiores explicações, sem remetentes, sem nada, reforça ainda mais nossa hipótese.
Duas poesias chegaram até nos trazidas por um exilado na Suécia, pois vários materiais dos guerrilheiros foram publicados em revistas de lá. São elas: A HELENIRA RESENDE e alguns fragmentos de ESCUCHA LA VOZ DEL ARAGUAIA.
Estas poesias são de imenso valor para nos. Primeiro por ser um resto de vida, do coração de nossos entes queridos, perdidos de forma tão bárbara na Guerrilha. Depois, pelo seu valor histórico, pois constituem sem duvida um material precioso para o estudo da guerrilha, das aspirações dos guerrilheiros, de como encaravam a luta.
Sendo assim, decidimos publica-las, pois sabemos de nossa responsabilidade na tarefa de resgatar a memória de nossos filhos, pais, irmãos, maridos, que participaram da guerrilha do Araguaia. Mantivemos na integra o caderno, conforme chegou-nos às mãos. O desenho de capa é também do original enviado ao “Estado do Pará”.



FAMILIARES
DE MORTOS DESAPARECIDOS
NA GUERRILHA DO ARAGUAIA.

JULHO DE 1980


CANTAR É PRECISO




Um dia lembramos. Há quase dois anos, guerrilheiros do Araguaia. Há quase dois anos lutando. Contra a miséria. Contra a opressão. Contra o meio adverso, no meio da selva, lutando.
E a guerrilha vive. Lâmpada acesa na noite (há quase dois anos), vive. Apesar de insidias latifundiárias. Apesar dos tecnocratas. Dos beliciosos. Dos trustes, dos monopólios. Apesar dos generais. Senhores da terra e da guerra, donos do fogo e do lôgro. Apesar – e por causa deles – a guerrilha vive. E corre como um regato noviço, para os rios da manhã.
Vitórias foram conseguidas. Há quase dois anos, ali e além, cresce a resistência popular. O povo percebe. O povo aspira no ar um sopro de novo em tudo isso. E descobre. E se move. E resiste. E pouco a pouco se forja em coisa única, indivisível.
E nos, que temos feito diante disso? Os que sabem o tempo não podem ficar a margem, assistindo apenas. Decerto por fuzil e decreto é proibido cantar. Mas cantar é preciso. Quando ainda não o grito, seja o balbucio. Se não a palavra aberta, o amplo segredo. Nunca no entanto, o silêncio. Dizem que o silêncio é de ouro. Mas de quem esse ouro? Sabemos que não do povo. Para nós o silêncio é podre. E cantar é preciso.
Pensando nisso é que organizamos este caderninho. Revelação artística e talvez o que de menos se mostra aqui. Tampouco é áspero o canto conforme o momento. Guiou-nos porém, mais que tudo, à vontade de dizer. O desejo de quebrar as vidraças do silêncio.
Esperamos que essa nossa iniciativa – apenas débil sussurro – possa, de outros lábios, desentranhar, mais firmes, afirmações de esperança, cantigas de alvorecer. E, numa livre reação em cadeia, que as palavras se lavrem, se elevem, se multipliquem.
Este trabalho é, pois, dedicado a todo o povo brasileiro; a todos os que, de alguma forma, se batem pela liberdade, e principalmente ao povo e as forças guerrilheiras do Araguaia, pela sua brava resistência patriótica, de onde já saltaram para a história verdadeiros mártires e heróis, a exemplo de Bengson Gurjão, Quelé e Helenira Machado.





Libério de Campos
Fevereiro de 1974





Silhuetas








1. cidade grande

à sombra
dos arranha-céus
plantam-se
as favelas





2. campo

no tempo
sempre-gerúndio
o latifúndio

escravizando
léguas
éguas
e homens



Palafitose




entre mar e rio
entre terra e água
onde o mar começa
e onde o rio acaba
sujo cego e negro
vem o caranguejo
e faz sua casa

reina o caranguejo
sobre os seus domínios
peixe de vazante
retrogrado e vivo
até que outros bichos
- pouco mais que bichos –
rasteiros, sem asa
tangido dos matos
vem tomar-lhe a casa
e roubar-lhe status

entre nada e tabuas
entre lama e lixo
entre homem e bicho
bob um céu de lata
onde ao mar o rio
vem beijar sombrio
com seus beijos d’água
vem o sertanejo
sujo cego andejo
e faz sua casa

não é mar: maré
não são verdes linfas
nem cantigas limpas
sob um sol qualquer
são cachorros podres
são odores fortes
é a matéria viva
parceirando a morte
é o dia no mangue
que é a própria noite

é um risco de sangue
é um sangue sem tinta
são trinta misérias
sempre nunca-extintas
é uma vida pouca
de bocas famintas
é uma vida parca
de maré vazante
de maré distante
das marés distintas

é uma flor soturna
morna, suja mágoa
cuja dor não pinta:
quando sobe a água
sempre é maré baixa
pois não enche – incha

não é mar: maré
noite susto lodo
onde o homem todo
da cabeça ao pé
fica sendo peixe
fica sendo parte
(com fogo e sem fé)
desse movimento
quieto cauto lento
que de mar não é


Verso & Reverso





uma a cidade propriamente dita
outra a desdita propriamente

palacetes
palafitas

são duas cidades em coexistência patífica
outra pela uma dirigida ou seja digerida

são duas salas/duas telas

uma sala
kodak do turista
capa de revista
cartão postal

uma cela
vala comum de
perícia policia
noticia policial

são duas salas/duas alas
dois bocados e só um dente

ala-gente
ala-gados




O Finado Joaquim



de morte não identificada
morreu Joaquim Ribeiro

foi de bala? Foi de bile?
foi de policia ou grileiro?

eram dois sem documento
a morte e seu posseiro


sua mão floriu na terra
mesmo sem ter foro ou posse
posseiro que foi da gleba
fez-se posseiro da morte

dono de nada na vida
nem da morte o é deveras:
morte assim sem folha escrita
quem pode ser dono dela?

morreu Joaquim, posseiro
quem nem possui a terra

e hoje, de corpo inteiro
é possuído por ela

morreu Joaquim Ribeiro
e isso é tudo o que sei

sua vida foi fora da vida
sua morte, fora da lei
RETRATO





ali vai, desengonçado
e impróprio na vertical
se não cai, vertiginoso
é o seu sustento a si mesmo
com tanta tendência ao chão

às vezes possui altura
nunca tronco nem raízes
mas alto ou baixo não muda
é sempre a mesma figura
de cortes sem cicatrizes

não é branco porém bronco
que a fome e o sol tropical
não vão passar pelo corpo
deste ser vivo (mas oco)
sem deixar-lhe o seu sinal

é frágil porém fortíssimo
no seu traçado inumano
não tem cultura de livro
mas de germe e é seu nome
talvez Floro Bacteriano

seu olhar de cabra morto
vê bem como cabra viva
porém nunca sabe ao certo
se o que vê é longe ou perto
se é sinal de morte ou vida
seu gesto de não presença
é de uma nau a deriva
ou mesmo o de um não ao prumo
sendo o seu vulto em resumo
uma foto em negativa

este faz-se de encomenda
fome a fome se fabrica
para ser entregue a morte
que dia a dia o persegue e
cobra a prestação de-vida

este não será herói
de novela nem de sei
pois nele uma coisa rói
o clássico dom de amar
como os heróis de gibi

este não terá estatua
nem qualquer proclamação
deixará apenas rastos
ou restos de vidas: filhos
que algum dia tão de rastos

hão de erguer-se

e explodirão





VIDA VIVIDA








a) jogo de contrários







o pão
o pau

o arroz
o arrocho

a fala
o cala

a mão
o não










b) tempo







dia a dia
adiado

na boca do fuzil
dialogado

mês a mês
sob a usura
desmesurada

ano a ano
desenganado










c) carências







sem saldo
nem soldo

sem vaga
nem paga

sem voto
nem veto

sem voz
nem vez

sem ter
nem ser










d) desacato







vida sem sucesso
vida sem sossego
vida de morcego
vida com nó cego

preciso é desatar

quem desata a vida
desacata a morte
desfere a dor-ferida
contra quem o corte

preciso é ser-se forte

O INÍCIO



Na avenida quase escura
palavras pisoteadas
pelas patas dos fuzis

gemidos

silêncio

mas no útero negro
do silêncio
surgem larvas
rugem lavras

de fuzis

(outros fuzis)

na mente mansa do povo
como um sonho gradativo
duras sementes de fogo
em larga semeadura

e um dia (noite ainda
fome fúria)
fuzis lhe explodem nas mãos

fuzis
- as frutas maduras

e há luta a luta A LUTA

ABRIL



nem tudo
é ludo

quando abril
nos desce

nem tudo
é luto

quando abril
floresce

nem tudo
é susto

quando abril
se tece


1792 : a corda, o patíbulo
(a história tece
o seu fio) :

tomba o valente alferes

e abril?
e abril, que nos traz então?

- lição






1964 : bandidos
assaltam o sono e
sonho do povo :

o medo ruge nas praças

e abril?
e abril, que nos traz
então?

- prisão





1972 : como toda noite funda
é esperança
de manhã

no Araguaia raia a luta

e abril?
e abril. que nos traz
então?

- clarão








MARABÁ, MAR-ALÉM


- meu irmão, onde a guerrilha?
nas Filipinas, manilha?
em terras que o mar não tem?

em Bagdá?
mar-além?

se aqui é paz maravilhosa
se a guerra aqui não faz ilha
onde a guerrilha está? em

Bogotá?
Jerusalém?

onde a garra das guerrilhas?
está nas ilhas, Antilhas
ou ventos que aqui não vem?

em al-di-lá?
phonm penn?

onde o povo sabe a trilha?
além das duzentas milhas?
além do sol? mais aquém?

no kohoutek?
no além?

- não, amigo, a tal guerrilha
está no mar, sobre as ilhas
e aqui bem perto também:

em marabá,
mar-aquém

EH MARABÁ

Eh Marabá
Um canto rebelde a teus fuzis!

Um canto global
Cheirando a ar de madrugada
Um canto dessa gente brasileira
De arrastão arrastando rede
Barcaça subindo e descendo rio
Um canto de enxada e suor na terra
Aboio dolente ninando a noite
Um canto
Dessa gente apressada das cidades
Poluído com fumaça
Chaminés e cirenes de fabrica

Eh Marabá
Norte, bússola, bandeira
Estrela da manhã
Carta de marear

O teu povo se integra em ti!

Eh Marabá
Do fundo da noite
Da impotência do braço
Longos anos te esperamos!
Mas hoje sabemos
Que o teu braço de oprimido
É maior que o Empire State
Que o clarão de mil napalms
Devastando o matagal

Norte, bússola, bandeira
Estrela da manhã
Carta de marear
Eh Marabá

Os oprimidos aprendem o caminho!


CANTO DE AMOR


AOS GUERRILHEIROS DO ARAGUAIA




1.





não
nas vossas mãos
não tendes fuzis

tendes clarões
estrelas
pedaços de manhã

as vossas armas
são como archotes
combatendo a noite

e porque
acendeis o dia
nós vos amamos









2.





nós vos amamos
- que é preciso
o mais cedo
madrugar

mas rompa-se
à distância
este nós-e-vós
que nos parte em dois;

não há distância
quando a noite é uma

quando sobre todos
pesa a mesma bruma

quando sobretudo
a ordem é lutar

POEMA PARA HELENIRA





1.



uma mulher
se tece em
cardos
cordas

c-ordeiras aspirações.

assim é
assim quer

o dono da noite

mas

uma mulher é
capaz
de paz

e de guerra

uma mulher

2.



uma mulher
desfaz-se de
cordas
e
coisas
mais graves

e se faz em ave
e vos e vai e voa
acima
de si

- para o sol


e livre
leve
livre,

isenta dos nossos
vossos

estreitos compr-omissos

ela fere a noite
pois prefere o sol

O SOL

Eis o que ela mira
HELENIRA

3.



Ave, helenira

os que vão lutar te saúdam!
o povo, o teu povo te saúda
e inscreve no peito
em secreta caligrafia
o teu nome
que é VIVO
e SEMPRE

ave, mulher – helenira e ira –
porque
além da morte
estás viva
e cantas dentro de nós
muito mais forte que nós
o teu brado de
vida:

esta fome de luz
esta certeza
este gosto de fogo

que nos equilibra

4.



hoje
(por enquanto)
- noites ásperas
duro silêncio –

podemos apenas
o canto tímido
de teu nome

amanhã

porém

rosas vermelhas
germinarão de teu sangue

e num dia de sol e vidro
cantaremos
aos quatros ventos
tua canção de justiça




AOS NATIVOS






quisera ser cantador
de verso ardente e ligeiro
para cantar, lutador –
flor do povo brasileiro,
tua luta e tua dor
no vão desse mundo inteiro

quisera ser violeiro
violeiro do sertão
pra dizer ao povo inteiro
da terra seca e da praia
o teu valor, meu irmão

e dizer que tens na mão
o sol que afinal já raia,
madeireiro ou seringueiro
lavrador ou castanheiro,
guerrilheiro do Araguaia


QUELÉ





quem é? Quelé, guerrilheiro
na selva enfermo: malária
soldados chegam que fazem:
dão-lhe faca bala escárnio

quelé se esvaindo em sangue
sobre o dorso do cavalo
cada gota uma palavra
- liberdade!

quase mudo quase morto
torto de tanta tortura
boca amarga vista escura
- liberdade!

sua voz tecida em aço
perpassa campo e cidade
quelé morto mas no espaço
- liberdade!
- liberdade!


MARIA LÚCIA, JOVEM COMO NÓS






A.







maria Lúcia
lúcida –
jovem como nós

teus vintes
tão verdes anos
tombados (sem flor)
em maio
terão sido por nada,
maria?

e o sumo das tardes rósseas
e as florações da alegria
e a vontade de cantar,
maria?












B.








ah, maria
mas tu bem soubeste
que é proibido cantar

e tardes
flores
cantigas

são matéria de muita busca
e busca de muito lutar
tu que sentiste o teu povo
tu bem soubeste
da nossa agreste
colheita
feita
se sabre e espinhos












C.









para dizer-te amor
precisaríamos
talvez
de chorar
banhar de sal
este chão de guerra

mas o pranto
apenas nos traria
o amargo consolo
dos vencidos
e o pranto
não faz sentido
















D.










então, maria
este poema é
somente para te dizer

que o teu sangue circula
também em nós
(somos jovens)

e aquece os nossos motivos
e levanta os nossos braços
para a luta

E.






haveremos de cortar
as asas do pesadelo

e um dia feitores
do medo

ao povo
- enfim soberano –

hão de saldar estas dores
e estes grilhões de silêncio

esses que urdem sua fúria
contra a nossa mocidade
esses serão
a escória
dos tempos que hão de vir

mas tu que jazes na terra
por ter buscado a alegria,

reviverás noutras guerras
- as guerras dentro de nós
que nos impelem para a frente
e dão força a nossa voz





F.









e porque é de todos esta briga
ela se abriga
na ação e no coração
de nossa gente inteira

não: tua morte
não foi vã

maria Lúcia, lúcida estrela

nossa amiga e
guerrilheira –
nossa irmã



Poema do soldado morto





o combatente do medo
armado até as gengivas
pra combater um segredo
partiu

e nem sabia por que

o combatente do medo
(filho em si de camponeses)
chegou sangrou camponeses
massacrou jogou napalm

e nem sabia por que

o combatente do medo
na sombra da selva espessa
tombou sobre o grão de fogo
de uma bala guerrilheira

e nunca soube por que




e os generais, que entrementes
guerreavam – nos banquetes
batizaram-no de herói
e recrutaram mais trinta

que nem sabiam por que

* *




ó vós, soldados do medo
irmãos e filhos do povo,

voltai vossas tristes armas
contra quem vos faz escuros
contra quem vos faz escudos
dos seus escusos projetos!

sustais todas vossas alas
guardai todas vossas balas
para os generais abjetos!



Canção das F. G. A.






Não somos do norte
nem somos do sul
Nossa geografia
é um sopro de liberdade



O verde invadiu nossos olhos
Verde a floresta
e verde a nossa certeza
nos novos frutos da terra



Decerto que há fuzis
muitos mortos, muitos nossos
há os do ofício do não
entre o povo e a madrugada



Decerto que há um muro de homens
verdes (verde-velho, verde-lodo)
entre nós – entre o povo –
e a madrugada




mas (antes de tudo)
é preciso que se faça o dia
é se as nossas águas, nosso fogo
vão dar no dia



que noite nos deterá?
Decerto não fizesse escuro
deitaríamos aos fuzis no
leito do Araguaia



e passaríamos a cantar
uma flor, uma floresta: esta
Mas que flor de mais cantigas
que a liberdade buscada?



Não somos do norte
nem somos do sul
Nossa geografia
são as pétalas da madrugada

Ladainha





pelas crianças
nos campos incendiados
pelo napalm
e pela dor sem nome
yankee go home

pelas terras das américas
pelas insidias e técnicas
pelo cerco
das alianças de fome
yankee go home

pela ajuda dolorosa
pela cia e seus discípulos
pelos canhões
pelos tanques

go home yankee

no topo das cinco terras
sob a sombra, pelas frestas
gritaremos,
até vosso ódio estanque
go home yankee





Das Ferramentas








não aceite o açoite
porque de aço e noite
não se faz manhã

manhã se faz, mas
é com braço e foice
é ceifando ao tempo

toda a flora vã





AVANTE!







Sus
vós
nus
sós

pois
os
sóis
dos

que
são
sem



vem!




Percepção da Aurora





não no ponto neutro
inexistente nos relógios
porém no centro
de que é são e podre
no espaço lento
do que é perto e longe
no ligamento
do que vem e hoje
no dividendo
do depois e agora
entre o que se guarda
e o que se joga fora
entre o cuspo e o beijo
noites e matizes:
te escuto te vejo
descubro as tuas
raízes – ó aurora
indivisível!

NOTAS



Helenira – Jovem paulista. Muito conhecida nos meios estudantis de vários estados, devido a ter participado da diretoria da UNE. Perseguida pela repressão, foi viver com os camponeses da região do araguaia, lá se incorporando à guerrilha. Destacou-se pela sua coragem e dinamismo. Foi morta durante um combate com as forças policiais.

Quelé – Outro guerrilheiro. Atacado de malária, ardendo em febre, abrigava-se sob uma arvore, quando foi surpreendido por soldados. Sofreu então toda a sorte de torturas. Ferido e sangrando, foi levado prisioneiro amarrado sobre um cavalo. Em todo o caminho gritou, concitando o povo a continuar a luta. Sua voz foi-se tornando cada vez mais débil, até que se calou em definitivo. Este episódio é largamente conhecido e recontado pelos moradores da região, havendo já adquirido uma certa aura de fato lendário.

Maria Lúcia – Jovem de pouco mais de vinte anos. Desfrutava de uma vida relativamente abastada no Sul do país, mas preferiu a luta ao lado do povo. Viveu no interior do Mato grosso, onde era muito estimada pela população. Daí ligou-se as FGA. Inexperiente ainda, caiu numa cilada e foi morta pelos soldados da repressão, a 16 de maio de 1972, pouco depois de iniciada a resistência. Comentando o fato, um general, - chefe de policia de Mato Grosso – disse ser esse o “tratamento que o Exercito dispensava aos guerrilheiros...”.




A HELENIRA RESENDE





Elenira como muchos,
un día descubrió
la verdad
como muchos.
la verdad del pueblo,
aquella verdad dura
del pueblo oprimido.

y ella la defendió,
la defendió hasta el fin.
y mirá que eso es difícil,
a veces más que morir.
y ella la defendió
Noche y día.

noche y día
ella vivió,
del hombre su alegría,
del pueblo sus dolores.
ella amó y sufrió
noche y día.

noche y día
trabajó,
el hombre de la tierra,
la tierra del hombre
su tierra
noche y día.

Noche y día
Elenira hiso de sí,
un arma del pueblo,
del pueblo su lucha.

un día Elenira murió
y ese día se hizo noche,
pero enseguida nació
otro día
que ella dejó para nacer.

Elenira no murió
así tan simplemente,
la vida le fue arrancada.
asesinada
fue Elenira.
sinó, ella no dejaba
la vida
la lucha
noche y día.

y ella sigue presente
en el pueblo,
en la llama de la lucha,
en el ánimo,
en el movimiento
de todo aquello
que quiere hacer
de nuestro mundo,

y ella sigue presente
en el pueblo,
en la llama de la lucha,
en el ánimo,
en el movimiento
de todo aquello
que quiere hacer
de nuestro mundo,
nuestro mundo brasilero,
de nuestro mundo entero,
el mundo de aquél
que,
explotado,
sufrido,
noche y día
lucha para construir
un mundo de libertad.





Para inaugurar esta nueva sección de nuestro Boletín, hemos seleccionado dos poesías acerca de la heroica lucha iniciada hace casi 3 años por los guerrilleros del Araguaia. La primera titulada “Escucha la voz del Araguaia” – y, de la cual, infelizmente, no tenemos sino algunos fragmentos – viene siendo divulgada desde hace algún tiempo por la resistencia brasilera a través de su prensa clandestina; en sus estrofes afirma:




“Luto por un Brasil novo
e livre de generais
pelos direitos do povo
e liberdades gerais“.

Y, más adelante, convocando el pueblo a seguir el camino del Araguaia:

“O fraco vira no forte
no grande vira o pequeno
aos poucos se muda a sorte
e largo fica o terreno.

conheço bem esta terra
e luto com decisão
domino a arte da guerra
é justa minha razão.

não temo nenhum castigo
nem temo ante trovão
por isso junto comigo
andará toda a nação“.


A busca da apuração de responsabilidades pela morte e/ou desaparecimento de opositores ao regime de 64 que participaram do episódio conhecido como “Guerrilha do Araguaia”, e, ainda, pela perseguição policial, e difíceis condições de sobrevivência a que foram submetidas às populações de várias cidades do sul do Pará e norte de Goiás – por onde se estendeu a guerrilha – tem sido objeto de incansável luta de suas famílias e dos movimentos de Anistia.
Toda a imprensa divulgou que nos anos 72/74 a presença do exército naquela região foi ostensiva e numerosa, com o fim determinado de perseguir e aniquilar todo movimento de resistência à exploração e miséria que caracterizam a vida daquela gente. Sabe-se mesmo que na última campanha, em 1974, o contingente das forças armadas que para lá se deslocou era de 5 mil homens.
Apesar da participação, hoje tornada pública, do exercito na prisão, tortura, morte e desaparecimento de brasileiros para lá se mudaram e da população que sempre morou lá, até o presente momento as autoridades federais não assumem a sua responsabilidade. Nada respondem sobre o paradeiro das pessoas que lá estavam e foram aprisionadas; não tomam a iniciativa de investigar sobre a ação do exercito naquela área; sistematicamente se recusam a adotar um procedimento sério a partir das denuncias dos familiares dos mortos e/ou desaparecidos.
O Comitê Brasileiro pela Anistia (RJ e MG) considera que esta apuração de responsabilidades e punição dos autores dos crimes cometidos contra a população e os guerrilheiros do Araguaia, bem como a desativação de todos os órgãos de repressão, acompanhada da revogação da Lei de Segurança Nacional, demais leis de exceção, são condições para a conquista da ANISTIA AMPLA,GERAL E IRRESTRITA.

JULHO DE 1980
CBA – Minas Gerais
CBA – Rio de Janeiro