Análise do Encontro Nacional do Movimento Passe Livre em Campinas, SP.

O Encontro Nacional do MPL, ocorrido entre os dias 22 e 24 de julho, tinha como objetivo concretizar nacionalmente, o movimento que foi lançado na Plenária em POA. O encontro, em muitos aspectos, alcançou este objetivo, mas, com certeza, foi conturbado.

Já nas suas discussões prévias, tivemos sérias divergências, a principal, sibre a formulação da programação do Encontro.

O Movimento Che, responsável em receber o Encontro, objetivava uma dinâmica de encontro mais tradicional, como um Congresso. Neste as discussões seriam feitas por mesas compostas por parlamentares, dirigentes políticos e intelectuais acadêmicos de Campinas.

Ao fazer isto os militantes de Campinas mostraram um descompasso com o restante do MPL, que é consagrado pela sua horizontalidade e pela sua independência, não deixando a discussão política para grandes dirigentes ou intelectuais acadêmicos, mas sim para os militantes que constroem, verdadeiramente, o movimento.

Esta postura foi rechaçada pelo restante dos militantes do GT Nacional e foi colocada a programação adotada no encontro com as discussões feitas pelos próprios delegados.

No primeiro dia nos deparamos com um problema sério. Após termos que ouvir um sermão de um militante do Movimento Che sobre disciplina e pontualidade, nos deparamos com a situação de que as Plenárias do Encontro seriam realizadas num bosque da Unicamp.

Este bosque poderia até servir ao encontro, em um momento particular, para que os militantes tivessem um momento de descontração, acendessem uma fogueira, fizessem uma roda de violão, um “lual” ou algo parecido. Mas, com certeza, este não era local para fazer as Plenárias do Encontro Nacional.

O Bosque, por ser um ambiente aberto, por não ter local adequado para sentar, por não ser iluminado entre vários outros problemas, dificultava muito a atenção das pessoas. Por mais disciplinado que fosse a pessoa era muito fácil perder a noção da plenária e começar a prestar atenção nos galhos das arvores se movendo com o vento, nas folhas no chão etc.

A falta de auditório foi o principal problema de estrutura do encontro, o Encontro já estava marcado a muito tempo, mas tudo foi deixado para última hora por sua organização, o que ocasionou em um encontro feito no improviso.

No primeiro grupo de discussão, sobre conjuntura, fui membro e relator de um GD onde havia um militante da LBI. Neste ele mostrou toda a sua arrogância e despreparo, não mostrando interesse nenhum em convencer os militantes lá presentes. Vinham desde desqualificações, dizendo que somos despreparados, inexperientes, que temos miopia política até nos acusar de governistas. Mas conseguimos contornar tudo isto, o restante dos militantes no GD mostrou grande unidade em sua análise de conjuntura.

No segundo dia de encontro, 90% dos delegados passaram mal por causa do almoço. Os sintomas eram dores estomacais, cólicas, vômitos, diarréias etc. Cerca de 15 delegados foram levados ao pronto socorro pelos seguranças do campus. Com certeza um evento fatídico a todos. De acordo com o médico que atendeu os delegados, este triste acontecimento, foi fruto de envenenamento proposital da comida, que pode ser resultado de uma brincadeira de mau gosto ou de algum grupo mal intencionado.

No segundo dia de Grupos de Discussão, fomos pegos de surpresa com uma carta do POR. Uma carta que claramente era de resposta e rechaço as teses de Fpolis e São Paulo e que era claramente contra os princípios estabelecidos em POA.

Novamente fui membro relator de um GD e, desta vez, me deparei uma militante do POR. Esta militante era muito melhor do que o anteriormente mencionado militante da LBI, mas ficava claro que ela estava fortemente centralizada pelo seu dirigente mais velho. Chegava a situação de, ao tentarmos ver o que era consensual, uma proposição que contemplava a posição do POR, não era aceita por causa de terminologia, que não era a mesma da carta do POR, mesmo a idéia sendo a mesma.

Ao final do segundo dia a LBI desistiu, mas o POR e CAS mantinham sua posição intransigente e entrista.

Na plenária Final ficou clara a posição destas duas organizações. Uma posição completamente intransigente, que não buscava a unidade ou o consenso, mas sim fazer com que o movimento adotasse as posições e os métodos de seu partido, tornando-o apêndice deste. Isto ficava claro nas propostas do POR de adotar o Centralismo Democrático e do fim do apartidarismo.

Ficava muito claro que não era possível trabalhar com estes grupos. Não tinha como haver unidade. Não adianta tentar forçar unidade onde ela não existe. Os militantes do POR e do CAS estão acostumados aos métodos sujos de disputa de entidades estudantis e são contra os nossos princípios.

Mas o maior problema não era o POR e o CAS, o maior problema era nosso despreparo em resolver o problema. Estes grupelhos não são ninguém na luta de classes, e mesmo assim conseguiram tumultuar nosso encontro inteiro.

Como já disse o camarada Leo Vinicius:
“Infelizmente, na Plenária, talvez fossem minoria aqueles que sabiam a diferença entre ser democrático e ser otário, entre respeitar divergências e ser feito de pinico por um idiota qualquer que quer aparecer, aparelhar ou sabotar o movimento.”.

A grande erro que cometemos neste encontro foi, quando os militantes do POR e do CAS, se mostraram contrários aos Princípios Constitutivos do movimento, não termos colocado em votação a expulsão destes militantes.

O MPL é uma organização, não é a campanha do Passe Livre Estudantil. Qualquer um que quiser fazer campanha pelo Passe Livre pode fazer porque ela não tem dono. Mas o MPL é sim uma organização com princípios e com perspectivas estratégicas. O debate interno e a disputa de hegemonia que respeitam os princípios são legítimos, mas não é isto que estes grupos fazem.

Os princípios e os métodos deliberados em encontros não são apenas pra se colocar no papel. Se há um grupo que é contra ou os desrespeita, deve ser expulso.

Ser contra e desrespeitar os princípios e os métodos e mesmo assim querer ficar no movimento é tão descabido quanto querer formar um coletivo do CMI e ser contra sua carta de princípios ou querer entrar em um partido e ser contra seu programa.

Em meio à plenária decidimos sair e ir a um local próximo para tentar buscar o que fazer naquele momento. Há plenária estava paralisada a 5 horas e quase saímos no tapa com o POR duas vezes. Sabíamos que aqueles grupos estavam sendo desonestos, mas alguns, de forma infantil, ainda insistiam que era possível o consenso e o convencimento do POR e do CAS.

Precisávamos sim, tirar uma proposta e uma tática conjunta para que pudéssemos resolver o problema. Naquele momento foi acertado termos nos retirado da Plenária e depois voltarmos unificados, mas a falha foi não ter colocado em votação a expulsão do POR e do CAS.

Nós tínhamos na plenária uma situação em que a Mesa mostrava sua completa inépcia, caracterizada na figura de “Paranóia”, que por várias vezes pedimos a sua retirada da mesa.

Ao voltarmos, um militante de Maringá, que juntamente com o POR, tumultuou a plenária toda, mostrou sua insensatez pedindo que fizéssemos uma auto-crítica por ter nos retirado. Também fomos chamados de sectários e tivemos que ouvir uma infeliz carta do Movimento Che falando em respeito das diferenças numa argumentação que beira ao hippieismo.

Não deveríamos ter votado a ratificação dos Princípios de POA, porque estes já estavam consolidados. Não estávamos criando uma organização do zero, mas sim dando continuidade ao que foi estabelecido em POA, por isto os princípios continuavam os mesmos. Mas tivemos que fazer por não ter expulsado o POR e CAS.

Mesmo com tudo isto conseguimos deliberar sobre vários pontos da Estratégia, Organização e Calendário de lutas, que estabelecem as diretrizes da continuidade da luta.

Ao contrário do que foi prometido, o “Paranóia” não entregou as resoluções redigidas pelo movimento, mas, felizmente, tudo foi gravado e, com isto, sabemos exatamente o que foi deliberado.

A única coisa que teremos que resolver em relação a estes grupos é o GT. Não podemos deixar que o POR e o CAS, que são contra os princípios do movimento, participem de um Grupo de Trabalho Nacional.

O encontro não foi, simplesmente, negativo. Os problemas que enfrentamos tem sua contradição, temos que saber superá-los e ter clareza do que fazer na próxima vez que os enfrentarmos. Também tiramos resoluções que dão unidade nacional e que dão as bases da construção do movimento em âmbito federal.

Conseguimos manter nossos princípios, que nos diferencia destes grupos e nos faz o movimento estudantil com o maior potencial no Brasil. Temos sim uma unidade Nacional, mas não com grupos degenerados e que não estão disposto a construir a luta. Temos muito que fazer e temos potencial para isto.

Viva o Movimento Passe livre!

André Moura Ferro
MPL – Fpolis.