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Leandro Bisa e Maria Ferri
Da equipe do Correio
Fotos: Iano Andrade/CB
Altaíde, o acusado de matar o casal: “não me arrependo de nada”
O agricultor Raimundo Nonato Carneiro, 31 anos, descreveu a cena em prantos. Às 16h de ontem, ele viu o ex-colega de trabalho, Altaíde da Silva Macedo, 24 anos, matar os patrões a pauladas, pedradas e golpes de machadinha. Os produtores rurais Tatsumiro Iki, 64 anos, e a mulher, Iria Ono Iki, 61, foram assassinados na chácara onde viviam e trabalhavam há cerca de 40 anos, no Núcleo Rural Vargem Bonita, Park Way. Altaíde, que passou a freqüentar uma igreja evangélica há três meses, disse que cometeu o crime “em nome de Deus”. O rapaz tinha sido demitido na quinta-feira porque incomodava os patrões, ao afirmar diversas vezes, que eles estavam “possuídos pelo demônio”. “Eu não me arrependo de nada. Fiz o que meu Deus mandou”, afirmou Altaíde, que confessou o crime.
Nonato saía da estufa e viu Iria caída no chão. Próximo do corpo, Altaíde atacava Tatsumiro. “Corri para tentar salvá-los, mas estava bem longe. Me atraquei com o Altaíde, bati nele, mas não deu. Ele levantou e correu. Dona Iria estava morta. O pior era o seu Iki”, lembra Nonato. Tatsumiro ficou com o rosto desfigurado.
Altaíde começou a trabalhar na chácara há oito meses. Os problemas com o casal começaram depois que ele passou a freqüentar um núcleo de oração da Igreja Universal, que funciona na Vargem Bonita. De acordo com Nonato, o rapaz, freqüentemente, pedia para exorcizar os patrões.
Tatsumiro e Iria demitiram o rapaz, mas permitiram que ele continuasse na propriedade até que os direitos trabalhistas fossem pagos. Altaíde, que é solteiro, morava sozinho em uma casa dentro da chácara, ao lado da residência dos patrões. O casal vivia sozinho. O único filho, Leandro Hideki Iki, 29 anos, é subadministrador da Vargem Bonita. Ele não quis dar entrevista.
Dinheiro
Ontem à tarde, antes do crime, Altaíde visitou o irmão Lindalro da Silva Macedo, 35 anos, no Riacho Fundo. De lá, ele disse que seguiu para uma igreja evangélica, na Asa Sul, onde orou. Depois, seguiu para a chácara. “A dona Iria falou que a carteira (de trabalho) não estava pronta. Então saí. Mas meu Deus mandou eu tirar os demônios deles de qualquer jeito”, disse o rapaz. “Eu peguei uma pedra e comecei a bater nela. O seu Iki veio por trás e me bateu com um cabo de vassoura. Bati nele também com a pedra. Depois peguei um pau e a machadinha. Não me arrependo.”
Altaíde seguiu para uma chácara vizinha, onde mora um amigo. Sentou-se no sofá e disse: “Acabei com principado”. O dono da casa, o caseiro Rogério Pereira de Lemos, 27 anos, telefonou para a Polícia Militar. Detido, o acusado prestou depoimento na 11ª DP (Núcleo Bandeirante). “A princípio, o caso está encerrado. Ele vai responder por duplo homicídio. Mas amanhã (hoje), vou interrogar integrantes da igreja, para saber se ele foi orientado a fazer isso”, disse o delegado-chefe da 11ª DP, Francisco Duarte. Se condenado, pode pegar até 30 anos de cadeia.
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As vítimas
Tatsumiro Iki, 64 anos
Iria Ono Iki, 61 anos
Produtores rurais.
Moravam na chácara 20 do Núcleo Rural Vargem Bonita,
no Park Way.
Plantavam hortaliças, que eram vendidas na Ceasa.
Foram assassinados por um ex-funcionário ontem à tarde.
Tinham um único filho: Leandro Hideki Iki, 29 anos, subadministrador regional da Vargem Bonita.
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Memória
Barbárie no Lago Sul
Em 9 de dezembro do ano passado, um crime cometido por funcionários contra os patrões chocou os brasilienses. Bernardino Espírito Santo, com a ajuda da empregada doméstica, Adriana de Jesus dos Santos, matou a estudante Maria Cláudia Del’Isola, 19 anos. O crime ocorreu na casa dela, no Lago Sul. A jovem foi rendida com uma faca no pescoço no jardim de casa, recebeu uma paulada na cabeça, estuprada e assassinada em seguida. Bernardino e Adriana colocaram um saco plástico na cabeça da vítima e a enterraram na área de serviço da casa, embaixo de uma escada. O corpo foi encontrado em decomposição dois dias depois. Adriana está presa no Presídio Feminino e Bernardino no Complexo Penitenciário da Papuda. Eles aguardam julgamento. Na Justiça, o caso Maria Cláudia espera o resultado de um recurso da Defensoria Pública. Os defesa quer evitar que os acusados sejam julgados por um júri popular. De acordo com o promotor Maurício Miranda, que acompanha o processo, quando o recurso for analisado, se não houverem outros, o julgamento deve ocorrer em no máximo oito meses.
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Mudança de hábitos
Os vizinhos do casal contam que, nos últimos três meses, Altaíde passou a se comportar de forma diferente. Eles dizem que o rapaz chegou a andar pela lavoura, com uma cruz nas mãos. Falava que queria “espantar demônios”. “Ele vivia gritando: ‘Fogo, meu Deus’, e dizia que iria tirar o demônio do casal”, afirma a dona-de-casa Célia de Souza, 28 anos, mulher de Raimundo Nonato Carneiro.
Ela e o marido moram ao lado da casa dos agricultores. Ontem à tarde, Raimundo construía uma estufa a pedido de Iria, antes de presenciar a tragédia. Célia diz ainda que Altaíde vendeu um aparelho de telefone celular por R$ 300 para dar o dinheiro à igreja evangélica. “Ele era meio fanático. Mas ultimamente passava dos limites”, comenta. “Ela tinha um coração muito bom. Quando fazia um doce ou um bolo, trazia um pedaço para nós e levava também para o Altaíde, que chegou a ganhar roupas velhas dela”, recorda. (MF)
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