Primeiro vamos rever como os primeiros homens viviam: eram primariamente coletores e secundariamente caçadores. Organizavam-se em tribos, com o mínimo de hierarquia e o mínimo de dependência tecnológica. No lugar de leis rígidas havia orientações dos mais experientes, sem julgamento moral. A vida era espontânea. Era um modo de vida igualitário, não sexista e sustentável, onde cada membro é autônomo e ao mesmo tempo interdependente, não apenas em relação aos outros membros, mas em relação aos outros seres vivos também. A cultura de cada tribo era resultado das interações específicas do grupo com meio em que eles viviam. O grupo jamais concentrava muitas pessoas num mesmo lugar. A espécie humana tinha estabilidade populacional, assim como todos os outros mamíferos grandes. E assim como outras espécies que perduram até hoje na nossa herança genética, os seres humanos se adaptaram às mudanças das condições ambientais. A grande vantagem humana (toda espécie tem a sua) é a plasticidade do aparelho cognitivo, ou seja, a capacidade de armazenar muitas informações e lidar com elas de maneira bem mais complexa. Graças a isso o ser humano pode repassar comportamentos por educação de forma bem mais eficiente, o que o levou a poder sobreviver em diferentes ambientes e situações sem que seu corpo precisasse mudar demais. Este pode ser o motivo do ser humano ter se espalhado pelo globo tão rápido.

Entre as grandes mudanças ambientais, uma das mais severas é o fenômeno da glaciação. Houve muitas glaciações, sendo que a última grande foi a Glaciação Würm, há cerca de 150 mil anos, porém outras menores ocorreram de lá para cá. A glaciação é um fenômeno em que a temperatura média da terra se abaixa, criando um inverno intenso e duradouro. Durante as glaciações os vegetais se tornaram mais escassos, e os homens tiveram que recorrer muito mais à caça. Outras mudanças na organização social provavelmente foram necessárias para essas situações. A caça como principal fonte de alimento exige uma organização mais hierárquica, com aumento do poder do chefe. Uma parte da autonomia natural deve ter sido sacrificada em nome da sobrevivência do grupo. Aumenta também a necessidade de criar armas e engenhos melhores para a caça. Torna-se importante manter o máximo de pessoas vivas, ter quantos filhos for possível e manter uma rígida estrutura social para unir os membros, independente de sua afinidade mútua.

Leia a seguinte experiência de etologia:

?Um grupo de cientistas e pesquisadores colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, um jato de água fria era jogado nos que estavam no chão. Depois de um certo tempo, quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, os outros que estavam no chão o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo substituto foi colocado na jaula e o mesmo ocorreu com este, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto e afinal o último dos cinco integrantes iniciais foi substituído. Os pesquisadores então tinham na jaula um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.? - (Ubiratan D?Abrosio, Cumprir ordens, por si só, não é suficiente como código de conduta)

O que exponho agora é uma tese sobre como as glaciações podem ter condicionado alguns grupos humanos, auxiliando-os a abandonar seu comportamento autêntico e embarcar num projeto de acúmulo e expansão. Tendo criado um trauma das glaciações, eles podem ter feito uma adaptação cultural para evitar sofrimento futuro. Esta adaptação envolve um acúmulo de recursos sem precedentes, em que o desenvolvimento da agricultura e da criação de animais foi consequência, não causa. Também era preciso que os instintos do modo de vida anterior fossem substituídos por uma disciplina rígida de cultivo e criação de animais. Isto poderia ser feito, por exemplo, criando o mito de que apenas essa forma de viver é ?abençoada?, ou como se diz atualmente, ?avançada?, ainda que a Bíblia diga que ela seja um castigo de Deus. Neste novo modo de vida não poderia haver desperdício de terras ou de pessoas. Quanto mais membros e espaço, maior a produção e maior as chances de sobreviver a uma catástrofe. Para isto foram desenvolvidas técnicas de dominação, como as guerras de aniquilação e conquista, além das religiões monoteístas de conversão. Por um lado temos tecnologias que nos permitem um alto crescimento populacional, por outro temos religiões que nos mantém com medo de uma catástrofe iminente, o apocalipse, cuja causa é nossa própria natureza, reproduzindo o trauma necessário para manter esta estrutura social.

Deve ser notado que nem todos os seres humanos embarcaram neste plano. Assim que a última glaciação se foi, há mais ou menos 20 mil anos atrás, quase todos os grupos humanos voltaram a ser coletores e caçadores, ou adotaram uma forma de horticultura sustentável e não cumulativa ou expansionista. Mas pelo menos um desses grupos permaneceu no modo de vida de escassez, em que o acúmulo de comida e a organização de ocupação são mais importantes que qualquer outra coisa, inclusive que a espontaneidade e a criatividade. Culturalmente, criaram um modo de vida que pudesse minimizar os danos de uma nova era do gelo, que jamais chegou. Assim como os macacos do experimento, continuaram fazendo o que lhes foi passado, sem saber que isso não era mais preciso. Os motivos para continuar tiveram que ser inventados. Tais motivos fazem parte do que eu chamo de mitologia salvacionista, que é a crença de que o homem está condenado a um modo de vida rígido e trabalhador, e que a condição humana é de desespero e angústia pela inevitabilidade da morte e do sofrimento.

Alguns estudiosos dizem que a vida em civilização foi vital para o planeta, e que o aquecimento global foi uma forma de manter a temperatura da terra mais homogênea, evitando uma nova era do gelo que já estaria em tempo de acontecer. Podemos escolher acreditar nessa idéia de evolução planejada, mas se levarmos em consideração o ordenamento não-teleológico do mundo, reconhecermos que estamos, geração após geração, nos condicionando a uma situação que não faz mais parte da realidade. Iremos procurar formas de quebrar o condicionamento e resgatar o conhecimento necessário para voltar a viver de forma autêntica. Algumas formas de fazer isso foram sugeridas: Dizem que os cães de Pavlov deixaram de responder ao condicionamento em situações extremas. É mais ou menos o que leva algumas pessoas a crer que a sociedade só mudará se houver uma grande catástrofe, como uma guerra. Outras opções já citadas pela literatura libertária incluem a conscientização da massa de sua situação, mas a abrangência dessa conscientização é sempre mínima, pois o verdadeiro desejo da massa não é se livrar deste modo de vida, mas sim viver de forma melhor nele, exatamente porque ela não reconhece o que há de tão errado na visão progressista. Reconhecem apenas os efeitos que os atingem. Outros ainda pregam a eliminação da raça humana, como se a causa fosse meramente humana.

Esta tese não passa de um esboço na tentativa de compreensão dos motivos da civilização. O que será feito dela depende das críticas dos leitores. Eu sugiro, no entanto, que o leitor conheça os outros argumentos contra e a favor da civilização. Só assim poderemos nos aproximar de uma crítica capaz de abrir os olhos de qualquer pessoa, independente da classe social.