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| | VIDEO PRAÇA ROOSEVELT 4 - 07/11/2004
Mais um vídeo mostrando como foi violenta a noite na região da praça roosevelt
Mais um vídeo mostrando como foi violenta a noite na região da praça roosevelt
A Praça de Guerra Um domingo como outro qualquer. Começo de noite, as mesinhas na calçada com as pessoas bebendo e terminando o fim de semana. Grupos aglomerados em frente aos teatros aguardam a hora do início dos espetáculos. A temperatura amena convida à permanência na rua, esticando um pouco o preparo para a segunda feira. As conversas rolam despreocupadas em torno de qualquer assunto, sem censura e sem freios na língua. Bons tempos estes de liberdade. É sete de novembro de 2005, e ali são poucos os que ainda se lembram de anos de chumbo.
De repente, o barulho de bombas provoca silêncio geral. “São fogos de artifício”, comentam. Um mais sarcástico chega a dizer: “Os traficantes estão avisando que a mercadoria chegou”. Mas o barulho recomeça, desta vez mais perto, calando todos. Surge então, uma multidão de pessoas com aspecto de gente muito pobre, correndo ensandecida, carregando nas mãos pedaços de pau e de ferro, tijolos, pedras e paralelepípedos. Esbarram nas mesas, derrubam cadeiras, atropelam uns aos outros e também os freqüentadores e moradores da Praça que, sem entender nada, ficam perplexos em um primeiro momento para imediatamente entrar nos teatros e nos bares em busca de proteção. Na rasteira da multidão, muitos velhos e velhas, correndo com dificuldade, tentando acompanhar o resto incentivados por algumas mulheres com bebês de colo. Ao mesmo tempo, as bombas continuam estourando, levantando chumaços de fumaça branca e provocando um horrível ardor na garganta e nos olhos. Do outro lado da rua, começam a aparecer os militares com o uniforme da tropa de choque da Polícia Militar. Formam-se em grupos quadrados, protegendo-se por todos os lados com seus escudos. Os estabelecimentos da Praça baixam suas portas e dentro dos teatros os atores tentam continuar o espetáculo, torcendo para que nada de ruim aconteça lá fora. Presas lá dentro e sem saber o que está acontecendo, somente os moradores dos prédios em volta da Praça conseguem assistir ao que parece ser uma gigantesca peça de teatro ou ao ensaio de um filme muito ruim, com direito a efeitos especiais, ator principal, coadjuvantes, extras, etc. Do outro lado da Praça, na esquina com a rua Gravataí, no telhado de um prédio abandonado e fechado há muitos anos, pertencente à Caixa Econômica Federal, umas vinte pessoas gritam palavras de ordem e picham a fachada. Em baixo, carros de polícia e mais tropa de choque. No segundo andar, que está iluminado e com as janelas abertas, algumas pessoas correm desviando das bombas que os policiais jogam lá dentro. É o que basta para os vidros serem fechados. Não é possível saber como a entrada foi bloqueada, mas a polícia não consegue entrar para desalojá-los. Os dizeres das pichações começam a fazer sentido e lê-se: Viva o MTSC (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto); Viva o MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro). A multidão que passou correndo tenta chegar ao prédio para também tentar ocupá-lo, mas é impedida pela polícia. Começa um jogo de gato e rato. Os sem-teto correm para um lado e, a polícia já chegou antes. Correm para o outro, e também têm que voltar para trás. Bombas são lançadas de um lado e paus e pedras do outro. Caçambas cheias de entulho na guia da calçada são reviradas pelos pobres em busca de mais munição. Telefonemas frenéticos começam. São mães avisando os filhos para que não voltem para casa. São vizinhos se perguntando o que era aquilo. Amigos preocupados uns com os outros. Gente ligando para jornais e emissoras de TV para pedir sua presença. Não se via um único repórter, parecia que tudo tinha acontecido em surdina. E tinha mesmo. Os grupos de sem-teto tinham feito, mais cedo, uma reunião tipo culto religioso na Praça e, de pronto, resolveram invadir aquele prédio abandonado. Teriam sido bem sucedidos não fosse uma viatura policial que voltava para o batalhão ao lado, que estranhando a movimentação, deu o alarme. Uns conseguiram entrar, mas a maioria ficou do lado de fora, em plena guerra. A batalha dura umas três horas até que, cansados, os sem-teto vão indo embora e se dispersando. Sobram alguns mais teimosos − ou mais motivados − que continuam provocando, jogando coisas nos militares, gritando palavras de ordem e chavões políticos. A presença dos jornalistas torna todos mais corajosos e valentes. O mais interessante é que os mais agressivos são mulheres. Elas correm, gritam, pulam, incentivam os outros, postam-se na frente dos policiais com o dedo em riste, falando toda a sorte de palavrões e ofensas. Devidamente treinados, eles permanecem impassíveis, sem arredar pé do lugar onde estão, somente garantindo que o inimigo não passe por ali. De repente, uma mulher que é particularmente uma das mais exaltadas, joga uma pedra em um policial. Ele se descontrola e corre atrás dela, que escorrega e cai. Ela encolhe as pernas e protege a cabeça com as mãos, esperando os golpes.Vem um, com força. Ouve-se um grito de homem, chamando o policial à razão. Com má vontade, ele recua e volta à formação. Ela sai correndo e não mais é vista. Aos poucos, tudo vai se acalmando. Um senhor posa para a fotografia e conta ao repórter que ele é pedreiro, que ganha o suficiente para pagar um aluguel justo mas não tem fiador, nem carteira assinada, nem informe de rendimentos. O prédio continua ocupado e alguns policiais guardam a entrada. As pessoas saem iguais a ratinhos dos teatros e dos bares, andando rapidamente para a segurança de suas casas, aos parzinhos e grupinhos. O silêncio na Praça é sepulcral, coisa rara em noites e madrugadas de domingo. Os cinquentões estão melancólicos. Já tinham assistido aquele filme várias vezes, trinta anos antes. No dia seguinte, tentando retomar sua atitude cool, os moradores da Praça tentam dar pouca importância aos acontecimentos da véspera. Só aqueles cinquentões permanecem meio tristes. Um deles comenta: “Plus ça change, plus c’est la même chose”. Ao ser perguntado sobre o significado da frase, responde: “No Brasil, você sempre pode aplicar para tudo aquela frase que diz: Casa onde não tem pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Assim como o prédio da Caixa Econômica Federal existem muitos edifícios abandonados e fechados na região Central da cidade. Prédios lindos e enormes que abrigariam muita gente e também muitos escritórios. Seus proprietários não acreditam na rentabilidade destes imóveis e preferem fechá-los, investindo seus negócios em áreas consideradas mais nobres. Também não acreditam em uma revitalização do Centro, que pouco a pouco, se torna cada vez mais decadente e com aspecto fantasmagórico, defendido somente por um punhadinho de bem intencionados paulistanos. E, principalmente, não acreditam em justiça social. Parece que falta bom-senso e mentalidade empreendedora e criativa aos empresários brasileiros. É uma pena. Uma semana depois destes acontecimentos, todas as pichações foram limpas, os vidros quebrados consertados, as portas recolocadas no lugar, como se nunca tivesse havido uma guerra naquele prédio, em uma Praça de São Paulo.
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