Intelectualidade acadêmica, decadente e onanista. Imprensa mal informada, mercantil e irresponsável. Juntas, formam uma indústria de neologismos amorfos, que se deslocam com seus pseudópodos, no lá e cá, no blábláblá, do enfadonho noticiário nosso de cada dia. Afrodescendente é o mais novo rótulo criado, para amenizar, suavizar o tom escuro da pele da maioria de nosso povo. Fomos pretos escravos, pobres pardos e negros classe média. Agora, afrodescendentes com anel de Dotô.
Antes que uma análise apressada da evolução, por assim dizer, da afronomenclatura nos conduza à superficial conclusão de que o poder para o povo preto tem sido incrementado na sociedade brasileira, ao longo de nossa História, é preciso recordar do fato de que, nestes quinhentos e tantos anos de vergonha, não houve tanta miséria e tanta desigualdade social, maior, inclusive, do que no período em que os pretos ocupavam a senzala e as fazendas do senhor. O que, aparentemente, pode ser taxado de falácia, é facilmente demonstrado, em decorrência do seguinte raciocínio: naquela sociedade, oficialmente, escravocrata, as condições históricas presentes eram insuficientes para proporcionar, aos pretos, condições de vida melhores às vividas por eles. O que seriam essas condições históricas? Elementos de mentalidade e de cultura da época, o modelo econômico vigente e o formato de estruturação de poder (sistema de governo e classes sociais). Ou seja, os povos africanos, subjugados pelo escravismo moderno, eram reféns de um determinismo ou fatalismo histórico: daquele contexto, não se poderia exigir ou reivindicar o que as condições históricas atuais apresentam, isto é, hoje, vive-se sob a égide do regime democrático, do Estado de Direito, da participação equânime na execução social do poder político (ao menos teoricamente), da certeza moral e científica de que disparidades acentuadamente íngremes, na distribuição da riqueza produzida pelo país, promove condições de tensão social, as quais podem levar à convulsão, à autofagia da sociedade.
Em suma, as condições existenciais do povo preto são piores atualmente, que sob aquele sistema econômico de exploração do trabalho escravo, abolido, segundo o anedotário oficial, em 1888. Neste sentido, qual seria a razão da existência do termo afrodescendente, pardo, moreno, escuro, para significar o povo preto? Muito provavelmente, responderão, que este termo, afrodescendente, busca, pela primeira vez, mudar o foco de identificação individual, da cor da pele para o da descendência histórica, ou seja, é uma inferência científica, ao contrário das demais, que seriam culturais e, como tal, sujeitas ao preconceito, ao estigma social. Ledo engano! Uma suposta inferência científica, neste contexto, deveria se propor a questionar a formação histórica, política e social do continente africano, o que já seria deveras suficiente para perceber-se que o termo é incabível, pois exclui os povos norte-africanos. Estes povos, por sinal, têm significativa relevância na formação do povo brasileiro, se, não diretamente, indiretamente, pois os portugueses, um dos três principais povos formadores da identidade popular nacional, saborearam séculos de influência norte-africana, quando da dominação muçulmana de parte do território do Reino de Portugal. Assim, uma grande parte do povo brasileiro, que não tem a pele, por assim dizer, escura, são afrodescendentes, por essa via de influência genética e cultural.
Por outro lado, o neologismo, carrega, de antemão, a suposição de que os descendentes, digamos, exclusivamente de grupos étnicos da chamada África Negra, mantiveram uma pureza genética ao longo dos séculos de história brasileira. Destarte, a miscigenação seria um elemento característico dos brasileiros de pele clara ou não escura, pois o povo preto se manteve em estado de pureza racial, como supôs o raciocínio anterior. Logo, nos utilizando de alguns juízos de valores ultrapassados e muito mal vistos atualmente no Ocidente, o povo preto estaria num patamar de superioridade, diante do restante da população. Um paradoxo de preconceitos.
Aquém de todo esse exagero desagradável, haverá quem afirme que o termo afrodescendente faz menção ao indivíduo que tem pelo escura e, por conseguinte, descende de povos negros africanos. Curto e grosso. Ora, isso é pior do que poderíamos pensar, porque esconde o estigma da cor da pele, sob o véu do respeito, da dignidade, do politicamente correto etc. É a mesma atitude, guardando-se as devidas proporções, de se assinar uma lei que torna, da noite para o dia, todo um povo, historicamente humilhado e brutalizado, em um povo livre. É a manutenção do costume das elites político-econômicas brasileiras, de ofertar os restos de seu festim, em troca do silêncio e do agradecimento, por torná-los alegres miseráveis.
Eu, mestiço, indioeuroafrodescendente, faço coro junto aos irmãos: poder para o povo preto!