A Via Chilena para o Socialismo

A tentativa de implementação da chamada "via chilena para o socialismo" deu-se no início da década de 1970. Esta tentativa fez parte da estratégia da Unidade Popular, coalizão de esquerda que contava com a participação dos anti-capitalistas Partido Socialista e Partido Comunista, e que acabou derrotada com a queda e morte do Presidente eleito Salvador Allende em 1973.
Não nos interessa, aqui, esmiuçar cada motivo do fracasso da via chilena. Este é um trabalho já realizado por vários autores e que não pode ser reduzido a este curto espaço. Porém, entendemos ser interessante a colocação de problemas novos em uma prática reformista latino-americana que, paradoxalmente, pregava em seus discursos um objetivo revolucionário. O objetivo era um mas a prática, no entanto, levava a outros caminhos que afastavam a Unidade Popular cada vez mais da sociedade socialista.
Para conseguir a conquista do socialismo o povo chileno deveria acabar com o domínio imperialista, com os monopólios e com as oligarquias latifundiárias. Isso conduzia a necessidade de nacionalizações - confundidas pelos reformistas chilenos com socializações - a realização de uma reforma agrária e a intervenção do Estado em setores da economia, criando-se uma área de controle estatal que além de ajudar ao estímulo ao mercado interno facilitando o crédito para a classe média, redistribuiu a renda para as massas populares. Isso faria com que a burguesia, principalmente a internacional, ficasse isolada e a Unidade Popular conseguisse o apoio necessário para fazer as modificações sociais pendentes, também com o aumento da participação popular nas decisões políticas.
Todas as alternativas para se conseguir a realização dos objetivos estratégicos propostos passavam pelo controle de uma parte do Estado, o poder executivo. Assim, definiram como principal meio para se conseguir o poder governamental a participação nas eleições. A Unidade Popular conseguiu crescer nas eleições e eleger seu candidato graças ao forte apoio popular, não precisando fazer muitas concessões ideológicas e programáticas. A base dos movimentos populares que o apoiavam era forte e se organizavam cada vez mais, o que gerava em muitos casos uma duplicidade de poderes entre o próprio governo e os movimentos populares organizados, muitos deles sendo de caráter anti-capitalista.
Só que para os membros da Unidade Popular esta duplicidade de poderes era perniciosa, era necessário manter a unidade sob a tutela do Estado. Diziam que o poder seria repassado para o povo com a aprovação de uma nova constituição e que não havia sentido na construção de novas formas de poder quando o próprio Estado deixava de ser um defensor de uma classe, no caso a burguesia, para se transformar em um Estado Popular.O que estava se gestando no Chile era uma revolução dentro da ordem, onde o Estado não perderia o controle da situação. O governo barrou a construção de um poder paralelo ao do Estado, de cunho popular e anti-burguês, para poder manter o controle da situação.
Com as nacionalizações, a pregação do socialismo como objetivo, etc., o capital estrangeiro deixou de entrar no país que acabou por sofrer um boicote econômico internacional. Sem as inversões externas o governo chileno deixou de ter possibilidade de fazer sua economia crescer, começou a existir déficit fiscal e impossibilidade para implementação de políticas sociais mais abrangentes. A solução encontrada foi tentar acalmar os empresários combatendo a esquerda mais radical, prometendo estabilidade e progresso econômico. Com isso, a Unidade Popular desmantelou parte da esquerda e não conseguiu aproximar empresários que não se afinavam com o programa defendido pelo governo.
Além disso, a UP já havia feito uma opção política policlassista para garantir a possibilidade de implementar o seu programa de governo ao aproximar-se com setores mais conservadores da sociedade chilena. Ao não permitir a construção dos chamados organismos de poder popular que garantissem a hegemonia do povo num espaço de luta próprio para a sua participação, a UP teve que fazer concessões a forças que não eram populares, que tinham muito menos representação nas ruas, mas que para o jogo político possuíam importância. Ou seja, nenhuma solução foi encontrada e a UP se afastava cada vez mais de seus objetivos.
Outro erro foi feito, os reformistas acreditavam que estavam ocupando o poder de Estado transformando-o em um Estado Popular, ao ocupar apenas uma parte dele: o governo. Porém, a parte mais importante do Estado para os capitalistas - as forças armadas - continuava como antes; não houve um armamento do povo e o governo, pelo contrário, utilizava o exército para reprimir os movimentos populares que estavam construindo o duplo poder. Isso fortaleceu a hierarquia militar, ao mesmo tempo em que o governo minava este duplo poder dentro do aparato militar, impedindo a formação de comitês de soldados e membros de baixa patente do exército, algo que já se esboçava. O que aconteceu foi que estas forças armadas com o apoio dos capitalistas e do imperialismo derrubou o governo e implementou uma ditadura militar, uma das mais sangrentas da América Latina. Este foi o preço pago pela adoção de medidas reformistas, mesmo sob a bandeira da revolução.
O erro dos reformistas chilenos foi não ter apontado para uma ruptura revolucionária, acreditando que as mudanças viriam gradualmente desde que a conquista do governo estivesse assegurada. Era o velho mito da maioria oriundo da democracia burguesa se repetindo outra vez. Não se preocuparam em construir uma alternativa de poder que socializasse - e não nacionalizasse os meios de produção - e que destruísse o Estado enquanto instrumento de dominação da burguesia. Aprenderam da pior forma possível que o Estado não é neutro, que não é possível utilizar o próprio poder burguês para acabar com a dominação burguesa, que o poder baseado no socialismo deveria ser o poder popular, amplamente socializado com os movimentos sociais. Aprenderam finalmente que poder, mais do que a possibilidade formal de tomar decisões é, sobretudo, a capacidade de implementá-las, de ter os meios para concretizá-las, inclusive as armas se necessário.

Cooperativismo, Comunidades Alternativas, Círculos de Convivência, etc.
Nos pontos anteriores discutimos as concepções reformistas que possuem sua origem entre os burgueses com a consciência pesada ou entre os marxistas que para assumir o Estado como instrumento de transformação social acabaram por enveredar por tais vias de transformação social, não apontando para uma ruptura que afetasse a raiz de nossos problemas, mas apenas os seus aspectos superficiais.
Agora, entendemos ser necessário escrever sobre algo que afeta os grupos de esquerda em geral, mas afeta particularmente os anarquistas, libertários e marxistas mais heterodoxos. Nestes casos, assim como no caso da via chilena, o reformismo não é uma questão de definição consciente por parte destes agrupamentos, mas um fenômeno que acontece, independentemente do tom revolucionário dos rótulos que cada qual ponha em si mesmo. Normalmente estas agrupações ao negarem o poder Estatal acabam acreditando que é possível transformar a realidade aos poucos, a partir de pequenos pólos de “auto-organização” ou “auto-gestão” dentro da sociedade atual.
Estes pólos podem assumir várias formas: fábricas e empresas auto-gestionárias, comunidades alternativas, grupos e círculos de convivência que pretendem desenvolver sementes de novas relações sociais. Diante do reformismo clássico, adepto da democracia burguesa e da conquista do Estado via eleições existe um rechaço radical. Porém, ao tentar acabar com as relações sociais capitalistas não buscando mudar sua totalidade, não buscando construir o caminho para uma ruptura revolucionária que mude as relações sociais mais gerais desta sociedade, estes reformistas acabam sendo submetidos a lógica mais geral de dominação capitalista e reprodução do capital.
Uma das tentativas diz respeito a formação de cooperativas de trabalhadores, as chamadas empresas auto-gestionárias. Quando falamos neste exemplo estamos considerando que são pessoas que enxergam o cooperativismo como forma de superação do capitalismo, como um elemento estratégico de combate, nossa crítica não se dirige aqui àqueles que reconhecem todas as limitações do cooperativismo e o utilizam apenas como tática. Normalmente quem compõe este tipo de empresa “auto-gestionária” são trabalhadores de um ramo da produção industrial que foram demitidos de uma empresa, ou que montam um pequeno negócio de produção, insignificante em termos de tamanho e que se mantém, quando consegue, com muito esforço. Os idealizadores deste tipo de empresa, dizem que estão mudando as relações sociais, que não há a separação entre trabalhadores e meios de produção, que os meios de produção são de propriedade coletiva e quem determina a disciplina interna na cooperativa são os próprios trabalhadores, que não existe divisão entre quem planeja e quem executa na empresa. É claro que estamos falando aqui das tentativas que são sinceras dentro do cooperativismo e não das cooperativas de fachada, que são as predominantes no país e que nem sequer pensam em mudanças.
Estes trabalhadores, normalmente, pegam máquinas de outras empresas para iniciarem o seu negócio, já que não possuem o montante de capital suficiente para investirem em maquinário novo. Aqui já começa uma das primeiras contradições do cooperativismo. Ao comprarem máquinas velhas, os trabalhadores acabam assumindo o papel de colaborar para os empresários privados a diminuírem os seus gastos na hora da reposição ou da troca de máquinas em suas empresas, já que assim, as máquinas novas cumprirão o papel de aumentar a produtividade da empresa e abaixar o valor das mercadorias produzidas. Outra possibilidade é que os trabalhadores peguem máquinas de empresas que já faliram, sendo um dos motivos desta falência a falta de rentabilidade para se manter no ramo da produção de bens, ligada diretamente à baixa produtividade da empresa. Tanto num quanto noutro caso o que temos são os trabalhadores assumindo um negócio que já se mostrou deficitário ou impraticável.
Com piores condições de produção a dificuldade para se produzir em menos tempo é grande, isso sem falar na qualidade. A regra geral é que as mercadorias produzidas por estas cooperativas tenham um valor e portanto, um preço de mercado mais alto do que as mesmas mercadorias fabricadas numa empresa capitalista. A solução que os trabalhadores buscam para competir com mercadorias de menos valor e preços menores, que tendem a ganhar a concorrência sempre, é aumentar a disciplina na cooperativa, a jornada de trabalho, a divisão social do trabalho, potencializar a administração com a utilização de especialistas, etc., ou seja, um conjunto de “soluções” que reproduzem por outro flanco a lógica inerente ao modo capitalista de produção. Mesmo adotando estas medidas estes trabalhadores ficam quase sempre em situação desfavorável.
Outra possibilidade é que a cooperativa faça um acordo com empresas maiores para terceirização de uma parte da produção, o que colabora para que o capitalista se alivie de série de encargos sociais e consiga comprar mercadorias de baixo valor; afinal a lógica que acaba regendo o funcionamento destas cooperativas é a de vender as mercadorias não de acordo com o seu valor, ou seja, de acordo com o tempo de trabalho humano socialmente necessário para a sua produção, mas sim para a reprodução da força de trabalho dos funcionários da cooperativa. Assim vende-se a mercadoria abaixo do valor, gerando uma espécie de assalariamento que ultrapassa os muros da fábrica que terceiriza o serviço.
Este assalariamento indireto colabora, dependendo do que se produza nestas cooperativas, para a diminuição do custo da força de trabalho dos demais trabalhadores empregados nas outras empresas. Vamos supor que a cooperativa produza tijolos, ao vender o tijolo abaixo do seu valor, tirando apenas o valor necessário para a reprodução da força de trabalho dos cooperativados, há um rebaixamento no valor das construções que vão se fazer com este tijolo, por exemplo, moradias populares. Ao haver um rebaixamento do valor das moradias populares, o valor da força de trabalho dos demais trabalhadores também cai, já que este se mede pelo necessário para a reprodução do trabalhador e sua família, por exemplo, comida, moradia e roupas, aumentando a mais-valia para o conjunto dos capitalistas.
Ou seja, a lógica do mercado acaba por subordinar o utopismo cooperativista à colaboração com a própria manutenção do capitalismo, além disso, o cooperativismo também colabora para a diminuição de tensões sociais que poderiam se formar com o aumento dos trabalhadores desempregados, dando a ilusão de uma forma de trabalho diferente dentro do sistema e que na maioria dos casos acaba sendo levada a fracassar.
Na prática o percentual de falências de empresas cooperativados tem sido extremamente alto, em que pesem todas as formas de propaganda e fomento à formação de cooperativas que existem atualmente. Na verdade isso tem servido apenas como cabide de emprego para a classe média e como alimento ideológico para o próprio sistema. Os únicos casos em que temos visto cooperativas prosperarem são estas em que tem ramos específicos de produção, onde não existe nenhuma empresa capitalista instalada sendo possível alcançar níveis de preço elevados devido ao monopólio ou hegemonia de um mercado ainda não desbravado pelo capitalismo. São os casos típicos de produtos raros, artesanais, etc. Mas isso dura somente até a chegada de alguma empresa capitalista, que ao se inserir neste ramo produz com maior margem de lucro, produtividade, qualidade e sobretudo preço mais baixo.
O curioso é que a busca de cooperativas auto-gestionárias como forma de superação do capitalismo não é uma novidade. Há mais de um século, Bakunin criticava esta proposta ao falar da cooperativa de Rochdale, que ironicamente ainda hoje é invocada como exemplo a ser seguido por várias incubadoras de cooperativas. Vejamos o que dizia o anarquista russo:

“Enquanto os socialistas revolucionários, convencidos de que o proletariado não pode libertar-se dentro do marco do atual sistema econômico, desejam a liquidação social, os socialistas pacíficos desejam, ao contrário, preservar todas as bases principais, essenciais, da ordem econômica existente. E afirmam que ainda nestas condições e, dentro desta ordem social, necessárias uma e outra para o êxito da civilização burguesa, os operários podem libertar-se e melhorar substancialmente sua situação material graças tão somente ao poder milagroso das associações livres (cooperativas).
(...) Vinte anos de experiências na Inglaterra, França e Alemanha terminaram por provar que o sistema cooperativo não pode libertar aos operários, nem ainda melhorar de moda sensível sua situação dentro das condições atuais. A famosa associação de operários de Rochdale na Inglaterra, que tanto barulho fez e que tanta emulação e tantos ensaios suscitou em outros países, terminou por criar uma nova burguesia coletiva, que não vê nenhum inconveniente em explorar a massa dos operários não pertencentes à cooperativa.
Os economistas provaram, que as cooperativas de produção somente são possíveis naqueles ramos da indústria que ainda não foram explorados pelo grande capital, posto que nenhuma associação operária pode competir com este na produção de bens de consumo em grande escala. E como o grande capital trata de controlar, em virtude de uma necessidade que lhe é inerente, todos os ramos da indústria, o destino último das cooperativas de produção será o mesmo que sofreram a pequena e média burguesia: miséria geral e inevitável, submissão ao capital da oligarquia burguesa e absorção de todo o tipo de pequenas e médias empresas pelas grandes empresas pertencentes a umas poucas centenas de pessoas endinheiradas da Europa.”

Resumindo, as alternativas de "empresas auto-gestionárias" não corroem o capitalismo por dentro, pelo contrário acabam por reforça-lo. É claro que o que colocamos aqui foi apenas algumas coisas que podem acontecer com uma cooperativa, sendo que os problemas e fracassos das mesmas são invariavelmente maiores, portanto, entendemos que esta simplificação já dá conta de mostrar a inviabilidade desta alternativa.
Outro tipo de vertente é a adaptação da idéia de “auto-gestão” para a convivência das pessoas. São hipóteses lançadas de uma convivência mais libertária, sem hierarquias entre as pessoas, com ética nas relações pessoais, etc. Estas relações se ampliariam chegando em algum momento a influenciar boa parte da sociedade. Este tipo de pensamento levou alguns a tentar formar comunidades anarquistas no interior do país ou a formação círculos sociais libertários nas cidades, como se fosse possível estabelecer formas absolutamente diferentes de sociabilidade rodeados por uma sociedade baseada na coisificação dos homens e na mercantilização das relações pessoais. Mas, estas idéias são tão fora da realidade que nunca conseguiram influenciar as pessoas para qualquer tipo de transformação. Novamente a totalidade capitalista se impõe sobre as tentativas de transformações das relações que não buscam acabar com o sistema por inteiro.
Além disso, o grau de incorporação e mercantilização de novidades que, de início, pode ter um corte anticapitalista é muito grande, veja os hippies, e outras culturas de gueto por exemplo. Mas se estas idéias hipoteticamente chegassem a ter um grau de penetração um pouco maior na sociedade elas seriam esmagadas pela repressão capitalista/estatal antes que pudessem ter alguma esperança.
Em todo o caso o que devemos ressaltar é que existe uma dependência intrínseca de qualquer comunidade que se diz alternativa com o mercado capitalista, afinal de onde vem os alimentos consumidos por eles, ou então as ferramentas usadas para a produção, ou então as roupas, ou qualquer outro objeto que não seja possível uma auto-produção sem uma maior divisão social do trabalho. Estes objetos vêm todos do mercado capitalista e para que exista troca de mercadorias estas comunidades devem se submeter às leis específicas do mercado. Ao menos que se busque um primitivismo tacanho e renegue-se séculos de história da humanidade, o que não pretendemos nem discutir aqui devido a inutilidade e futilidade deste tipo de discussão.
Alguns se conformam, abandonando a pretensão de fazer disso um instrumento de transformação e se contentam em alterar, mesmo que limitadamente, as relações sociais dentro do grupo do qual participam. Nestes casos o coletivo serve ao indivíduo, é um grupo voltado para si mesmo, que não raro entra em crise devido a conflitos que passam a ser cada vez mais de ordem pessoal. Mas neste caso já não estamos mais tratando nem mesmo de reformistas.
O que há no caso destas tentativas reformistas de auto-organização são tentativas de mudanças também sem rupturas, só que sem utilizar o instrumento do Estado e das eleições, mas utilizando todo um arsenal de ações reformistas que são subordinadas ao mercado e a sociabilidade capitalista. Em nome da negação correta de uma estratégia de luta, a tomada do poder de Estado, caminha-se para formas de ação que demonstram uma impossibilidade intrínseca de transformar a sociedade na qual vivemos.

O Papel das ONG’S
Dentro de uma variada gama de iniciativas tomadas para a atenuação das mazelas geradas pelo capitalismo que vão do reformismo de matiz marxista ao keynesianismo, despontou no horizonte, principalmente a partir da segunda metade dos anos 80, a instituição das ONG’S, as ditas Organizações Não-Governamentais. Para alguns pode ser discutível situá-las dentro do reformismo, por uma série de razões, mas para este documento faremos isso, afinal, muita gente bem intencionada, e com sincera indignação e preocupação social tem sido absorvidas ou tem aderido ao discurso das ONG’S no intuito de “melhorar” a sociedade.
Primeiro, é preciso situar as ONG’S historicamente, afinal de contas, em que contexto elas surgem? Se fizermos um esforço de memória lembraremos que o termo ONG começa a se notabilizar concomitantemente à expansão das políticas neoliberais, partindo dos Estados Unidos e da Europa e chegando até a América Latina. Essa concomitância não é mera coincidência, uma vez que dentro daquilo que foi chamado de Consenso de Washington já se projetava que a redução das verbas para as políticas sociais produziria um agravamento da situação social, em particular nos países periféricos dentro do sistema capitalista global. Diante de tal situação caberia à “sociedade civil organizada” a promoção de iniciativas que minimizassem os problemas sociais e, como isso, atenuassem possíveis conflitos de classe. É aí que entram as ONG’S, pois são elas as organizadoras de tais iniciativas.
As ONG’S têm atuado em setores diversos, existem tanto as de corte ambiental como as que desenvolvem projetos sociais, não vale a pena destrinchar essa diversidade, mas interessa ressaltar o papel desempenhado principalmente por aquelas que atuam no âmbito social. Estas ONG’S acabam desenvolvendo projetos de “ajuda” em setores abandonados pelo Estado como a assistência aos desempregados ou fomento de iniciativas que “gerem renda” para as comunidades mais pobres.
Estes projetos aparentemente bem intencionados são, em geral patrocinados por fundações privadas ligadas a grandes corporações ou mesmo pelo dinheiro público, sendo que no segundo caso esse dinheiro passa para mãos privadas sob o argumento de que o Estado não tem condições de atender as demandas sociais, pois deve enxugar os gastos públicos.
O papel das ONG’S e seus afeitos abrange diferentes campos, elas atuam na economia, não só sugando dinheiro público, mas também beneficiando os financiadores privados; desempenham funções que podemos considerar ideológicas, uma vez que reforçam a idéia de que não é possível lutar diretamente contra o sistema, mas que é “possível” melhorar o mundo com pequenas iniciativas, com cada um fazendo a sua parte; e contribuem para a contenção de conflitos, pois, como já dissemos, buscam atenuar as mazelas do capitalismo e, com seus projetos evitam o afloramento de lutas que permitam o desenvolvimento de movimentos sociais combativos, cooptando pessoas e despolitizando as demandas sociais.
Como vemos, as ONG’S que buscam apresentar-se como uma oposição à política de cortes nos investimentos sociais característica do neoliberalismo, na verdade funcionam como parte integrada da dessas políticas, dando cobertura para as mesmas em setores nos quais podem desenvolver-se focos de tensão. Evidentemente, muitas ONG’S podem realmente estar atuando honestamente, enquanto outra porção delas não é o mais que um “bom negócio” para as mais variadas espécies de pilantras; mas o fato que nos interessa é que as ONG’S não vão mudar qualitativamente a vida dos trabalhadores, elas serão sempre ou vãs tentativas para amenizar problemas sociais ou um balcão de negócios.

O Sistema Estatal

ou aquilo que chamaram de “socialismo” ...

Eles dizem que essa ditadura (jugo estatista) é um meio transitório para chegar à emancipação integral do povo: anarquia ou liberdade – eis o objetivo; Estado ou ditadura – eis o meio. Portanto, para emancipar as massas trabalhadoras é necessário em primeiro lugar acorrenta-las... Eles afirmam que só a ditadura – a deles, evidentemente – pode criar a vontade do povo; nós respondemos-lhes: nenhuma ditadura pode ter outro objetivo senão perpetuar-se, nenhuma ditadura conseguiria engendrar e desenvolver no povo que a suporta outra coisa senão a escravatura; a liberdade só pode ser conseguida pela liberdade.
M. Bakunin

Buscamos analisar neste espaço a experiência dita “socialista” cujo centro foi a ex-URSS, mas também foi vigente nos países do leste europeu e em outras partes do mundo. Aqui vamos nos ater ao caso da Rússia por ser o paradigma principal desta concepção e pela absoluta inviabilidade de se analisar mesmo que sinteticamente, as várias sociedades onde este tipo de “socialismo”, que chamamos de sistema estatal, foi levado adiante. Sociedades estas construídas graças às revoluções que ocorreram com ampla participação popular e que realizaram uma ruptura revolucionária com a sociedade anterior, embora como analisaremos mais adiante tenham reproduzido e mantido uma série de traços do sistema capitalista. Apesar da queda da URSS e dos regimes do Leste Europeu, muitas das concepções nas quais se basearam estas sociedades permanecem vigentes e orientam uma parcela não desprezível da esquerda de intenção revolucionária nos dias de hoje.
Entendemos que este é um modelo de transformação social diferente dos projetos reformistas. Existe aqui a intenção de alterar de forma revolucionária a sociedade. Todavia, discordamos da forma como esta vertente do socialismo organizou suas lutas, conduziu o processo revolucionário e, sobretudo, criticamos radicalmente as conseqüências destas revoluções e as próprias sociedades que se formaram depois das rupturas.
Faremos primeiro um relato do processo russo de revolução e formação de uma sociedade que não eliminou, em sua maioria, os problemas da humanidade. Depois analisaremos os principais tópicos falhos do projeto revolucionário do qual não concordamos.

A Revolução Russa e a Ditadura sobre o Proletariado
No ano de 1917 o antigo Império Czarista Russo foi posto abaixo por uma revolução: operários, marinheiros, camponeses e soldados foram às ruas, tomaram as fábricas e as ferramentas, expulsaram os patrões, acabaram com os resquícios do sistema feudal e revoltaram-se contra seus oficiais. Para se reunir, discutir seus problemas, se organizar e coordenar suas lutas criaram conselhos, os chamados soviets. Naquela ocasião, dada a ilegalidade dos sindicatos, o soviets foram a forma de organização criada pelos operários, eram portanto, um legítimo instrumento de auto-organização dos trabalhadores. Estes soviets já haviam aparecido em 1905, quando o Império Russo viveu sua primeira crise revolucionária, depois retrocederam, mas no início de 1917 ressurgiram com força, ampliando em muito sua influência, desta vez englobando soldados e mesmo os camponeses em algumas regiões.
Desde princípios de 1917, mais acentuadamente desde fevereiro deste ano, quando caiu o Czar e se instaurou um governo provisório, os soviets se tornaram de fato, e cada vez mais, um poder dos trabalhadores, gerando uma situação real de duplo poder na Rússia. Muitas fábricas já eram geridas por trabalhadores, que mantinham sua produção, se organizavam de novas formas e discutiam coletivamente suas tarefas. Este processo ascendente culminou na revolução de outubro. Dentro dos soviets estavam representados todos os trabalhadores, soldados e camponeses, independentemente de quais fossem suas concepções políticas. Anarquistas de vários matizes, socialistas revolucionários, mencheviques, bolcheviques, maximalistas, etc., todos tinham voz e voto nos soviets e todos respeitavam suas decisões. Esta unidade que os soviets conseguiram dar ao movimento foi fundamental para a vitória da revolução num primeiro momento. É válido lembrar que até abril de 1917 os bolcheviques não davam importância aos soviets, somente com a volta de Lênin e as Cartas de Abril é que eles mudam de orientação, percebendo que o movimento real da classe trabalhadora se dava de fato nos soviets, passaram a atuar ali com prioridade.
A partir de outubro de 1917 as coisas foram mudando. Apesar dos bolcheviques terem defendido “todo poder aos soviets” e “as fábricas aos operários” (palavras de ordem sem dúvida revolucionárias, defendidas bem antes pelos anarquistas, por exemplo) eles começaram a adotar medidas que de fato iam no sentido oposto daquelas divisas. O “todo poder aos soviets” apregoado por eles era uma orientação tática, uma guinada temporária para quebrar o poder do Estado provisório. Entretanto, a orientação estratégica de tomar o Estado e instalar uma ditadura do proletariado permaneceu intocada, aguardando o melhor momento para se efetivar. Na realidade começaram a aplicar aquilo que realmente sempre tinham defendido: uma ditadura. E isto fazia parte de seu programa, uma vez sendo comunistas estatistas, concebiam o Estado como uma ferramenta de classe, um resultado da estrutura econômica da sociedade e assim, também poderia ser utilizado pela vanguarda, que o tomaria e exerceria o poder através de uma ditadura chamada por eles de proletária.
Com o poder estatal nas mãos, a vanguarda auto-proclamada do proletariado faria as transformações necessárias na estrutura econômica, criando as condições para o surgimento de uma sociedade comunista, enfraquecendo o Estado, que como sonhavam Marx e Engels, iria definhando. Na teoria tudo certo, na prática a coisa se deu de modo muito diferente.
No plano político, o “poder dos soviets” foi sendo absorvido pelo Estado, a palavra “soviético” usada para designar o regime russo, perderia totalmente o sentido em poucos meses. Já em 1918 os soviets eram apenas uma miragem do poder real que exerciam até 1917. Totalmente subordinados ao Estado foram sendo transformados em correias de transmissão, meros órgãos executores de tarefas decididas pelo Estado, sem qualquer participação popular. Conforme Lênin e Trotski admitem sem meias palavras, o ditadura não era do proletariado no sentido de que eles a exercessem, era sim exercida em nome do proletariado, sobre o proletariado se fosse necessário – e isso foi feito em muitos momentos – e sequer era a ditadura do partido bolchevique, era a ditadura do comitê central do partido, e no final das contas a ditadura do secretário geral do partido, sobre o comitê central, sobre o partido, sobre o Estado, sobre os sovietes e sobre a sociedade como um todo. Este poder centralizador e sua conservação passaram a orientar a ação dos bolcheviques. Manter-se no poder significava acumular cada vez mais poder, aumentando o tamanho do Estado, gerando uma busca agora não pela mais-valia, mas pelo mais-poder.
O Estado passou também a ser um agente econômico, era dono das fábricas e das ferramentas, do comércio e regulava toda a atividade econômica na antiga URSS também era o maior empregador, em especial na burocracia, uma vez que, para se fazer presente como agente econômico precisou criar um amplo aparato administrativo. Este aparato foi aumentando sua influência e poder na sociedade, desenvolvendo interesses próprios e formando novos quadros dirigentes, já identificados com os interesses do Estado e distantes dos operários e de povo.
No plano da gestão as fábricas saíram das mãos dos operários e foram para as mãos do Estado; a autogestão deu lugar aos métodos capitalistas do taylorismo e a militarização do trabalho; a burocracia cresceu junto com um corpo de técnicos privilegiados no âmbito da produção; os operários já não eram mais ouvidos; os soviets foram sendo esvaziados em seu real poder de decisão, dando lugar ao partido único e sua ditadura, que se dizia, do proletariado. Evidentemente tais medidas não foram aceitas passivamente, houve críticas cada vez mais duras ao rumo que o recém batizado Partido Comunista (até a Revolução denominado Partido Operário Social Democrata Russo) imprimia à Revolução, estas críticas não eram bem recebidas pelo partido e a partir de então a onda repressiva não se dirigiu apenas aos czaristas, mas voltou-se também contra os revolucionários não pertencentes ao partido e que ousavam questioná-lo. Entre estes estavam os anarquistas, correntes como a dos maximalistas, socialistas revolucionários de esquerda e mesmo os bolcheviques que, de dentro do partido se opunham as decisões tomadas pelo comitê central.
Dois momentos da revolução ilustram este período, no qual a ditadura bolchevique procurou se livrar de qualquer oposição à esquerda. Um é o combate à Makhnovstchina, um movimento de camponeses e operários da Ucrânia que tinha combatido a contra-revolução branca e a burguesia ucraniana, reconhecia e defendia os sovietes, mas que não aceitava a ditadura do partido único. O outro momento crucial foi a Revolta da Kronstadt, na qual os marinheiros e trabalhadores daquela base naval se insurgiram reivindicando, entre outras coisas, a volta do poder aos soviets. Estes mesmos operários, que dissolveram na marra a Assembléia Nacional Constituinte, considerados o orgulho e a “vanguarda da revolução” foram chamados no momento seguinte de traidores. Vinte mil mortes e um rio de sangue deram o colorido final da resistência revolucionária à ditadura bolchevique.
Daí em diante o que temos é a consolidação de um Estado policial, que longe de definhar crescendo cada vez mais e se tornando mais poderoso. A eliminação das críticas e oposições chegou ao interior do próprio Partido Comunista (bolchevique), atingindo a Oposição Operária de Alexandra Kolontai que havia se oposto ao massacre de Kronstadt e alguns anos depois a Oposição de Esquerda, facção do próprio Trotski. Ele que fora um dos mais destacados defensores da ditadura, da militarização dos sindicatos, artífice da perseguição às várias tendências revolucionárias; acabou sendo ele mesmo vítima do monstro que com tanto afinco trabalhou para criar. Cada vez mais os expurgos e os processos fraudulentos estavam estabelecidos como uma pratica interna na disputa pelo poder, que mesclava o Estado e o partido numa mesma estrutura.
Pode-se argumentar que isso foi feito no período do comunismo de guerra, uma época de guerra civil e de dificuldades econômicas que poderia ter acabado com a revolução. No entanto, não se explica e nem justifica a repressão dentro do próprio âmbito revolucionário, a concepção de ditadura com partido único e principalmente a alienação da classe trabalhadora do processo revolucionário e das decisões políticas em benefício dos dirigentes partidários, unicamente pela existência da guerra civil. Se assumimos a guerra civil como panacéia que tudo justifica, qualquer revolução seria obrigada a tomar tais medidas? Este conjunto de medidas configurou a nosso ver uma contra-revolução. O estalinismo é em nossa análise muito mais um resultado deste processo do que a expressão dos desvios de um único homem perverso, sagaz o suficiente para enganar todo um partido “cheio de virtudes”.
Nos anos 30, com Stálin no comando, a URSS era um gigante burocrático maior do que fora o próprio Estado czarista. Os elementos destacados do partido, militares de alta patente, chefes de polícia e tecnocratas compunham aquilo que já era uma nova classe dominante. Os sindicatos existentes funcionavam mais como um agente coercitivo do Estado do que como um instrumento a serviço dos trabalhadores, pois não tinham independência alguma, portanto não serviam aos trabalhadores. Nas fábricas havia prêmios, concursos do tipo “operário padrão”, os trabalhadores totalmente alienados das discussões sobre a produção e de seu planejamento e qualquer organização fora do estado era perseguida.
A economia a esta altura já estava totalmente estatizada, seja no planejamento centralizado, seja na posse dos meios de produção. Na política vigorou o partido único confundido com o próprio Estado, situação que se manteve com leves alterações até a queda da URSS. Na vida cultural, durante o período estalinista houve um grande empobrecimento com a imposição do realismo socialista como estética oficial, sendo qualquer outra proposta artística condenada como “anti-soviética” ou “incompreensível para as massas”. Artistas e intelectuais comprometidos com a revolução como Maiakovski, Marc Chagall e Mikhail Bakthin, entre outros foram duramente perseguidos.
Nas décadas seguintes a URSS passou pela Segunda Guerra Mundial e teve um acréscimo em sua área de influência no pós-guerra com a formação do chamado “Bloco Socialista” no leste europeu, organizado com base no modelo da URSS. Neste momento a URSS já era considerada por todos os partidos comunistas do mundo como a “pátria do socialismo”, o modelo a ser seguido. Evidentemente que não eram todos os países ditos socialistas que seguiam com exatidão o modelo russo, havia pequenas variações, mas o essencial do sistema estatal era mantido: governo ditatorial de partido único; economia estatizada, ausência de organizações geridas pelos próprios trabalhadores, sistema de salários desiguais; uma rede de proteção social, privilégios para a burocracia dirigente, forte aparato policial, patrulhamento político-ideológico, alienação dos trabalhadores do processo de gestão da sociedade e das decisões políticas.
Com a queda do muro de Berlim em 1989 e o fim da URSS em 1991, o modelo russo deixou de ser o referencial central do que pode ser uma sociedade socialista para muita gente, abrindo caminho para a crítica mais ampla, embora sejamos obrigados a relembrar que esta crítica já era feita desde os princípios da revolução russa pelos anarquistas e outras correntes socialistas minoritárias. É impressionante perceber o quanto o termo socialismo ficou vinculado ao que se passou na ex-URSS. É grande o número de antigos comunistas em todos os lugares do mundo, que foram absolutamente incapazes de conceber outra alternativa socialista distinta daquela da russa, muitos deles se tornaram os neo-liberais e social-democratas de plantão hoje em dia. Na antiga URSS, o regime que sucedeu o sistema estatal foi o capitalismo, ironicamente gerido pelos antigos burocratas do partido e ex-agentes da KGB, que agora são mafiosos e empresários capitalistas.
O fracasso da revolução russa repercutiu sobre toda esquerda e não apenas sobre as correntes afinadas com as concepções bolchevique-estalinistas. A idéia de socialismo, e a idéia de revolução foram desacreditas pelos resultados nefastos da experiência russa. A ideologia burguesa, manipulando habilmente os fatos, afirma até os dias de hoje que socialismo foi aquilo que se passou na URSS e no Leste Europeu, faz isso com a clara intenção de criar uma rejeição à priori sobre qualquer proposta socialista. Neste ponto da história o perigo para os capitalistas já não se situa nos regimes derrubados e jogados para a lata de lixo da história, o perigo que eles querem matar na raiz é a reabilitação do conceito de socialismo, impedindo a retomada e atualização de qualquer projeto realmente socialista. Neste sentido o sistema estatal, dito “socialista”, foi uma dádiva para os capitalistas pois permite que eles desacreditem, embasados em fatos históricos, o próprio socialismo.


A Economia de Estado e a Burocracia

“Esta revolução consistirá na expropriação quer progressiva, quer violenta, dos proprietários e dos capitalistas atuais, e na apropriação de todas as terras e de todo o capital pelo Estado, que, para poder desempenhar a sua grande missão econômica tão bem como a política, deverá ser necessariamente muito forte e muitíssimo concentrado. O Estado administrará e dirigirá a cultura da terra por meio dos seus engenheiros, escolhidos, e comandado um exército de trabalhadores rurais, organizados e disciplinados para esta cultura. Ao mesmo tempo, sobre a ruína de todos os bancos existentes, ele estabelecerá uma banca única, comandatária de todo o trabalho e de todo o comércio nacional (...) Na realidade, isso seria um regime de caserna para o proletariado, em que a massa uniformizada dos trabalhadores e das trabalhadoras despertaria, adormeceria, trabalharia e viveria a toque de caixa.”

M. Bakunin

A Revolução Social de orientação socialista como que existiu na Rússia (e nos outros países que vieram a formar o bloco socialista) acabou se transformando em um sistema onde os trabalhadores foram duramente massacrados por um poder policial, onde a alienação do homem e sua coisificação não deixaram de existir. Porque isso aconteceu? Quais eram as concepções daqueles que ocuparam postos chaves na determinação do futuro da revolução? Finalmente, quais são os problemas que nós enxergamos neste tipo de sociedade e porque a renegamos? Parte destas questões já se encontra respondida nas entrelinhas do texto acima, mas procuraremos respondê-las com mais clareza a seguir.
O Capitalismo, como vimos, possui contradições internas muito fortes. É um sistema no qual a tecnologia avança cada vez mais, onde as possibilidades de produção já garantem que exista abundância de alimentos para a humanidade, onde as tecnologias de comunicação facilitam uma integração global da humanidade. Todas essas coisas poderiam facilitar a formação de novas formas de sociabilidade onde a disputa, a competição e a guerra não fossem os elementos centrais das relações humanas; nas quais os homens e mulheres não fossem subordinados ao mercado e ao Estado, mas pudessem planejar coletivamente todos os aspectos da vida humana. Porém, o que encontramos é a miséria em meio a abundância, é a queima de capitais para que a taxa de lucro se mantenha alta, é a utilização das tecnologias para a dominação e a manutenção da miséria da humanidade, é a mercadoria ganhando características sobre-naturais acabando por subordinar o homem que se transforma em coisa no processo de reprodução ampliada do capital. Tudo isso formando um emaranhado de contradições acionado por uma economia sem controle social junto a perversa formas de participação políticas, de interação cultural e de controle militar.
Para alguns socialistas e comunistas é necessário que a economia capitalista não tenha mais a liberdade de estabelecer as suas relações "naturais", é necessário que exista a intervenção do homem para que as contradições inerentes ao modo de produção capitalista cessem de existir gerando as condições para a formação de uma sociedade comunista plena, onde às relações humanas não sejam subordinadas as relações entre coisas, onde tenhamos o tempo necessário para desenvolvermos as nossas capacidades físicas, intelectuais e culturais sem a pressão de formas de exploração e opressão do homem.
Esta intervenção do homem, para os socialistas e comunistas estatistas, seria realizada pelo instrumento que é identificado enquanto o homem coletivo, aquele que possui em seu interior a representação da vontade geral desde que seja utilizado não enquanto instrumento de dominação da burguesia, mas sim como instrumento de opressão aos burgueses e libertação do proletariado: o Estado. Para eles o Estado planificaria a economia evitando as crises periódicas do capitalismo, organizaria os fatores de produção da nova sociedade, tiraria o poder econômico e político das mãos da burguesia, enfim, acabaria com o capitalismo gerando condições para a construção de uma nova sociedade. O Estado seria então um instrumento neutro, passível de ser utilizado por outra classe a seu favor.
A revolução seguindo esta lógica não deveria ser política. Para acabar com o capitalismo não bastava tirar a burguesia do poder político, seria necessário modificar a própria base econômica da sociedade. Uma revolução social de massas que tomasse o poder da burguesia e usasse o Estado para massacrá-la enquanto classe seria o caminho. Esta revolução foi feita. Criaram-se organismos de poder onde o povo decidia sem a intromissão da burguesia, os soviets, ao mesmo tempo em que houve a conquista do Estado pelo que eles concebiam como “o partido revolucionário do proletariado”, o Partido Bolchevique. E apesar de tratarmos do exemplo russo, podemos generalizar estas considerações para vários outros países onde esta orientação foi levada adiante; o que há de comum em todos é que os revolucionários assumiram o poder político com a participação das massas em seus movimentos, qualquer que seja a forma militar de desenlace que a revolução conquistou.
Na fase pré-revolucionária, na ruptura e imediatamente após existiu uma dualidade de poderes: o poder dos soviets, do qual já falamos e o poder do Estado, a essa altura tomado por aqueles que se consideravam como a “vanguarda do proletariado”, o Partido Bolchevique. Mas na visão dos bolcheviques, para a planificação da economia e construção de uma nova sociedade esta dualidade de poderes era perniciosa; seria necessária a unificação do poder nas mãos do “legítimos representantes do proletariado”, o Partido Bolchevique, realizada através da instituição que representa o homem abstrato, o representante da vontade dos homens em geral: Estado, despido de sua capa burguesa e preenchido com os “elementos mais revolucionários do proletariado”. Com isso, a revolução social ganhou forma política, e o Estado foi o principal elemento para modificar a estrutura econômico-social do sistema capitalista.
Com o controle do Estado dito proletário sobre a economia foi possível “racionalizar” a produção. A partir de então seria possível estabelecer em que produzir, como dividir a força de trabalho nos diferentes setores da economia, a quantidade da produção, a lógica da circulação, etc., não seria mais um mercado sem controle e irracional, nem ao menos o mercado orientado pela intervenção estatal visando a minimização dos problemas causados pela lógica interna do próprio capitalismo. Quem iria organizar a colocação dos fatores de produção em seu devido lugar seria o próprio poder político “nas mãos do proletariado”. Ao menos esta era idéia.
Na prática trata-se de um mito construído ideologicamente pelos bolcheviques considerar que a produção do país estava totalmente paralisada e desorganizada. Desde meados de 1917, como já dissemos, os soviets controlavam boa parte das fábricas. Uma parte expressiva destas fábricas produzia, estava auto-gerida e realizava trocas; e na maioria dos casos as empresas auto-geridas alcançavam níveis de produtividade maiores do que os da gestão capitalista anterior. Este processo se expandiu mais ainda na medida em que os meses passavam; e foi em grande parte a partir deste proletariado organizado, que já realizava na prática o poder dos soviets e auto-geria as fábricas que se conseguiu apoio a revolução de outubro. Neste momento a guerra civil estava apenas no início e não tinha efeitos devastadores sobre a produção ainda. Logicamente não era uma economia planificada e havia muitos ajustes a fazer, vivia-se o fervor revolucionário.
O que fez o Estado bolchevique diante desta situação? Ordenou, atropelando resoluções dos soviets, a paralisação da produção até que a planificação da economia a partir do Estado reorganizasse a produção. E isso não foi feito de forma pacífica. No plano econômico imediato isso causou a paralisia da produção e promoveu o caos. No plano político gerou uma enorme tensão entre os trabalhadores e o Estado bolchevique, e não se tratava de qualquer parcela de trabalhadores, mas dos mais ativos na revolução.
Seria perfeitamente possível que o Estado planificasse a economia sem precisar paralisá-la, fazendo uma reorientação planificada dos setores econômicos, uma lógica puramente econômica indicaria que este seria o caminho mais lúcido. Mas estes exemplos ilustram o que estava em jogo realmente: o poder do Estado X o poder dos soviets. Era necessário centralizar o poder, acabar com a dualidade, e isso tinha prioridade inclusive sobre os resultados econômicos de tais ações. Para completar podemos deduzir os efeitos políticos de atitudes como esta sobre o conjunto da classe trabalhadora, o afastamento do proletariado, a percepção nítida de que não detinham mais o poder e de que a ditadura era realmente sobre o proletariado.
Todavia a planificação do Estado demorou para surtir o efeito esperado. Por um lado se exigiu uma completa submissão da autogestão operária à planificação centralizada do Estado, nada deveria escapar aos centros de decisão, foram rigorosos a este respeito. Por outro lado, ao perceber que a economia não conseguia se levantar e avançar em 1921 se lançou a Nova Política Econômica, a NEP, concedendo liberdades para a burguesia atuar com o objetivo de dinamizar a economia. Ou seja, a atitude da ditadura proletária com os burgueses não foi tão rigorosa quanto fora com os proletários.
Alguns anos depois o Estado tomou o controle total dos meios de produção e estabeleceu a divisão social do trabalho de forma planejada, a concorrência entre diferentes capitalistas privados foi substituída pela estatização. Em tudo isso não se vê nada a respeito da socialização dos meios de produção, das decisões políticas, etc. Aqui, uma vez mais, tentou-se fazer passar estatização por socialização, como se os interesses da sociedade fossem coincidentes com os do Estado.
Para os bolcheviques a transição para o comunismo estaria indo no caminho mais correto, pois com uma economia planejada requereria menos tempo de trabalho humano socialmente necessário para produzir tudo o que é preciso para a sobrevivência e bem estar dos homens. Isso geraria um aumento do tempo livre de cada pessoa, o que por sua vez possibilitaria o desenvolvimento de suas faculdades físicas, intelectuais e culturais. Com mais tempo livre a sociedade estaria caminhando para formas mais evoluídas de sociabilidade que iriam prescindindo progressivamente do próprio Estado. Em síntese, graças a intervenção do Estado na base econômica da sociedade, alterando sua estrutura, o Estado iria definhando. Na prática pretendiam utilizar algo que segundo o próprio marxismo era uma superestrutura determinada pela estrutura, para derrubar esta mesma estrutura, algo como subir nos galhos de uma árvore para cortar o tronco. A história mostrará que o medo de despencar preservou e fortaleceu mais ainda este tronco...
Para que o Estado pudesse fazer as modificações necessárias na base econômica ele deveria possuir um corpo de técnicos capazes de planejar e administrar a economia, a política e a cultura da sociedade. Estes administradores caminhariam cada vez mais para a administração das coisas e não dos homens. Esta substituição do objeto de administração seria o ideal buscado por estes comunistas fazendo com que existisse um mundo onde a administração perfeita das coisas fosse se formando, trazendo bem estar e o fim dos conflitos de classe, já que aqueles que administram as coisas agiam de acordo com o interesse geral dos homens.
Surge então uma camada de burocratas que tem como função mediar os interesses particulares da sociedade com o interesse geral representado pelo Estado. Esta burocracia vai fazer com que exista a separação entre quem planeja, quem administra, e aquele que executa, mantendo a divisão intelectual do trabalho, o que colabora para manter classes distintas no interior da sociedade e uma não homogeneização do esforço nos diferentes tipos de trabalho, mantendo o trabalho mais cansativo que as pessoas só fazem quando são obrigadas por outros e não por interesse coletivo, já que não os planejam.
Outro fato que merece destaque é a disputa interna que se instaurou dentro da burocracia estatal, representada pelas diferentes frações da burocracia, e mesmo indivíduos, que lutavam para assumir os postos de maior importância. Para minimizar estas disputas foi necessária a intervenção do partido, representante de uma espécie de fusão entre a sociedade e o poder político do Estado. O partido devia ser único para que o mesmo realizasse o controle burocrático de seus próprios membros presentes no Estado e evitasse disputas que causassem uma cisão interna no poder estatal.
Esta dinâmica partiu da ditadura do proletariado desde o início da revolução e foi acentuando seu grau de autoritarismo até chegar no ponto de converter-se num regime totalitário, cujo expoente máximo foi Joseph Stálin. Contraditoriamente os comunistas estatistas, ao pretender utilizar uma instituição abstrata da sociedade e que supostamente representava o interesse coletivo, reforçaram mitos personalistas na URSS e Leste Europeu. Já na época de Lênin o culto ao indivíduo que estava no poder foi uma constante, desta forma estes comunistas acabaram revigorando a herança paternalista do Czar deposto, acentuando mais ainda o personalismo dos líderes.
Interessante avaliarmos como o bolchevismo valorizou o papel do desenvolvimento das forças produtivas para a construção do socialismo e do comunismo como meta. As relações sociais de produção e na sociedade foram totalmente subordinadas a uma única meta: o desenvolvimento das forças produtivas. No exemplo que citamos sobre as fábricas auto-geridas isso fica evidente, pouco importavam as relações sociais de produção que se estabeleceriam. Ao instalar o taylorismo, os métodos de trabalho capitalistas, o “stakanovismo” (uma política e ideologia de recompensa para os que se exaurissem no trabalho), ao restaurarem antigos chefes burgueses como gerentes, os bolcheviques deram prova cabal de suas prioridades e sobre como entendiam a evolução rumo ao comunismo. Num país de frágil burguesia seriam eles, os comunistas bolcheviques, os responsáveis por organizar a partir do Estado o desenvolvimento das forças produtivas, mesmo que para isso fosse necessário utilizar relações de produção e métodos típicos do capitalismo.
O tempo se encarregou de provar que mesmo depois de décadas de desenvolvimento econômico, com forças produtivas amplamente desenvolvidas e possibilidades concretas de redução nas jornadas de trabalho o comunismo não veio. A esperança de que a redução do tempo de trabalho criaria condições objetivas para a participação ampla dos trabalhadores tornando desnecessário o Estado se frustrou. Trotski por exemplo manteve sempre a expectativa de que no momento em que a economia se desenvolvesse tanto que reduzisse o tempo de trabalho, estaria aberto o espaço para uma revolução política que derrubasse a ditadura da burocracia, uma vez que no entender dele a revolução social era uma tarefa já realizada. A realidade mostrou que o Estado, guiado já pela lógica do poder, preferia não utilizar as tecnologias que reduziriam o tempo de trabalho para não correr nenhum tipo de risco de insubordinação ao seu poder. A lógica do desenvolvimento econômico como único fator determinante para as mudanças na sociedade da URSS foi por terra.
Vamos encontrar na sociedade formada por estes comunistas o controle da economia e do poder político por uma camada de mediadores controlados pelo partido. Esta é a síntese do que é chamamos de sistema estatal, ou seja, a burocracia detém coletivamente os meios de produção e o poder político. Entendemos que o mais importante está na diferenciação que deve existir na forma de analisar o capitalismo e o sistema estatal. No capitalismo a base econômica da sociedade é erigida sobre o próprio capital, a sua produção e o seu movimento. É ele, com o auxílio do Estado, quem organiza os diversos fatores de produção, incluindo-se aí a própria força de trabalho. Mesmo com toda a importância que reconhecemos no Estado capitalista, o capital é o determinante de primeira grandeza neste sistema. Já no sistema estatal, o Estado é quem decide tudo sobre a economia. O Estado é um agente econômico de primeira importância, ele é quem vai decidir onde, quando e como vão se estabelecer os diferentes fatores de produção.
Na lógica do capitalismo, o sistema para buscar a sua manutenção e viabilidade procura sempre reproduzir o capital de forma ampliada, com a apropriação privada, e a geração de mais-valia, sendo esta o grande motor do capitalismo. Já o Estado mesmo após se transformar em agente econômico, possui um conteúdo fundamentalmente político, e na URSS, por exemplo, já não buscava a mais-valia como objetivo a ser alcançado para a sua manutenção e reprodução. A lógica do Estado busca sempre, fazendo uma analogia, o mais-poder, já que isso faz parte de sua própria essência e condiciona a sua própria existência. O acesso a qualquer tipo de privilégio depende fundamentalmente das relações de poder, depende das decisões políticas que se tomam no partido único e no Estado.
Assim como os homens são coisas diante do processo de produção capitalista, não possuindo controle sobre o mesmo, este processo se repete de outra forma no sistema estatal. O Estado de origem humana, que foi criado pelos homens, se transforma em algo que ganha características que vão além da natureza humana, é fetichizado e acaba por subordinar os próprios homens com a sua própria lógica interna de aumento incessante de poder e os homens são novamente coisificados. Todo Estado possui estas características, mas quando o Estado concentra as energias de toda a sociedade como se passou na URSS e no Leste Europeu, esta lógica é intensificada numa proporção gigantesca, totalitária.
Entendemos que os elementos presentes neste texto já são suficientes, para apontar os motivos da nossa rejeição a esse tipo de sociedade, uma sociedade que não eliminou a exploração do homem pelo homem, não acabou com a alienação, não socializou os meios de produção, não acabou com a sociedade de classes e seus privilégios para uma minoria. Em suma, não emancipou a classe trabalhadora e consequentemente não acabou com a própria existência de classes sociais. Para nós é um exemplo de como não se deve construir o socialismo, para nós aquilo esteve longe de ser socialismo.