Subindo no ônibus reservado que leva ao Expotrade (local aonde ocorre a convenção), peguei de "orelhada" o finzinho de uma conversa entre dois voluntários, um rapaz e uma garota. Ouvi o rapaz dizendo: "... como você pode ver, o governo Collor foi importante pra implantar o neoliberalismo no Brasil, foi uma verdadeira revolução" e a garota que o ouvia respondeu: "realmente, ele foi muito importante. Aliás, nenhuma das acusações contra ele foi provada na justiça". Essa conversa me deixou intrigado, pois encontrar jovens defendendo o governo Collor em uma convenção da ONU sobre biodiversidade onde são voluntários, e com a cidade abarrotada de ONGs e movimentos sociais, era a última coisa que esperava ouvir.
Comecei, então, a reparar nos voluntários do evento: a maioria é composta por jovens universitários com fluência em inglês, bem vestidos e na maioria brancos. Meninas super arrumadas e rapazes bem afeiçoados, muitos estavam com aparência tão impecável que, mesmo estando uniformizados com a camiseta verde de voluntário/a, percebia-se que a maioria era bem nascida. Nos jornais locais falava-se que mais de cinco mil pessoas se ofereceram para o voluntariado da Convenção, sendo que, de acordo com a organização do evento, eram esperados apenas mil. Pelo que pude observar, um voluntário tem como tarefas: servir aos participantes da convenção; esclarecer dúvidas; indicar caminhos ou pontos de venda de produtos que os participantes estejam procurando ou então, simplesmente, ficar dando atenção.
Os dias passavam e, paralelo às minhas observações sobre os voluntários, reparei que a cidade de Curitiba passava ao largo da Convenção. A maioria da população só sabia que havia uma convenção da ONU discutindo transgênicos e biodiversidade, ponto. Pedir mais conhecimento era quase piada, ao ponto de as pessoas rirem de vergonha por não saberem entrar em detalhes. Porém, o mais impressionante, é que nessa massa de pessoas desinformadas podemos incluir alguns voluntários da Convenção. É impressionante como eram poucos os voluntários que sabiam razoavelmente o que se passava na CDB. A maioria só sabia falar a palavra transgênicos, quase que sem saber contextualizar. Além disso, nos ônibus do evento, minha "antena" sempre pegava alguma conversa de cunho conservador entre os voluntários. As mais recorrentes eram críticas à ação dos movimentos sociais, com o argumento de que eles estavam "parando o trânsito"; ou então, conversas com os "gringos" sobre frivolidades como fazer proselitismo tacanho do Brasil ou mesmo paqueras. Achei incrível, os voluntários tinham a oportunidade de esclarecer dúvidas sobre política internacional, pegar informações sobre biodiversidade de gente especializada mas preferiam paquerar e falar de coisas como samba e futebol, no máximo ouviam "com atenção" (com aspas mesmo) o desabafo de algum negociador ou observador da convenção sobre as dificuldades nas negociações.
Diante de tanta desinformação, alienação e ranço conservador, percebi que se tratava de algo que merece atenção por parte das pessoas e organizações que lutam por uma transformação social de esquerda. Alguns marxistas dogmáticos poderiam dizer que é característica de classe. Como a maioria dos voluntários é "burguesa", é natural que adotem essa postura. Porém, se o motivo é esse, como que nos países de primeiro mundo esse mesmo tipo de jovem de classe média, de cultura globalizada, vai para as ruas protestar durante esse tipo de encontro? Enquanto que em Curitiba ficam preocupadíssimos em deixar os delegados da convenção à vontade? Elaborei um breve questionário e apliquei a sete voluntários/as escolhidos/as ao acaso. O objetivo era ter um perfil das motivações do voluntário e de sua percepção do que ocorria em Curitiba por causa da Convenção. Segue abaixo as perguntas e respostas:
1) O que você sabia sobre a ONU até a realização da Convenção de Diversidade Biológica?
2) Por que você é voluntário/a? O que espera dessa experiência?
3) Você sabe o que se discute na CDB? Quais os pontos polêmicos?
4) Qual a sua opinião sobre a ação dos movimentos sociais na CDB?
5) Qual a sua opinião sobre a ação das ONGs na CDB?
6) Você sabia que algumas empresas estão se oferecendo pra serem parceiras na implementação da CDB? O que você acha disso?
1) O que você sabia sobre a ONU até a realização da Convenção de Diversidade Biológica?
As respostas para essa pergunta, na sua totalidade, foram extremamente superficiais. Quatro voluntários disseram que era uma organização de mediação e também pra promover a paz; uma voluntária simplesmente não sabia o que era ONU e mesmo após duas semanas e meia de voluntariado não sabia responder a essa pergunta e por fim, dois voluntários disseram que tinham uma imagem ruim porque a ONU fazia "o jogo" dos EUA, mas não souberam especificar que "jogo" era esse.
2) Por que você é voluntário/a? O que espera dessa experiência?
Nessa pergunta todos falaram que queriam melhorar o curriculum ou acrescentar cultura, acrescentar valor e experiência. Percebi que essas respostas, em sua maioria, eram sob a ótica de mercado, visando acrescentar capital simbólico ou cultural no curriculum. Alguns disseram que queriam mostrar hospitalidade e como a cidade é boa, que gostam de servir ao próximo, etc, etc.
3) Você sabe o que se discute na CDB? Quais os pontos polêmicos e objetivos dela?
Todos só sabiam falar Transgênicos (de forma isolada mesmo), rotulagem de transgênicos e biodiversidade. Somente uma voluntária soube desenvolver um pouco mais, falando que havia interesses diversos na questão de rotulagem e que as multinacionais não queriam que esse ponto fosse aprovado. Ninguém soube me responder quais os objetivos da CDB ou os pontos polêmicos em sua totalidade.
4) Qual a sua opinião sobre a ação dos movimentos sociais na CDB?
Essa foi a pergunta que mais despertou o ranço conservador e expôs a desinformação generalizada. Todos só sabiam criticar a ação que a Via Campesina realizou no laboratório da Aracruz Celulose em Porto Alegre. Com exceção de um voluntário, o resto não sabia falar sobre a ação da Via Campesina em Curitiba durante a CDB e nem que ela havia ocupado um laboratório ilegal de transgênicos durante a Convenção. O discurso "violência só gera violência" era recorrente nas respostas. Muitos criticaram o fato de o movimento exigir dinheiro do governo, mas nenhum soube me dizer porque o movimento pede dinheiro além de terras. Quando eu disse que era pra financiar a lavoura todos ficavam com cara de interrogação. Uma voluntária disse que o MST só se preocupa com ele mesmo. A maioria dos voluntários falavam que os movimentos sociais não sabem porque protestam, que só fazem bagunça e que param o trânsito.
5) Qual a sua opinião sobre a ação das ONGs na CDB?
As respostas mostraram que a palavra ONG ainda desperta uma boa receptividade na população, também, em grande parte, por causa da desinformação. Todos os que entrevistei falavam que gostam das ONGs porque elas são ordeiras, sabem porque lutam e a maioria não recebe dinheiro do governo. Ao que parece, os voluntários não sabem que a maioria das ONGs presentes na CDB recebem, sim, dinheiro de governos, em projetos que as mesmas realizam em conjunto com setores estatais, como o Ministério do Meio Ambiente. Também não sabem que muitas ONGs recebem dinheiro do Banco Mundial através do GEF. Nenhum soube diferenciar as práticas de ação direta do Greenpeace da ocupação que a Via Campesina fez dos laboratórios da Syngenta, mesmo assim todos apoiavam as ações Greenpeace e condenavam a ação da Via Campesina.
6) Você sabia que algumas empresas estão se oferecendo pra serem parceiras na implementação da CDB? O que você acha disso?
Nessa pergunta realmente fiquei impresionado, pois além de desinformação os voluntários entrevistados tinham uma ingenuidade sem tamanho. NENHUM voluntário entrevistado sabia que essa discussão estava sendo feita na CDB, mas mesmo sem ter subsídios TODOS concordavam que a iniciativa privada deveria participar da implementação dos objetivos da CDB (lembre-se que nenhum deles sabia me dizer quais os objetivos da CDB). Teve uma voluntária que disse concordar que a biodiversidade dê lucro, desde que seja "lucro para o bem e sem exploração". O termo recorrente no discurso dos voluntários era: "é bom promover a responsabilidade social das empresas". Como era de se esperar, nenhum deles explicou direito o que é responsabilidade social das empresas.
As respostas foram as mais desalentadoras possíveis, mesmo pra alguém de direita. O grau de desinformação é tão grande que estarrece qualquer pessoa que se preocupa com política, indiferente de sua matriz ideológica. Porém, é preciso identificar quais fatores levaram os voluntários da CDB a terem posições tão conservadoras, interesses tão mercadológicos e a comprarem com tanta convicção o discurso oficialista.
Em primeiro lugar, devemos levar em conta que vivemos numa sociedade capitalista, onde os valores de mercado são predominantes. Além disso, percebe-se que os principais pontos nas respostas são temas pautados na mídia de massa, como a ação na Aracruz Celulose, transgênicos e rotulagem de transgênicos. Por fim, mas não menos importante, destaca-se como fator determinante de tamanha desinformação a ínfima campanha de esclarecimento por parte dos movimentos sociais e ONGs que defendem a biodiversidade. A campanha institucional, de promoção do evento, não teve concorrentes em Curitiba. As discussões dos movimentos sociais e ONGs a respeito da Convenção não conseguiram superar os círculos especializados, e mesmo na base desses círculos a discussão começou a ser intensificada há pouquíssimo tempo, há menos de um semestre (estou sendo bem otimista). Na minha opinião, outro grande erro foi que as ONGs e movimentos organizados dentro do Fórum Global da Sociedade Civil só divulgaram seus materiais de campanha (jornais, pôsteres e flyers) em cima da hora ou dias depois do evento começar.
Quando a mídia de massas toma posição a respeito de um assunto é quase impossível superar seu mecanismo de construção de consenso. Porém, a história nos mostra que é possível, no mínimo, questionar a versão da mídia de massas num grau considerável. Exemplo disso foi o plebiscito contra a Alca ou as campanhas de esclarecimento que o movimento anti-globalização do primeiro mundo realiza nas cidades que abrigam grandes encontros multilaterais. Todos esses exemplos mostram que precisamos dar prioridade máxima ao trabalho de base, com antecedência e planejamento. Caso os movimentos sociais e ONGs do Brasil não tirem uma lição do que ocorreu em Curitiba, teremos que nos conformar em ser o país anfitrião de todos os eventos imperialistas do mundo. Para a imagem do império é melhor que esses eventos ocorram em uma "democracia" de população passiva como o Brasil do que em lugares que só conseguem controlar sua população graças a ditaduras tirânicas, como foi a reunião da OMC em Doha, no Qatar. Hoje em dia, que governante pode oferecer aos organismos multilaterais (braços do império e das transnacionais) cinco mil jovens devidamente treinados pra serem cicerones e o comércio local marcado com uma plaquinha dizendo: "Estou preparado para ajudá-lo"?
