"A justiça criminal, na verdade, é uma justiça de classes. (...) Esse sistema punitivo, o direito penal, o processo penal, são co-responsáveis por toda essa política criminal repressiva, que é uma opção estatal, uma opção de Estado"

Justiça de classes

"Toda punição tem um vínculo direto com a estrutura social e econômica de uma determinada sociedade. (...) Qual o papel da prisão? O que fazer com os excluídos? Tem que matê-los presos. Então, o papel, a função do processo penal, do direito penal, simbolizado na pena, é exatamente controlar aqueles potencialmente perigosos pro sistema econômico e pra nós potencialmente vítimas, nós possuídos. Então, é uma forma de exclusão. Por isso, eu acho necessário se pensar a reformulação do sistema prisional, mas antes tem que pensar, tem que reformular toda a sociedade, que concebe, que acha que a punição é a saída para manter a ordem e esquece que uma política criminal não pode dispensar uma política social"

Olhar da polícia

"É muito difícil um defensor conseguir brechas para poder provar durante o processo criminal que o réu é vítima de toda uma situação que existe fora do processo e que não é em momento nenhum considerada neste processo. Quando o policial pinça o fato lá fora do processo, ele está tipificando o fato (no caso, por exemplo, daquele menino do tráfico do filme); ele pinçou o fato, qualificou o fato como tráfico e trouxe pro processo. Mas esqueceu de fora, porque o fato jurídico ignora as outras feições do fato (o fato econômico, o fato social), só trouxe o fato jurídico; ele atravessou todo o processo, qualificado pela seleção do policial, como traficante, e processado e condenado como traficante. Na verdade, é muito difícil um juiz e um promotor, que trabalha com as provas trazidas aos autos por aquele que pinçou o fato; na verdade, o olhar para formar a culpa daquele réu é o olhar do policial. É o policial que vai ser a testemunha, é o policial que resolveu qualificar aquele fato como tráfico, trazer ao processo, e é o juiz, com base no depoimento daquele policial, que vai julgar. Então, a defesa fica procurando trazer provas para desconstituir toda aquela realidade, através dos depoimentos dos familiares, desconstituir a realidade daquele rapaz que foi acusado de traficante. A realidade dele não permite que ele seja um traficante; a realidade dele não permite que ele colabore com o tráfico, entre aspas"

Acesso a justiça

"A defensoria pública do Rio de Janeiro, desde 1990, vem sofrendo uma desvalorização constante. E isso prejudica primeiramente o trabalho do defensor e, segundo, que é mais importante, dificulta a democratização da justiça. Ninguém pode falar em democracia do Poder Judiciário se não tiver uma defensoria pública fortalecida, estruturada. (...) Essa desigualdade, eu não tenho como explicar a Não ser por uma questão de opção política do Estado. O Estado não tem porque investir numa justição pro povo se não investe na saúde, na educação, na moradia; para que investir na justiça? Só que o povo sem acesso a justiça, nós temos um Poder Judiciário que nunca vai ser democrático"