Então... Eu fui o cara que foi preso aqui em Goiânia, no ato unificado contra o aumento da passagem e pelo passe livre para estudantes e desempregados. São 1:18 e é uma pena que esse grito não acorde as pessoas no próximo segundo. Mas tudo bem, sei existem ouvidos sonâmbulos por aí e há a certeza de que não são poucos. Vamos ao que interessa, eu esta filmado todo o ato desde o começo até o momento de ser preso e passar a câmera pra frente. O momento de tensão ocorreu no final do pulão, mais de cinqüenta pessoas já haviam pulado e estavam gritando palavras de ordem, pois o intuito não era entrar nos ônibus, ninguém estava quebrando nada e nem agredindo a integridade de ninguém, o que ocorria era uma ocupação simbólica da plataforma leste bandeirante, até que quando chegou o reforço de policiais vestindo colete e portando armas letais, aí eles vieram para cima do manifestante dano voz de prisão, neste momento eu pedia calma resolvi me sentar no chão, de repente levei uma gravata por traz, me sentindo ameaçado passei a câmera para frente dizendo “leva a câmera” para os estudantes que corriam então um deles pegou a câmera de minhas mãos e eu me deitei no chão, neste momento vi que o PM Ênio havia sacado sua arma letal, o que é ilegal em uma manifestação social, tentei me levantar mas o soldado me deu voz de prisão eu me levantei ele me algemou, não apresentei nenhuma forma de resistência, apenas comecei a gritar “eu não fiz nada”, muitas pessoas que estavam passando pelo local pararam e começaram a gritar, “solta ele”, “solta o estudante” algumas pessoas foram conversar com os policiais mas não adiantou, o PM Ênio me levou para o porta-malas da viatura. Outros dois policiais (os responsáveis pela viatura) me levaram para o 1º Ciops, onde fiquei esperando cerca de 40 minutos, em pé, numa situação constrangedora e humilhante, tendo que pegar os meus documentos com as mãos algemadas. Depois me levaram para falar com o delegado Gaudêncio, ele pediu que eu contasse a minha história eu contei, ele falou para o escrivão descer e registrar como ocorrência circunstancial e disse que tirassem as algemas de mim. Um soldado tirou e então e desci para a sala do escrivão onde fiquei por alguns minutos sozinho, até que o soldado Ênio chegou e novamente me algemou falando que eu estava preso, eu disse que o delegado já havia dito para me desalgemarem, ele retrucou dizendo que não havia sido o delegado que tinha tomado pontapés e tapas e que se não desse nada para mim naquela delegacia ele me levaria para outra onde o delegado era amigo dele, depois de mais alguns minutos o PM superior hierarquicamente que ainda estava conversando com o delegado, chegou na sala com o escrivão e disse para que o soldado tirasse as algemas, ele tirou e então começou o processo burocrático de produção de um TCO (Termo Circunstancial de Ocorrência). Depois que o escrivão pegou meus dados, ele me pediu para que saísse, e nesse momento o jornalista Pablo veio conversar comigo. Daí o Ênio ficou por mais de 40 minutos dando a sua versão dos fatos, a portas fechadas. Nesse ínterim, chegou um lanche, e, diga-se de passagem, na hora certa, sério eu já tava quase caindo de fome. E foi bom saber que tinha uma galera de fora da delegacia pressionando para que eu fosse solto. Então lembrei das pessoas que estavam passando na calçada na hora do tumulto e que pararam para protestar contra a minha prisão, muitos gritavam “solta o estudante”, sorri e falei em silêncio “amanhã vai ser maior”. Depois de muito tempo, me chamaram para eu dar a minha versão dos fatos, enquanto falava o policial que me prendeu estava sentado atrás de mim, então percebi que ele havia me acusado de ter o desacatado, ele era uma vítima minha e não eu, que tinha sido preso sem motivo e de forma arbitrária, numa manifestação contra o aumento abusivo da tarifa de ônibus e pelo direito ao passe livre, mas não abaixei a cabeça. No meio do meu depoimento chegou um advogado, ele apenas me cumprimentou e ficou de pé enquanto eu terminava o depoimento. No fim, eu perguntei se poderia ter uma cópia dos papéis, o escrivão disse que não seria necessário e o advogado também disse que não precisava. Mas o soldado Ênio ficou com uma cópia. Quando fui assinar no depoimento, pude ler na parte que tinha o relato de Ênio que ele disse que eu havia chamado ele de vagabundo e cachorro do governo, então perguntei sei era eu mesmo que ele havia dito ter sido o autor dessas palavras. Disse para Ênio que ele sabia que aquilo era mentira, que eu não tinha dito nada daquilo e ele disse que não tinha nada para falar comigo e que não tinha lido o meu depoimento. Mas ele ficou ouvindo tudo que eu dizia sentado atrás de mim e ainda tava levando uma cópia. Fui liberado, mas tive que tirar xerox da minha identidade e ainda pagar por isso. Quando sai a galera que estava de fora comemorou batendo palmas. Eu estava puto. Tinha planejado ir receber uns cento e pouquinhos reais de umas redações que havia corrigido e não pude por que tive que ficar horas numa delegacia por ter me sentado no chão no meio da manifestação. Sem desacatar ninguém, nem agredir ninguém fui preso por que o PM disse “você está preso” e, por sua posição na estrutura do Estado, por ele fazer parte de um aparelho ideológico e repressor do Estado, suas palavras assumem instantaneamente o poder de cercear a liberdade e a voz de qualquer indivíduo, e a partir de então você é tratado como um subumano, um criminoso, mesmo que não existam provas, mesmo com as pessoas que estavam vendo tudo dizendo que aquilo era um erro. Eu não aceito o direito de ficar calado, eu recuso o beneficio que a polícia possa me trazer. Até hoje eles só me trouxeram problemas. Dia 19/01/2006 terei uma audiência com o juiz para ver o que acontece. Temos imagens que mostram que eu não desacatei ninguém e que o único crime que ocorreu foi o ABUSO DE AUTORIDADE. Agora chega, são 3 da manhã e tenho que tentar dormir, pois amanhã, amanhã tem grupo de estudos, tem reunião... amanhã vai ser maior.