No mês de maio do ano passado, pouco mais de 20 famílias pobres da cidade de Goiânia resolveram ocupar uma área abandonada há mais de 40 anos, no Parque Oeste Industrial.
Aquela grande área localizada entre indústrias e comércios, era usada durante todo esse tempo como espaço para desova de corpos e estupros. Poucos lembravam de sua existência, a não ser os especuladores imobiliários que esperavam pela valorização da área para poderem assim realizar um polpudo negócio. Eles não contavam que algumas famílias cansadas de continuar pagando aluguel resolvessem depositar ali suas esperanças e ocupar o terreno abandonado.
Na época foi conseguida pelos proprietários, todos da mesma família, uma liminar de reintegração de posse. Estranhamente sua execução foi prorrogada durante meses, até que chegassemos ao auge do processo eleitoral para prefeito de Goiânia. Os principais canditados eram Pedro Wilson do PT, prefeito na época; Iris Rezende do PMDB, velho cacique político de Goiás, tendo sido governador do estado e prefeito da cidade; e Sandes Júnior do PP, radialista e deputado federal, apoiado pelo governador do estado, Marconi Perillo do PSDB. Todos os canditados deram sua atenção aos ocupantes da área no Pq. Oeste Industrial, que nessa época já eram muito mais do que aquelas poucas famílias do ínicio. Promessas foram feitas, garantias foram dadas. Em uma reunião dos sem-teto com o governador foi ouvido da boca deste que os sem-teto poderiam ficar na área, que a função de desapropriar cabia ao prefeito, pois os donos deviam anos e anos de IPTU, e ainda que nenhum policial entraria na área, sob pena de demissão.
Sob o efeito da demagogia dos politicos, casas de alvenaria foram levantadas por aqueles que tinham a capacidade de se endividar. Outros nem isso conseguiram e continuaram com modestos barracos e alguns poucos, muito poucos, conseguiram construir casas maiores, mas sem acabamento e onde viviam muitas pessoas. Famílias correram para a área alimentadas pelo falso discurso dos políticos e em pouco tempo lá já viviam mais de 3 mil delas.
Para os governantes e a elite goiana a questão começava a extrapolar o tolerável. O problema estava se tornando muito grande. A mídia empresarial começou então a intensificar a campanha de difamação dos ocupantes, principalmente o maior jornal da capital, O Popular. Demais jornais, como o Diário da Manhã, oscilaram seu foco, hora criminalizando, hora colocando os sem-teto como vítimas, de acordo com os humores do governo do estado. Os ocupantes apareciam como pessoas de classe média ou classe média alta que não necessitavam ocupar área alguma, ou então como invasores profissionais interessados em negociar lotes que não lhes pertenciam. Baseada nas ‘’denúncias’’ do jornal O Popular, a polícia civil indiciou 28 pessoas por crimes de venda ilegal de lotes, constituição irregular de loteamento, extorsão e formação de quadrilha. Entre os quais haviam pelo menos 15 pessoas consideradas pela polícia como líderes da ocupação. É inegável que haviam alguns oportunistas, algo normal em nossa sociedade onde tenta-se sempre levar vantagem das situações, mas daí a querer colocar mais de 3 mil famílias sobre essa alcunha é uma prática de extrema má-fé.
A reintegração de posse veio finalmente em setembro de 2004, expedida pela juíza Grace Correa Pereira, da 10° Vara Cível de Goiânia, mas foi adiada durante meses. O governo do estado tentava negociar a saída dos ocupantes, pois alegava que a área no Pq. Oeste Industrial não era adequada para moradias populares. Os advogados dos proprietários disseram que ela estava avaliada em 38 milhões de reais por estar localizada próxima a condomínios de luxo. Essas informações deixam claro a prática da especulação imobiliária, já que a área estava abandonada há décadas e os proprietários deviam mais de 2 milhões de reais em impostos. O interesse era esperar a valorização da área, o que aconteceu com a chegada dos luxuosos condomínios, para assim superfaturar o preço. Prática comum na cidade de Goiânia, dominada por uma verdadeira máfia da especulação imobiliária. Áreas em situação semelhante à do Parque Oeste Industrial podem ser encontradas em todos os cantos da cidade, de norte a sul, de leste a oeste.
As negociações prosseguiam juntamente à campanha de criminalização cada vez mais intensa por parte da imprensa. O Judiciário pressionava para que a reintegração fosse realizada e a Secretária de Segurança Pública pedia mais tempo. Foi feito um cadastro de famílias pela Agência Goiana de Habitação, mas ele era restritivo pois contemplou apenas 540 famílias das mais de 3 mil que viviam na área. Segundo a Agência a maioria delas não se encaixava em seus critérios.
O fim de ano chegava e alguns movimentos sociais e parlamentares já mantinham contato com os ocupantes. O Movimento Terra Trabalho e Liberdade já iniciava um trabalho ajudando na organização do movimento e políticos da cidade, com cargos na Câmara Municipal e na Assembléia Legislativa, procuravam dar algum suporte as famílias. Em janeiro um grupo de estudantes e ativistas que se organizavam para ir ao Forúm Social Mundial visitaram a ocupação, entre eles voluntários do CMI Goiânia. Nessa época a tensão já era grande na ocupação e barricadas foram levantadas temendo a ação policial. Alguns moradores faziam vigília e se muniram com precárias armas caseiras.
Apesar de toda a demora que tivemos para estabelecer um contato direto com os ocupantes, a aceitação ao CMI foi grande e construída rapidamente. Cansados de serem difamados pela grande imprensa da cidade, os moradores ficaram surpresos ao saber que havia um meio de comunicação disposto a ouvi-los e mostrar o outro lado, o lado de dentro. O que pudemos constatar convivendo cerca de 3 semanas dentro da ocupação foi algo bastante diverso do que era publicado pela grande mídia. Ali viviam em sua maioria esmagadora famílias pobres, em pequenos barracões onde moravam várias pessoas. Todos procuravam fugir da ditadura do aluguel, que tanto oprime os trabalhadores de nosso país e fazem a fortuna de proprietários e imobiliárias. Lá vimos também pessoas de bem, muito diferente do perfil criminoso apresentado pelos jornais e TVs locais. Lá viviam trabalhadores típicos deste Brasil injusto, explorados, com poucos recursos e em busca do sonho da casa própria.
Após o carnaval a tensão tornou-se imensa dentro da ocupação. Anunciando a violenta desocupação que viria acontecer, a Polícia Militar goiana iniciou a ‘’Operação Inquietação’’, que consistia em atacar as barricadas durante a noite, usando bombas de gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, balas de borracha e chumbo. Chegaram ao absurdo de soltar contra os moradores bombas de gás lacrimogênio vencidas no ano de 2001. Várias casas onde dormiam crianças foram alvejadas por bombas e tiros. O medo reinava durante as noites. Aos ocupantes cabia rezar, ou responder com precários foguetes e as vezes com bombas caseiras. Dentro da ocupação era nítida a existência de policiais disfarçados, que tentavam sempre incitar os moradores ao confronto, procurando com isso justificiar os ataques da PM e a criminalização do movimento.
A recomendação da direção do movimento, de líderes religioso e dos parlamentares envolvidos era de que os ocupantes não respondessem com violência, mas em muitos momentos era dificil controlar pessoas mais exaltadas, acuadas pela ação policial ou estimuladas pela ação dos policias agitadores.
Do dia 10 de fevereiro até uma noite antes da desocupação foram feitos ataques pela polícia todas as noites. Sempre por volta de meia-noite os homens do Grupo de operação táticas especias(GATE) se aproximavam das barricadas e atiravam bombas e balas. O desespero tomava conta das famílias, muitos passaram mal por conta do gás e outros foram feridos por balas de borracha e chumbo. Na madrugada do dia 15 de fevereiro deu-se a noite mais violenta na ocupação Sonho Real. Homens do GATE atacaram a barricada da Avenida das Magnólias com bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e tiros de grosso calibre. Os homens de vígilia na barricada responderam com foguetes e algumas bombas caseiras. Dois moradores foram feridos a bala e também um policial foi alvejado. Até hoje não se sabe de onde partiu o disparo que acertou o tenente da GATE.
A noite de guerra ocorrida na Sonho Real ganhou repercussão na mídia nacional e chamou a atenção para o que estava ocorrendo em Goiânia. No dia seguinte todos na ocupação esperavam uma ação noturna ainda mais violenta por parte da polícia. Uma assembléia ocorrida a noite tranquilizou um pouco os moradores. Nela falaram Frei Marcos, da Arquidiocese de Goiânia, lideranças do movimento por moradia da Sonho Real e parlamentares. Todos eles procuraram tranquilizar os moradores trazendo notícias de articulações para a desapropriação da terra e cobranças ao governador para que parasse a violência policial, além de contatos que haviam sido feitos com o Ministério da Justiça e o Ministério Público.
Nesta noite, a que antecedeu a desocupação, houveram pequenos ataques, provavelmente feitos por policiais disfarçados, mas nada comparado ao que ocorreu nas noites anteriores. Na manhã seguinte, dia 16, as pessoas acordaram com foguetes e agitação. Alguém havia trazido a notícia de que os polícias se movimentavam no 7° BPM e estavam a caminho da área para efeutar a desocupação. A tensão era grande e as pessoas se mostravam assustadas e desnorteadas. A recomendação era não resistir. Mulheres se posicionaram em frente a barricada das Magnólias e começaram a rezar. A imprensa foi afastada do local pela PM. O cenário estava montado para a violência policial.
Eram 2.500 homens de todas as divisões da PM do estado, desde de tropas de elite a policias comuns. Alinhados em frente à barricadas das Magnólias, com escudos e cantando gritos de guerra agressivos, policias avançaram e começaram a atirar e lançar bombas de gás e efeito moral. Enquanto isso outros destacamentos já haviam entrado pelas laterais da área ocupada e pelas barricadas da parte de traz da ocupação, o que desmobilizou qualquer tentativa de resistência por parte dos ocupantes. O secretário de segurança pública, Jonathas Silva, havia afirmado que apenas os oficiais portariam armas com munição de chumbo, o que não tem sido confirmado pelos relatos, e há denúncias de que a maioria dos policiais da operação usavam pistolas carregadas com munição letal. Os tiros eram dados a esmo, e várias pessoas que não ofereceram resistência foram alvejadas. Tiros de bala de borracha foram dados a queima roupa, várias pessoas foram espancadas e humilhadas. Pedro Nascimento Silva, 27 anos, e Wagner da Silva Moreira, 21 anos, foram mortos aparentemente sem oferecer resistência alguma, e até agora a polícia não esclareceu as circunstâncias das duas mortes. Há diversos relatos de mortes ocultadas pela polícia que estão sendo investigadas por uma comissão de membros dos direitos humanos da Assembléia Legislativa, advogados e militantes de movimentos. O Ministério Público também está investigando as denúncias.
Depois da desocupação o saldo foram duas mortes oficialmente confirmadas, 800 presos, centenas de feridos e cerca de 30 desaparecidos. Várias casas foram danificadas durante a ação policial, mas agora estão totalmente destruídas, atendendo a pedido dos proprietários que foi concedido novamente pela 10° Vara Cível de Goiânia, pelo Juiz Gilmar Coelho.
As famílias retiradas da área foram levadas para ginásios da cidade depois de passarem a noite na Catedral de Goiânia. Agora elas estão nos ginásios dos bairros Capuava e Novo Horizonte. Suas condições são precárias, faltando cobertores, colchões, remédios e mesmo comida e água. Seus pertences foram destruídos, roubados e o que restou foi levado para um depósito da prefeitura de Goiânia. O desrespeito a dor dessas famílias é tão grande que no dia do velório das duas vítimas oficiais da ‘’Operação Triunfo’’, policiais civis tentaram prender um líder do movimento durante a cerimônia, causando grande confusão e disparando tiros no meio da multidão.
As negociações para a desapropriação da área no Parque Oeste Industrial são uma incógnita. O governador, que dizia estar disposto a arcar com 50% do valor da desapropriação, recuou e agora diz que dará somente o cheque moradia para as 540 famílias cadastradas pela Agehab se estabelecerem em outra área. O prefeito Iris Rezende demonstra mais disposição em desapropriar a área, e tem buscado negociar com o governador, além de buscar ajuda no governo federal. Por outro lado o advogado dos proprietários, Miguel Cançado presidente da OAB-Goiás, afirma que eles não aceitarão a desapropriação e irão recorrer à justiça caso ela aconteça.
Um comitê em defesa das famílias da ocupação Sonho Real foi formado e será composto por todas as forças sociais dispostas a ajudar na luta. São várias as frentes de luta: apurar os abusos de autoridade e denúncias de mortos ocultados pela polícia; negociar junto aos governos estadual e municipal a desapropriação da área no Pq. Oeste Industrial; dar ajuda humanitária as famílias da Sonho Real; intervir junto à sociedade buscando descontruir a imagem negativa construída pela imprensa goiana sobre os ocupantes do Sonho Real.
A luta das famílias da ocupação Sonho Real está apenas começando. Vivemos um momento histórico em Goiás e no Brasil, onde as as lutas sociais vem sendo cada vez mais criminalizadas e reprimidas pelas forças estatais e pelas elites locais e nacionais. É necessário que os movimentos sociais se unam e se organizem para essa luta que definirá os rumos do povo oprimido deste país: a libertação através da luta ou a eterna submissão às elites.
