A maioria das pessoas acha que não é preciso pensar filosoficamente. Seria um desgaste e um tédio pensar no porquê, na definição, nas premissas, nos limites, nas justificações e nas conseqüências de tudo que pensam. No entanto elas não sabem que, para que não tenham que reinventar tudo de novo a cada instante, alguém já pensou nisso tudo para elas. Outras pessoas disseminaram essas idéias através da ciência, da arte, da literatura e de todas as criações humanas. Todos os pressupostos que a nós parecem óbvios por estarmos expostos indiretamente a eles desde que nascemos, para os filósofos custaram anos de imaginação. Uma vez que o molde mental está pronto, a maioria das pessoas vai dizer que está ótimo, e vai usá-lo para dar forma a suas ações sem maiores modificações. Para a maioria das pessoas o projeto mental de uma vida melhor está pronto, só falta colocar em prática. Logo, filósofos e suas discussões são inúteis, são pessoas que só sabem falar, mas não agir. Mesmo ao pensar dessa forma as pessoas ainda estão se conformando com algo que um filósofo disse um dia, e que de alguma forma se espalhou invisivelmente pelo mundo, convencendo as pessoas. Filosofias do ?deixe estar? são especialmente atraentes, poupam tempo que você gastaria sendo crítico para que você o gaste com outras coisas, como trabalho e entretenimento.

Mesmo quando rejeitamos o infindável questionamento dos filósofos, estamos usando um molde dado por um deles, mas não estamos pensando filosoficamente. Pensar filosoficamente é não se contentar com os moldes mentais que nos foram dados. Um famoso escritor brasileiro escreveu uma vez que a humanidade era inimiga da biodiversidade. Respondi por e-mail dizendo que isso era muito estranho de se afirmar de uma espécie que existe a 100 mil anos, e desnecessário uma vez que ele já havia especificado que o problema era nosso sistema econômico e a monocultura. Para mim pareceu um grave erro julgar toda a humanidade por apenas uma parte dela. Ele respondeu que continuaria acusando a humanidade e que o importante era as pessoas fazerem alguma coisa. Respondi novamente dizendo que era importante, e essencial, saber não apenas o que fazer, mas a respeito de que, e de que forma. As pessoas, por exemplo, podem passar o resto da vida achando que comprar um big mac no dia que parte do lucro é revertido para campanhas contra a fome é o bastante para acabar com ela. Eles podem acreditar em infinitas formas de ação como essa. Algumas são tão bem elaboradas que mesmo pessoas inteligentes e cultas são atraídas. Idéias consideradas ?alternativas" e "radicais" apenas porque a televisão mostrou assim, ou porque o governo parece temê-las, ou porque não conhecemos outras melhores... Filósofos são sempre um incômodo para as pessoas que acham que estão com tudo pronto em seu fundamento mental e que só basta agir.

Neste sentido, temos definições que satisfazem muitos adeptos, mas que, se examinados com profundidade, nos deixam no escuro. Como o termo ?anarquia?: Este termo é uma negação de qualquer forma governo, e nos parece extremamente ambíguo. Por um lado, podemos imaginar infinitas formas de não se ter governo. Por outro, podemos nos perguntar porque qualquer forma de governo é ruim, se nem todas foram tentadas? O que é ter um governo e o que é não ter um governo? Os anarquistas sabem que o termo não aponta especificamente para direção alguma, mas parecem ignorar que simplesmente ter um inimigo em comum não é garantia de jogar do mesmo lado. Há várias atitudes e ideais anarquistas que são opostos uns aos outros. Assim, ao agir em todas as frentes, muito trabalho pode estar sendo desperdiçado, com uns anulando as conquistas de outros que deveriam estar do mesmo lado. A solução foi incluir ?cláusulas? na anarquia. Mas estas cláusulas pareciam gerar uma forma de paradoxo, pois ao definir especificamente as formas de poder que se iriam negar, a anarquia deveria deixar de ser a negação das formas de governo para ser a negação de algumas formas de governo, e a conseqüente afirmação de outras. Neste contexto surgiu a idéia de que ?anarquia não é desordem?, sugerindo que deveriam ser feitas organizações anarquistas em torno de ?temas? específicos, como o eco-anarquismo, o anarco-feminismo, o anarco-terrorismo e o anarco-primitivismo.

Não é difícil de imaginar que a idéia de ?não importa o que você pensa a fundo, apenas se revolte contra o status quo? seja realmente útil aos próprios beneficiários do status quo. Enquanto as pessoas acharem que estão se unindo contra a mesma coisa, quando na verdade estão dissipando sua força por toda a extensão do inimigo, ele pode se deitar tão confortável quanto um faquir sobre uma cama de pregos. O grande desafio, que me estimula a continuar filosofando, não é colocar em prática tudo que já sabemos para melhorar o mundo, mas fazer as pessoas pensarem criticamente sobre o que fazem todos os dias, e quem sabe fazê-las pensar no que ainda não foi pensado.