SBTVD

1. O que é um sistema de TV Digital?
Um sistema de TV Digital é uma plataforma de comunicações. Ela pode ser tão "simples" (ou parca de recursos) quanto uma mera digitalização da TV analógica, ou se constituir em uma plataforma multimídia rica em recursos e funcionalidades.

Essa plataforma é constituída de diversos blocos. Cada bloco possui um padrão específico. Por exemplo, para o áudio, tem-se os padrões Dolby AC-3 (no ATSC), MPEG-2:versão BC (no DVB) e MPEG-2:versão AAC (no ISDB). Além dos padrões para cada bloco, existem padrões (normas técnicas) que especificam como esses blocos devem interagir. Então, um sistema de TV Digital é composto de uma série de caixinhas e interligações e cada uma delas atende a um padrão (norma técnica) específica. Um padrão pode ser utilizado em mais de um sistema. Por exemplo, o áudio Dolby AC-3 é empregado no ATSC, mas também no DVB na Austrália. E o padrão H.222 (MPEG-2:parte 1) é utilizado para a multiplexação nos três sistemas (ATSC, DVB e ISDB).

2. O Brasil poderia adotar algum dos sistemas existentes?
Embora existam pessoas que acalentem essa idéia, não existe como o Brasil adotar diretamente um sistema existente ipsis litteris:

O padrão ATSC, desenvolvido nos Estados Unidos, apresentou desempenho altamente insatisfatório nos testes de 99-2000. O Brasil teria que adotar uma versão modificada (melhorada) do mesmo.

O padrão DVB, desenvolvido na Europa, foi implantado até hoje somente em países que adotam canalização de 7 (Austrália) ou 8 MHz (Europa). Se o Brasil o adotasse, seria o primeiro e único país do mundo a ter um sistema DVB de 6 MHz.

Embora o padrão ISDB, desenvolvido no Japão, utilize
canalização de 6 MHz, pequenas diferenças como a posição de canais, requerem adaptações para funcionar aqui. Além disso, o middleware ARIB B-24 é totalmente voltado para caracteres orientais, e necessitaria de adaptações.

E porque adotar um sistema existente tal como está? Nenhum dos países que iniciaram ou estão por iniciar os seus sistemas seguem por essa via. O codificador de vídeo utilizado naqueles sistemas, o MPEG-2 Main Profile, é um padrão já carente de atualizações. A França está optando por um padrão mais moderno, o MPEG-4, para o seu sistema de HDTV. Mesmo a China está optando por um padrão híbrido, que incorpora as vantagens do MPEG-4.

3. Quais são as vantagens e desvantagens de se ter um sistema próprio no Brasil?

a) Mercado externo: Inicialmente, convém considerar que os países para os quais o Brasil pode exportar são principalmente os da América Latina. E isso independe do padrão adotado aqui.

O ISDB é adotado somente no Japão. Portanto, qualquer discurso que defenda a sua exportação para outros países que não os da AL, estará sendo falacioso.

O DVB de 6 MHz, se adotado no Brasil, não existe em nenhum outro lugar do mundo. Novamente, a exportação ficaria restrita à América Latina.

O ATSC aparentemente parece promissor nesse sentido. Mas cabe lembrar que nos Estados Unidos, país onde se vendem mais de 15 milhões de televisores por ano, vendeu-se apenas 3,5 milhões de receptores ATSC em 7 anos (1998-2005).

b) Balanço de pagamentos: O complexo eletrônico apresentou, em 2003, um déficit de US$ 2,38 bilhões em 2003, sendo US$ 1,4 bilhões somente em semicondutores.

O projeto de um circuito integrado, com o seu royalty associado, representa parcela significativa de seu custo. Portanto, mesmo que o Brasil não tenha fábricas de chips (foundries), o fato do projeto ser realizado aqui aliviaria bastante essa carga.

c) Projeto do sistema em atendimento às nossas necessidades sociais
A principal vantagem ao se desenhar (projetar) um sistema brasileiro é a possibilidade de fazê-lo atendendo as nossas condições sociais, culturais, técnicas e econômicas. Por exemplo:

i. A TV Digital poderia ser utilizada como uma plataforma para propiciar a inclusão digital, atuando como um meio de acesso a serviços de educação, governo eletrônico e correio eletrônico, entre outros. O sistema DVB possui um middleware poderoso, mas é incapaz de fazer o necessário redirecionamento de streams (fluxos de informação) que o ATSC faz. Assim, as informações que consegue acessar ficam restritas àquelas oferecidas diretamente pelas emissoras. O mesmo ocorre com o ISDB.

ii. O Brasil poderia ser um grande produtor mundial de programas interativos multimídia - unindo suas habilidades em áudio/vídeo e software, gerando divisas e propiciando um novo e inexplorado mercado de trabalho. Mas para que isso seja efetivo, além de outras condições, é necessário que tenhamos o domínio de toda a cadeia de software envolvida no processo de produção e transmissão de programas na plataforma de TV Digital e, além disso, que esses softwares possam ser disponibilizados a baixo custo para propiciar a eclosão desse mercado. A título de exemplo de quão proibitivos são os softwares de produção para a realidade brasileira, um software para MHP (para um usuário apenas) custa entre 7 e 20 mil dólares - totalmente inviável para uma pequena produtora independente.

iii. O custo do terminal de acesso é fator crucial para o sucesso da TV Digital no Brasil. E os sistemas existentes são absolutamente inflexíveis nesse aspecto: ao se adotar um padrão que possibilite a alta definição (HDTV) com o respectivo áudio panorâmico (surround), o terminal adquire custos astronômicos - quatro vezes maior do que seria se fosse SDTV. Como compatibilizar o desejo das grandes emissoras em adotar o HDTV com a necessidade de baixo custo para a maioria da população - lembrando que de nada adianta o terminal de acesso processar HDTV se ela vai ser conectada a uma TV analógica de tela pequena (20 polegadas ou menos)? É necessário adotar outras soluções, como o MPEG-2 High Profile ou o MPEG-4 svc (scaleable video codec).

4. Como está o andamento do projeto SBTVD
Apesar dos percalços, o projeto SBTVD é um sucesso. São 105 instituições envolvidas, entre universidades, centros de pesquisa, indústrias e emissoras, agrupadas em 22 consórcios, com os trabalhos técnicos coordenados pelo CPqD. Já foram gerados 147 relatórios somando mais de 15 mil páginas, abordando todas as áreas da TV Digital. E isso, considerando que ainda existem várias universidades que estão trabalhando de graça, na esperança de receberem as verbas tantas vezes anunciadas e ainda não concretizadas.

Os principais pontos que estão sendo pesquisados são:

a) Modulação. São três alternativas, todas baseadas na tecnologia COFDM adotado tanto pelo DVB quanto pelo ISDB, cada uma focando diferentes aspectos de melhoria: codificação de canal (Univ. Mackenzie), equalizador baseado em algoritmos de inteligência artificial (PUC/RS) e ganho por diversidade de percurso (Inatel).

b) Codificação de Vídeo: Duas alternativas, uma baseada em MPEG-2 High Profile (Unisinos) e outra em MPEG-4 (PUC/RJ e USP).

c) Camada de transporte: Inclusão das funcionalidades necessárias para prover robustez e flexibilidade ao sistema, bem como os aspectos de interconexão da plataforma SBTVD a outras redes de telecomunicações, para possibilitar o acesso à Internet e outros serviços (Unisinos).

d) Terminal de Acesso: Arquitetura que possibilite o máximo de flexibilidade, de modo a atender tanto o necessário baixo custo quanto as aplicações mais sofisticadas, e atuar como uma plataforma comum para os variados tipos de receptores que possam vir a existir (terminal fixo, móvel, portátil, de faixa estreita, etc.) (USP, PUC/RJ).

e) Middleware e arquitetura de aplicações de modo a prover todas as funcionalidades necessárias para os serviços de cunho social e educacional (UFPB, Unicamp, UFC e BRISA).

f) Usabilidade, de modo que o terminal de acesso não seja um ser estranho para pessoas idosas, com necessidades físicas especiais ou baixa alfabetização digital (UFSC).

g) Sincronismo de mídias, de modo a possibilitar a reprodução de programas multimídia interativos e com roteiro não-linear em um ambiente com gravação (PVR) (PUC/RJ, UFPB).

h) Segurança da informação, de modo a propiciar tanto os serviços comerciais (t-commerce) quanto os sociais (envio de extrato de INSS, por exemplo) (Genius, CESAR).

i) Novas alternativas para o canal de retorno, explorando principalmente as tecnologias de RF (PUC/RJ, Unicamp).
Deve-se ressaltar que todos esses aspectos são inovadores.

5. Navegar é preciso
Os pesquisadores envolvidos trabalham com afinco e entusiasmo. A despeito da falta de recursos, das dificuldades técnicas, da pressão contrária e dos pronunciamentos de certos membros do governo. E fazem isso por um motivo simples: acreditam no que estão fazendo.


<== TRANSMITA!