A fantasia virou realidade no Gama. Ronaldo José dos Santos, 26 anos, morreu na noite de quarta-feira. Levou cinco tiros. E a principal suspeita dos investigadores da 20ª DP (Gama) é de que o rapaz tenha sido assassinado durante um partida de RPG, abreviação de Role Playing Game, que em português pode ser traduzido como jogo de interpretação. Ao lado do corpo do rapaz, encontrado entre os conjuntos F e G da Quadra 6 pouco depois da meia-noite de ontem, havia várias fichas preenchidas a lápis do jogo Tormenta e Trevas, um caderno vermelho com diversos nomes e um bilhete.
O bilhete, no entanto, foi o que mais chamou atenção dos policiais. Em uma folha branca, o autor ? ainda desconhecido ? desenhou o rosto desfigurado de um homem. Ao lado da caricatura, em meio a expressões específicas do jogo, que ainda não foram decifradas pela polícia, existem ameaças de morte contra Ronaldo e outros dois jogadores, cujas identidades são mantidas sob sigilo. Uma das frases do bilhete é: ?Vou matar todo mundo!! Eu sou o mestre?.
O crime ainda é um mistério. Os tiros acertaram boca, peito,costas, braço e mão esquerda de Ronaldo. Os policiais suspeitam que ele tenha sido morto por volta de 23h30. Ele foi visto pela última vez às 14h, quando saiu de casa, que fica no Conjunto H da Quadra 10. Não disse aos pais onde iria. A Polícia Civil está à procura dos nomes que constam no caderno de Ronaldo para tentar elucidar o caso.
De acordo com o pai da vítima, José dos Santos, 67 anos, Ronaldo costumava disputar jogos de tabuleiro com os amigos. ?Eles ficavam na garagem, sentados no chão. Certos dias, começavam a jogar na hora do almoço e só paravam de noite?, relembrou. ?Se eu passava por perto conseguia ouvir um falando que ia matar o outro, mas eu sei que era coisa do jogo. Os amigos que jogavam com ele eram educados, pessoas boas.?
Emprego
Atordoado pela morte do filho, José não vê razões para o assassinato. ?Ele era um menino bastante fechado, não conversava sobre a vida dele com ninguém?, afirmou. ?Mas era uma pessoa muito boa, sempre disposta a ajudar, querido por todos.? De acordo com os parentes, Ronaldo não bebia, gostava de ficar em casa e raramente saía para se divertir. ?Ele estava feliz porque tinha ido bem em uma entrevista de emprego. Estava desempregado e tentava uma vaga de segurança?, completou José. ?Todo mundo gostava dele?, disse Maria Lúcia dos Santos, irmã da vítima.
Ronaldo gostava de jogar RPG. No quarto dele, duas gavetas estavam abarrotadas com material sobre o jogo: revistas, bonecos e CDs. A paixão da vítima pela disputas e as provas encontradas ao lado do corpo influenciaram na escolha da principal linha de investigação pela delegada titular da 20ª DP (Gama Oeste), Marta Vargas. ?Acreditamos que o crime esteja
relacionado ao jogo?, adiantou. ?Estamos ouvindo todas as pessoas que aparecem nas anotações de Ronaldo. Se nossas suspeitas se confirmarem, será o primeiro caso de homicídio motivado pelo RPG no DF.? Marta descartou a possibilidade de latrocínio porque o dinheiro e o cordão de prata que Ronaldo carregava não foram levados. Os policiais vão analisar o jogo Tormenta e Trevas para saber se algum dos personagens são
assassinados.
O RPG surgiu nos Estados Unidos em 1974 e pode ser considerado uma versão moderna do hábito de contar histórias. No jogo, a narração fica por conta de um Mestre. Os outros participantes são chamados de personagens. Cabe ao Mestre escolher o cenário onde a aventura vai se desenrolar, descrever o ambiente para os personagens, contar o que eles estão ouvindo, vendo, cheirando. Os jogadores, por sua vez, anunciam
como agem diante daquela situação. Por fim, o narrador determina o resultado de cada ação dos demais participantes.
Quem joga RPG está preocupado com as constantes ligações do jogo a assassinatos e atos violentos (leia memória ao lado). O servidor público José Guilherme Macedo Soares, 33 anos, é adepto do jogo há 13 anos.
Ele disputa cerca de cinco horas por semana e admite que o RPG estimula a fantasia e pode até ?viciar um pouco?. Mas não acredita que o jogo incite a violência. ?Maluco tem para todo lado. O jogo pode ter sido apenas uma maneira encontrada pelo assassino para dar vazão à loucura?, argumentou. ?Se a pessoa já tem certa instabilidade, pode cometer atos insanos em
qualquer lugar?, acredita ele.
Para a psicóloga Mágida Abou Said, a pessoa que percebe a vida de forma agressiva, tem grandes frustrações e sofre com baixa auto-estima pode ver o RPG como um álibi para atitudes violentas. ?O jogo serve como um espelho, reflete como a pessoa se sente por dentro?, explicou. ?Assim, ela passa a misturar a fantasia com a realidade e se comporta como o
personagem.? Até 22h, os investigadores da 20ª DP ainda não tinham pistas do paradeiro do assassino. Hoje, a delegada Marta continuará a ouvir os jogadores cujos nomes aparecem nas anotações de Ronaldo.
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Memória
Casos em Ouro Preto e Guarapari
Dois assassinatos no Brasil foram praticados durante jogos de RPG. Em novembro de 2001, a estudante Aline Silveira Soares, 19 anos, morreu degolada em um cemitério em Ouro Preto (MG). Ela foi encontrada nua e tinha perfurações de faca por todo o corpo. De acordo com as investigações da polícia mineira, a menina jogava RPG com um grupo de jovens horas antes de ser
assassinada. A personagem dela tinha sido ameaçada por um participante apelidado de Anjo da Morte.
Em abril de 2005, dois jovens mataram uma família de Guarapari (ES). Mayderson de Vargas Mendes, 21 anos, e Ronald Ribeiro Rodrigues, 22, confessaram que o RPG motivou o assassinato do aposentado Douglas Augusto Guedes, 54, da mulher dele, Helena Andrade Guedes, e de Tiago Guedes, 21, filho do casal. Depois de receberem uma dose de sonífero, os três tiveram as mãos amarradas e cada um levou um tiro na cabeça. Em depoimento à polícia, Mayderson e Ronald afirmaram que no dia do assassinato eles jogaram RPG com Tiago durante cinco horas. O personagem dele, um policial, teria perdido o jogo e deveria ser eliminado junto com os pais. Os dois assassinos afirmaram que Tiago conhecia as regras seguidas pelo grupo e havia concordado com as mortes.
Aguardemos.
NADA DE PÃNICO...
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