O elemento mais espantoso nesse evento é que as pessoas viram-se retiradas de suas especulações mentais sobre rádio para serem arremessadas no "rádio-transe", estado psiquicamente alterado deconsciência desencadeado pela radiofonia livre. Fabulando o públicoradiouvinte, enunciando-se apenas pela voz, puderam virar qualquer coisa que quiseram e deixar as suas identidades modernas dependuradas em algum cabide por aí.

Pelas expressões de todos e alguns depoimentos, ficou evidente que houve uma mudança de estado do coletivo, que vinha se reunindo há meses. A ação deixou de de ser racionalmente motivada e agora a busca do "barato" eletromagnético é uma força de coesão e para a adesão de novos aliados. Afetivamente motivada tornou-se irreversível.

A primeira Oficina RadiolaLivre resultou da atividade independente do Coletivo RadiolaLivre, formado por pessoas da comunidade universitária da Pampulha, mas sua trajetória é um pouco anterior às conversas desse grupo.Desde que os estudantes da UFMG conseguiram desalojar os militantes profissionais que costumam parasitar o movimento estudantil, nas últimas eleições, a atual gestão (Audácia) vinha sugerindo a criação de uma rádio livre. Embora não houvesse unanimidade e quanto às concepções de radiofonia ou de organização (a chapa é bastante heterogênea), os membros do coletivo de comunicação do DCE começaram a reunir pessoas para a invenção.

Rapidamente, o coletivo, sem deixar de reconhecer a iniciativa do DCE, assumiu-se como organização autônoma e horizontal, e passou às gestões junto às organizações estudantis para buscar apoio e realizar a oficina. Depois da Oficina, além do DCE, muitos contatos estão sendo feitos para dar suporte à RadiolaLivre, entre diversas organizações de estudantes, funcionários, professores e moradores dos bairros do entorno do Campus da Ufmg na Pampulha. Algumas organizações já se declararam interessadas e agora o trabalho será ampliar ao máximo os apoios, de maneira a garantir a independência do espaço comunicativo.

Esses acontecimentos nos sugerem que há mudanças na lógica da organização da sociedade civil no Brasil (pelo menos na cultura política de parte da classe média). Cada vez menos espaço existe para organizações politico-partidárias usarem das instituições de representação dos estudantes como trampolim político. Se o pretendem fazê-lo, sem dúvida,precisam vestir-se com interesses mais coletivos e públicos, como o da radiofonia livre. Parelelo às manobras retóricas dos aparelhadores tradicionais, difunde-se uma cultura de organização não hierárquica, cujos dispositivos de funcionamento prático vão se aperfeiçoando rapidamente.

No caso da UFMG, isso ocorre depois de quase três décadas de pasmaceira no (i)movimento estudantil, garantida pelos aparelhismos e pela espetacularização da política (que tinha sido muito basista nos anos 70). Em boa medida a comunidade universitária lança mão desses novos recursos e da redescoberta de sua criatividade política porque as pressões contra a universidade pública estão se tornando intoleráveis. Não são só as ameaças de uma reforma universitária que pode estar empacotando a universidade para a privatização e sacrificando a autonomia tecnocientífica pública no Brasil aos interesses da ALCA.

Os frequentadores do Campus da Pampulha assistem hoje a uma política de funcionalização e destruição da dimensão alegre e festiva da vida univesitária. Justificadas por problemas de segurança na década passada, colocaram-se camaras de segurança, catracas e guardas pedindo identificação em por todo lado. Além disso, a Reitoria proibiu todas as festas públicas e venda de cerveja, e franqueou o acesso à PM, - o que antes era reservado à Polícia Federal e, ainda assim, apenas sob um convite formal. De modo que a Radiola Livre pode ser um recurso inestimável a defesa da universidade pública, gratuita e laica.

O Coletivo RadiolaLivre propõe, assim, que a produção de comunicação pelas pessoas (da comunidade univesitária da Pampulha, no caso) possa se tornar uma prática tão cotidiana quanto trabalhar ou se divertir. A RadiolaLivre convida-nos a jogar com esse meio de invenção e descoberta do próprio poder pelas pessoas, entrando em uma brincadeira que escape ao banal trabalho/ consumo/ lazer.

Interessado/a? O Coletivo RadiolaLivre reune-se todas as quintas-feiras no ComuniCA (CA do Curso de Comunicação Social), às 17h30, pontualmente. O ComuniCA está situado no terceiro andar do prédio da FAFICH, no Campus da UFMG e está permantemente aberto às pessoas que queiram conhecer o radiotranse, se sintam concernidas e assumam a ação.

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