Atacado por uns e adorado por outros, Bill Gates conseguiu se transformar no centro das atenções ao lançar “A estrada do futuro”. No presente trabalho analisaremos algumas das questões colocadas no livro e levantaremos outras por ele sugeridas.
Antes, porém, devemos desfazer um mal entendido. “A estrada do futuro” foi recebido como uma espécie de utopia moderna. Um livro que trata da sociedade ideal baseada na universalização da informação digitalizada e dos computadores pessoais. Nada mais absurdo.
As utopias criadas por Thomas Morus, Tommaso Campanella e outros filósofos têm como traço fundamental a descrição ou defesa da harmonia social, da superação das contradições econômico-sociais. Utópicas são as sociedades em que as responsabilidades e benefícios são repartidos eqüitativamente pelos cidadãos, onde os desníveis sociais não existem. Obviamente Bill Gates está longe de descrever uma sociedade ideal.
O livro deixa bem claro que os fundamentos da criação e da sustentação da estrada da informação serão a livre concorrência, a desregulamentação das telecomunicações e o lucro das empresas envolvidas em sua construção, expansão e exploração comercial, ou seja, das empresas de TV a cabo, software, hardware, fabricação, instalação de cabos de fibra ótica, telefônicas etc. Como ele mesmo diz “... a estrada da informação será acessível, se usada com discernimento. Mas não será grátis.”
Nas utopias tradicionais, a igualdade real, concreta é o fundamento da harmonia social. No extremo oposto, Gates defende apenas a igualdade virtual. Como afirma peremptoriamente “Uma das maravilhas da estrada da informação é que uma igualdade virtual é muito mais fácil de se alcançar que uma igualdade no mundo real.”
Uma conseqüência da liberdade individual e da igualdade real, a efetiva participação nas decisões acerca dos rumos que serão tomados pela sociedade é uma das précondições das utopias tradicionais. Portanto, a democracia direta foi sempre algo desejável pelos autores que se dedicaram ao tema. O paladino da informação defende abertamente a democracia representativa. Como aduz “Pessoalmente, não creio que a votação direta seja uma boa maneira de se exercer o governo. Há espaço no governo para que parlamentares – que são apenas intermediários – dêem sua contribuição. A ocupação deles é justamente ter o tempo de compreender todas as nuances das questões complicadas.” Portanto, “A estrada do futuro” está anos luz a frente ou atrás da “Utopia” de Morus ou da “Cidade do Sol” de Campanella.
Mas se não se trata de uma utopia, do que se trata “A estrada do futuro”? Pare resolver esta questão nada melhor do que recorrer ao próprio texto. Esse revela que o principal referencial teórico de Bill Gates não é nenhum dos autores utópicos, mas Adam Smith, que chega a ser citado textualmente pelo menos três vezes.
Numa delas, Gates faz questão de afirmar que “Até agora não atingimos o ideal de Smith, pois os compradores e vendedores em potencial raramente têm informações completas um sobre o outro.” A conclusão óbvia a que chega é notável “Servidores distribuídos pelo mundo aceitarão ofertas, as transformando em transações, controlarão autenticação e garantia e se encarregarão de todos os outros aspectos do mercado, inclusive a transferência de fundos. Isso nos conduzirá a um novo mundo, de um capitalismo com pouca força de atrito e baixo custo administrativo, no qual a informação será abundante e os custos de transação baixos. Será o paraíso dos fregueses.” Não se trata do estabelecimento de uma sociedade eqüitativa, mas de uma sociedade em que as oportunidades de negócios serão maiores. A capacidade de realização das aspirações das pessoas dependerá diretamente da quantidade de moeda digital que puderem dispor, exatamente como dependia da quantidade de ouro que carregavam em suas bolsas à época em que Adam Smith escreveu “A Riqueza das Nações.” Assim, “A estrada do futuro” não trata de uma utopia, mas de um negócio.
Um negócio regido pelas leis do mercado como qualquer outro. Para Bill Gates o melhor negócio da virada do milênio. Como esclarece, uma “... grande parte do dinheiro que você vai gastar nos serviços da estrada você já gasta hoje, com os mesmos serviços, de outras formas.” e o paladino da informação espera que a Microsoft esteja “... na liderança mediante constante renovação.” Portanto, ele está de olho no futuro, ou nos lucros futuros para ser mais exato. É neste ponto que “A estrada do futuro” revela seu verdadeiro mérito. A idéias que defende podem ser passíveis de crítica, as previsões que faz sujeitas a não se concretizarem, mas pelo menos é um livro “realista” e muito sincero.
Sincero a ponto de sugerir que as leis do mercado estão fadadas a serem profundamente modificadas na era da informática. Se realmente a Lei de More, que preconiza o crescimento exponencial da capacidade desempenho dos chips em relação aos preços se manter nos próximos vinte anos como acredita Gates, a estrada logo se transformará numa realidade do ponto de vista técnico. Contudo, antes de ser possível tecnicamente ela já terá se transformado num produto. Um produto que não existe.
A corrida espacial nos ensinou como as pesquisas militares e estratégicas feitas com recursos públicos beneficiaram as empresas privadas americanas. Do relógio digital ao micro-ondas, vários dos produtos industrializados e largamente comercializados no planeta atualmente foram inventados à custa de impostos naquele período. A corrida espacial criou novos negócios isentos de despesas prévias e adicionais com o desenvolvimento de produtos comercializáveis. Criou um capitalismo sem muitos riscos para o setor privado.
Logo no início do livro o autor afirma que “... A idéia de interconectar todos os lares e escritórios a uma rede de alta velocidade incendiou a imaginação dos norte americanos de uma forma que não se via desde o programa espacial. E não só a americana, incendiou a imaginação do mundo inteiro.” Mais adiante, tratando da invenção da lâmpada elétrica, Bill Gates usa uma analogia muito semelhante ao afirmar que “Edison acendeu a imaginação do público...”.
“A estrada do futuro” sugere que na era Gates, a capacidade da própria indústria privada de incendiar a imaginação dos futuros consumidores de informação está alavancando a construção da estrada. Já não serão apenas os recursos públicos que são transferidos para o setor privado. O próprio setor privado financia as pesquisas porque se tornou capaz de criar a demanda antes que ela exista.
Isto certamente revolucionará o capitalismo de uma forma não imaginada por Adam Smith. Como frisou o próprio Bill Gates “Quando descreveu o conceito de mercado em A riqueza das Nações, em 1776, Adam Smith teorizou que se cada comprador soubesse o preço de cada vendedor, e cada vendedor soubesse o quanto cada comprador estaria disposto a pagar, todos no “mercado” poderiam tomar decisões totalmente informadas e os recursos da sociedade seriam distribuídos com eficiência.” Esta, que foi chamada Lei do Mercado, pressupõe a existência da oferta (produto comercializável) e de demanda (necessidade), mas não a de demanda sem oferta.
E é justamente o que o livro sugere. A estrada da informação está sendo construída sem que haja uma demanda prévia. Na verdade a demanda vai sendo construída à medida que a infovia é pavimentada. Quem sabe o que virá depois disso? A própria estrada acabará sendo uma ferramenta para sondar e criar expectativas tornando real o ideal capitalista de investimento a uma taxa de risco inexistente.
“A estrada do futuro” foi escrito há cinco anos. Neste período, a Microsoft apresentou um crescimento considerável. Abocanhou uma fatia considerável do mercado de DVD, um produto desenvolvido sob medida para a estrada que ainda não era comercializável quando do lançamento do livro. Só por isso podemos concluir que Bill tinha razão em parte ao especular sobre o capitalismo de baixo atrito que surgirá no futuro.
Já vimos que Bill Gates não trata a estrada da informação como uma utopia. Ao longo deste pequeno estudo demonstramos o quanto a obra de Gates distancia-se de autores como Morus e Campanella. Ao contrário, procura desmistificar algumas questões, como por exemplo os benefícios automáticos resultantes de investimentos em tecnologia e a inteligência artificial. Como afirma Gates “A primeira regra de qualquer tecnologia utilizada nos negócios é que a automação aplicada a uma operação eficiente aumenta a eficiência. A Segunda é que a automação aplicada a uma operação ineficiente aumenta a ineficiência.”’; “Todas as previsões sobre grandes avanços na inteligência artificial acabaram se mostrando excessivamente otimistas.” Este é um dos pontos fortes da obra.
O outro é a preocupação do autor com a educação. Ao longo da obra e especialmente no capítulo 9, Bill dedica uma especial atenção aos reflexos da informática e da estrada da informação na educação. Demonstra que está perfeitamente familiarizado com o que há de mais avançado neste ramo do conhecimento. É o que pode-se concluir em razão dele partir do pressuposto que os professores são facilitadores.
Sem dúvida alguma o maior mérito de “A estrada do futuro” é demonstrar que há uma perfeita compatibilidade entre as máquinas e o processo de aprendizado. Como faz questão de citar “A Academic Sustems, de Palo Alto, Califórnia, por exemplo, está trabalhando num sistema de instrução multimídia interativo para colégios, para ajudar a dar cursos básicos de matemática e inglês. O conceito chama-se “aprendizado mediado” e mistura métodos tradicionais com aprendizagem baseada em computador. Cada aluno começa fazendo um teste de nível de conhecimento para determinar quais tópicos que ele compreende e onde é necessária a instrução. O sistema cria então um plano de aulas personalizado para o estudante. Testes periódicos monitoram o progresso do aluno e o plano de aulas pode ser modificado à medida que os conceitos são dominados. O programa pode também informar ao instrutor quais são os problemas, e ele pode então dar atenção individual ao aluno. Até agora, a companhia descobriu que os estudantes dos programas-pilotos gostam dos novos materiais de aprendizagem, mas que as turmas mais bem-sucedidas são aquelas em que o instrutor está mais presente. Esses resultados sublinham o fato de que a nova tecnologia, por si mesma, não é suficiente para melhorar a educação.” Note-se que aqui o autor não se vale apenas de especulações, mas de dados confiáveis. Dados que confirmam a necessidade da mediação humana. Portanto, realmente os educadores terão que enfrentar seus preconceitos e os governos precisarão investir na utilização das novas técnicas como recursos pedagógicos.
Muitas das questões colocadas pelo livro são realmente instigantes. Este é o caso, por exemplo, da revolução que ocorrerá nas relações jurídicas e no próprio Direito caso se concretizem as expectativas do autor em torno de uso de chaves codificadas para criar documentos e assinaturas digitais autenticáveis.
Antes da universalização da escrita, os contratos eram celebrados oralmente diante de testemunhas. Como o cumprimento das obrigações dependia da memória dos envolvidos e os interessados não podiam confiar na honestidade das testemunhas, todo sistema jurídico era muito instável. Nem mesmo um magistrado poderia assegurar a qualidade da justiça que distribuía. O documento escrito proporcionou uma segurança maior das relações contratuais. Entretanto, documentos podem ser falsificados de maneira que a segurança jurídica não é absoluta na era da escrita. Se o documento e a assinatura digital autenticáveis se tornarem uma realidade, o grau de certeza, de confiabilidade do sistema jurídico será maior. Mas isto não quer dizer que deixarão de haver controvérsias em torno do conteúdo dos contratos. Assim, o aparato judicial continuará sendo indispensável. No entanto, como o processo deverá sofrer o impacto das novas técnicas o juiz do futuro certamente terá que ser programador de computador além de jurista.
Apesar de estar atento para alguns problemas, como a invasão da privacidade e a atuação nociva de programadores mal intencionados, o livro é otimista. Otimista até demais.
De olho nos lucros, Bill Gates não dá a devida atenção a alguns problemas sérios que podem surgir com a infovia.
Ele afirma que a estrada “Será seu passaporte para uma nova forma de vida, intermediada.” A intermediação não gera só impessoalidade, mas controle social. Um controle muito mais sutil que o existente na atualidade, porque baseado na ilusória possibilidade de escolha. “A rede, porém, se parece mais com uma porção de estradas vicinais, onde todo mundo pode olhar para o que bem entender ou fazer o que seus interesses particulares determinarem.” Obviamente não é a sociedade que definirá a maior parte do volume de informação disponibilizada na estrada, mas as companhias que se organizarem para explorá-la. Assim, o usuário não terá acesso a todas informações, mas apenas àquelas consideradas comercializáveis. De qualquer maneira, nem toda informação será útil e o próprio conceito de informação cria a possibilidade de preconceitos e inverdades serem comercializadas largamente na rede.
“Shannon definiu a informação como sendo a redução da incerteza. Por essa definição, se você já sabe que é sábado e alguém lhe diz que é sábado você não recebeu nenhuma informação. Por outro lado, se você não tem certeza do dia da semana e alguém lhe diz que é sábado você recebeu uma informação porque sua incerteza foi reduzida.” Perfeito, só que o modelo despreza informações marginais como a integridade, a honestidade, a confiabilidade de uma pessoa que afirma que é sábado quando é realmente sábado. O teorema de Shannon pode ser matematicamente verdadeiro, mas é questionável do ponto de vista da teoria do conhecimento, porque uma informação incorreta ou inadequada também é informação. Se alguém me diz que é sábado quando é segunda e acabo deixando de ir trabalhar em razão daquela informação falsa, minha incerteza foi reduzida, mas incorri em erro e sofrerei as conseqüências. Tenho calafrios só de imaginar o que um homem como Goebels conseguiria fazer com uma ferramenta tão poderosa quanto a infovia se não abandonarmos o excesso de otimismo.
Bill Gates não admite a modificação nos produtos da Microsoft e afirma que “... milhares de programadores não precisam se preocupar em saber quais PCs poderão rodar programas.” A propósito de proporcionar conforto e comodidade, ele na verdade sugere que os programadores não precisam se preocupar em fazer aquilo para o que teoricamente se capacitam. Alguém programará por eles. Se depender do autor, a Microsoft é claro.
E por falar em linguagem, no capítulo 3 do livro o autor faz uma longa exposição de como foi obtida a compatibilidade de hardware, de como os diversos fabricantes de microcomputadores passaram a construir máquinas que aceitam diversas linguagens. Todavia, enquanto lutava pela compatibilidade de hardware, a Microsoft travou uma batalha desenfreada para monopolizar a linguagem, o software. “Em algum ponto desta trajetória, o Microsoft Basic se tornou um sofware-padrão da industria.” Foi este monopólio que garantiu o sucesso da empresa. É bem provável que em determinado estágio da competição o produto da Microsoft fosse inferior. Como revela o autor foram as parcerias (vendas casadas de hardware e software) e a redução na margem de lucros que possibilitaram à Microsoft vencer as concorrentes.
Agora este empresário agressivo e bem sucedido pretende utilizar este monopólio para construir a estrada da informação ampliando seu poder. Nesse sentido, podemos comparar Bill Gates ao clero, a Microsoft à Igreja Católica na Idade Média. Ambos dominam uma linguagem essencial ao desempenho de suas atividades e se recusam a universalizá-la, pois ela é fonte de renda e de poder. Mas, a história nos demonstra que o latim foi superado pelas línguas neolatinas e a Igreja acabou perdendo o poder temporal. Será este o destino da linguagem e da empresa criada pelo autor de “A estrada do futuro”? Só o tempo responderá esta pergunta.
Platão idealizou uma República que deveria ser governada por reis-filósofos. Bill Gates parece estar querendo construir uma estrada que será controlada por reis-programadores. O grego não viveu para viver em sua república, mas Bill certamente já desfruta do palácio informatizado que construiu em Seatle. Há quem diga que entre Platão e a verdade fica com a última. Não fosse por um amor à filosofia, ficaria com Bill Gates e ponto. Mas como apenas parte da verdade está com ele, sigo em frente.
Bill Gates refere-se às pessoas insistentemente como “consumidores” e não como “cidadãos”. As escolhas feitas pelo autor não deixam qualquer dúvida. O termo que emprega é obviamente mais restritivo que o forjado durante a Revolução Francesa. Apenas aqueles que dispõe de recursos se encaixam no perfil de consumidores, enquanto todos podem ser considerados cidadãos independentemente de serem ou não consumidores. Não deixa de ser uma ironia o fato de que o supercapitalismo preconizado pelo dono da Microsoft pulverize ideologicamente um dos conceitos fundamentais que libertaram as forças do mercado das amarras do feudalismo.
O desenvolvimento da estrada da informação poderia ter uma conseqüência possível que o autor não previu. À medida que a realidade seja substituída pela virtualidade os problemas sociais não deixarão de existir. Apenas serão esquecidos. Afinal as pessoas passarão a considerar que a única realidade real é a virtual e assim as desigualdades concretas não terão mais importância ao preço de uma conexão com a rede. De forma que, embriagadas, muita pessoas poderão passar a vida toda alienadas. Alienadas não por falta, mas paradoxalmente por excesso de informação. Como os marxistas explicarão este novo conceito de alienação?
O próprio autor adverte que a “RV será, sem dúvida, mais envolvente que os vídeo games, e viciará mais.” E por falar em vício, ao rememorar seu contato com os computadores na infância, Gates desabafa “Eu estava viciado.” . Mais adiante admite que “Meu pai viciou quando usou um computador para preparar seu imposto de renda.” A frase que melhor sintetiza esta questão - “Se você lhes der uma chance, é quase certo que será fisgado.” – não poderia ser comparada à mensagem subliminar que um traficante envia quando tenta seduzir alguém com as maravilhas proporcionadas pelas drogas?
No “admirável mundo novo” antevisto por Bill Gates, fica parecendo que o “soma” será o bit. A boa notícia é que o desconforto retratado por Aldous Uxley em seu romance homônimo inexistiria, pois todos saberiam que são realmente desiguais e não se importariam com isto. A má é que este é um mundo realmente possível, enquanto aquele continuará sendo apenas imaginário. Todavia, se não podemos ser otimistas como Pangloss, não devemos ser pessimistas como Martinho. Não julguemos os computadores por alguns bits, nem a realidade através da literatura. Toda inovação causa um certo mal estar e confesso que o livro deixou-me intelectualmente enjoado. Verdade... Mas estou curtindo este enjôo. Ele é uma boa oportunidade para repensar algumas questões velhas e me aprofundar em outras novas. A verdade é que não tenho o direito de julgar o que ainda não vivi e por isso não vou assustar o leitor usando uma retórica alarmista.
Ao defender a democracia representativa, Bill derrapa numa das curvas da estrada que está ajudando a pavimentar. O autor afirma que ela possibilitará às pessoas (ou consumidores) todas as informações desejadas, mas apesar disto elas não estarão capacitadas para decidir os destinos da nação porque não terão informações. Isto quer dizer que:- a) existirão informações privilegiadas às quais só algumas pessoas terão acesso; b) o cidadão comum não terá tempo disponível para conectar-se e estudar os grandes temas que afetam a vida em sociedade; c) existem pessoas naturalmente mais aptas a comandar; d) todas as alternativas anteriores serão verdadeiras.
No início do livro, Bill relata que quando fez um programa de computador para a escola onde estudava acrescentou “...algumas informações por baixo do pano e fui ser praticamente o único cara numa classe cheia de meninas.” Que outras instruções “por debaixo do pano” ele já colocou nos produtos da Microsoft? Quais serão acrescentadas nos produtos a serem desenvolvidos para a estrada da informação?
Só há um problema no novo ciclo econômico imaginado pelo autor:- a moeda. No passado, quando a moeda eqüivalia a uma quantidade de ouro, a expansão monetária dependia do aumento de reservas do metal precioso. A inflação sofria assim uma restrição de ordem material, mas em compensação o volume de negócios tendia a se manter o mesmo, pois esbarrava na estabilidade do ativo circulante. A desvinculação da moeda do padrão ouro suspendeu a inibição possibilitando o aumento no volume de negócios, mas a expansão monetária desenfreada acarretou o surgimento da inflação. A substituição progressiva do papel moeda pelos fundos digitais pode facilitar a implantação da estrada da informação, mas possibilitará a rápida expansão dos créditos ao infinito. A impressão de notas e a cunhagem de moedas, que também representa uma limitação física ao aumento do ativo circulante, tenderá a desaparecer. Isto certamente trará efeitos para a economia como um todo. Entretanto, nunca é demais lembrar que a economia nunca conseguirá desvincular-se inteiramente da realidade. Afinal, ainda que satisfeitas com a mediação de computadores, muitas das necessidades são concretas e nem todos produtos que necessitamos poderão assumir a forma de bits (roupas, alimentos, remédios, etc). Mas isto não parece ser objeto de preocupação do autor.
Os perigos decorrentes da infovia são maiores que os previstos por Bill Gates. O conceito de guerra total foi desenvolvido durante a II Guerra Mundial. Através dele justifica-se não só o combate às tropas inimigas, mas à capacidade do inimigo de abastecê-las de equipamentos e viveres. A partir de então qualquer objetivo tornou-se prioridade militar. Uma metalúrgica que fabricava esferas de aço tornou-se tão digna de ser bombardeada quanto a montadora de caças alemães que utilizava rolamentos fabricados com elas.
Recentemente o conceito de guerra total foi ampliado para incluir a capacidade dos governos se comunicarem com os cidadãos e destes de comunicarem-se entre si e com o resto do mundo. Exemplo típico disto foram os bombardeios americanos à TV estatal e às centrais telefônicas da Sérvia. Futuramente, além de TVs e centrais telefônicas, satélites, servidores comerciais, DPDs de Bancos Centrais e de Bancos Públicos e Privados podem freqüentar a lista de objetivos militares. Numa economia muito dependente das transações on-line, da moeda digital, ataques aos centros nervosos do sistema de armazenagem e fluxo de dados poderão desorganizar uma economia e sua capacidade de sustentar as forças armadas.
Isto certamente encurtará as guerras. Mas a população civil sofrerá mais em razão delas porque o tempo que levará para reorganizar a economia será muito grande. Imaginem só o volume de dados que serão armazenados em Servidores e Bancos Centrais referentes a créditos e transações quando a moeda digital substituir o papel moeda ou for o principal ativo circulante e vocês terão uma idéia clara do problema. O desabastecimento e a fome acompanham as guerras desde tempos imemoriais. A diferença é que no futuro estes problemas ocorrerão quase que instantaneamente e demorarão muito para ser resolvidos. Além disso, a destruição dos centros nervosos de uma economia afetará imediatamente interesses em outros países acarretando prejuízos e novas hostilidades. Afinal, a história prova que as nações nem sempre respeitaram os pactos de ajuda militar, mas quase sempre defenderam seus interesses econômicos com unhas e dentes.
Creio que a capacidade que o livro tem de envolver o leitor e levá-lo a refletir sobre aspectos do assunto que não foram inteiramente discutidos pelo autor reside numa qualidade peculiar da escritura de Bill Gates. Por exemplo, ao tratar da construção da estrada, ele afirma “Minha impressão é de que não haverá uma criação repentina, revolucionária...”. Dois parágrafos adiante ele esclarece que “A Microsoft está investindo mais de 100 milhões de dólares por ano em pesquisa e desenvolvimento para a estrada. É quase certo que sejam necessários cinco anos ou mais de investimentos desse tipo antes que os resultados trazidos pela P&D garantam uma receita suficiente para recuperar o dinheiro, ou essa aposta de 500 milhões de dólares.” Assim, primeiro o autor fala da construção da estrada como se não soubesse que está investindo, depois revela o investimento. Ainda assim, não dá maiores detalhes sobre o que estaria desenvolvendo. Este jogo de mostrar algumas informações e esconder outras, que é próprio do discurso de mestre segundo Lacam, aguça a curiosidade do leitor. Podemos não concordar com uma linha de “A estrada do futuro”, mas devemos admitir que é um livro bem escrito e produz o efeito desejado. Ele incendeia a imaginação do leitor. Bem, pelo menos incendiou a minha.
É bem possível que tenha subestimando alguns fatores e superestimando outros. Algumas das conclusões e previsões que fiz baseadas no livro de Bill Gates podem muito bem ser absurdas e risíveis. O futuro da estrada ninguém pode saber ao certo. Todavia, discutir o assunto é realmente interessante. Espero que tenham gostado. Devo confessar que sou defensor da tecnologia e utilizo-me dela no meu dia a dia. Utilizei-me dela para escrever e distribuir este texto. Defendo uma sociedade mais justa, o direito à efetiva participação no processo de tomada de decisões. Já aprendi a desconfiar das utopias e do pessimismo de alguns escritores. Agora que terminei estou desconfiando de minha capacidade de analisar questões tão complexas. Por isso deixo a tarefa de completar este trabalho a você leitor.
Fábio de Oliveira Ribeiro

