Os avanços cubanos, apesar do bloqueio

Erivagno Oliveira Avelino
Cuba sofre um bloqueio ilegal e criminoso norte-americano desde quando caiu a ditadura sanguinária de Fulgêncio Batista, em 1959, através da célebre vitória de Fidel, Chê e tantos outros corajosos da Revolução cubana. Não obstante, ostenta invejosos avanços.
Como o turismo vem sendo uma atividade lucrativa, gerando emprego, renda e desenvolvimento econômico, foi proibido a Cuba receber turistas norte-americanos. O bloqueio atroz proíbe também o comércio com os EUA e com as empresas norte-americanas em outros países, inclusive vendas de alimentos. Essas empresas são proibidas de importar qualquer produto que contenha matéria-prima cubana, numa clara tentativa de isolar cada vez mais a Ilha caribenha. Além disso, o governo americano a impede de usar o dólar - por enquanto uma moeda internacional - como moeda para o comércio com o resto do mundo, como tantos outros países o usam.
O governo Bush jamais pôde admitir que um pequeno país latino-americano possa escolher o seu próprio destino. Em virtude do bloqueio vergonhoso, Cuba foi obrigada a adquirir medicamentos para o tratamento da AIDS, pagando seis vezes mais caro em outros países. Enfermos chegam até a morrer em hospitais cubanos por falta de medicamentos específicos. Mesmo o governo cubano sabendo quais são, não pode adquiri-los caso tenham patente americana.
A maior potência mundial continua impondo o bloqueio, mesmo depois de haver uma votação, na qual 179 países votaram a favor do fim e apenas 4 votaram contra, além dos EUA, mais três países coniventes e subalternos: Israel (país que recebe apoio constante dos americanos em suas ofensivas à Palestina), Ilhas Marshall (arquipélago do Pacífico, de apenas 181,3 quilômetros quadrados, com pouco mais de 70 mil habitantes) e Palau (arquipélago do Pacífico, com território de 458 quilômetros quadrado e “independente” dos EUA em 1994, possui pouco mais de 20 mil habitantes), enquanto os demais países do mundo – inclusive a Inglaterra, sua parceira incondicional no genocídio do povo iraquiano, numa ambição assassina – o condenam.
A opinião pública – que “é cada vez mais decorrência da opinião publicada” – formada pela mídia “financiada” pelos EUA, vê Cuba como um país atrasado e seu líder maior como um ditador. Que estranho ditador que se preocupa com o bem-estar do seu povo, dando-lhe os melhores índices na saúde, na educação, e combate veementemente o crime organizado! Em um recente estudo feito pala Organização das Nações Unidas (ONU), foi constatado que 54,7% dos cidadãos da América Latina estariam dispostos a aceitar um regime autoritário, se o mesmo resolvesse as demandas sociais, que aliás, Cuba ostenta com louvor.
A título de comparação entre o bloqueador e o bloqueado, é que este detém um dos melhores índices na saúde do mundo, com uma taxa de mortalidade infantil de apenas 5,8 por mil nascidos vivos, enquanto aquele tem 7. O tema saúde foi o estopim para o “New York Times” criticar abertamente o governo da terra do Tio Sam: “Aqui está o fato doloroso: se os EUA tivessem uma taxa de mortalidade infantil tão boa quanto a de Cuba, nós salvaríamos 2.212 bebês a mais por ano”, e mais, na mesma edição de 12 de janeiro de 2005: “É simplesmente inaceitável que um bebê comum tenha menos chances de sobreviver nos EUA do que em Havana”. E sofrendo um bloqueio incessante de mais de 40 anos! Só para comparar. No Brasil a taxa é de 35 por mil nascidos vivos, chegando a 44 no Nordeste.
Cuba resiste à política agressiva de Washington sem subterfúgios e tem dado um belo exemplo de solidariedade com os povos irmãos. Os hospitais cubanos, com médicos altamente preparados, prestam serviços de excelência a milhares de pessoas procedentes do exterior, inclusive americanos, além dos mais de 11 milhões de habitantes da terra onde Chê se consagrou na luta contra os oprimidos. Aqui no Brasil, uma pequena cidade de 3 mil habitantes no Norte do Tocantins – onde nenhum médico da burguesia vai - é possível encontrar um médico cubano. Os mais de 70 médicos cubanos atendem cerca de 700 mil pessoas carentes em 39 municípios piauienses e mantêm 3 hospitais em uma das regiões campeãs em doenças infecto- contagiosas. Cuba mantém mais de 22 mil colaboradores de saúde em mais de 67 países do Terceiro Mundo.
Enquanto assistimos ao governo brasileiro tentar fazer o mínimo de justiça na educação, através do Universidade Para Todos (ProUni), Cotas e tantas outras medidas, em Cuba a educação é de dar inveja aos países mais ricos do mundo. A começar pela taxa de analfabetismo de 0,01%. O nível de escolaridade do trabalhador cubano equivale ao segundo grau completo no Brasil. Isso porque o “ditador” oferece educação gratuita a seu povo, equipa todas as salas de aula com televisores, vídeo, professores qualificados, e as escolas com salas de computação, mesmo nas regiões montanhosas, ou até mesmo, onde ainda não foi possível chegar a energia elétrica, conectados à bateria.
Em mais um exemplo de solidariedade, o governo cubano acolhe estudantes de mais de 34 países latino-americanos, africanos e do Caribe, muitos deles como bolsistas integrais, que recebem além do ensino, alimentação, moradia, material escolar, uniforme, tratamento médico e ajuda de custo mensal. Cuba continua dando provas de sua vocação social, ao destinar mais de dois terços de seu orçamento deste ano para atividades e setores sociais
Cuba é acusada de ser um país violento pela mídia, divulgando que lá os prisioneiros são mantidos sem assistência legal. Tanto essas pessoas como suas famílias estão na incerteza em relação a quanto tempo vai durar sua detenção. Muitos presos não têm acesso a um advogado e a maior parte das provas que serviram de base para a sua detenção não são reveladas a eles. São todos supostos terroristas. Muitos detidos estão em seu terceiro ano incomunicáveis. Todas essas informações são passadas pela grande mídia, só não dizem que tudo isso é na prisão de Guatânamo, mantida ilegalmente pelos EUA, em pleno território cubano, e à revelia do governo de Fidel.
As leis cubanas estabelecem duras penas para o tráfico, consumo de drogas, assaltos, estupros e roubos e são leis que estão na Constituição que foi aprovada por 95% da população. No caso das drogas, chegam à apreensão de propriedades, coisa que no Brasil tramita há anos no Congresso e nunca conseguiram aprovar.
Assistimos agora ao drama de dois brasileiros condenados à morte por tráfico de drogas na Indonésia. Se fosse em Cuba, com certeza teria outras proporções bem mais alardeadas pela mídia, que pouco fala na adoção da pena de morte por 28 países e que China, Irã, Vietnã e os próprios EUA respondem por 84% das execuções. Nos EUA ocorre a pena de morte e tem o recorde mundial de população carcerária do planeta - mais de 2 milhões de detentos - além de ser o país com maior número de condenações de menores à pena capital.
Cuba investe bastante em áreas sociais, mesmo não recebendo nenhum crédito do Banco Mundial nem do Banco Interamericano de Desenvolvimento, porque o governo ianque proíbe. Recentemente oficializou o pedido de ingresso ao Mercosul, logo questionado pela mídia – leia-se EUA. A Casa Branca, que está convencida de que o mundo a pertence, não esconde sua desaprovação ao Mercosul, visto como óbice à formação da ALCA, que, aliás, seria com todos os países das Américas, com exceção de um: Cuba, claro.
O que se “não entende” é como esta postura anticubana ganha tanto espaço na mídia, mesmo com tantos índices de Primeiro Mundo ostentados pela heróica Cuba, orgulhando-se de ter 98% de sua população recebendo energia elétrica e acesso à água potável e a saneamento básico, e de ser o único país latino-americano sem favelas e sem crianças nas ruas pedindo esmolas, além de uma expectativa de vida de 76 anos, superior a muitos países europeus e a todos os países latino-americanos, para desespero do governo estadunidense.
Queríamos nós, brasileiros, termos um “ditador” e os mesmo índices sociais de Cuba, pois assim sendo, estaríamos usufruindo dos direitos elementares constantes na nossa Carta Magna.