Há tempos falávamos em organizar uma bicicletada em Curitiba, cidade pioneira na construção de ciclovias que não levam a lugar nenhum, além de possuir uma das tarifas de ônibus mais caras do país - fator que contribuiu significativamente para o aumento do número de usuários/as da bicicleta.
Motivado pelos velhos problemas conhecidos daqueles/as que utilizam a bike no dia-a-dia (desrespeito no trânsito, insegurança, falta de vias adequadas e estacionamentos), um grupo de ciclistas decidiu organizar a 1º Bicicletada de Curitiba aos moldes do Critical Mass e das já tradicionais edições paulistas. Cartazes e filipetas foram distribuídos pela cidade, sobretudo na área central, convocando para o ato que aconteceria na primeira sexta-feira de novembro (dia 04/11) às 17h, saindo do pátio da Reitoria (Universidade Federal do PR).
A idéia era reunir pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte, conhecer esse pessoal e, juntos, pensar soluções inteligentes para garantir uma circulação saudável entre nós, os carros e os pedestres na cidade. Claro que a Bicicletada seria um momento de descontração, um tanto caótico, meio anárquico, e que resoluções práticas não poderiam surgir nesse primeiro encontro. Mesmo assim, depois do ato passamos uma lista com o email de todxs para que a partir de agora possamos criar um grupo razoavelmente organizado para as próximas Bicicletadas. O ato em si foi divertidíssimo, nossa primeira edição teve uma adesão de quase 30 pessoas (de bike + 1 no skate) e todo mundo entrou no espírito da Bicicletada: as bikes foram decoradas com cartazes que diziam “Nós somos o trânsito”, algumas traziam um “Fora Bush” em homenagem ao presidente. O Jorge colou um “Eu sou um carro” na parte de trás de sua magrela, tinha gente fazendo barulho com apitos, outros usando máscaras anti-poluição, muitos imitando os ruídos do motor do automóvel ao arrancar no sinal verde. Tomamos totalmente a pista da direita formando uma massa coesa de bikes sem deixar espaços para carros, ônibus ou motos furarem o bloco. Ao longo do percurso (Reitoria-bairro do Batel, escolhendo sempre as principais vias da cidade na hora do rush) foram distribuídos panfletos explicando nosso ato para motoristas e pedestres. Fizemos duas paradas estratégicas, a primeira em frente a uma concessionária da Chevrolet e a outra num posto de gasolina, onde pentelhamos bastante com apitos e câmeras de foto. Já estávamos pedalando há mais de hora e todo mundo continuava empolgado. A idéia era terminar a pedalada na praça do Japão mas acabamos mesmo voltando pra praça Ozório, no centro, onde tomamos um caldo de cana e combinamos a data da próxima Bicicletada , dia 02/12.

Abaixo, texto do panfleto distribuído durante o ato:


A REVOLUÇÃO DA BICICLETA NO COTIDIANO

Em primeiro lugar, isto não é um passeio ciclístico. Não pretendemos promover uma marca e depois te vender qualquer coisa: nem um produto, nem a imagem de uma capital ecológica. Isto é um passeio crítico, por isto escolhemos a “hora do rush”. Na realidade, ninguém realmente pode correr nesta hora e está cada vez mais difícil andar rápido de carro (para felicidade dos que atravessam as ruas). O trânsito está piorando e temos cada vez mais carros.

Deve haver mais estacionamentos que escolas na cidade e as propagandas continuam dizendo pra gente comprar um carro. Em São Paulo morrem 8 pessoas por dia devido à poluição (fonte: Folha de São Paulo, 18/8) e as propagandas continuam dizendo pra gente comprar um carro. Em Curitiba há em média de 10 mil acidentes de trânsito por semestre, sendo quase 4 mil deles com vítimas (Dados do BPTran para o 1º semestre de 2005), mas as propagandas continuam dizendo pra gente comprar um carro.

Cerca de 35 mil pessoas são mortas e outras 300 mil são feridas todos os anos em acidentes de trânsito no Brasil. Quase o triplo da média de 34 mortes diárias no Iraque desde o início da ocupação do país. Dos sobreviventes da “guerra do trânsito” brasileiro, 120 mil passarão o resto da vida com deficiências físicas. Mas as propagandas continuam dizendo pra gente comprar um carro.

Ter um carro custa em média 800 reais por mês, considerando gastos mínimos com gasolina, IPVA, seguro e estacionamento. A cidade hoje é pensada para os carros, mas a maior parte da população não tem acesso a este bem. Sem dúvida, veículos automotivos têm sua utilidade. Há momentos em que você precisa carregar coisas ou precisa levar um bom número de pessoas para o outro lado da cidade rapidamente. Mas nem sempre você precisa do carro. Uma cidade construída com ciclovias funcionais, estacionamento de bicicletas, interligação com os terminais de ônibus num sistema de transporte público (ônibus) mais rápido e barato, seria uma cidade mais segura, mais limpa e mais humana. A cidade ia ganhar tempo, economizar dinheiro, ficar menos poluída.

Nós pensamos a bicicleta como um meio de transporte. Nós e as milhares de pessoas que não têm um carro ou preferem usar a bicicleta para trabalhar, estudar e se locomover. Mas as ciclovias desta capital só levam de parques a parques, ainda que poucas pessoas realmente trabalhem ou estudem nos parques!

De acordo com levantamentos da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), 7.4% dos deslocamentos em área urbana são feitos de bicicleta, num total de 15 milhões de viagens diárias no país. A frota nacional de 50 milhões de bicicletas dobrou na última década e cresce numa razão de 5 milhões por ano. Mesmo assim as políticas públicas ignoram a necessidade de facilitar o seu uso. O Brasil inteiro tem 600 km de ciclovias em uso, enquanto só a Holanda, com o tamanho equivalente ao dobro de Sergipe, tem 15 mil km.

O Programa Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta - Bicicleta Brasil – do Ministério das Cidades - prevê um investimento de R$ 62 milhões com o objetivo de estimular os municípios a implantar sistemas cicloviários. As prefeituras deverão apresentar até o fim de novembro projetos que se integrem ao sistema de transporte urbano, facilitando a mobilidade nas cidades.

Curitiba precisa ouvir os/as ciclistas, entender suas necessidades, identificar os trechos onde há maior fluxo e pensar meios revolucionários de integrar o transporte público e facilitar o uso da bicicleta, garantindo o direito à mobilidade urbana.