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Mas um dia meu palco, escuro, continuou
e muita gente curiosa veio me ver
viram meu corpo já estendido
eram meus fãs que vieram para me ver morrer.
Esta noite foi a noite em que virei astro
a multidão estava lá, atenta como eu queria
suspirei eterna e vitoriosamente
pois ali o personagem nascia
e eu, o ator do mundo, com minha solidão...
morria!

Anderson Herzer

Nascido no interior do Paraná no dia 10 de junho de 1962 era deixado aos cuidados da avó paterna. O pai foi assassinado a tiros quando Herzer era ainda muito pequeno. A mãe era prostituta, pouco o via. A mãe também morreu cedo. Foi então adotado por um casal de tios com quem passou a tratá-los por pai e mãe. Logo no início da adolescência encontrou na bebida um refúgio. Aos 13 anos teve um namorado chamado Bigode que morreu tragicamente em um acidente de moto. Divergências familiares e seu envolvimento com bebida levaram seus "pais" a se livrar dele enviando-o para a FEBEM sem nunca ter cometido qualquer crime. De então sua vida, dos 14 aos 17 foi entre uma unidade e outra da FEBEM com pequenos períodos de fuga, onde "respirava" o mundo exterior. Na FEBEM em contato com meninas presas se deu conta de que não precisava ter nascido homem para que pudesse assumir uma identidade masculina e assim passou a se denominar Anderson Bigode Herzer (não por coincidência adotou o nome Bigode de seu ex-namorado). Foi adorado e respeitado pelas outras internas como homem o que desagradou sempre a direção da FEBEM devido sua liderança e masculinidade. Sua narração do período nestas instituições choca de tão cru. Espancamentos constantes, perseguições psicológicas, torturas. Está tudo presente. O que impressiona em Anderson é como foi capaz de construir uma certa carga intelectual num ambiente tão hostil. Escrevia poesias e peças teatrais encenadas pelas internas.

Quando finalmente esteve livre enfrentou enormes dificuldades na obtenção de emprego, foi constantemente estigmatizado devido sua postura masculina. Até que se jogou do viaduto 23 de Maio em São Paulo. Seu livro foi publicado pouco depois com sua história pessoal e um conjunto de poemas.

Impressiona a incapacidade das pessoas, inclusive aqueles que o ajudaram, a entenderem Anderson como um rapaz. Ao invés disso procuraram explicar porque a garota estava "querendo ser" garoto. Basta ler seu livro para entender que ele realmente via a si mesmo como um rapaz e ao seu respeito é assim que deve ser lembrado, como Anderson.

A Gota de Sangue

Eu decaí, eu persisti
tentei por todos os meios ser forte.
Lutei contra o tempo,
chorei em silêncio
gritei seu nome ao vento.
Sou filho da gota
fui templo da miséria
meu pai um perdido
minha mãe, a megera.
Cresci vendo prantos,
dormi em meio à mata
chorei gotas sangüíneas
sou o pecado, sou a traça.
Eu ouvi um grito de desespero,
vi a lenta corrupção,
vi o olhar do corruptor,
vi uma vida na destruição
eu vi o assassinato do amor.
Tentei, venci, a vitória conquistei
porém um dia faleci.
Hoje estou em sua lembrança
eu sou sua alma oculta
e serei sua esperança.
Anderson Herzer

A Queda para o Alto, Herzer, Ed. Vozes, 1982.