Uma quantidade significativa dos brasileiros nascidos na segunda metade do século XX cresceu com a televisão ou teve contato com ela em algum momento de suas vidas. Pela TV vimos a cobertura da Guerra do Vietnam, o escândalo que derrubou o Presidente Nixon, os capítulos da série do super-homem em preto e branco e depois os filmes coloridos do herói disfarçado de jornalista.
Muitas foram as maneiras pelas quais o jornalismo americano se tornou onipresente em nossas vidas. Muitas foram as razões pelas quais os jornalistas americanos se tornaram respeitáveis ou odiáveis no Brasil. Principalmente depois do golpe de 1964, quando nossos jornalistas silenciaram para não tomar porrada ou foram espancados por escreverem o que os militares não queriam. É justamente por isto que ainda não conseguimos entender muito bem como a imprensa americana permitiu que George W. Bush ganhasse seu primeiro mandato fraudulentamente e o segundo explorando o medo do terrorismo.
Foi me perguntando o que ocorreu ao jornalismo americano que topei com a obra de Bill Kovach (
http://en.wikipedia.org/wiki/Bill_Kovach ) e Tom Rosentiel . Resolvi fazer uma resenha de ELEMENTOS DO JORNALISMO (publicado no Brasil pela Geração Editorial) porque a obra aborda os problemas do jornalismo americano, problemas que certamente estão ocorrendo no Brasil e que afetam a percepção do público em razão da cobertura feita sobre governo Lula, seus mosqueteiros e “mensageiros”. Antes de enveredarem pelo caminho dos problemas e propostas para superação destes, os autores procuraram dar um panorama geral do jornalismo. O que é, qual sua finalidade, a quem interessa sua existência e, principalmente, quem o explorou e o explora na atualidade este lucrativo negócio.
Afirmam os autores que “... quando pressionados, os jornalistas dão como certo que trabalham para o interesse público.” Contudo num mundo em que o ceticismo em relação ao jornalismo se tornou uma realidade tão presente quando as novas tecnologias que permitem a qualquer cidadão divulgar suas próprias notícias “... os princípios e a finalidade do jornalismo são definidos por alguma coisa mais elementar - a função exercida pelas notícias na vida das pessoas.”
Partindo desta premissa asseguram que “...as sociedades que querem suprimir a liberdade devem primeiro suprimir a imprensa. Um aspecto interessante é que essas mesmas sociedades não precisam suprimir o capitalismo.” Foi exatamente o que ocorreu no Brasil, onde o capitalismo se consolidou e expandiu justamente durante o regime da mordaça das redações. Censura ou liberdade de imprensa são expressões vagas se não soubermos o que é notícia, como, quando e de que maneira a mesma pode ou deve ser divulgada.
“Notícia é aquela parte da comunicação que nos mantém informados dos fatos em andamento, temas e figuras do mundo exterior. Em suas épocas, contam-nos os historiadores, antigos governantes usaram a informação para manter unidas suas sociedades. A informação produzia um sentido de coesão e metas comuns. Ajudou até mesmo aos tiranos a controlar seus povos com ameaças generalizadas.”
Segundo os autores o jornalismo nasceu na Inglaterra no século XVII já sob cerrada marcação das autoridades, que fizeram uma Lei para proibir qualquer tipo de crítica feita ao governo mesmo que fosse verdadeira. Com o passar do tempo, o crescimento dos jornais e a intensificação dos conflitos a liberdade de imprensa se tornou uma realidade em algumas sociedades. Em outras o direito de crítica se tornou tão banal, que nem mesmo os abusos eram punidos (caso da imprensa sensacionalista americana do princípio do século XX). Desde que surgiu, entretanto, o jornalismo definiu claramente papéis distintos para os que produziam a informação e os que a consumiam.
No final do século XX início do XXI o jornalismo passou a enfrentar uma séria e profunda reformulação, pois “...a idéia da imprensa como um guardião - decidindo que tipo de informação o público deve saber e qual não - não mais define bem o papel do jornalismo.” O livro assegura que o “...novo jornalismo não decide mais o que o público deve saber. Ele ajuda o público a por em ordem as coisas. Isso não significa simplesmente acrescentar interpretação ou análise a uma reportagem. A primeira tarefa dessa mistura de jornalista e ‘explicador’ é checar se a informação é confiável e ordená-la de forma que o leitor possa entendê-la.”
A livre circulação de informações por si só não é capaz de produzir melhoras no plano social, político ou institucional. Segundo os autores “...ao longo dos últimos trinta anos, o número de cidadãos americanos que pode pelo menos dizer o nome do senador de seu estado é na proporção de três em dez. Menos da metade dos americanos votam - mesmo nas eleições presidenciais, muito menos do que em países sem a Primeira Emenda. A maioria das pessoas recebe suas informações pela televisão, uma mídia que em geral ignora o processo de governo. Só 47 por cento das pessoas lêem um jornal e o povo, hoje, não sabe mais do mundo do que sabia há cinqüenta anos. Talvez, quando olhamos mais detidamente, a idéia de que a imprensa fornece a informação necessária para que as pessoas se autogovernem acaba sendo uma ilusão.”
Aqui no Brasil, onde a liberdade de imprensa foi conquistada lentamente durante a agonia do Regime Militar o fenômeno é parecido mas diferente. A informação circula, mas muitos políticos se tornaram donos de jornais, TVs e rádios de maneira e construíram feudos de desinformação, propaganda disfarçada e clientelismo eleitoral. O eleitor médio pode até saber o nome do seu senador e quais foram seus feitos, o que não sabe é que ele é o dono do jornal, TV ou rádio que divulga diariamente o nome do malandro para o público.
O livro sugere que o paradoxo da livre circulação de informação combinado com o desinteresse e desinformação do cidadão americano pode ser solucionado através de uma maior participação do leitor. Alertam, entretanto, que “...neste começo de século 21 a profissão terá pela frente a maior ameaça de sua história. Veremos pela primeira vez o surgimento de um jornalismo baseado no mercado, mais e mais divorciado da idéia de responsabilidade cívica.”
De qualquer maneira, advertem que somente “... uma imprensa livre dos censores governamentais pode contar a verdade. Num contexto moderno, essa liberdade expandiu-se de forma a significar independência de outras instituições também - partidos políticos, anunciantes, negócios e outras fontes. A conglomeração de negócios informativos ameaça a sobrevivência da imprensa como instituição independente, à medida que o jornalismo se converte em um setor subsidiário dentro das grandes corporações essencialmente voltadas para os negócios.” Corporações cujos interesses se refletem dentro da administração pública em razão do financiamento de partidos e candidatos que certamente não poderão ser questionados publicamente pelos jornalistas que forem empregados da companhia.
Jornalismo e verdade são duas coisas que caminham ou deveriam caminhar juntas. Mas o que é verdade? Nos regimes totalitários a única verdade admitida é a oficial. Nos regimes democráticos, a verdade é um conceito em permanente construção. “À medida que a moderna imprensa começou a se formar com o nascimento da teoria democrática, a promessa de veracidade e precisão logo se tornou uma parte poderosa até mesmo das primeiras tentativas de marketing do jornalismo.”
Mas como os autores fazem questão de ressaltar, no “...começo do século 20, os jornalistas já percebiam que realismo e realidade - ou precisão e verdade - não eram tão facilmente equacionáveis.” E perguntam “...o que significa a obrigação do jornalista para com a verdade?”
A resposta que deram a esta pergunta é bastante evasiva “...os próprios jornalistas nunca tiveram uma noção clara do que querem dizer com veracidade. Por sua própria natureza, o jornalismo é reativo e prático, não filosófico ou introspectivo. Não existe muita reflexão escrita dos jornalistas sobre esses assuntos, e o pouco que existe não é lido pela maioria dos profissionais do ramo. As teorias de jornalismo ficam nas cabeças dos acadêmicos, e a grande parte dos jornalistas sempre desvalorizou o ensino profissional, argumentando que a única forma de aprender o ofício é por osmose nas tarefas do dia-a-dia.”
Mas se a verdade e o compromisso do jornalista com a mesma são questões abertas, isto não quer dizer que o jornalismo não exige exatidão. A exatidão, aliás, é “...a fundação sobre a qual tudo o mais se sustenta: contexto, interpretação, debate e toda comunicação pública.” A exatidão jornalística, entretanto, está sendo comprometida em razão da dinâmica do telejornalismo de 24 horas e dos programas noticiosos que segundo Bill e Tom criam “... um jornalismo de afirmação, que está esmagando o velho jornalismo de verificação.”
O capítulo 3 trata da instigante questão: para quem os jornalistas trabalham? Para o público ou para seus empregadores, para as pessoas que necessitam de informações confiáveis ou para os acionistas que somente se interessam pelos lucros?
As respostas para estas questões são muitas, mas todas elas dependem do que realmente está ocorrendo nas empresas jornalísticas.“No final do século 20, os líderes do jornalismo americano de fato se converteram em homens de negócios. E a metade deles diz agora que passam um terço de seu tempo envolvidos mais com assuntos empresariais do que com jornalismo.” Essa mudança “... criou uma confusão e afetou o oral dentro das empresas jornalísticas, além de restringir a habilidade dos profissionais para fornecer notícias sem medo ou favoritismo.”
Independência profissional, entretanto, não é sinônimo de isolamento. O livro deixa bem claro que “...alguns jornalistas têm mostrado preocupação pela maneira como muitos colegas passaram do ceticismo ao cinismo, ou caíram numa espécie de niilismo profissional, quer dizer, a filosofia de não acreditar em nada.” Apenas a título de ilustração, vale a pena fazer uma digressão sobre estas três escolas filosóficas.
Ceticismo e cinismo são duas escolas filosóficas que remontam à Antiguidade Grega. O cético Pirron de Elis postulava que não se consegue chegar a um contato entre sujeito e objeto de maneira que todo conhecimento é pura fabulação, razão pela qual o mesmo aconselha as pessoas a se absterem de qualquer juízo. Os filósofos Antístenes e Diógenes, criadores do cinismo filosófico, admitiam que algo poderia ser conhecido, mas rejeitavam qualquer possibilidade de harmonia entre os valores culturais vigentes e as necessidades de uma vida segundo a natureza. Os niilistas negam a existência da verdade moral e da hierarquia dos valores, razão pela qual oscilam entre a negação do mundo e da vontade (Schopenhauer) e a supremacia da vontade de domínio sobre todos os valores humanas (Nietzsche).
Muito embora os autores tenham empregado os termos ceticismo, cinismo e niilismo como quase sinônimos, vale a pena fazer algumas distinções. Um jornalista cético não questiona a veracidade das informações que recebe porque considera a notícia uma fabulação. Portanto, é capaz de divulgar qualquer coisa e desmentir o que divulgou logo em seguida sem o menor problema de consciência. O jornalista cínico por sua vez checará com cuidado as informações que receber antes de divulgá-las. Fará isto não por amor à verdade, mas para descobrir se as mesmas são relevantes, ou seja, se refletem a oposição entre cultura e natureza. O niilismo jornalístico se caracteriza pela ênfase no predomínio das motivações ou do absurdo das mesmas. O jornalista niilista, portanto, encontrará todo o material de que precisa nos julgamentos que fizer acerca das informações que receber.
Feitas estas digressões, retornemos ao livro. A crise no jornalismo americano foi desencadeada por razões econômicas. “À medida que o negócio jornalístico ficava mais difícil, os gerentes das empresas começavam a reformular seus métodos operacionais. Nos jornais, isso representava cortar custos, deixando de investir no noticiário para torná-lo mais atraente. Entre 1992 e 1997, jornais pequenos cortaram onze por cento dos recursos destinados ás notícias; jornais maiores cortaram quatorze por cento. No lugar desses recursos, a indústria investiu na área de marketing.”
O marketing pode ter salvado as empresas jornalísticas americanas, mas desde logo obrigou-as a se tornarem prisioneiras de um dilema: preservar o compromisso da verdade em detrimento do negócio ou preservar o negócio sem questionar publicamente os anunciantes.
Esta querela jornalístico\comercial abriu “... um verdadeiro fosso entre o departamento comercial e a redação. Pior ainda, entre repórteres e editores. Os jornalistas viam o departamento comercial como uma ameaça a sua independência, além de temer que a tal responsabilidade financeira dos editores era no fundo um código para permitir aos anunciantes intervir no noticiário. O lado comercial, enquanto isso, começava a achar que a redação era tão intransigente em relação ás mudanças, talvez o famoso distanciamento dos jornalistas fosse a causa da estagnação profissional.”
Quaisquer que tenham sido as soluções adotadas nas empresas e redações o certo é que o leitor\assinante saiu perdendo. As empresas com poucos anunciantes encolheram as verbas para o jornalismo investigativo. Os jornais e revistas com muitos anunciantes se tornaram calhamaços de propaganda.
Entretanto, o problema se tornaria mais complexo á medida que os empresários passaram a “...amarrar a renda pessoal dos jornalistas aos resultados financeiros da empresa...” Não é preciso ser muito perspicaz para perceber a nocividade desta medida. A vinculação entre jornalismo e resultado financeiro mina a independência profissional, transforma o jornalista num escravo de suas carências e o obriga a julgar mais importante sua sobrevivência do que seu compromisso com a exatidão.
Nos capítulos seguintes os autores abordam de forma detalhada e exemplificada várias modalidades de jornalismo (investigativo, opinativo, público, engajado, etc). A única crítica que se pode fazer aos autores é seu excessivo apego à realidade jornalística americana. Com exceção de algumas poucas referências históricas o livro se omite em relação ao jornalismo praticado fora dos EUA.
Apesar do título abrangente dado ao livro os autores ficaram devendo uma análise comparativa entre o jornalismo americano, europeu, asiático e latino-americano. Enquanto não fizerem algo semelhante a obra resenhada deveria se chamar Elementos do Jornalismo Americano. Mesmo assim, a leitura da obra é produtiva e fundamental para qualquer pessoa que pretenda compreender melhor o mundo em que vivemos e o mundo em que os gringos vivem. Pois uma parte significativa do mundo deles e do nosso é construída diariamente nas redações dos jornais estejam eles onde estiverem.
Fábio de Oliveira Ribeiro

