Por Larry Rother
The New York Times

RIO DE JANEIRO - Brasileiros gordos? Em uma sociedade consciente do cuidado do corpo e cujas contribuições à cultura global incluem a garota de Ipanema, o tango (sic), Gisele Bündchen e outras supermodelos, a idéia parece uma heresia. Sem dúvida, um controvertido estudo do governo divulgado no final do mês passado (dezembro/2004) confirma: O Brasil sofre uma epidemia de obesidade.
Segundo o levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 40 por cento da população adulta brasileira está acima do peso. No total, um adulto de cada dez - ou mais de 10 milhões de pessoas - é obeso, segundo as normas internacionais, em comparação com os menos de quatro milhões considerados desnutridos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva imediatamente rejeitou os dados da pesquisa. Desde que assumiu como presidente, há dois anos, o governo sempre sustentou que a fome, e não a obesidade, constitui o principal problema social do Brasil e, consequentemente, fez da iniciativa Fome Zero o seu programa de saúde e bem-estar social. "A fome não é algo que se pode medir num levantamento", afirmou Lula. "Nem todos querem reconhecer que passam fome, têm vergonha".
Mas as estatísticas revelam o que os médicos e nutricionistas consideram uma prova inegável de um alarmante crescimento da obesidade. Assinalam esses especialistas que os principais causadores são uma dieta desequilibrada e um estilo de vida sedentário, com algumas variantes particularmente brasileiras; açúcar em tudo. Por exemplo, os brasileiros gostam muito de doces, adicionam açúcar à frutas naturalmente doces e, às vezes, parece que a metade do volume de um cafezinho, o café expresso que se consome em todo o país, não é líquido, mas puro açúcar. "Brasil e Estados Unidos são os países com maior nível de consumo de açúcar no mundo, causador de aproximadamente 19 por cento das calorias", assinala o doutor Carlos Augusto Monteiro, nutricionista da Universidade de São Paulo. "Por exemplo, o consumo de refrigerantes aumentou 400 por cento nos últimos 30 anos, e pensamos que isso poderia contribuir de maneira importante no feito de que, no Brasil, há agora pessoas mais gordas." Além de incorporar mais quantidade de alimentos gordurosos processados nos últimos anos, a dieta é também abundante em amidos e outros carboidratos.Assim como as pessoas dos países mais desesenvolvidos, os brasileiros também levam hoje uma vida mais sedentária. Entre 1940 e 2000, a população do Brasil - atualmente de 175 milhões - passou de ser 80 por cento rural e 20 por cento urbana, para 80 por cento urbana e 20 por cento rural, o que trouxe como resultado uma significativa diminuição da atividade física. Os critérios brasileiros do que se considera sexy poderiam também ser um fator para justificar a gordura. Tradicionalmente, o ideal feminino local tem sido "corpo com forma de violão", pouco peito, cintura fina e quadril largo. Esta preferência poderia ser marca das zonas rurais e entre a gente pobre, mas a classe média e alta parecem haver sucumbido à preferência global pela magreza. O doutor Monteiro indicou que, em São Paulo, há clínicas que tratam a anorexia e a bulimia, problemas que quase não existiam há 30 anos, mas que hoje se destacam devido à diversidade de matérias veiculadas pelos meios de comunicação sobre os tipos anatômicos desejáveis. Os pobres, que segundo o estudo fazem parte do grupo do excesso de peso, recebem as mesmas mensagens, mas não têm o dinheiro para explorar outras alternativas. Alguns críticos locais indicam que a resistência de Lula a aceitar o estudo poderia vir em parte de sua própria história pessoal. Como incansavelmente ele recorda aos brasileiros e aos líderes estrangeiros com quem se reúne, sofreu fome quando era um menino pobre do campo e se recorda da sensação de ir dormir com o estômago vazio. Sem dúvida, hoje Lula é um dos tantos brasileiros que devem se esforçar para controlar seu peso. "A verdade é que a fome de Lula não foi saciada", diz o colunista Arnaldo Bloch, do jornal O Globo. Enquanto isso, quanto mais come e mais bebe, tanto mais persiste a sua fome e a sua sede. A fome e a sede são ancestrais, o presidente, como outros que alguma vez foram pobres, nunca conseguiram superar.


Tradução de Filipe Marcel Ferrato