“É preciso trazer em si o caos,
Para botar no mundo uma estrela dançante”
(Internacional Situacionista, Maio de 1968)
São poucos os que, ainda hoje, acreditam na possibilidade da transformação radical do mundo e movem-se nesse sentido. São muito poucos os que acreditam que aqueles podem realmente fazer uma coisa dessas. A situação de um país que aposta em um governo de esquerda que promove orgias periódicas com o que há de pior na direita torna a coisa pior para uns e outros. Mas tudo fica ruim, mas ruim mesmo, quando a organização dos primeiros (os que acreditam e se movem) não passa da repetição mecânica dos mesmos gestos, práticas e preconceitos de sempre...
Segundo Michael Lowy, “aquele que não sabe acender no passado a centelha de esperança não tem futuro.” (LOWY, 2002: 104) No entanto, como, em geral, costumamos olhar para o passado em comemorações cujo único objetivo é o de reforçar e legitimar aspectos do presente, talvez seja mais interessante buscar no passado o que ele ainda pode conter de surpreendente e de maravilhoso. Isso significa dizer também aquilo que há de mais estranho e avesso à nossa realidade, ao que estamos habituados. Escolhemos aqui três assuntos dos quais falamos muito pouco: a utopia, a arte e a revolução . Para nós, aqueles que pretendem mudar o presente precisam não só entender as relações entre essas três coisas mas praticá-las.
Marxismo e Surrealismo
Em A Estrela da Manhã, Michael Lowy estuda as relações entre o surrealismo, o marxismo e o movimento operário internacional da primeira metade do século XX. O movimento surrealista surge em 1924 com a publicação do texto do escritor e poeta André Breton, o Manifesto do Surrealismo que logo receberia a adesão de vários artistas e revolucionários (como Pierre Naville) por toda a França e grande parte da Europa a partir de 1930. A idéia central era a de buscar uma forma de expressão em que a mente pudesse se expressar sem qualquer limite ou controle externo. Tentava-se expressar uma outra realidade, tão real e (talvez até mais) intrigante quanto a externa só que um pouco menos visitada: a realidade dos sonhos. Para os Surrealistas: “Deve-se criar confusão sistematicamente, deste modo coloca-se em movimento o processo criativo. Tudo o que gera a contradição é sinônimo de vida”.
A carga libertária e emancipatória dessas idéias nos parece evidente. Mas qual a sua relação com a mais antiga e atual teoria da emancipação, o marxismo revolucionário? Para Lowy, o ponto comum, capaz de promover o encontro entre essas duas abordagens é o seu pessimismo revolucionário. A idéia é a de que o que move um revolucionário não é a certeza da vitória, mas a crença de que a miséria humana, o caos e todos os piores desastres são destinos certos nesse sistema e de que é impossível permanecer imóvel enquanto ele segue seu curso. Não se trata, portanto, de um sentimento conformista, mas de um pessimismo ativo que se propõe a nadar contra-corrente.
Outro aspecto interessante é a grande desconfiança em relação à quaisquer “certezas”, que estariam ligadas às formas racionais viciadas do presente. Em uma sociedade onde as luzes são identificadas à racionalidade mecânica do lucro, do consumismo e da alienação, os surrealistas se anunciam como criaturas da noite, sugerindo uma aposta no lúdico, no mágico... Daí a idéia de um re-encantamento do mundo. Na superação dialética do romantismo, esse re-encantamento não se daria evocando os mitos do passado, mas aproximando, através do exercício do sonho, a realidade a ser conquistada no futuro.
Uma Mudança no Olhar...
Se o surrealismo foi um movimento que se estendeu à todos os domínios da arte, e não só à ela, foi através da pintura que ficou mais conhecido e é na pintura que reside sua principal atividade na atualidade. Um dos seus maiores expoentes foi o pintor belga René Magritte. Suas obras são talvez as mais simples, mas, para nós, as mais fantásticas.
Naquele que é talvez o seu quadro mais conhecido, A Traição das Imagens de 1929, encontramos a figura de um cachimbo seguida da inscrição: “Isto não é um cachimbo.” .De fato, não se tratava de um cachimbo e sim da figura de um cachimbo. Mas, para além dessa conclusão óbvia, surge uma outra questão: quem decide que os cachimbos que são cachimbos (e não imagens de cachimbos) são realmente cachimbos? Espere, não rasgue a folha ainda, a sugestão que essa pergunta contém não tem nada de banal, é na verdade bastante libertária: sugere a possibilidade de as mulheres e homens reconquistarem seu domínio sobre o mundo das coisas, coisas que eles mesmos criaram, nomearam, mas que parecem assumir o controle e ditar os limites de suas vidas...
Um outro quadro conhecido é O filho do homem de 1964, onde Magritte pinta um sujeito que tem a cara coberta por uma maçã. O que nos intriga na obra é se a maçã encobre ou se realmente brota da própria face do homem. Encontramos ainda no mesmo autor imagens de leões que circulam tranqüilos pelas ruas da cidade ou salas de jantar; de um castelo em um rochedo que flutua sobre uma praia ou ainda de uma coleção de homens de chapéu que sobrevoam a cidade (que Magritte definiria como a própria representação de seus colegas surrealistas). O que há de impressionante nesses quadros é que eles são compostos por figuras do nosso cotidiano ou com às quais estamos habituados. O que as torna assustadoras, intrigantes ou absurdas é a (des)ordem em que são colocadas.
Por quê estamos falando nisso? Porque encontramos aqui um certo olhar, emancipador e muito precioso, um olhar que utiliza a realidade para desmonta-la, que desorganiza o real até torna-lo irreconhecível e recria aos olhos de todos o que entendemos por fantástico ou maravilhoso. Ora, sabemos que esse método, de desorganizar o real para organizar o novo, de revolucionar o presente para fazer emergir o futuro, nunca foi algo restrito somente às pinturas e às artes...
Maio de 68: A Revolução à serviço da arte
Resta ainda a questão de como articular toda essa “viagem” com a prática daqueles que, como nós, pretendem fazer parte de sua tripulação ou ainda daqueles que arrogam conduzi-la.
Nenhum acontecimento conseguiu pôr em prática as idéias que descrevemos acima tão bem quanto o indecifrável Maio de 68 francês. São conhecidas as influências do surrealismo nos fatos do Maio, não só pela participação de vários de seus integrantes, mas pela influência em autores como Guy Debord e sua Internacional Situacionista que desempenhou papel fundamental nas ocupações que impulsionaram o movimento.
Durante aquele mês os estudantes ocuparam não só as universidades, ruas e fábricas, mas os corações e mentes de trabalhadoras e trabalhadores. Aqui o socialismo deixa de ser um horizonte distante que depende das concessões e sacrifícios da militância cotidiana. A revolução passa a ser o cotidiano, o socialismo é posto em prática e a militância é algo totalmente avesso à idéia de um sacrifício!
Como em uma pintura surrealista, os estudantes utilizavam as imagens do cotidiano para destruí-lo, como mostram as histórias em quadrinhos de super-heróis americanos que tinham seus balões de fala substituídos por mensagens subversivas.
O Maio conseguiu também transformar as idéias tradicionais sobre a política, a democracia e a liberdade. Os estudantes fizeram com que a política passasse a ser algo tão amplo quanto a transformação que pretendiam; levaram abaixo tanto o conceito de representação burguesa quanto de delegação burocrática, privilegiando as assembléias como esferas decisórias; arrancaram a noção de liberdade das garras do individualismo burguês, praticando-a como valor coletivo (“A liberdade do outro amplia a minha ao infinito” lia-se em um grafite).
Sabemos, como Marx, que a história só se repete como farsa e não estamos sugerindo qualquer reedição, comemoração ou simulação do Maio francês ou de qualquer movimento que o tenha influenciado. Acreditamos, contudo, na possibilidade de retomar seus patamares de consciência. Quando, no Brasil, o projeto de esquerda em que as gerações passadas depositaram todo o seu tempo e esperança já parece bastante duvidoso, ao invés de anunciarmos alternativas dogmáticas ou repetirmos chavões sobre o que a classe trabalhadora e a esquerda precisam, talvez seja o momento de exercitarmos todo o nosso potencial utópico e pensarmos qual sociedade queremos e criar o novo a partir daí. Talvez seja o momento de, como os surrealistas do século passado (e deste que ainda é criança) mergulhar de novo o real em uma profunda escuridão noturna, para pintar novas estrelas que o iluminem...
Eduardo Mara –
duormds@yahoo.com.br 