Introdução.
A cultura e o pensamento humano tem um desenvolvimento próprio que pode dar a identidade da época e da sociedade em que o ser humano vive, seja como indivíduo ou grupo.
Por isso, não raramente encontramos crianças e jovens com uma mentalidade madura e adultos e velhos com uma mentalidade infantil.
Basicamente, esta mentalidade infantil em pessoas supostamente adultas tende a distorcer a realidade sócio-política para uma visão ingênua, inocente, colorida, edulcorada e fraterna, no que eu chamo de Fator Disney.
Para sorte de nossa espécie, a maturidade mental é a que se sobrepõe cada vez mais, por quantidade e qualidade. Por ora, o que impera é a extrema mediocridade e o senso comum, baseados em superstições e conceitos enganosos. Este fenômeno, que faz uma pessoa escolher interpretar a realidade por meio de idéias e doutrinas mas não por fatos e evidências, se manifesta culturalmente desde o baixo nível da musica pop até a negligência governamental.
Neste ensaio, eu pretendo demonstrar porque uma pessoa saudável vem a optar pelo vegetarianismo e se dispõe a lutar pelo direito dos animais.
O Foco Humano.
Nossa espécie foi bem sucedida não somente por uma vantagem anatômica (polegar preênsil) nem tampouco por uma vantagem fisiológica (capacidade cerebral), mas também por compor grupos (além da afinidade afetiva ou ligação consangüínea) e por uma dieta onívora.
Em nossa fase hominídea, em que coletávamos os viveres in natura e caçávamos outros animais para nos abastecer, os primeiros grupos humanos começaram a adotar matilhas de cães, estabelecendo uma relação de simbiose. Com o advento das primeiras culturas agrícolas, os grupos humanos puderam estabelecer-se em locais fixos, donde apareceu a necessidade de criar um rebanho para o fornecimento de carne e a adoção de gatos para proteger as plantações dos ratos. Ou seja, cada tipo de animal encontrou uma função dentro da sociedade emergente.
Ato contínuo, com o aumento da população, expansão territorial e desafios da sobrevivência, o ser humano desenvolveu métodos, técnicas e conhecimentos, para lhe garantir a estabilidade e algum conforto. O produto da expansão e extensão dos primeiros grupos humanos foi a especialização de certos trabalhos e as organizações familiares, bem como as primeiras estruturas de Estado. A sociologia cita, com isto, a formação das classes sociais, embora por motivos enganados. Das elites cevadas, veio o aparecimento das primeiras doutrinas religiosas, filosóficas, éticas e morais.
O Relacionamento Humano.
Na cadeia alimentar, o ser humano passou de presa a predador, de simples coletor a obstinado competidor. Um dos fatores diretos da agregação do ser humano em uma sociedade é a insatisfação do indivíduo perante o grupo. Para o beneficio do Todo foram instituídas as primeiras normas, usando como larga escora a base religiosa. O reconhecimento do indivíduo, bem como de seus direitos e garantias, diante de outra pessoa e sua relação com Todo surgiu com as culturas gregas e romanas.
Portanto, o direito é uma função que visa a dar uma norma a esses relacionamentos humanos, dar garantias tanto ao indivíduo quanto ao grupo e atribuir deveres, igualmente. Esse senso se reflete peculiarmente nos conceitos sobre Ética e moral, dando uma base para estender os aspectos dos direitos e deveres aos indivíduos segregados do convívio da sociedade, nisto incluindo os animais. Não obstante a Ética vise ao estudo desse relacionamento humano e as estruturas do direito formado na cultura social, esta é reduzida a uma função moral, usada como embasamento para um fim e desenganada de sua finalidade para a análise dos métodos em si.
Andros e Faunos.
Como não se bastasse o desenvolvimento social ter formado a falsa idéia de uma Fraternidade Humana, o convívio com animais domesticados, juntamente com a extrapolação dos direitos dos mais fracos e deturpações ideológicas de fundo religioso, deu ensejo à fantasia de uma Fraternidade Ecológica, onde homens e bichos conviveriam em pacífica e eterna harmonia. Este tipo de fantasia sobre uma Era Dourada faz parte de diversos mitos e é figura essencial em doutrinas milenaristas e no Messianismo.
Basicamente, a deturpação ideológica de fundo religioso vem do Hinduismo, onde a alma pode assumir diversos corpos em suas encarnações seqüentes, que são necessárias para o cumprimento ou purificação do Karma. Nisto se baseiam o Vegetarianismo e o Direito dos Animais, ao retirarmos toda a cobertura pseudo-científica e o romantismo ideológico da militância.
A Fórmula Maniqueísta.
Da necessidade de estabelecer garantias aos indivíduos contra abusos do Estado e de prestar assistência aos marginalizados surgiu a consolidação da dicotomia fundamental para formular o embasamento ético referente ao Direito dos Animais, que vem a ser a exigência de políticas e ações que protejam o animal (enquanto agente indefeso e vitima) do ser humano (enquanto agente agressor e carrasco).
Entretanto o estudo é falho, pois é impossível esperar a devida contraparte no tocante aos deveres por parte dos animais. O embasamento de tal direito é materialmente falso, porque os animais não fazem parte da sociedade humana como um todo e o nível de relacionamento deles conosco é restritamente afetivo (no caso dos animais criados para o lazer) ou gastronômico (no caso dos animais criados para o abate). Exatamente por serem equivocadas as bases deste direito, a propaganda mostra exclusivamente os abusos extremados de alguns humanos, para reforçar o lado adverso (a animalização do homem) e sustentar direito à vida dos animais pelo lado favorável (a humanização dos animais).
Evolução, DNA e Alma.
Desbaratado o pacote judicial, ao rasgar a colorida embalagem Ética e moral, o que resta é paixão desviada, confusões emotivas, romantismo ideológico e distorções religiosas.
Quando Darwin lançou sua Teoria da Evolução, as instituições religiosas rugiram ao ver fatos e evidências atingindo as bases de suas doutrinas fantasiosas. Recentemente, o resultado do Projeto Genoma acabou com qualquer deslumbre a respeito da paternidade divina da humanidade, bem como enterrou todas as pretensões étnicas de superioridade.
Será uma questão de tempo até que as técnicas científicas consigam dar fim a todas as pretensões espíritas e suas doutrinas esclerosadas. Tal como é fácil evidenciar a mecânica do mundo carnal, será fácil evidenciar a mecânica do mundo espiritual, tal como é, em realidade, no sentido mais estrito deste termo.
Como o que se possui neste campo são meras especulações e hipóteses, não se comprovando nem os mecanismos nem as fórmulas de evolução, só posso propor um ensaio empírico. Ainda que, genótipamente, o DNA humano e animal sejam próximos, o resultado fenótipo final do organismo completo é potencialmente diferente. Portanto, ainda que a alma humana e a animal sejam próximas, o resultado espiritual completo é potencialmente diferente. Por conseqüência lógica, um espirito humano não encarnaria num animal, pois isto seria uma extrema regressão evolutiva; nem um animal pode encarnar num ser humano, pois isto seria um salto extremo de evolução.
Eliminada a ligação espiritual, bem como o risco de magoar um espírito humano preso em um corpo animal, resta os aspectos da piedade, da compaixão e do amor por toda forma de vida e nossa obrigação de preservá-la contra a crueldade e tortura desnecessária.
Natureza e Direito.
O Estado de Direito mal consegue garantir a plenitude dos direitos de cada cidadão em seu grupo social e a preservação do meio ambiente é uma realidade racional, não emocional. Entretanto, é anti-natural querer conceder proteção e garantia de vida aos animais, uma vez que estes não a possuem no meio natural. Da mesma forma, a adoção do vegetarianismo não resolveria o problema mundial da fome nem o da superpopulação. Infelizmente, a visão dos Direitos dos Animais é mais uma transposição da constituição dos animais de estimação para os de abate e os selvagens, a afinidade a uns é extensiva a todos.
Fosse verdadeiramente o centro da questão da campanha o direito da vida, haveria necessariamente de focar em procurar soluções para um controle de natalidade, juntamente com técnicas que ampliem a produção de víveres, pensando primariamente nas carências alimentares humanas e num aproveitamento responsável e sustentável dos recursos naturais disponíveis.
A despeito de todos os benefícios atribuídos a uma dieta vegetariana, a completa abolição da dieta onívora não somente é contrário às nossas necessidades nutritivas como também induz à falsa sensação de bem-estar, resultante do conforto à crise de consciência derivada da distorção religiosa. A única razão de adotar o vegetarianismo não é nem cientifica, nem metabólica, é essencialmente religiosa, como um subproduto do Hinduismo, tal como é a defesa dos Direitos dos Animais.
Compaixão e Alienação.
A adoção de animais domésticos teve uma razão dentro da evolução da sociedade humana. Evidentemente, os animais domesticados não mais podem ser devolvidos ao seu habitat natural, pois suas características originais forma alteradas. Os animais selvagens, por sua vez, mantém suas características originais, o que traz à tona a estranheza de tratar estes como sendo iguais aos domésticos. A impossibilidade jurídica de conceder direitos aos animais foi evidenciada, resta perguntar aos mesmos que o defendem a todos os animais por que ainda mantém seus animais de estimação em cárcere privado.
Um contra-senso ao Direito dos Animais colocado como sendo o direito de existência de todo ser vivo consistiria na observação do uso de agentes para controlar pragas e parasitas, nas preciosas plantações dos vegetarianos e nos preciosos animais de estimação dos defensores dos animais. Se a Ética deles é flexível a ponto de aceitar o sacrifício de algumas espécies de animais em beneficio de um grupo ou de outra espécie, não deveriam ser eles a julgar nossa conduta Ética frente à natureza.
Apenas na ilusão fantasiosa se pode esperar amizade e fraternidade de um animal selvagem. Os animais de estimação, apesar de serem domesticados e habituados ao convívio humano, todo seu comportamento ainda é instintivo e irracional. Todo amor ou companheirismo que os proprietários elogiam de seus bichos é apenas reflexo desse instinto, uma vez que demonstrações reais de afeto e fraternidade demandam a existência de uma consciência e de uma cultura.
Religião e Embuste.
A origem mais usual da palavra religião vem de re-ligare (Sto Agostinho), mas também pode vir de rem-leggere (Robert Graves). Deixando de lado as questões semânticas e etimológicas, a religião faz parte da cultura humana e a credibilidade sempre permanecerá, a despeito de provas, fatos, evidências ou experiências. Nem em Estados comunistas a religião foi totalmente abolida, em muito casos persiste na adoração aos fundadores ou no culto ao Estado. Até a Ciência, em sua aparente indiferença religiosa e rigor metodológico que corteja o ateísmo, mostra ser uma instituição ideológica e exigente como uma virgem vestal. O que são cientistas, senão criaturas privilegiadas e iluminadas que conseguem interpretar a realidade melhor que as pessoas comuns? Esta é, basicamente, a característica de um sacerdote.
O que se faz necessário é coibir a ação de um grupo ou líder que se outorga a posse exclusiva de toda a verdade e, pela autoridade que se arbitra, procura condicionar ou oprimir as pessoas. Por mais que tanto a razão quanto a fantasia sejam necessárias ao nosso gênero, é fundamental lutar contra os embusteiros que se aproveitam da fragilidade espiritual ou carência afetiva para promover campanhas que visam mais a prosperidade particular que a pública.
