Escrito por Philippe Delmas, encarregado de questões político-militares do Ministério do Exterior Francês até 1993, O BELO FUTUTO DA GUERRA é uma obra de referência para quem pretender entender os processos que desencadearam todos os conflitos armados posteriores à queda do Muro de Berlim. Muito embora tenha sido editada em 1996 a obra continua atual. Afinal, as instabilidades, incertezas e dilemas internacionais abordados por Delmas continuam existindo e produzindo conflitos armados.

Durante a guerra fria a morte certa em caso de conflito entre as duas potências nucleares e os alinhamentos com um ou outro bloco, suprimiram da Europa diversos conflitos menores porque estes poderiam desencadear conflitos potencialmente mais perigosos. Entretanto, isto não impediu que as grandes potências se enfrentassem indiretamente em conflitos sangrentos na Ásia e na África.

A guerra fria durou quase cinqüenta anos e produziu estabilidade porque engendrou uma ordem mundial. Mesmo empenhados em obter supremacia absoluta, russos e americanos reconheciam que seriam destruídos pelo inimigo caso atacassem. Em razão disto, optaram pela diplomacia baseada no próprio poder de dissuasão ao invés da guerra aberta. O término da guerra fria foi tão surpreendente quanto seu início. Contudo, a ordem mundial baseada na supremacia absoluta americana não gerou uma estabilidade maior. Ao contrário, gerou apenas incertezas e a ilusão de que o direito e o desenvolvimento econômico produziriam uma estabilidade duradoura.

Os conflitos decorrentes da fragilidade dos Estados que saíram da cortina de ferro, as guerras tribais no Continente Africano e a narcoguerrilha Latino-Americana tem se encarregado de provar que a paz está cada vez mais distante. A tese de que a supremacia econômica e militar americana produziriam automaticamente paz se provou tão absurda quanto a teoria do fim da história.

Umas principais preocupações de Delmas é a difusão da tecnologia nuclear e de mísseis balísticos. Durante a guerra fria apenas as cinco potências que tem acento no Conselho de Segurança da ONU tinham armas atômicas e condições de empregar as mesmas em alvos distantes. Segundo o autor, o reduzido número de paises em condições de deflagrar um conflito atômico de certa maneira ajudou a impedi-lo. A estabilidade da guerra fria deixou de existir não somente em razão de seu fim, mas principalmente porque o monopólio de armas nucleares e mísseis balísticos deixou de ser uma realidade. Atualmente, vários paises adquiriram ou estão em vias de adquirir condições de fabricar e transportar artefatos nucelares. Isto aumentaria os riscos de conflitos atômicos.

Longe de ser um belicoso defensor da guerra preventiva como instrumento de controle da proliferação de potências nucleares ou um idealista que acredita na possibilidade de uma paz armada duradoura, Delmas se rende aos fatos. E os fatos segundo ele são basicamente seis:- 1º o direito não é capaz de solucionar todos os conflitos internos e internacionais; 2º a paz é um bem que se almeja e não se desfruta se não houver ordem; 2º a ausência de conflitos armados depende mais da ordem do que do desenvolvimento econômico; 4º a ordem, por sua vez, pressupõe Estados fortes o que não é uma regra geral; 5º os conflitos internos e internacionais continuarão existindo enquanto houverem Estados fracos; 6º o surgimento de novas potências nucleares traz consigo a possibilidade real de conflitos em que se utilizem bombas atômicas.

Apesar de tratar da guerra, a obra de Philippe Delmas deveria ser de leitura obrigatória. Principalmente se o leitor for um pacifista, pois com o fim da guerra fria o pacifismo se tornou tão indispensável como inútil.


Fábio de Oliveira Ribeiro