Carta aberta à Mídia, aos Governantes e à População.

Acabou. No fim da tarde do dia 21 de junho de 2005, às 17:00, sentados em frente à tribuna, ouvimos atento ao orador que respirava aliviado: Acabou. Como bons espectadores e ouvintes, sentimo-nos profundamente tocados com o sincero alívio que aquela voz trazia em si e também nós respiramos aliviados – um pouco por ela, um pouco por nós. Mas, lá no fundo, uma ponta de dúvida inquietava a nossa posição nas poltronas: Acabou o quê? E para quem? Que algo ruim havia passado sabíamos por dois motivos que conhece todo aquele que já se pôs a escutar uma história bem contada. Primeiro, porque há, por trás do aparente pavor, um suspiro de alívio na voz que conta, ou na escrita de quem narra; segundo, porque, se alguém conta, significa que o pior já foi superado. Desde essa certeza, então, ouvimos ao palestrante com grande curiosidade, pois também nos parece que aquilo de que fala é-nos absolutamente alheio.
E, no fim, damo-nos pouco a pouco conta de que a referida história tem-nos como protagonistas. Não estamos, todavia, certos sobre o ponto de vista de quem a narra, embora saibamos estar envolvidos nela até o pescoço.
Perigo. Uma mesma história pode ser narrada de diversas maneiras. Se uma epopéia, enaltece os feitos heróicos. Se uma tragédia, põe em cena os heróis e faz-nos ver seu destino. Se uma fábula, permite-nos ver um significado moral por trás dos fatos contados. Se um sermão, por fim, transforma-nos em crianças travessas às quais se deve educar.
Por isso, perguntamo-nos com certo espanto que história é essa que querem nos contar como se não tivesse absolutamente relação conosco e que ao mesmo tempo é mero pretexto para uma (re)educação?
Às 17 horas dessa terça-feira, vieram à nossa casa (a cidade) dizer que o que passou, passou, melhor esquecer. Apresentam-nos uma solução, como se nós mesmos tivéssemos criado o problema. E que problema é esse? E foi solucionado para quem?
Não, não devemos esquecer. Deixar para trás o que aconteceu durante as últimas três semanas em Florianópolis. Porque não se trata tão somente de reduzir quinze centavos na tarifa de ônibus. Nem porque nunca se pretendeu que isso seria a solução para um problema maior. Não se deve olvidar que a partir de certo momento a política de Estado se revelou através da ação policial. Que não apenas estudantes, como quer a esquerda conservadora, mas a população inteira foi atingida e almejada – que, por assim dizer, o Estado declarou guerra à Sociedade – aquela mesma que diz representar.
Exagero?! Qual deve ser, então, o parâmetro correto para que tal fato seja constatado? A morte de algum manifestante em “combate” para que se tenha então um mártir? Pois saibam que os mártires se encontram às pencas e em toda parte e não são vítimas de manifestações, mas da política do dia-a-dia. Da política vista através do microscópio ou à distância. Os protestos, que são apenas gestos simbólicos de revolta, são combatidos com gestos simbólicos de ação policial. E não está errado quem vê na sigla PM sinônimo de Porcos Matam, pois muitos foram os que morreram de uma outra forma. As balas de borracha que atingiram os rostos e pescoços, os peitos. As balas de borracha e os estilhaços de bombas de efeito moral que deceparam os braços e pernas de outros. Não se assuste, contudo, quem leia agora a essas linhas desprevenidamente. Ninguém, conforme os padrões modernos, saiu da chamada “guerra ao Estado”, ou “anarquia social”, nas palavras do Procurador-geral do Município de Florianópolis, com ferimentos mais graves. Convém lembrar, no entanto, que respirar aliviado com essa notícia é partilhar com a política de Estado empreendida por “nossos” governantes. As manifestações são apenas gestos simbólicos de revolta social, e na mesma proporção a ação policial para as mesmas é apenas um gesto simbólico de repressão. Assim, quem por ela foi atingido é apenas o representativo simbólico da repressão do dia-a-dia. Da falta de compromisso que os políticos têm com a sociedade. Com a ideologia escravista que faz com que um radialista como Mário Motta (CBN/Diário) diga, numa manhã qualquer, que “cidadão é gente de bem”.
Por isso, senhoras e senhores, não deixaremos que se apague com um simples decreto a memória dos moradores dessa Florianópolis que é agora mais do que nunca uma terra de Desterro. Antes que se apaguem, simbolicamente, os traços que marcaram a cidade nos últimos dias. Entregamos, para o conhecimento de todos, as chagas que deixamos hoje nessa cidade.

Florianópolis, 22 de junho de 2005.
Sepé Tiarajú (fração Tupamaros).